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Um novo período histórico e o lugar dos revolucionários

Documento Internacional do MES – Dezembro de 2014

Um novo período histórico e o lugar dos revolucionários

 

Apresentamos para a discussão na vanguarda ampliada a minuta internacional que discutimos e aprovamos entre os quadros do MES, no começo de dezembro de 2014.

 

I O ascenso do movimento de massas e a necessidade de uma estratégia socialista

A maior crise do capital desde 1929 se iniciou em 2008. Depois de seu início se multiplicaram no mundo os processos de luta social. Tunísia, Egito, mundo árabe, Londres, Espanha, EUA, Ucrânia. Foram acontecimentos que marcaram o mundo e condicionam muitos dos processos econômicos e políticos posteriores. Como regra abrem ou intensificam crises econômicas e dificultam a adoção de medidas econômicas de ajuste capitalista. Produzem uma nova vanguarda social. Massificam pautas democráticas e de transição. Os efeitos do novo período do ponto de vista da ação de massas se fizeram sentir, sobretudo, de 2011 pra cá, em geral na forma de ocupações de praças, levantes de rua, e até verdadeiras revoluções que puseram abaixo regimes ditatoriais. Revoluções, aliás, que inauguraram este período histórico de intensificação dos conflitos.

A Grécia já havia aparecido como sintoma. Não é a toa que logo depois da crise aberta em 2009 foi um dos pontos mais altos. Mas a Grécia não ficou isolada. Trata-se de um fenômeno mundial. Eles marcam por um período a situação dos países. É certo que atrasos na consciência, ausência de horizontes e alternativas em termos subjetivos, falta de organizações democráticas do movimento de massas objetivamente muitas vezes trazem contradições e retrocessos. Foi o caso justamente da primeira onda, em que boa parte das revoluções árabes (Líbia, Síria e Egito), depois de despertarem enormes esperanças, retrocederam. Mas os países não voltam mais a ser o que eram, pois são regiões desestabilizadas. E no plano mundial retrocessos e reveses locais não alteram a perspectivas de novos levantes, novos grandes acontecimentos. Vimos isso no Brasil, na Turquia, e agora em Hong Kong e no México.

Nos EUA, como veremos, as lutas de resistência, seja a luta contra a guerra, seja contra o racismo, por questões democráticas em geral têm pesado para desestabilizar o imperialismo. Apesar dos efeitos do terrorismo, o povo dos EUA não abandonou a demanda por reivindicações democráticas, e em alguns momentos chegou a estender esta demanda para outras partes do mundo e começa a questionar em defesa dos seus direitos sociais contra os privilégios de Wall Street. A rebelião da juventude negra, a partir da impunidade de um policial que matou um jovem em Ferguson, se estendeu por todo território norte-americano.  Na Europa Ocidental, a exceção do sul do continente, não tivemos ainda grandes processos de mobilização de massas unificados que tenham centralizado a atenção da vida nacional. Embora tenham existido muitas lutas sociais, em particular na Franca, há maior polarização e um crescimento de alternativas de direita, sendo esta perspectiva ainda mais acentuada em países do norte europeu.  Acreditamos que o proletariado europeu, de grande tradição e conquistas de muitos direitos, travará grandes combates.  No sul da Europa, contudo, já tivemos levantes sociais, como foi o 15 M na Espanha.

E é justamente no sul da Europa onde se visualizaram possibilidades novas na configuração política do mundo. Começa lentamente a se estabelecer uma novidade política no sul da Europa como desdobramentos destes processos sociais. As mobilizações que estão marcando a situação mundial promovem, malgrado a ausência de organizações marxistas revolucionárias com peso de massas, toda a sorte de organizações, e, sobretudo, movimentos, frentes e até partidos progressistas – alguns anticapitalistas que começam a ter chances reais de chegarem ao governo em seus países. É o caso do Podemos na Espanha e do Syriza na Grécia, ambos com chances de vencer eleições. O que irá ocorrer se esta hipótese for confirmada?

Na próxima conjuntura teremos que discutir estas questões. Partir das experiências históricas como o stalinismo, da social democracia, do eurocomunismo e agora, recentemente, das experiências dos governos de movimentos, partidos, superestruturas da América Latina – que no seu tempo foram as expressões de mobilizações de massas revolucionárias – como o MAS, na Bolívia, Rafael Correa, no Equador, e a mais debatida, o chavismo na Venezuela. Em alguns países este ascenso democrático e social, nacionalista e anti-imperialista, foi também poderoso. Mas as superestruturas traíram imediatamente, produzindo um vazio de direção, abrindo também enormes oportunidades para forças de esquerda. É o caso do Peru. Ai, embora as direções que encabeçaram a primeira onda tenham traído, não lograram manter planos neoliberais estáveis. Mas não há o que discutir da experiência de Humalla a não ser a rapidez da traição como, aliás, ocorreu com o governo Lúcio Gutierez no Equador – que traiu o processo revolucionário e foi derrubado pelo movimento de massas.

O que na Europa ainda não existe, isto é, governos que surgiram de processos de mobilizações de massas, na América Latina já está presente há mais de uma década. Em alguns casos há sinais de esgotamento, como na Venezuela. Em outros as experiências nacionais do movimento de massas renovam a aposta, como na Bolívia e no Equador. É fundamental o balanço destas experiências, sobre suas perspectivas e a política dos revolucionários diante delas.

O Brasil é um caso a parte. O PT chegou ao poder depois de um longo processo de acomodação política. Foi uma vitória eleitoral muito distante do ponto alto do ascenso representado pela campanha de Lula de 89. Assim já chegou como produto de uma conciliação, não de um levante de massas ou mesmo de uma forte mobilização radicalizada ainda que eleitoral. O levante de junho de 2013 mostrou que já chegou a hora de levantes que desgastam e se enfrentam até mesmo com as direções tradicionais do movimento de massas quando as mesmas chegam ao governo e aplicam os planos de ajuste capitalistas. Parece que hoje como nunca está em vigor a máxima do manifesto comunista “tudo que é sólido desmancha no ar”.

Assim, entramos num período onde debates estratégicos devem ser retomados com força como único caminho para a renovação do marxismo e sua constituição como uma corrente viva e forte do movimento operário. A ausência desta corrente com força no movimento de massas nos dias atuais é uma das principais expressões das dificuldades e das limitações do atual período.

De qualquer forma, a tendência no próximo período é de continuidade das lutas do movimento de massas no mundo todo. Não poderia deixar de ser assim, já que o capitalismo seguirá tendo que atacar aos interesses dos trabalhadores.  O capitalismo vive uma crise de longa duração. Mas nesta longa duração não temos apenas possibilidades de acumulação e de saltos no processo de construção de uma alternativa. Há riscos crescentes de degradação, de retrocessos. Na sua agonia não há, portanto, apenas as possibilidades de superação do sistema, mas também que o mesmo nos arraste para o caos e a barbárie que aparecem com força em partes importantes do mundo. Por isso estamos longe de minimizar os riscos. É claro que estas perspectivas são poderosas e para elas o capitalismo nos conduz. Contra as tendências da barbárie devemos nos mobilizar. E afirmar uma saída dos trabalhadores e dos povos em luta.

II Crise de longa duração

É certo que estamos numa crise de longa duração. Todos consideram que esta crise somente encontra algum parâmetro de comparação com a crise de 1929. François Chesnais chega a definir que ela vem depois de 50 anos de acumulação capitalista, ou seja, uma expansão do capital de meio século. Sendo certa a tese de Chesnais fica evidente a dimensão da mudança de que estamos falando. Outra variante interpretativa é de que a atual crise se inscreve nos chamados ciclos de Kondratief. Esta teoria define que o modo de produção capitalista se divide em períodos alternados – mais ou menos 25 anos cada– em ciclos cuja marca é a expansão da produção, crescimentos mais acentuados e longos e recessões mais curtas e fracas, com períodos descendentes, com ciclos cuja característica era oposta. Isto é, as recessões eram mais longas e severas e a recuperação curta e moderada.

Para elucidar um pouco o que significam estes ciclos em termos históricos, vale citar longamente Gunder Frank e sua descrição destas chamadas ondas largas.

“A primeira onda longa desde a revolução industrial (que inovou ou pôs os cimentos para a inovação técnica das máquinas a motor durante a crise de 1762-1789) esteve associada, como sustentou Mandel, com a fabricação (literalmente) a mão destas máquinas (têxtil e de outras classes) e com as máquinas a vapor que as impulsionavam. A fase ascendente durou desde 1790/93 até 1816/25 (segundo as distintas interpretações) e a fase descendente até 1847/48. A derrota da revolução de 1848 infringiu um duro golpe, político e econômico, às classes trabalhadoras europeias e criou as condições socioeconômicas para uma nova onda de expansão que vai de 1849 a 1873. Esta expansão esteve ligada à revolução e expansão dos transportes por ferrovia e transatlânticos a vapor…” (p. 58). Depois seguiu uma nova crise, a de 1873 que os historiadores denominaram a grande depressão, onda de descenso e que foi até o final do século XIX, seguida de uma nova onda expansiva que durou até 1913, vésperas da primeira guerra mundial. Foi esta a época da relativa decadência britânica e o início dos avanços dos EUA, Alemanha, Japão e Rússia (Gunder Frank). Foi a época do surgimento do imperialismo clássico. A expansão deste período até a primeira guerra esteve ligada, na leitura de Mandel e de Gunder, às inovações da chamada segunda revolução industrial – do motor de combustão interno dos automóveis, dos motores e a iluminação elétrica assim como com os grandes investimentos em infraestrutura. Seguindo Gunder Frank, “A seguinte fase descendente discorre desde 1913/19 (antes ou depois da primeira guerra mundial) até 1940/45 (antes ou depois da segunda guerra mundial). Incluiu a “grande depressão” dos anos 30, logo em seguida do crash financeiro de Wall Street em 1929”. (p. 59). Esta depressão foi seguida pela expansão do pós-guerra, ligada a nova expansão da indústria do automóvel, aeronáutica e petroquímica e o início da terceira revolução tecnológica eletrônica e nuclear. “Desde 1967, o sistema econômico do mundo capitalista parece haver entrado em uma nova fase descendente ou período de crise econômica” (p. 59). A periodização de Gunder Frank termina aqui.

Se admitimos a força explicativa da teoria das ondas longas, sem dúvida a última de tonalidade contracionista foi a iniciada em 1967 e que durou até 1990. De 1990 até 2007 a onda foi expansiva – tendo como base novamente a indústria automotiva (se espalhando pelo mundo), o armamento, a especulação imobiliária, a restauração do capitalismo na China, na ex-URSS e no leste europeu, e sobretudo, no passo seguinte e consolidação da revolução tecnológica eletrônica, com a massificação da informática e da computação. Analisando a crise aberta em 67 e ainda não fechada em 1987, quando estourou um novo crash em Wall Street, Moreno dizia que poderia haver uma nova onda expansiva se um novo ramo de produção de massas surgisse, levantando a hipótese da computação. Os anos seguintes mostrariam que a hipótese de Moreno do Correio Internacional de 87 se confirmara. Existiram neste período crise em várias regiões, como 94 no México, 97 no sudeste asiático, 99 no Brasil e na Rússia, 2001 nos EUA e na Argentina. Mas não atingiram todos os países nem impediram a dinâmica geral de expansão do capital baseada não apenas na revolução tecnológica, mas na precarização das condições de trabalho e sobretudo no crédito público que salvou o sistema e ao mesmo tempo preparou as condições da crise atual. Os fatores de expansão encontraram obstáculos e limites que estão com dificuldades de transpor.

