Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

Por Francisco Louçã

Era arriscadíssimo e dificilimo. Recorrer à última arma do referendo – que tinha já sido impedido pelas autoridades europeias em 2011 – resumia a situação grega: sem acordo sobre a reestruturação da dívida, qualquer medida fiscal que diminuísse a procura seria provisória e certamente contraproducente; mas, com o referendo, não sobrava mais nada, só a vitória ou a derrota, sem margem para recuar. Entre a espada e a parede, a escolha foi enfrentar a espada.

Ao chegar aqui, o governo Tsipras tinha vulnerabilizado a sua posição. Deixou esgotar as reservas públicas e as dos bancos. Fez cedências sucessivas e criou instabilidade na sua base de apoio, porque teve que recuar em promessas eleitorais. Mostrou uma credulidade injustificada sobre os seus parceiros e esperou acordos de boa fé, que os factos desmentiram. Permitiu que se chegasse à situação em que os bancos tiveram que fechar, o que em qualquer outro país desencadearia uma avassaladora vaga de medo. Mas, na 25ª hora, decidiu pela democracia, uma arma que só podia surpreender e chocar os chefes da troika.

Os resultados demonstram não só que o referendo foi fundamental para a democracia como que é uma vitória esmagadora para o Syriza. Venceram contra tudo e contra todos. Como quer que se leia, é uma bofetada para Berlim. Tsipras é hoje, do ponto de vista democrático, o dirigente mais autorizado da Europa.

Mas amanhã é segunda-feira. Haverá um acordo em 24 horas, como admitiu Varoufakis? Parece difícil. Mas seria necessário, porque em poucas horas os bancos cessarão todos os pagamentos e o que tiver que ser decidido deve ser já. Ou um acordo, com financiamento-ponte e alteração da dívida, ou a Grécia é forçada a ter moeda própria. Qualquer hesitação desencadeará movimentos irreversíveis.

Na via das dúvidas, o chefe do Bundesbank já fez as contas – só agora? – de quanto a Alemanha poderia perder com a saída da Grécia e a cessação do pagamento da sua dívida, a soma é decerto feia. Os mercados financeiros vão cair para o abismo do pânico. Merkel reúne na segunda feira de tarde com Hollande, depois das horas de susto nas capitais europeias. Ela não parece saber o que fazer, está a ganhar tempo quando não tem tempo.

Ora, para chegar a um acordo em pouco tempo, seria precisa uma combinação de dois factores difíceis: uma cedência de Tsipras em relação a algumas das condições do ultimato anterior e uma inesperada cedência de Merkel quanto ao abatimento da dívida, de modo a que os pagamentos gregos tenham um alargado período de carência e um peso reduzido (como até o FMI propôs). Só essa combinação parece poder garantir um acordo. Todos ganhariam e perderiam, todos poderiam reclamar alguma coisa, mas a situação da Grécia mover-se-ia um pouco ou muito, consoante o impacto do acordo sobre a dívida. A diferença é entre a sustentabilidade e a ruína da austeridade.

Ainda assim, tal acordo terá que ser aprovado em parlamentos difíceis, povoados de direitas populistas, nem todas obedecem disciplinadamente a Merkel. Além de que deve ter-se em atenção o que farão os socialistas europeus, podem ser perigosos. Foi Martin Schultz, presidente do Parlamento Europeu, quem decretou na véspera do referendo que com o Não a Grécia seria expulsa do euro, o que obviamente não é a escolha do governo de Atenas. Na Europa, ninguém foi tão longe como ele (Cavaco Silva não conta). Para os socialistas, o problema não é só a austeridade e as perdas da finança, é um adversário político que garante que os trabalhadores e reformados não estão condenados ao purgatório e têm uma palavra a dizer. É um susto, sobretudo quando estão mimetizados com a direita e são merkelianos entre os merkelianos.

Ou seja, o referendo grego exibiu a confusão política que é a Europa. E revelou a inconsistência dos governantes que mandam: antes não acreditaram que podiam ser desafiados, durante toda a semana não acreditaram que podiam ser vencidos e agora não sabem o que fazer. Simplesmente, há perante eles um povo que exige o fim da atrocidade da renda financeira e está disposto a lutar. Que belíssima lição.

Publicado originalmente no blog Tudo menos economia

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