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Venezuela: A tentativa de golpe e a nova conjuntura…

Marea Socialista. Editorial nº 1/ 23/02/2015
Equipe Operativo Nacional de Marea Socialista | Quarta-feira, 24/02/2015

A frustrada tentativa de golpe vem para testar o nível a que se chegou a crise no país. À situação econômica, alarmante para a maioria do povo que vive do seu trabalho, se adiciona o impacto que tem no imaginário coletivo a ação golpista revelada em 12 de fevereiro último.

Uma intentona realizada por oficiais ativos da FANB (Força Armada Nacional Bolivariana) que contaria com a inspiração de parte destacada da direção política da direita local, como sugere a detenção do prefeito de Caracas Antonio Ledezma e com claro respaldo internacional dos Estados Unidos e seus subordinados do PP espanhol e da América do Sul. Assim se abriu uma fenda, queira-se ou não, em um elemento, talvez o último, que perdurava como base da estabilidade política: a certeza de que as forças armadas como um todo sustentavam o governo.

Mas confundir a dinâmica da situação com o momento concreto, ou seja, a fissura com a quebra total, pode ser o maior erro que se cometa na análise da situação. O governo do Presidente Maduro tem uma vantagem: ainda hoje, embora se desenvolvam, com velocidade vertiginosa uma série de condições, das quais a mais grave é a crise econômica, a situação está represada, ainda que esta vantagem esteja rodeada de um mar de confusões e de conflitos isolados. No entanto, a detenção de Ledezma, a volta de La Hojilla (N.T. programa da TV estatal que saiu do ar em 2013 por pressão da oposição da direita) e acusação em cima de Julio Borges e de María Corina Machado (NT: deputados da direita), mostram que estamos no início de uma nova conjuntura política.

Porque dizer que a situação está contida não significa que esteja quieta. Não é que com a revelação do golpe tenha terminado, é que começou uma batalha decisiva. E, neste caso, como nos primeiros minutos de uma luta de boxe, os atores sociais e políticos se estudam, fazem fintas, se movem, ameaçam lançar um golpe para estudar a reação do oponente e assim definir sua linha de combate. Por ora não está claro em qual cenário se dará o round decisivo desta conjuntura. Por isso qualquer situação pode apresentar-se. De todas as formas, parece que o mais provável, em todo caso o mais sensato, é que todos os cenários futuros deveriam passar primeiro pelas eleições legislativas deste ano.

Partindo da perspectiva dos que defendemos o Processo Bolivariano, é tempo de pensar com a cabeça fria, debater as causas profundas que nos trouxeram aqui e definir os passos seguintes. Não é tempo de propaganda oca, vazia, tampouco de polarização eleitoreira. Trata-se de explicar pacientemente ao nosso povo as condições reais que hoje coloca a luta e de fazer as propostas para que, mudando o rumo atual, o governo aplique as políticas e as medidas de solução à crise que o povo perceba como corretas para defender seus direitos.

O debate na oposição: Duas táticas que confluem

A crise na oposição está assentada em uma diferença de política. E esse matiz é transversal aos partidos e formações que integram esse arco, não corresponde só a alguns partidos ou grupos. Ainda que alguns destes partidos ou dirigentes sejam a ponta-de-lança de cada uma das táticas.

Enquanto o setor com métodos mais contrarrevolucionários, mais radicalmente fascistoide, sustenta a necessidade de uma “saída” abrupta do governo, e a vem impulsionando, acompanhado pelo governo norte-americano e a ultra-direita continental, outros atores, todavia aparentemente majoritários entre os dirigentes opositores ao chavismo, desenham um rumo mais gradualista, de acumulação de forças e por ora eleitoral. Estas duas táticas na realidade expressam duas caras da mesma moeda.

Entretanto, crer que essas diferenças táticas são insuperáveis, ou que alguns desses setores é “pacífico ou democrático”, é ilusório. Eles, para além de suas diferenças, têm um acordo estratégico: os dois querem liquidar a Revolução, o Processo Bolivariano. Ambos buscam apagar da face da terra até a recordação do Legado de Chávez. Ou seja: as conquistas sociais, políticas, culturais e econômicas do Processo. E, sobretudo, pretendem apagar a ideia de Justiça Social que se logrou instalar na alma de nosso povo. Para isso contam ademais com o apoio internacional com a colaboração da direita interna aninhada no governo.

Um novo chamado à retificação ao presidente Maduro

Desde Marea Socialista temos apresentado reiteradamente propostas de emergência. Estas propostas são alternativas às medidas que o governo do presidente Maduro vem implementando. São muitos os que sustentam propostas similares às nossas, como o Professor Luis Brito García, (Membro do Conselho de Estado) entre eles.