Chesnais explica sinteticamente as características da situação atual do modo de produção capitalista. Numa entrevista na qual saudava o livro O Capital no século XXI de Thomas Piketty, definiu que além da desigualdade o capitalismo tem problemas mais amplos, a concentração industrial, a monopolização e ainda a “queda da taxa de formação de capital, a ausência de inovações tecnológicas que requerem novos grandes investimentos e despesas com salários (levando a uma nova longa onda shumpeteriana), a contínua ênfase em indústrias que deram tudo que podiam dar em termos de crescimento e têm efeitos bumerangues contrários (a dependência nos automóveis é a primeira da lista).

É por conta dos obstáculos enfrentados pelo capitalismo e da escassez de lucros decorrentes da produção que tanto dinheiro vai para o setor imobiliário –com as bolhas de imóveis– e uma grande quantidade é ainda destinada à especulação financeira através da negociação de papéis sobre a produção atual e futura (ações e títulos públicos e privados).

Trata-se do capital fictício. Ele não acrescenta nada ao estoque de investimento nem serve de apoio ao crescimento. E os derivativos, que representam a maior parte da atividade do mercado financeiro, são uma forma ainda mais aguda do capital puramente fictício. (05-06 de 2014 Folha de SP François Chesnais)

E agora? Qual novo ramo de produção? Automóveis novamente? Claro que não. Quando citamos longamente Gunder Frank, as citações se centraram na periodização dos chamados ciclos de Kondratief e o vínculo que tais ondas tiveram com as mudanças tecnológicas e ramos produtivos. Mas há outros fatores. A saída da crise de 29 teve relação com ramos de produção – automóvel foi um deles – mas também com o nazismo, cuja consequência foi a destruição de forças produtivas a partir do qual se deu a reconstrução e a redução dos salários na Europa, em particular na Alemanha. A crise de caráter contracionista aberta em 67, por exemplo, se resolveu na ascensão do neoliberalismo, na derrota dos mineiros ingleses e dos controladores de voo dos EUA a partir do final dos anos 70 e início dos anos 80, combinado com a expansão baseada no crédito público. E a expansão do crédito encontrou a revolução tecnológica e o ramo da informática, somado ainda à abertura dos mercados do leste e do início da restauração do capitalismo na China. Por isso no final o crash de 87 ao invés de ser a expressão do início de uma nova grande crise acabou sendo revertido e dando lugar para uma retomada da expansão capitalista.

A computação pode indicar um novo ascenso do capital? Não é isso que tem ocorrido. Então, para uma nova retomada se precisa de condições prévias. É preciso um ataque ao nível de vida mais brutal, ataque que tem dificuldades de ser levado adiante na profundida e extensão exigida em função das lutas sociais. E é preciso provavelmente um novo ramo de produção, já que a crise é de superprodução. Não há uma situação em que a humanidade esteja sedenta por uma nova mercadoria com capacidade de ser produzida massivamente no mundo como no seu momento foram os computadores, os celulares, que entraram no mercado como parte de uma revolução tecnológica que reduziu preços de produção de inúmeras outras mercadorias, além de baratear o transporte, os custos administrativos, etc. As buscas de novas tecnologias e as revoluções da energia limpa junto com a indústria armamentista e as expansões das cidades são caminhos que os EUA encontraram para seguirem acumulando capital em escala ampliada. Mas é difícil que uma nova onda de expansão ocorra sem uma redução significativa do nível de vida das massas. Ademais não está na pauta multidões da classe média alta viajando pelo espaço, por exemplo.

Husson retoma a noção de ondas largas para discutir as saídas diante do impasse da crise econômica:

“Um dos pontos importantes da teoria das ondas largas [ou longas] é romper a simetria das inflexões: a passagem da fase expansiva para a fase depressiva é “endógena”, no sentido que é resultado de mecanismos internos ao sistema. A passagem da fase depressiva para uma nova fase expansiva é, pelo contrário, uma passagem “exógena”, não automática, e supõe uma reconfiguração do entorno social e institucional. A ideia chave é que a o ciclo de entrada numa fase expansiva não está dado de antemão e requer construir uma nova ‘ordem produtiva’”.

Dito de outra forma, as contradições que se desenvolveram abrindo o ciclo da fase depressiva, tomado na crise aberta de 2007/08, não resolvem a própria crise. Para assistirmos ao desenlace da crise, a retomada do crescimento econômico de conjunto, precisamos tomar o pulso de vários fatores de caráter social e político. Uma interpenetração que em última instância é decidida pelas variadas formas da luta de classes.

Do ponto de vista da direção das classes dominantes a aposta continua sendo a de superar as crises aumentando a exploração. Esta lógica tem levado a crescente concentração de riqueza nas mãos de poucas famílias/empresas. Se nos cartazes das manifestações pelo mundo afora se convoca os 99% a lutar contra os privilégios de 1%, outros autores como Anibal Ramos já falavam da “ditadura das 200 famílias.” Esta lógica do sistema capitalista por sua vez faz com que estados burgueses sejam questionados cada vez mais. Um questionamento que incide em alguns países na superestrutura e nos regimes políticos a tal ponto que as contradições e dificuldades da aplicação dos planos do capital financeiro encontram mais obstáculos.

A relação entre a luta de classes e as mediações dos tipos de regime político que encontramos no século XXI é o vetor mais importante para analisarmos os prognósticos possíveis para os próximos anos.

O prognóstico é que a crise capitalista seguirá se arrastando, na medida em que não vemos perspectiva de guerra mundial (a guerra foi a principal solução para a crise de 1929), nem abertura de um novo ramo de produção à vista, o que se soma à crise da dívida pública para complicar uma recuperação sustentada. Tampouco está no horizonte de curto prazo grandes derrotas do movimento operário que permitam uma brutal extração de mais valia além do que temos visto na China. E mesmo esta já tem sido insuficiente para sustentar o crescimento como tinha contribuído até então. Mesmo na China, que foi uma poderosa contenção da depressão sistêmica do capitalismo mundial, há riscos crescentes de desaceleração e desestabilização.

Segundo David Harvey, os investimentos em bens imóveis na China já chegam a 75% do PIB. Este conceituado estudioso marxista faz análises científicas relacionando as crises imobiliárias com as crises econômicas. E diz sobre a China que “a possibilidade de um colapso seguido por um longo período de estagnação ao estilo japonês é muito real” (Cidades Rebeldes, pág. 123). E sabe-se que Japão passou estagnado durante todos os anos 90 e nunca mais voltou a ser um polo capaz de conduzir à expansão do capital. Agora, o anúncio que de que Japão voltou à recessão, ainda no mês de novembro, foi outro golpe duro para os analistas que apregoavam a “recuperação da economia mundial”. A terceira economia mundial divulgou dados de queda de 1,6% no terceiro trimestre, levando Shinzo Abe a convocar eleições antecipadas, com um questionamento maior de seu plano de reformas, batizado com entusiasmo inicial de “Abenomics”.

A crise econômica do capitalismo tende a se arrastar, sem necessariamente depressão, mas sem crescimento sustentado em escala mundial.  Já são 07 anos completos. Não há indicações de melhoria, de nova onda expansionista. O que temos visto é um quadro de estagnação generalizada com algumas partes da economia em recessão como parece de novo estar ocorrendo com a Europa ocidental.

Mas os choques e ajustes não são todos iguais. Dependem não apenas da intensidade da crise econômica mas também da força da classe dominante, ou melhor dizendo da relação de forças entre as classes em cada país. Se em alguns países os choques não são levados adiante de modo imediato e violento, em outros encontram mediações políticas e sociais. Há, contudo, uma tendência ao ajuste que é comum e também uma tendência de generalização dos conflitos. Nos modelos de ajuste também se percebe o incremento da concentração econômica, e, portanto, uma expropriação de setores burgueses mais débeis, sejam de outros países ou mesmo no interior de cada país. Isso provoca divergências interburguesas, embora as classes dominantes se unam contra os trabalhadores e os povos quando seus interesses comuns de classes são ameaçados.

A crise e a reação de massas provocam, portanto, também movimentação nas classes dominantes e nos setores médios. Combinação entre a luta dos dois setores burgueses nos EUA como explica Dumenil em seu mais recente livro sobre a crise do neoliberalismo. Sua separação entre capitalistas financeiros e gerenciais pode ainda necessitar maior exame, mas é certo que nem todos os capitalistas adotam o mesmo plano econômico para reproduzir o capital. Também temos visto no mundo a diversificação dos polos de poder burguês, com a entrada em cena da China, dos Brics, além dos já poderosos, EUA, Alemanha, etc. Estes fatores ajudam a arrastar a crise no tempo, a prolongar a mesma sem um desenlace, dificultando e até deteriorando as condições de dominação da burguesia e especialmente do capital financeiro como carro chefe dos interesses do sistema capitalista mundial. As condições de dominação se complicam mais ainda quando há pressões pela independência nacional em regiões importantes, como na Catalunha e na Escócia, para citar as mais recentes.

III A situação do Imperialismo

 

É preciso um esforço para ver as mudanças históricas em curso. Temos um processo profundo, uma novidade visível num mundo que até 1989 era marcado pelos pactos de Yalta e Poosdam, pela coexistência pacifica entre os EUA e o stalinismo, pela chamada guerra fria, cuja marca maior era precisamente dois grandes poderes com contradições entre si mas que de maneira última eram contenções da revolução social e política. Depois de 89, outro cenário mundial se estabeleceu, desta vez dominado pelo peso da hegemonia unilateral dos EUA. Agora, cuja marca podemos apontar em 2008, não só não há mais o stalinismo– derrotado em 1989 – mas também os EUA não dominam mais como antes. Eles vêm perdendo sua hegemonia anterior de aparecer como caminho e esperança do mundo, como direção política das nações. Tem sido cada vez mais limitado à sua superior capacidade tecnológica e militar. Sendo que também no terreno militar o imperialismo perdeu força, está impossibilitado de realizar intervenções em inúmeras situações que antes lhe fariam intervir promovendo golpes ou envio direto de tropas.

Há heterogeneidade maior entre as forças burguesas nas formações capitalistas, produto de pressões das lutas internas de cada país, de forças sociais heterogêneas mas resistentes – por temor de se enfrentar com seus próprios povos – a aspectos mais pesados dos planos neoliberais – que exercem força interna e que não permitem ou no mínimo dificultam uma política unificada a favor dos interesses do capital financeiro para solucionar a crise do ponto de vista dos interesses destes capitais.  Os governos do PT no Brasil navegavam em setores burgueses deste tipo. As expressões mais à esquerda de governos independentes na América Latina, como Bolívia e Venezuela, são expressões também de maior heterogeneidade das formações capitalistas. A expressão mais potente e mais conservadora do ponto de vista da manutenção do sistema mundo mas ao mesmo tempo da impossibilidade dos EUA arbitrar sozinho os conflitos e atuar na condução do mundo apenas segundo seus interesses, sem negociação, é a ascensão da China. Todos têm acordo em defender o capitalismo, e portanto todos tem acordo, por óbvio, em aumentar a taxa de mais valia e a exploração dos trabalhadores, mas a unidade política mundial da burguesia como classe social está fraturada.

Uma vez mais Husson, agora em outro texto sobre o Imperialismo:

“A consequência das mudanças assinaladas (…), a saber é a industrialização dos países da periferia, uma industrialização que já não se limita a cadeias de montagem (indústrias têxtil e eletrônica) senão que abarca também produtos de alta tecnologia e inclusive a produção de bens de equipamentos. Os chamados “tigres” e em particular Coréia do Sul, abriram o caminho, um caminho que China percorre com ímpeto ainda maior. A economia mundial está formada hoje em dia por uma retícula complexa de capitais que determinam as “cadeias de valores globais”. Este termo designa a repartição dos diferentes segmentos da atividade produtiva entre os vários países, desde que o desenho da produção até a entrega ao consumidor final. Isso significa que passamos de uma internacionalização a uma globalização do capital, que dá lugar a uma organização da produção baseada na combinação de vários países. A imagem da econômica mundial deixou de ser, portanto, apenas a da configuração assimétrica entre países imperialistas e países dependentes e mostra uma integração de segmentos das economias nacionais sob a égide das empresas multinacionais que criam um autêntico tecido que envolve a economia mundial.”

Especifiquemos um pouco mais uma das novidades do atual período histórico. A continuidade da crise econômica se combina com outro fator político que tem sido fundamental e favorável para as forças revolucionárias no mundo e que explica também uma multipolaridade, com o peso maior de potências emergentes: a crise da dominação do imperialismo ianque, expressa entre outras questões nas derrotas sofridas nas guerras do Iraque e do Afeganistão. Também esta questão não se explica sem o início do ascenso nos EUA. Nos EUA Ocuppy Wall Street foi apenas um sinal. Provavelmente ainda foi mais um sintoma do que a eclosão de uma mudança de qualidade. Neste país as contradições estão se concentrando. Desde 2003 com as mobilizações anti-guerra a situação vem mudando.

A tragédia de 11 de setembro logrou por pouco tempo dar legitimidade para a opção militar contrarrevolucionária no mundo. O clima de terror interno inicial e que volta e meia é reacendido pelas ações terroristas não evitou o desenvolvimento do descontentamento e do protesto. Não se explica a situação mundial atual sem estas mobilizações que foram as maiores da história em número de pessoas – fevereiro de 2003. E depois se expressaram na eleição de Obama.

As dificuldades do imperialismo em geral e do norte americano em particular de colocar suas tropas em terra se soma com a perspectiva de que tenhamos a continuidade e até o aumento de conflitos bélicos. Hoje temos uma série de ocupação imperialistas em curso e pesadas incursões militares como as mais expressivas no Iraque e Afeganistão, mas também Mali e Paquistão. Estes são conflitos localizados em territórios estratégicos como no caso entre Rússia e Ucrânia. E ao mesmo tempo EUA tentam tirar suas tropas ou reduzi-las.

Quanto ao problema do Imperialismo nos dias de hoje, sobre seus vários conflitos e guerras, vale a pena citar Pierre Rousset:

“Minha hipótese é que não vamos a uma III Guerra mundial, como a I II Grande Guerra, porque não assistimos a um conflito com o caráter de repartir territórios como tinha sentido no passado. Porém os fatores de guerra são muito profundos e diversos:  novos conflitos entre as potencias, competições no mercado global, o acesso aos recursos, colapso das sociedades(…) Isso significa entramos em um mundo constantemente em guerras (no plural). Que toda guerra deve ser analisada em sua especificidade. No entanto, precisamos de pontos de referência para continuar a ter uma bússola em uma geopolítica complexa: independência de classe contra o imperialismo, contra o militarismo, contra o fascismo e o surgimento de movimentos de identidade “antisolidários” (racista, islamofóbico e antissemita, xenófobo, castistas, fundamentalistas e outros).”

E neste cenário os EUA estão mais fracos, não são mais fortes para atuar como xerife do mundo. Sequer a frustração com o presidente Obama tem acalmado as tensões em prol das mobilizações. Os protestos contra o racismo se intensificaram depois do Ocuppy, protestos que somente tiverem envergadura nos anos 60. Não se trata de uma ascensão linear, sem reveses. Há muitas forças contrárias. Mas a tendência dominante nos EUA é de mais lutas sociais. As mobilizações democráticas e a luta pelos direitos civis no interior deste país tiveram peso na política mundial em muitos momentos, tendo ajudado até a eclosão da primavera árabe (a importância das denúncias de Wikileaks contra Mubarak e Ben Ali).

Acompanhar a dinâmica dos EUA será chave, finalmente, porque dela dependerá em última análise não apenas a capacidade do imperialismo de desenhar o mundo pela força das armas, mas possibilidades de se abrir um forte caminho de esperança para os povos do mundo todo. As vitórias obtidas pelo movimento pelo salário mínimo de 15$ por hora, primeiro em Seattle e logo em seguida em vários estados, através da votação de leis e a aprovação em plebiscitos são sinais de animação do movimento de massas e da juventude. Conforme o movimento 15$Now” Alasca, Arkansas, Nebraska e Dakota do Sul aprovaram propostas de aumento do salário mínimo, como o fizeram os eleitores de San Francisco e Oakland, Califórnia. Em Illinois e em vários condados do Wisconsin – estados que elegeram governadores republicanos – importantes maiorias aprovaram iniciativas não vinculativas para aumentar o salário mínimo”. Não por acaso, foi em Seattle que ocorreu a primeira vitória em muitos anos de uma vereadora diretamente socialista.

Este caminho dos EUA é fundamental de ser visualizado minimamente porque a falta de uma alternativa diante das tragédias sociais, econômicas, ambientais tem cumprido um papel objetivo no incremento das dificuldades das lutas operárias e populares. E processos de luta favoráveis nos EUA animam e indicam direção para os trabalhadores no mundo todo. A rebelião da juventude de Ferguson, se espalhando como um rastilho de pólvora por todo o país é um exemplo do contágio. A partir da absurda absolvição do policial que matou o jovem negro Mike Brown, uma mobilização de dezenas de milhares de pessoas tomou às ruas das maiores cidades dos Estados Unidos. Um dos maiores movimentos democráticos deste tipo na história recente dos EUA. E num momento onde o governo Obama enfrenta uma oposição conservadora à sua tímida reforma migratória que formalizaria milhões de latinos como residentes no país.

Estas novas possibilidades de lutas são fundamentais ainda mais que a ausência de uma direção de massas alternativa, a falta de um modelo pela positiva para superar a crise do capital tem dito consequências muitas vezes trágicas. Mais destacadamente onde o próprio imperialismo tem atuado militarmente, a ausência de uma consciência de massas mais avançada e de organizações correspondentes faz com que a crise capitalista em algumas regiões combinada com os traumas sociais deixados pela intervenção imperialista e seus aliados, fortaleça novas direções independentes do imperialismo mas com ideologias reacionárias e pré-capitalistas. A ocorrência de fenômenos regressivos em partes do mundo, como o crescimento de forças políticas reacionárias ligadas à religião e a modelos econômicos capitalistas autoritários, pré-capitalistas, regressões a formas de repressão terrivelmente irracionais como EI se soma o aumento das forças da extrema direita em outros países e crescimento de máfias e do crime organizado como forças da ordem capitalista.

Precisamos, ademais, da bússola comentada por Pierre Rousset para ter posição em inúmeros conflitos que ocorrem no mundo e que envolvem interesses variados, contrarrevolucionários, cuja complexidade aumenta pela ausência de direções alternativas fortes dos trabalhadores. O conflito na Ucrânia, por exemplo, opôs interesses contrarrevolucionários variados. Uma rebelião de caráter popular desorganizou o antigo consenso e pôs travas no plano de expansão eurasiano de Putin. O momento seguinte foi de atuação dos interesses imperialistas para normalizar o país. O governo que foi produto desta rebelião inconsciente não conseguiu se firmar e responde aos interesses norte-americanos. Assim, por um lado atuam os interesses russos: ganhar terreno no controle territorial para refundação de planos panrussos, estimulando intentos separatistas como em Donestk e outras regiões fronteiriças; por outro lado os Estados Unidos tem interesses em manter a Ucrânia sob sua órbita em acordos com a EU. Os Estados Unidos querem aprovar o TIPP, Tratado que homologa várias relações econômicas diretas com a União Europeia.  Finalmente a Alemanha joga também numa direção paralela- quer seguir comercializando com Moscou, estendendo a partir daí sua rota a Pequim. Quer manter sua hegemonia na Zona Euro, ainda que ampliando certa multilateralidade em direção ao Pacífico. Num cenário assim a defesa da autodeterminação dos povos e da luta dos trabalhadores é chave. E esta autodeterminação se reconhece não apenas nas urnas mas na força das ruas. Somente assim se pode construir uma política estratégica de federar os povos e as repúblicas. Esta é nossa primeira bússola, defendendo as mobilizações que coloquem na pauta bandeiras democráticas e a conquista de liberdades públicas.

Tendo esta questão da defesa das bandeiras democráticas agarradas firmemente não há como se confundir sobre o papel do EI/ISIS neste momento. Está no centro da conflagração dos principais conflitos no Iraque e na Síria, por exemplo. As cenas bárbaras das decapitações chocam o mundo.  Estas forças reacionárias são dissidências fortemente armadas de grupos como a AlQueada e AlNusra. O enclave do EI, declarado como um moderno “califado” agrupa territórios do Iraque e da Síria. A desagregação do Iraque é nítida. As antigas fronteiras do Oriente Médio estão deixando de existir; e o controle que o EI detém sobre o território é muito perigoso, sua política contra os curdos é de limpeza étnica. Além é claro de métodos violentos e autocráticos para impor suas decisões e uma brutal agressão contra as mulheres e LGBTS. Por mais que se reivindiquem contra o imperialismo norte americano, aqui está mais claro do que nunca que o a aplicação da linha “o inimigo do meu inimigo é meu amigo” é um desastre absoluto. Estes setores são obscuros, contrarrevolucionários. No continente africano também se fortalecem correntes/milícias desta ordem. Na Nigéria, onde está se tornando tristemente celebre o grupo “Boko Haram”, responsável pelo sequestro de 200 jovens, submetidas a torturas e humilhações. São forças reacionárias, obscuras, que cumprem um papel tão nefasto quanto o imperialismo com suas intervenções. E representam retrocessos pesados e difíceis de serem superados, se constituindo em barreiras enormes da revolução socialista mundial.

Além de catástrofes como as que têm ocorrido na Síria e agora no Iraque, há momentos em que o equilíbrio na relação de forças entre as classes tem sido rompido contra o povo de modo estrutural. Em partes inteiras do mundo e parcelas importantes de cada um dos países o nível de desigualdade aumenta e há sinais de destruição em massa e de barbárie, sejam por crises naturais sem que a formação social tenha condições de planejamento e reconstrução, como foi o caso do Haiti, sejam crises agudas de saúde pública, por exemplo, como agora no continente africano.