Contudo não têm sido escutadas. As medidas do governo seguem por outro rumo: as Leis habilitantes de fim do ano 2014, com a abertura das zonas econômicas especiais e a nova lei de investimentos estrangeiros. A abertura do SIMADI, um novo mercado cambial com características especulativas similar ao “dólar permuta” que levou à crise bancária de 2009, e que provocou uma forte desvalorização. A redução de importações para cumprir os pagamentos de uma dívida externa suspeita de ilegítima. Notícias jornalísticas como a que apareceu no sábado, 21 de fevereiro, onde altas fontes do governo dizem que se prepara a desvalorização de empresas nacionalizadas, o ajuste de preços permanente nos produtos básicos como frango, carne, açúcar, farinha, arroz, transporte público, o desabastecimento, o próximo aumento do preço da gasolina, e um salário deteriorado ao extremo, tudo isso complica, ainda mais, a situação do povo que vive de seu trabalho.

Estas medidas que está aplicando ou aplicará o governo e as consequências que provocam, são as que, desde nosso ponto de vista, atacam em primeiro lugar as conquistas do Processo e estão provocando um mal-estar crescente em nosso povo.

A continuar este rumo, se aprofundará e se fará irreversível a perda de uma parte substancial da base social que vem sustentando o governo e o Processo Bolivariano. Esse é hoje o principal perigo que enfrentamos. Por isso nosso novo chamado ao presidente a retificar o rumo, para recuperar as alavancas de soberania, real participação popular e justiça social que são pilares do Legado de Chávez.

Não cair na tentação autoritária que provoca a crise
A combinação de crise econômica, aplicação de contrarreformas contra algumas das conquistas do Processo, e a instabilidade política está nos colocando às portas de uma crise de governabilidade. Esta situação pressiona alguns dos dirigentes do governo e do partido a uma tentação suicida, uma solução autoritária.

Já há sintomas perigosos, ainda que todavia isolados, do que isso significaria, alguns deles são: a intervenção antidemocrática em processos eleitorais autônomos de trabalhadores, como o caso SIDOR. O desconhecimento e violação de pontos fundamentais da Lei Orgânica do Trabalho, no caso específico da imobilidade laboral, os foros sindicais e muitos outros pontos. A perseguição, retaliação política e detenções arbitrárias em âmbitos locais ou regionais e laborais. A violação de direitos civis por parte de autoridades políticas, por exemplo a repressão brutal contra os camponeses da Cañada Avileña. Estes casos são alguns de muitos que sucedem cotidianamente e onde se violam direitos elementares de nosso povo. Estes fatos isolados que acreditamos não contam com o respaldo do governo devem ser freados.

É necessário vencer a tentação autoritária que provoca toda crise. A razão de ser do Processo é a participação democrática do povo na condução de seu próprio destino. Se pressionados pela situação se busca cortar os canais de expressão do povo que vive do seu trabalho ou restringir as garantias constitucionais, se estaria cometendo um erro grave. Se debilitará a possibilidade de defender o processo de novas tentativas golpistas.

Para enfrentar a agressão, moralizar o povo que vive de seu trabalho

A agressão está se desenvolvendo. As declarações, cada dia mais intrusas do governo de Estados Unidos, o acompanhamento que dessas declarações fazem os setores mais de direita de América Latina, como Álvaro Uribe, o mesmo que a direita espanhola. A isto se somam erros próprios que preparam a justificação de uma escalada dessa ingerência.

Tornou-se imprescindível abrir um profundo debate com as bases do processo. Com o povo que vive de seu trabalho. Um debate onde o governo escute a sua base social e não só lhe fale.

Se se abre este debate, se se consegue que do mesmo surjam medidas a favor do povo trabalhador, se se avança até conseguir que a crise atual seja paga pelos que a provocaram, pelos empresários, cúpulas políticas e burocracia corrupta e não pelo povo; então começaremos a percorrer o caminho para moralizar e por em pé de luta a um povo castigado pelo desabastecimento, a carestia, o maltrato e a confusão.

Só assim poderemos defender com possibilidades de êxito o Processo Bolivariano e suas conquistas e enfrentar as tentativas desestabilizadoras da direita internacional e local, a de dentro e a de fora. Do contrário estaríamos recorrendo a breve distância que nos separa de uma crise de governabilidade de consequências imprevisíveis.

Fonte: aporrea.org

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Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

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