O vírus Ebola é apenas um sintoma do abandono de regiões inteiras do planeta. Estes processos de regressão social brutal são sintomas de uma decadência geral do sistema que ameaça arrastar toda a humanidade para uma situação de caos, de miséria e até de liquidação física. Isso é assim porque a crise que vivemos não é apenas econômica, mas ambiental, moral, uma crise civilizatória porque ameaça a existência mesma da humanidade.

Estamos longe, portanto, de prever um caminho fácil para os dramas deste século. Os conflitos serão intensos. As dificuldades sempre presentes da luta palestina parecem mostrar de modo dramático todas as contradições da situação.  A perspectiva segue sendo de guerras, intervenções regionais, catástrofes ecológicas e sociais. E tudo isso se agrava pela falta de uma perspectiva socialista à vista. A identificação entre o stalinismo e o comunismo segue pesando enormente na consciência do movimento de massas.  A ausência de alternativas políticas de massas e as dificuldades de surgimentos de uma nova institucionalidade paralela aos velhos aparatos estatais durante os processos revolucionários recentes tem imposto enormes dificuldades em relação a uma saída positiva da situação atual e nos impõe a previsão de que estamos diante de uma luta de longa duração.

Em resumo, vemos a continuidade da crise econômica e desestabilizações políticas, dificuldades de controle por parte das direções tradicionais burocráticas do movimento de massas. A vantagem do capital é a falta de alternativa socialista. A consciência limitada. O limite do horizonte, sobretudo pela ausência de mobilizações cuja marca seja a organização de poderes próprios e institucionais do movimento e ausência de direções revolucionários que retroalimentam a falta de consciência e de modelo. Neste sentido podemos dizer que continua a crise do marxismo que pode ser chamada também de crise de direção revolucionária na terminologia do programa de transição. A discordância entre modelo/alternativa e a irrupção de massas pontua uma crise social recorrente.

Do grau de intensidade da existência de todos os fatores assinalados acima e da combinação entre eles em cada região ou país marca as especificidades regionais e nacionais.

 

  1. As mobilizações e a construção de alternativas

 

A crise econômica de 2007/08 abriu uma nova etapa. Definimos como Giro Histórico pois colocou no horizonte de médio prazo possibilidades estruturais de alteração. Nos remetemos ao documento de nossa corrente de 2009, na qual nos apoiávamos em Marx.

“Com a crise econômica atual, podemos considerar que entramos num novo período histórico? O famoso prefácio de Marx no qual sua concepção sobre a história é esquematizada segue útil para clarificar nossas ideias. “Na produção social de sua existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; estas relações de produção correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças materiais de produção.

O conjunto destas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas determinadas de consciência social. Em um certo estágio de desenvolvimento as forças produtivas e materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes, ou, o que não é mais que a expressão jurídica disso, com as relações de propriedade no seio das quais se haviam movido até então. De forma de desenvolvimento das forças produtivas que eram, estas relações transformam-se em seus entraves. Abre-se então uma época de revolução social”. Marx insistia que “suas relações materiais – as relações materiais dos homens – estão na base de todas as suas outras relações”. Logo, quando se alteram as forças produtivas, também são pressionadas para se modificar as relações sociais. “Pela descoberta de um novo engenho de guerra, a arma de fogo, toda a organização interna do Exército foi modificada”, afirmava. Quando as mesmas entram em contradição com as relações de produção, entra-se numa época de lutas e revoluções para que estas relações de produção ou de propriedade sejam superadas. Cremos que é justo afirmar que estamos num período deste tipo.”

O Giro Histórico marcou o início de um longo processo, de instabilidade recorrente, mudanças nas relações entre as classes e mesmo entre Estados.  Até aqui temos assistido novas mobilizações, com a juventude à cabeça, que retomam o método da ação independente de massas, que guardam limites por conta do atraso na consciência política e organizativa- herança do período anterior.

Neste sentido é fundamental nos determos mais nas mobilizações que tem marcado o mundo. Somente nelas se pode ir forjando uma alternativa e enfrentando as dificuldades. São precisamente nos momentos de maiores mobilizações que se pode, por exemplo, enfrentar as máfias, máfias que vão se constituindo como uma característica sistêmica – junto com a corrupção – do próprio modo de produção capitalista, como ficou claro agora na luta contra o massacre dos 43 estudantes do México e em menor medida quando o Rio viveu a luta pela CPI das milícias e seu suporte de massas obtido na primavera carioca (lutas que não liquidaram o crime organizado no Rio, mas que mostraram o caminho para combatê-lo).

Podemos esquematizar o novo período em 3 fases.

1ª fase/onda – de 07/08 onde a crise se alastra do terreno econômico para o terreno social. Retração no conjunto das economias centrais, com epicentro nos EUA. Debilitamento do imperialismo. Maior papel relativo dos países dependentes no “Sistema-Mundo”. Ascensão da linha “Brics”.  Solvência política e econômica da Grécia.

2ª fase/onda – Com a entrada em cena das massas árabes, com suas revoluções democráticas, tivemos um exemplo capaz de irradiar politicamente tal indignação. A “primavera árabe” abriu uma nova situação mais favorável, onde a condição de crise também se reverteria em mobilizações revolucionárias, num primeiro momento contra as ditaduras de décadas – Tunísia, Egito, Líbia, Iêmen, Síria – para logo se alastrar contra regimes democráticos. Movimento dos indignados na Espanha e na Grécia, Ocuppy, entre outros movimentos.

3ª fase/onda – Combinação da entrada dos Brics no processo de mobilização mundial [na rota dos indignados] com o retrocesso/estagnação do processo de revolução no mundo árabe. Crise na Líbia, genocídio na Síria e recomposição no Egito com restauração dos militares no poder. Por outro lado, as jornadas de junho no Brasil e na Turquia, as mobilizações que chegaram ao leste europeu. E começou um processo de recomposição política através de alternativas por fora do social-liberalismo, notadamente Syriza e Podemos. Também como fruto da maior polarização, na Europa cresceram as alternativas de extrema-direita, eurocéticas e antiimigrantes.

O aspecto qualitativo desta fase foi o deslocamento da onda de mobilizações, juvenil e popular, para os BRICS e as possibilidades abertas na Espanha e na Grécia em termos políticos que podem abrir uma 4ª fase. A entrada de um gigante como o Brasil, a ruptura de massas com o governo de Erdogan na Turquia, a recomposição do movimento operário na África do Sul, o ingresso dos Brics na “rota dos indignados”. Mesmo na Rússia e na China temos expressões distorcidas desse processo: a luta na Ucrânia contra a anexação à Rússia e as mobilizações de Hong Kong.

Temos duas expressões mais gerais, dois polos extremos deste novo período e de suas contradições:

– Por um lado as lutas encabeçadas e simbolizadas por Assange/ Snowden. Esta luta contra o imperialismo é contra a privatização dos meios de comunicação e pelo fim da diplomacia secreta. Por outro lado há a possibilidade de um regime de maior controle, um crescimento das medidas antidemocráticas ditadas pelos sistemas da Google e do Facebook em parceria com as redes de inteligência mundial.

– Num polo temos a luta pelo direito ao Estado Palestino e todas as suas implicações: o crescimento na opinião pública mundial do reconhecimento do direito do Estado Palestino (o governo da Suécia reconheceu este direito e na primeira quinzena de novembro, foi o parlamento espanhol que aprovou tal reconhecimento, por exemplo).  Por outro lado temos uma postura mais belicista e agressiva do Estado de Israel, como visto na sua recente operação Margem Protetora. Neste caso estamos vendo o Estado de Israel estar mais forte do ponto de vista militar e mais fraco no sentido diplomático.

Estes polos devem ser levados em conta ao se examinar a revolução árabe, perpassada ainda pelas forças reacionárias ligadas ao islamismo. Trata-se de um processo de larga duração, com períodos de revolução, de estagnação, contrarrevolução. Retrocesso no Egito. Caos na Líbia. Guerra sangrenta na Síria. Estagnação na Tunísia, onde a esquerda conseguiu eleger 14 deputados, pela Frente Popular.

E ao mesmo tempo de novos processos, em países que não se estabilizam. Apesar dos retrocessos não se pode perder de vista que são retrocessos depois de revoluções chaves. Houve uma mudança no humor político da ampla vanguarda mundial em combate contra a crise desde 2008. Depois da queda de Ben Ali, ditador que governou por décadas a Tunísia, o contágio se espalhou pelo Egito, derrubando também a Mubarak. Também foram derrubados pela via de rebeliões populares os governos da Líbia, Kadafi e do Iêmen, Saleh. No Bahrein, tropas Sauditas ocuparam o país, evitando que a crise pudesse se converter numa insurreição.

Este cenário possibilitou progressos à Causa Palestina. E isolou ainda mais o governo de Israel. O rápido ascenso da Irmandade Muçulmana e grupos aliados dominou a conjuntura dos primeiros anos da revolução. Entretanto, o ponto de inflexão na Síria, onde uma sangrenta guerra civil arrastou para a barbárie centenas de milhares de pessoas, e o movimento que culminou com a saída de Morsi do poder no Egito, abrindo as portas para o restabelecimento de um governo militar- desencadeou uma feroz repressão contra as correntes vinculadas com a Irmandade.  A atual situação do mundo árabe é muito complexa. A falta de uma alternativa laica, democrática e anti-imperialista também aqui cobra seu peso.

No continente Africano, as recentes mudanças no cenário político também contagiam. A revolução popular de Burkina Fasso, ex-colônia francesa ilustrou bem a radicalidade do movimento de massas. O que vai acontecer na África do Sul é decisivo. Neste país que viveu uma verdadeira revolução democrática e negra que liquidou o regime do Apartheid, as massas começam a dar um salto de qualidade em sua consciência, a partir das greves da Copa de 2010- onde 70 mil operários cruzaram os braços. A greve mineira de Marikana e a reorganização do movimento sindical deram continuidade a este passo. A morte da máxima expressão democrática do povo Africano, Nelson Mandela também encerra um ciclo, abrindo novas hipóteses de trabalho, com o fortalecimento de direções políticas e sindicais independentes.

Contudo, o período segue sendo de latência. Não se estabilizou um poder contrarrevolucionário capaz de fazer retornar ao período anterior a 2011. O risco da expansão do califado deve ser mensurado na luta militar que empreende o povo curdo, liderado pelo PKK e Ocallan. Da vitória contra o EI/ISIS depende a possibilidade da retomada do rumo das mobilizações de massa que marcaram o período da “primavera árabe”.

São polos extremos de uma situação cheia de contradições, cujo pano de fundo segue sendo a crise econômica mundial do capitalismo. Do ponto de vista da construção de alternativas pela positiva, sem dúvida, os polos mais avançados se encontram no sul da Europa, particularmente na Grécia e na Espanha. Mas antes vejamos brevemente a experiência política que permitiu durante os anos 90 se manter acesa a esperança de um novo mundo: o bolivarianismo.

  1. América Latina: progressos, limites e superação do bolivarianismo

 

Para aprofundarmos a discussão, vale retomar o que dizíamos em abril de 2013, quando abordávamos as mudanças que haviam ocorrido na América Latina a partir das lutas dos finais dos anos 90, na virada do século:

“O ascenso produziu diferentes tipos de governo, visto que cada realidade nacional atende a um nível de desenvolvimento da luta de classes e da construção subjetiva de alternativas pela esquerda. De forma esquemática, como parte deste novo cenário produziram-se três tipos de governo, ainda que com alguma heterogeneidade entre eles: nos países onde há maior desagregação do tecido social – e onde a esquerda tem menos peso urbano e organizado –, produziu-se um giro à direita com governos mais conservadores. Uma direita populista com um programa mais duro centrado no “combate à violência urbana”. Suas principais expressões são México e Colômbia – com governos do tipo Uribe/ Santos.

O segundo tipo de governo é o que se produziu especialmente no Brasil, onde o peso do ascenso foi menor – na verdade aqui toda a década de 90 e o início dos anos 2000 se mantiveram da mesma forma, a marca foi de relativamente baixa atividade do movimento de massas – facilitando e permitindo que a direção do PT optasse por uma via de conciliação de classes. O PT é a forma máxima deste tipo de governo, definido como social-liberal. Um governo composto por lideranças políticas oriundas da esquerda, ex-guerrilheiros, sindicalistas, ativistas dos Direitos Humanos, com forte ênfase em medidas compensatórias e políticas sociais. Mas que tem como seu programa a garantia da governabilidade, dos ajustes e da sustentação do próprio regime, pactuando com a direita e as classes dominantes do país. Também poderíamos enquadrar neste tipo de governo, ressalvando como já dito as diferenças, os governos de Bachelet no Chile [que provavelmente vai voltar ao poder neste ano], de Ortega, Funes e os governos dos Kirchner na Argentina.”

Como expressão mais avançada do processo que percorreu o continente tivemos no governo de Chávez e na Venezuela uma corrente que representou na superestrutura o repúdio do movimento de massas ao neoliberalismo e, sobretudo, ao imperialismo. Como parte do ascenso continental podemos definir como governos bolivarianos, além da Venezuela, o Equador e a Bolívia.”

Aqui queremos fazer uma definição geral: o bolivarianismo surgiu no calor das lutas dos povos da América Latina. E a posição de nossa corrente de ser parte deste movimento foi um acerto histórico, nos permitindo ser parte ativa e dinâmica das lutas dos povos e crescer como um polo marxista consciente que não aceitou ser mera testemunha do processo. Este processo foi claramente progressista porque construiu novos regimes independentes do imperialismo e permitiu avanços na consciência de milhões de trabalhadores e jovens da América Latina. Assim apresentando e fortalecendo no mundo a possibilidade do socialismo como horizonte estratégico.

O fato de que depois de mais de mais de dez anos de experiências tenhamos sérios elementos de esgotamento do bolivarianismo não altera este balanço. E a prática deve ser útil como critério. Se bem é verdade que considerações pragmáticas não devem ser um critério definidor sempre. Quando a escala de tempo é medida em mais de uma década é lógico que o resultado das políticas deve ser levado em conta. O que aconteceu com as forças trotskistas que se colocaram na perspectiva de se postular como esquerda por fora do processo e que apresentaram a estratégia de promover a derrubada revolucionária destes governos e regime? Não passaram de comentaristas da situação, se reduzindo a núcleos tremendamente marginais – quando existentes – e na sua fraca atuação – quando atuavam – apareceram mais fazendo o jogo da burguesia opositora do que construindo um polo de trabalhadores independentes digno de nota.

Em contrapartida nossa corrente, também com herança trotskistas, pode se desenvolver na Venezuela. Mantivemos, ademais, nossa independência do chavismo e não deixamos de tomar parte no processo, sendo reconhecidos como tal. Assim, estamos em condições de lutar para contribuir por uma alternativa de esquerda contra a direita e contra as tendências cada vez mais fortes de converter o chavismo num aparato burguês e burocrático sem retorno. Sabemos que tal alternativa é difícil porque o chavismo teve um aspecto tão positivo que a autoridade dos que assumiram o comando depois de sua morte, embora abandone muito das medidas que Chávez defendia, continua tendo mais peso do que nossas forças.

A experiência da América Latina vai servir para a discussão da Europa. Há um processo de luta política e de construção de alternativas contra a austeridade. Partidos progressistas, anticapitalistas surgiram em dois dos países mais avançados da luta de classes, Espanha e Grécia, o Podemos e o Syriza, respectivamente. Ambas formações políticas são as expressões partidárias do ascendo do movimento de massas e adotam uma plataforma que assume partes fundamentais das demandas deste movimento. São projetos que se fortaleceram sobretudo negando os projetos burgueses tradicionais e que mantem vínculos diretos e orgânicos com as mobilizações e protestos dos últimos anos. Ambos podem chegar ao governo e se aplicarem suas plataformas podem representar governos de ruptura com os planos de austeridade do sistema capitalista levados adiante sob os ditames da Alemanha. Caso isso ocorra pode representar uma nova configuração política para todo o sul da Europa. Incidirão em Portugal e Itália imediatamente e sendo um polo para os trabalhadores de todos os países.

É claro que isso pode não se dar se estes partidos fracassarem como projetos alternativos aos governos de ajuste. Mas nossa aposta deve ser lutar para que isso não ocorra e para que estes partidos governem. É importante sermos parte deste processo se estes partidos assumem um compromisso de luta contra a austeridade, principalmente quando de fato este compromisso não seja apenas de palavras.

Como dissemos, as possibilidades de governos anti-austeridade na Europa encontram paralelo na América Latino no advento do bolivarianismo dos anos 2000. Nossa corrente reconheceu a importância do bolivarianismo desde o início. E embora tenham sinais de esgotamento, ainda é um fato da política latino-americana e deve ser apoiado contra o imperialismo. Este movimento se mantém até hoje, com por exemplo, o jornalista Assange na embaixada do Equador, enquanto Snowden não foi aceito como exilado no Brasil.

Isso no marco de que há tendências de esgotamento do projeto. A situação da Venezuela que se combina com o burocratismo e a corrupção, com sua carga de ineficiência e privilégios revoltantes, é o ponto mais avançado deste esgotamento. A situação de Maduro é demasiada instável. Se ainda existem pressões de massa para manter as conquistas sociais adquiridas nos anos Chávez, a direção burocrática do PSUV cada vez mais persegue e combate os seus oposicionistas, sufocando o debate político sobre os rumos do país – já em situação econômica gravíssima. Isso faz com que os setores críticos ao governo, mas defensores do processo, se organizem e se agrupem mais. A recente conferência do Marea Socialista demonstrou esse espaço. Para além do ativismo militante oriundo do Marea, participaram uma série de ex-ministros, intelectuais, militares de esquerda, jornalistas e comunicadores, apontando para a vivacidade do processo.

A situação da Bolívia parece ser diferente e melhor. É preciso estudar até onde se mantem os vínculos com o questionamento ao sistema capitalista mundo. É certo que foi produto de uma revolução democrática a favor da identidade indígena e isso ainda se mantem e se defende no governo. Assim como a Venezuela se mantem independente do imperialismo em seu propósito de manter o controle nacional do petróleo. A independência do imperialismo parece ser uma marca que inclui países como Uruguai, com suas posições políticas democráticas que estimulam lutas em outros países. Além é claro de Cuba, que embora esgotada totalmente como modelo alternativo se mantem como um país independente dos EUA e como um contraponto político na América Latina em alguns momentos, como foi no seu tempo o ALBA contra a Alca. Todos estes processos, portanto, são contrários aos planos de ajuste do capital, planos que não são apenas econômicos, mas políticos e militares.

Em outros países que foram aliados incertos dos bolivarianos e tiverem uma política de aliança muito mais sólida com suas respectivas burguesias – sendo muitos mera reciclagem de processos burgueses anteriores – como é o caso da Argentina, mais do que crescimento de forças de direita o que temos visto é bronca pela esquerda no plano social com repercussão política já em curso.

A Argentina é justamente uma das expressões de países da região em que os governos são diretamente burgueses mas não aplicam os planos que o imperialismo demanda porque suas políticas são aplicadas enfrentando um poderoso movimento de massas. São governos que atuam sob o calor do ascenso. Na Argentina ao longo dos últimos dez anos os K não puderam aplicar os mesmos planos de Menem. Depois de 2001 não há força que consiga. No Brasil depois de junho de 2013 nenhum governo poderia promover um ajuste puro e simples, duro e neoliberal. Nem se o PSDB vencesse as eleições. A correlação de forças estrutural mudou em muitos países, em especial na América Latina, contra os interesses do capital financeiro. E esta mudança em alguns casos se expressou nos governos. Saber trabalhar em países com estas características tem sido uma prova.

No caso do Brasil, como dissemos, não existiu o bolivarianismo. Qualquer linha de disputa do governo teria significado uma capitulação. Por isso foi um acerto ter fundado o PSOL. Dez anos depois o crescimento do PSOL e o esgotamento do PT mostram que a linha foi correta. Passamos a prova da prática. É lógico que ainda não terminou, embora seja certo que o PSOL terá um enorme crescimento eleitoral nas eleições municipais de 2016. Certamente vencerá ou disputará de igual para igual com o PT em inúmeras capitais, na esteira da forte campanha eleitoral de 2014 onde o partido ganhou muito capital político. O desafio do partido será também ter sucesso nas lutas dos trabalhadores para ir se provando como alternativa real.

De modo geral nossa orientação na América Latina foi participar dos processos bolivarianos, mantendo a independência e uma linha de oposição de esquerda, nos postulando como alternativa abertamente opositora no caso dos governos burgueses de frente popular ou social-liberais como foi – e segue sendo – os governos petistas, por exemplo. E mesmo nos chamados países bolivarianos sua falta de consequência na defesa de um projeto alternativo, anticapitalista e antiburocrático como regra leva a que estes mesmos governos apliquem planos de ajuste econômico contra os povos e que promovam internamente burocracias estatais ao seu redor e ou se consolidam na defesa de interesses de setores burgueses nacionais.

Por isso qualquer linha de defesa eventual destes governos quando são atacados por interesses do capital financeiro não pode se confundir com alinhamento nem com defesa de sua estratégia de desenvolvimento de capitalismo nacional. Nas definições estratégicas destes governos seguem pesando ainda mais o papel do governo brasileiro de ser o principal diplomata da região para manter a estabilidade capitalista sem romper os laços com o imperialismo e estimulando os setores mais conciliadores envolvidos nos processos de luta nacionalista.

Um retomada do Ascenso se iniciou nos países do Conesul entre 2011-13, com Chile, Brasil e Argentina.

Como prenúncio de “Fim de ciclo”, acompanhamos a ruptura de setores de massa com os governos ditos “progressistas”.  Do ponto de vista social, com as greves gerais na Argentina e as Jornadas de Junho no Brasil e do ponto de vista eleitoral sinais de cansaço.

A entrada do Brasil no contexto de luta com as Jornadas de Junho foi uma mudança qualitativa para a situação política na América Latina. O peso do Brasil é enorme. Além de seu lugar no mercado mundial, não podemos esquecer que o Brasil cumpre um papel de subimperialismo com suas principais empresas- agora acusadas de corrupção com muitos de seus executivos presos-  atuando em vários países. A mudança no panorama da América Latina responde diretamente às mudanças em curso em nosso país.

A direita tradicional, cientes dessa situação de crise, viu na eleição brasileira uma forma de recompor sua localização no continente, numa linha “restauracionista”.  Movimentaram-se nessa direção. A derrota de Aécio, a vitória acachapante de Evo e o caminho tranquilo para a Frente Ampla no II turno uruguaio indica que mesmo vivendo um esgotamento do ciclo anterior, temos importantes mediações nos ritmos e que a burguesia mais conservadora tem dificuldades em retornar ao poder com um programa neoliberal “duro”. Um pequeno país como o Uruguai mostra como persiste as contradições dos países que experimentaram governos independentes e como seria um grave erro não reconhecer no bolivarianismo elementos progressistas que devemos apoiar.

Tudo indica que no domingo 30 de novembro, a Frente Ampla conquistará o terceiro mandato consecutivo com cerca de 60 % dos votos, somando 15 anos de governo independente do imperialismo no Uruguai.

No contexto latino americano, o avançado processo histórico da democracia uruguaia permitiu avanços implementados pelo governo Mujica (legalização do aborto, da maconha, vitória contra a maioridade penal) que são exemplos para lutas na América Latina. Por outro lado, na área econômica, o governo vem criando um novo ciclo de desenvolvimento econômico capitalista através da reformulação da matriz produtiva tradicional, fundamentada no tripé pecuária-agricultura-turismo, abrindo o território para mega empreendimentos estrangeiros no setor de celulose. E mais recentemente, na tentativa de implementar um polêmico projeto de mega minería a céu aberto para a exploração de aço, o que tem levantado um duro embate sobre a vocação produtiva do pequeno país latino americano.

Existe assim uma luta aberta para esse novo período na América Latina. Uma luta política que passa pela Venezuela, por entendermos a fundo os aspectos progressistas do bolivarianismo e suas limitações.

Desta vez, ao contrário do ascenso dos anos 2000, onde o centro foram as lutas do campo, um ascenso popular e camponês, com o surgimento de novas direções, como o MAS na Bolívia, Chavismo na Venezuela, o MST no Brasil, hoje temos novas características na vaga de lutas que percorre o continente.

O ascenso é eminente urbano. As mobilizações estudantis no Chile, as mobilizações operárias na Argentina e a base juvenil e popular que se move no Brasil são indicadores do caráter majoritariamente urbano. O processo ocorre no coração das grandes cidades latino-americanas.

No atual ciclo o palco central das lutas ocorre nas principais economias do continente. Ou seja, o epicentro está nos países centrais, com sociedades complexas e um nível de desenvolvimento mais avançando.

Existe uma vanguarda juvenil e radicalizada atuando nas ruas, no movimento estudantil e nas fileiras da classe. A juventude está na primeira fileira, uma nova geração que tem 30 anos ou menos e que não viu as experiências anteriores, entrou na vida política após a queda do muro de Berlim e conheceu as direções do Fórum de São Paulo já no governo ou em vias de governar. Essa vanguarda tem como ponto débil a falta de referências e organizações centralizadas para dar cabo às tarefas. Apesar de um processo lento, ainda não surgiram organismos auto organizados para representar, democraticamente, as demandas do movimento de massas.

Ao contrário do ciclo de rebeliões dos anos 2000, que encontrou uma classe trabalhadora diretamente golpeada pelo neoliberalismo, o nível de conquistas e organização é superior, nos setores organizados de trabalhadores e do povo. Isso reflete também nas condições objetivas.

E existe, de outra, parte setores da esquerda revolucionária, com sólida implantação de vanguarda, com acesso ao parlamento e capacidade de influência em setores minoritários de massa, em boa parte desses países. A presença destes setores foi e será muito importante nos processos mais avançados: Jornadas de Junho no Brasil, greves na Argentina, luta contra mineração no sul peruano e ativismo estudantil no Chile.

O México, o segundo gigante continental, abre outra chave de possibilidades. O brutal desaparecimento de 43 estudantes na cidade de Iguala despertou energias sociais que podem abrir um cenário de rebelião juvenil no México. Essa é a luta mais importante da juventude no mundo.

O caso conhecido como “massacre de Atyotznapa” é a maior crise institucional do México recente. Ela se combinou com a greve nacional de estudantes dos IPN (Institutos Politécnicos Nacionais) e desnudou o narco-regime do governo de Peña Nieto em acordo com os três partidos do regime (PRI, PAN, PRD). Tal acordo foi selado com o nome de “Pacto pelo México” e tinha em seu programa a impunidade às grandes quadrilhas e cartéis e a imposição de um ajuste que passava por contrarreformas e a privatização da PEMEX. O movimento juvenil do México carecia de uma ação centralizada. Com a ocupação política e territorial dos cartéis e do crime organizado sobre a política, o movimento operário e popular sofreu um refluxo. Longe dos anos em que os zapatistas promoveram o famoso levante de Chiapas, evento que impactou toda a vanguarda nos anos 90, o cenário no século XXI foi de retrocesso e violência. As eleições são notadamente fraudadas e os partidos colaboram entre si para manter a impunidade. As milícias e os cartéis dominam a cena, atuando contra lideranças civis e de movimentos sociais. Um verdadeiro genocídio contra o ativismo.

Tivemos lutas episódicas como a comuna de Oaxaca, lutas de professores, marchas como a “outra campanha”. Porém depois da derrota da greve da UNAM de 1999 houve um processo de regressão geral. Algumas iniciativas da juventude, pontualmente, trouxeram novas vanguardas, sendo importantes ainda que sem capacidade de inverter a correlação de forças: o movimento contra a fraude eleitoral conhecido como #yosoyel132 e a luta contra o aumento do metrô no ano de 2013.  Foram embriões que aglutinaram a vanguarda, influenciados pela onda internacional de indignados. O novo momento porém não guarda comparações. Se trata do maior movimento social do México em vinte anos. Alguns analistas comparam com a movimentação estudantil de 1968, reagindo ao massacre de Tlatelolco e gerando uma rebelião estudantil.

No Peru, onde nossa corrente conserva um dos seus mais importantes trabalhos, a luta contra da região de Cajamarca segue marcando uma conjuntura de desgaste do governo de Ollanta Humalla. A vitória dos setores envolvidos na coalizão eleitoral ao redor de Gregório Santos reflete de forma direta a luta contra o projeto “Conga”, de mineração intensiva do sul peruano. O êxito eleitoral abre o caminho para impulsionar uma unidade mais ampla para as eleições nacionais. Nossas forças aí têm se multiplicado na juventude, onde disputamos inclusive a direção do movimento universitário nacional.

A dinâmica continental, com a retração geral da economia baseada na exportação e no “boom” das commodittes da década passada, deve ser de ampliação dos conflitos e de crises dos governos. O fim dos anos “prósperos” como consequência do desacelera mento da economia chinesa e dos limites do modelo extrativista-minerador devem levar a luta de classes na América Latina a temperaturas crescentes. O ocaso da corrupção na gestão desses negócios, onde a maior parte das empreiteiras que se movimentaram no continente com o plano IIRSA estão questionadas pelo escândalo de corrupção da operação “Lava-jato” no Brasil, vai impactar diretamente na percepção das massas sobre os regimes.

Um processo que apenas começa e que será a grande prova para nossa corrente internacional.

  1. Novas possibilidades na Europa?

 

A Europa se encontra numa encruzilhada. A crise econômica e social se agudiza e se translada para os regimes políticos. A crise se expressa nas castas corruptas. Aqui temos que discutir a situação concreta atual da Grécia e da Espanha. Discutir quais as chances de uma vitória da esquerda e discutir as perspectivas. Afirmar os riscos de que se adaptam mas também as chances de que enfrentem o capital ainda que parcialmente. E portanto afirmar a necessidade de uma organização independente mas abrir a hipótese de ser parte do processo. Sobretudo se ele vier acompanhado de enfrentamentos reais, que mesmo sendo resultado de eleições, não seja de eleições normais, mas resultado de confrontos, ao estilo do que foi Bolívia, Venezuela, não do Brasil de Lula. Ou seja, é preciso ver o que pode ocorrer se esta hipótese de governos de esquerda anti austeridade se elejam.

A organização Internacional do Trabalho (OIT) num informe recente afirmou que a política de consolidação fiscal contribuiu para elevar a pobreza e exclusão social que já afeta a 123 milhões de pessoas na União Europeia, ou seja, 24% da população da Europa. A Alemanha leva dois trimestres com a atividade econômica em retração. A França, nestes dois trimestres teve um crescimento próximo de zero. Sem falar da Itália onde o PIB está negativo há dois anos.

A crise evidencia altos níveis de regressão social. Os direitos sociais e civis logrados ao longo do século XX, institucionalizados no Estado de Bem-Estar Social, estão sendo retirados.

A situação gera uma maior contradição com o imperialismo alemão- vanguarda nos planos de austeridade, na defesa dos mecanismos de comprometimento com as dívidas públicas e os bancos.

Numa visão geral acerca do continente podemos afirmar que estamos numa correlação de forças ainda desfavorável, pelo baixo nível de atividade do movimento operário organizado nos países centrais como França, Alemanha e Inglaterra. O que prima é uma polarização crescente, onde existem dificuldades para a afirmação de um polo nitidamente de esquerda e o crescimento de correntes de extrema-direita, xenófobas, antiimigrantes, eurocéticas.

Existem aspectos políticos que indicam o espaço à esquerda e explicam as possibilidades abertas e/ou em construção: o stalinismo como aparato contrarrevolucionário perdeu força; o avanço da consciência acerca das tarefas democráticas, a luta pela participação cidadã, etc. Um terceiro aspecto: a crise da social democracia. A desvantagem consiste justamente na repetição de erros, sobretudo da socialdemocracia, a possibilidade destes processos se adaptarem a uma lógica de administração da crise.

Esta realidade propiciou a abertura de crises sociais e políticas. A crise econômica e social exacerbou os traços mais nefastos dos regimes. E tal crise arrastou a Europa para um impasse.

E nesse impasse temos evidenciado o maior atraso: os regimes dos partidos capitalistas, sejam conservadores ou socialdemocratas se fragilizam. Entretanto sem a capacidade de superação por uma ação independente da classe trabalhadora.

Aí reside o principal elemento do “impasse”. Podemos ver esse elemento expresso de variadas e múltiplas formas: no crescimento de correntes eurocéticas e de extrema-direita; na dificuldade de resolução da crise ucraniana; no despontar de partidos diretamente fascistas e a ampliação da xenofobia [Aurora Dourada na Grécia].

E porque esse desacerto entre o apodrecimento dos regimes e suas castas e o surgimento de alternativas democráticas e anticapitalistas? É aí que pesa a contradição da consciência de classe e da retração do movimento socialista, elemento que pesa na análise de dirigentes como Fraçois Sabado- no seu texto “Notas sobre a situação mundial”. Do nosso ponto de vista, são elementos contraditórios:

– O revés que significou na consciência a derrota dos dois principais projetos da classe trabalhadora europeia- mais do que em qualquer lugar do mundo- a socialdemocracia e os PC’s.

– As derrotas objetivas do movimento operário nos últimos vinte anos: parcialização/fragmentação do trabalho, reestruturação produtiva, perda de direitos, ideologia pouco coletiva dentro das empresas e retração salarial em países como Alemanha, Itália e França.

– A restauração no leste europeu. Onde existe uma ampla noção de que o socialismo está identificado com o stalinismo e este identificado com um desastre do ponto de vista da gestão da vida social.

– A direção majoritária dos sindicatos ainda está nas mãos dos aparatos dos PC’s e da Socialdemocracia. O caso da UGT/CCOO na Espanha; da CGTP em Portugal, CGIL na Itália, TUC no Reino Unido; a maior parte do movimento operário grego ainda é hegemonizada pelo PC. Isso é um entrave para o desenvolvimento da energia represada em meio aos trabalhadores.

Há uma retomada das lutas em vários países, contudo, onde a resistência heroica da Grécia- foram dezenas de greves gerais nos últimos cinco anos, que sinaliza também sinais de cansaço, e o ascenso entusiasmado na Espanha, ainda estão na dianteira.

No sul da Europa, há uma condição diferenciada. Foram os países mais atingidos pela crise. A denominação que esses países obtiveram, pejorativamente, no mundo das finanças, PIGS [“Porcos”, usando o acróstico das iniciais de Portugal, Irlanda/Itália, Grécia e Espanha] sinaliza a agudeza dos problemas econômicos desses países. Com um alto nível de endividamento tiveram que recorrer a empréstimos sob controle direto da Troika, tendo como contrapartida um severo programa de ajustes, que incluía a retirada de direitos elementares como o 14 e 15 salários, a mudança nas leis de aposentadoria e previdência social e a privatização de setores essenciais. Tudo isso registrado nos chamados “memorandos”.

Existe um movimento real contra a austeridade. Esse movimento teve picos sociais- com a greve de 14 de novembro de 2012- ibérica e mediterrânea- e um novo auge político na assembleia fundacional de Podemos, onde Tsipras, ao lado de Iglesias convocou a unidade do sul da Europa para enfrentar a Troika e abrir um novo ciclo por fora do ajuste.

O processo iniciado com 15-M tem seus antecedentes na rebelião que a juventude grega protagonizou entre 08-09. E guarda similitudes com os portugueses das mobilizações convocadas pelo grupo denominado “geração à rasca”.  A base social destes movimentos é uma juventude escolarizada, com poucas perspectivas de emprego, quando muito precarizado ou informal.  Chamados de NINI [nem, nem, em espanhol] porque diplomados não tem condições de arrumar trabalho. Tal base social também foi o detonador da revolução árabe- lembremos do jovem Mohamed Bouzazi que ateou fogo no seu próprio corpo, era um diplomado e sequer poderia vender alimentos na feira de sua cidade.  A migração de jovens africanos para a Europa do Sul e de jovens dos países mais atingidos pela crise para países ainda prósperos também deixa o rastro desta nova condição política.

O arrojo político de Iglesias e seu “agrupamento”, os professores reunidos no programa televisivo La Tuerka, teve o mérito de conseguir representar este “mal-estar” expresso por essa franja precarizada.

Este novo movimento contra a austeridade tem como polo avançado as lutas da Espanha e Grécia e como referentes políticos, o Podemos e o Syriza. Certamente, tal unidade vai impactar sobre outros países como o caso de Portugal ou mesmo a Itália, onde após anos de desterro da esquerda social e política, a lista Tsipras emplacou uma boa votação, rompendo a cláusula de barreira e ingressando no Parlamento Europeu.

Na Espanha, o movimento dos indignados fissurou o regime nascido do pacto de Moncloa, em 1978. Naquela ocasião, quando das lutas contra o franquismo, o PSOE, a Coroa, o PP, o PC e os sindicatos acertaram uma saída pactuada para a crise. Ao contrário do vizinho Portugal, não seria pela via revolucionária a transição, garantindo a manutenção das instituições depois da queda do franquismo. O 15- M abriu uma janela de questionamento ao regime de 1978 e seus principais alicerces: a Coroa, a Unidade nacional sob controle férreo de Madrid e o bipartidarismo inaugurado pelo governo de Felipe Gonzalez. A jornada de mobilizações questionou diretamente esses pilares. A renúncia do Rei Juan Carlos, depois de sucessivos escândalos de corrupção e de luxuria, foi uma tentativa de salvar a Coroa, agora sob a pele do jovem príncipe Felipe. Contudo, o sentimento republicano imbricado na consigna de democracia real já ganha amplas capas da sociedade espanhola. Com o despertar do movimento de massas também ganhou força a luta independentista- que tinha sido derrotada ainda no período que foi hegemonizada por setores guerrilheristas como o ETA.

A luta dos catalães, colocando mais de um milhão de pessoas nas ruas em três ocasiões, durante o dia nacional[Diada] gerou um ponto de ruptura com o governo de Madrid. Na consulta convocada no dia 9N cerca de 2 milhões e 300 mil catalães votaram majoritariamente pela independência. No País Basco se reacendeu a esperança com a força da luta na Catalunha. Nas eleições, as correntes da esquerda soberanista venceram em vários distritos e municípios. Em menor medida, também na Galicia as posições soberanistas se reforçam.  O terceiro pilar, o bipartidarismo do PP-PSOE foi arrasado. Depois de perder as eleições pós 15M, o que levou a muitos impressionistas a atacarem o movimento dos indignados por reforçar, em imediato a direita, o PSOE não conseguiu recompor sua base, nem social nem eleitoralmente. O governo conservador de Rajoy, levando adiante medidas de austeridade está marcado pela debilidade, ora por conta dos escândalos intermináveis de corrupção, ora pela resistência do movimento de massas. Seu partido aparece em terceiro lugar apenas nas intenções de voto.

O movimento de massa se animou com a entrada em cena dos indignados. E conseguiu seguir acumulando, numa estratégia objetiva que envolveu o “sentido comum” do qual fala Iglesias e Podemos. Isso retroalimentou o ânimo de vários setores. Tivemos além da greve geral do 14-11-12, lutas importantes com as “marés”, confluência de setores como a educação, a saúde, a luta dos bairro Gamonal em Burgos que se constituiu num símbolo contra a especulação imobiliária, o surgimento do movimento de sem-teto[Plataforma dos Atingidos pelas Hipotecas, PAH], greves importantes como a de Panrico e Coca-Cola, as marchas dos mineiros de Astúrias, greves estudantis, a reversão do plano de privatização dos hospitais madrilenhos, a vitória contra  lei do aborto por parte do movimento de mulheres e por fim, a “Marcha da Dignidade” que levou centenas de milhares às ruas como elemento catalisador de todas as lutas.

Este é o cenário no qual se forja o Podemos. Uma organização que reflete esses setores, que tem um apelo fortemente democrático- a despeito das outras experiências da esquerda no século XX- onde após os anos 30, os PC’s e seus satélites eram altamente centralizados- tendo uma participação de mais de 112 mil cidadãos na elaboração dos documentos preparatórios para a sua Assembleia Nacional.  O programa do Podemos está em plena construção. Não poucas pressões, porém, as entrevistas de Iglesias e o movimento em torno de suas propostas levam a uma ruptura com o capital financeiro e com o imperialismo europeu e americano, materializada na discussão sobre a saída da OTAN. Seria esse um programa, que se levado a cabo com pressão social levaria a uma Espanha anticapital financeiro, antiOtan e com um caráter de país democrático e independente.

A Grécia é o elo mais débil do sistema de dominação europeu.  Se não conserva o mesmo grau de entusiasmo recente da Espanha, o país viveu uma experiência ainda mais intensa com os desmandos da Troika e a unidade dos partidos dominantes para salvar o regime. Depois das primeiras crises políticas, envolvendo a queda do governo conservador, o PASOK- Partido socialdemocrata- assumiu as rédeas da situação política, iniciando seu declínio final. Como principal responsável por implementar os planos de ajuste, o governo do PASOK foi questionado em todos os terrenos, com greves gerais quase que bimestrais durante um período de cerca de 3 anos. A mais importante derivou numa greve de 48 horas com enfrentamentos agudos nos principais centros urbanos da Grécia e com um saldo de 3 mortos. Como uma tentativa de salvar o regime, imposto pela Troika, logo em seguida de um governo de caráter técnico, se montou um gabinete de unidade nacional entre a direita, Nova Democracia, o PASOK e Dimar [sócio menor da coalizão que rompeu alguns meses mais tarde] como forma de manter o capitalismo grego funcionando. Syriza [partido da esquerda radical, em grego] saltou então de3-4 % para quase 30% sendo o partido mais votado nas eleições europeias e regionais, ganhando prefeituras e regiões, a mais importante delas, a Região de Ática, mais populosa e importante do país, onde fica a capital Atenas. O fôlego da luta social diminui após as sucessivas greves gerais e a necessidade do governo e da burguesia de seguir adiante o ajuste sobre as costas do povo grego. Isso levou ao terreno da política eleitoral a disputa central, gerando expectativas nos resultados numa mudança pela via das urnas.

As “explosões” se tornaram menos intensas e houve certa normalização no terreno da ação direta. A última grande manifestação de caráter nacional, que quase levou a queda do governo, foi o fechamento da ERT [a TV estatal], seguida da ocupação de seus estúdios e transmissores por parte dos trabalhadores e greve geral em solidariedade. No plano das ruas, também o fenômeno no fascismo é real, quase dramático. As correntes que conformaram o partido Aurora Dourada- claramente fascista, com símbolos, métodos e programa de inspiração nazista- ganharam peso entre as classes médias desesperadas, os desempregados e com especial penetração nas forças armadas e policiais. O assassinado do rapper Fyssas, ativista de esquerda, gerou comoção nacional e fez com que o governo pedisse a prisão de vários líderes do AD. A crise dos partidos majoritários tem reforçado o peso eleitoral e social de AD, que alcançou 9, 4% dos votos nas últimas eleições. Os partidos do governo saíram derrotados das urnas- Nova Democracia perdeu 7 pontos, conquistando apenas 22, 7% e o PASOK teve 8%. Dimar [Esquerda Democrática], que rompeu com o governo foi duramente penalizado, alcançando magros 1,2%.  O partido “Gregos Independentes”, ruptura de direita das últimas coalizões teve 3,46%. A nova formação, marcada por figuras televisivas, difusora da perspectiva de “sociedade em rede”, o “Rio”, teve 6.5%. O KKE, Partido Comunista, com sua política sectária e antiunidade- afirma que Syriza e AD são a mesma coisa, por vezes- baseada no estalinismo de terceiro período- teve 6,1%. Os demais partidos, incluindo Antarsya[coalizão anticapitalista, de forças que atuam por fora de Syriza] não obtiveram representação parlamentar. A crise grega vai seguir, com a perspectiva da queda do governo. É quase impossível que Samaras consiga reaver o voto de confiança marcado para o começo de 2015. E lentamente o movimento social começa a recobrar o protagonismo. As marchas pelo aniversário da ocupação de estudantes durante a ditadura dos Coronéis em 1973 foram massivas. Há uma importante movimentação de prefeitos para evitar cortes e demissões Dezenove prefeitos e o governador da região da Ática recusaram-se a implementar a lei 4250/2014. Esta lei foi criada com um único propósito: saquear mais milhares de trabalhadores do conselho local e do serviço público. Isto para permitir que o governo atinja as metas orçamentárias estabelecidas pela Troika – a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional.

O fato é que a questão de um governo de Syriza está colocada na ordem do dia. Seus desdobramentos, a mudança na correlação de forças, as pressões sobre o programa, a reação da burguesia são fatores que vão determinar a situação da Europa. Para os socialistas, um governo do Syriza seria sem dúvida um grande passo à frente- não isento de contradições. Abriria uma nova etapa na luta política nos países centrais, teria enormes impactos sobre Espanha, Portugal e toda a Europa do Sul. A estratégia de unidade entre países para enfrentar a austeridade e o problema das dívidas é um dos eixos do próximo período. O próprio Tsipras afirma a necessidade de uma conferência de emergência para discutir o problema das dívidas, usando como exemplo a conferência de 1953, onde a dívida alemã- principal nação credora nos dias de hoje- foi relativizada depois da II Grande Guerra.

A burguesia grega e imperialista, através de seus grandes meios de comunicação, faz uma guerra suja contra a esquerda radical, afirmando que a única via possível é seguir a austeridade. “Ou nós ou o caos” brada a elite europeia, temendo perder seus privilégios.

Não podemos isolar a situação de Grécia e Espanha, ainda que são os pontos mais altos do continente. O complexo cenário europeu é marcado por desigualdades.

Os enfrentamentos entre a Ucrânia e setores separatistas animados pela Rússia tem importância política e econômica no cenário. Um acirramento do conflito nesta região abre uma frente de ampla instabilidade. É uma região de suma importância por conta de sua localização e interesses envolvidos.

A outra “frente” é ver como se desenvolvem as lutas contra o ajuste no conjunto dos outros países. A entrada em cena do proletariado italiano, com greves nas indústrias do centro e do norte do país contra a reforma trabalhista de Renzi mostra que existe espaço. A manifestação de 120 mil na Bélgica e o as lutas que percorrem a Irlanda- 150 mil nas ruas de Dublin em 1 de novembro contra a taxa de água- vão dando canal para o descontentamento social. Estão convocadas greves gerais para Itália no dia 12/12 e para a Bélgica no dia 15/12.

Devemos examinar os impactos sobre os países que estão mais atrasados, do ponto de vista, da reorganização das forças sociais da classe trabalhadora e da esquerda. Nestes países, diante da fragilidade de uma resposta do movimento operário e/ou da esquerda radical, crescem alternativas de direita e extrema-direita. Essa foi a tendência apontada nas eleições europeias em países do leste europeu, nórdicos, na França e no Reino Unido. UKIP e Frente Nacional de Le Pen se consideraram os grandes vencedores. E a Alemanha segue com o governo de Merkel, de unidade nacional entre o CDU e SDP, como ponto de lança do ajuste e hegemônico na condução da UE. A França tem um governo débil, crise no partido da direita- UMP- que pode abrir espaço à extrema-direita. A tarefa da esquerda é reverter o cenário de paralisia do movimento de massas. As greves que tivemos- funcionários da cultura, ferroviários, pilotos de avião e a mobilização contra a construção de represas no interior do país. O fenômeno de crise de representação derivou em Grillo na Itália.

A socialdemocracia como já dito, amarga sua pior crise. Depois do desmantelamento do Pasok, perdeu terreno em vários países, conservando ainda posições em Portugal, contudo tendo seus principais partidos enredados em crises estruturais. Na Itália, Renzi, que alijou toda a velha guarda do antigo PCI/DS da direção do PD, vem perdendo espaço rapidamente com suas reformas impopulares; na Espanha, o PSOE viu sua votação cair pela metade; o PS francês enfrenta a mais grave crise de sua história, durante o governo Holland/Valls, com cerca de um terço de seus deputados ameaçando conformar um novo partido. Como são processos recentes, não sabemos qual o alcance da crise desses partidos. Porém, sua profundidade leva a perder peso eleitoral e social entre sua tradicional base na classe trabalhadora. Isso abre um espaço à esquerda, que antes os partidos da esquerda radical não tinham condições de ocupar.

Como subproduto da crise, cresce o soberanismo e nacionalismo de esquerda. As demonstrações mais recentes ficaram por conta de Escócia e Catalunha. Em ambos os casos, são lutas nacionais contra o centralismo retrogrado de regimes monárquicos. E refletem, majoritariamente, um setor do movimento de massas que busca protestar contra a austeridade, sendo portanto, um processo progressivo. Limitado, pois também serve para desviar o foco da luta contra os grandes capitalistas, mas democrático, gerando crise nos regimes e burguesias dominantes. A impressionante mobilização da campanha pelo Sim na Escócia gerou vários coletivos da campanha radical pela independência[RIP] encabeçada pelo socialista Tommy Sheridan e pelo SSP. No caso da Catalunha, a esquerda se agrupou na campanha SI-SI, pleiteando um processo constituinte pleno.

Outro problema fundamental para a esquerda é como combater à direita e o fascismo. Tanto do ponto de vista armado quanto do ponto de vista político. A defesa da unidade dos trabalhadores, especialmente os imigrantes é a bandeira central para evitar a xenofobia, principal combustível das organizações fascistas do presente período. A manifestação do dia 18 de outubro na Itália, da Liga do Norte e o congresso da FN na França sinalizam que estes setores têm grupos de choque e vão disputar nas ruas seu programa de esmagamento das organizações operárias, democráticas e combativas.

 

VII. Nossa orientação

 

De todas as características da situação mundial devemos nos apoiar nas mais favoráveis para as tendências da revolução:

O ponto de apoio maior das tendências revolucionarias e de nossa intervenção deve ser alicerçada na reivindicação dos processos de mobilização revolucionária, nos grandes acontecimentos: Tunísia, praça Tahir, 15 M, Ocupy Wall Street, junho de 2013 no Brasil, levante na Turquia, agora Hong Kong. Antes estes mesmos processos se expressaram na Argentina, em 2001, na Bolívia, com a guerra das águas em 2000.

Estes processos levantam uma serie de bandeiras de transição: democráticas, contra as ditaduras, direitos sociais, civis, ecológicas, em defesa dos recursos naturais, políticas que sem serem diretamente socialistas, mobilizam e se aproximam de uma linha de combate dos monopólios privados. Na cotidianidade das lutas nacionais se expressam em lutas que vão desde luta antirracista, Lgbts, direitos das mulheres, movimentos nacionalistas e indígenas, defesa da Palestina, contra a intervenções imperialista mas também contra os ataques de Talibãs, dos EI, além da constante e estruturante política de classe, que devem ser o eixo do programa político nos países capitalistas de desenvolvimento avançado ou médio.

 

Uma hipótese que se abre: governos anti austeridade no coração da Europa

A possibilidade da combinação de lutas e eleições pode levar ao governo Syriza na Grécia e Podemos na Espanha, organizando um movimento político real, alternativo à austeridade no Sul da Europa. Acreditamos que essa novidade merece ser apoiada e acompanhada com entusiasmo.

Isso não significa desconhecer os limites. Estamos apoiando Syriza desde 2011, com Luciana Genro participando do comício final em Atenas em 2012. E com ida de vários militantes e dirigentes para acompanhar esse processo. No caso de Podemos, fenômeno mais veloz e recente, ainda estamos buscando uma reunião com essa direção, contudo sabemos de certa confusão a respeito do caráter do governo Dilma. As confusões e vacilações sobre a política externa em geral tem correspondência na política interna.

Dentro destes movimentos amplos é preciso construir polos marxistas revolucionários que defendam a estratégia de mobilização permanente e luta pelo poder dos trabalhadores que passa pelo desenvolvimento da auto-organização democrática do movimento de massas.

Estes acontecimentos devem balizar nossa atuação e ligar nosso trabalho a estas heranças do movimento de massas e suas demandas.  Tomamos a juventude como prioridade. Não tem o peso das traições e derrotas. Sempre foi a vanguarda nos processos: década de 60 e agora, nas primaveras árabes, no Brasil e agora em Hong Kong. Ao longo dos últimos 15 anos este tem sido uma marca de nossa corrente: ligar-se aos processos sem deixar de desenvolver no seu interior um polo marxista. Isso se expressou na presença ativa nos Fóruns sociais mundial e na atuação sobre o bolivarianismo – sobretudo chavismo

 

Dentre as várias tarefas, reiteramos a atenção ao lugar da juventude nas vanguardas do mundo.  O apoio aos levantes juvenis como o do México, solidariedade militante. Preparar o acampamento internacional da juventude 2016.

Se apoiar na experiência do PSOL – a campanha de Luciana Genro e sua importância para a corrente

Defendemos com seguir de forma  imediata a campanha em torno de Assange e Snowden. Tomar a campanha democrática é fundamental para hierarquizar nosso nível de relações. A conquista que significou o contato com Glenn e sua relação direta com Luciana. Seguir desenvolvendo o wikileaks.

Vamos retomar com mais força o trabalho internacional da corrente, privilegiando as relações com a IV internacional, com setores da esquerda combativa mundial como o Podemos, Syriza, o Bloco de Esquerda português, abrindo espaço para debater com outras organizações marxistas revolucionárias como a CIT.

VIII. Um debate teórico programático e político

 

Queremos listas alguns debates urgentes para serem feitos no seio da corrente e da vanguarda socialista. Pretendemos ir desenvolvendo está agenda política e de discussão teórica ao longo do próximo período. Aqui apenas assinalamos alguns tópicos.

A importância das eleições. O problema da tática, estratégia e do programa: um programa democrático, antibancos, por um novo pacto de países devedores. O lugar da Assembleia Constituinte. Assédio ao poder. Combinação de lutas de rua com eleições. O problema do desvio oportunista e da diluição do sentido de classe.

A questão da revolução permanente:- Ditadura democrática poderia ser similar aos governos da esquerda anti austeridade? O problema do “chicote” da contrarrevolução: os fascistas, LePen e a necessidade de armamento das massas?

Seria os governos da “esquerda” anti austeridade similares ao que propunha Lenin como Ditadura democrática ou os “governos de Esquerda” dos II e III congressos da Internacional Comunista- onde tanto Lenin quanto Trotsky defendiam a possibilidade de conformar governos regionais e nacionais, a partir de eleições com a presença dos partidos socialdemocratas independentes e de esquerda.

Qual a experiência dos partidos anticapitalistas nos últimos dez anos? Derrota do NPA, processo mais longevo do Bloco- apesar de seu revés eleitoral, qual impacto de Podemos e Syriza sobre as novas formações? Qual o lugar dos revolucionários nessas formações?

A aposta na luta de classes. Necessidade do reagrupamento das forças anticapitalistas para enfrentar o novo período.

A batalha em defesa de um marxismo renovado. Contra os setores do Fórum de São Paulo que buscam nos isolar: aparatos contrarrevolucionários que existem como o núcleo dirigente do PT, PCdoB, ala burocrática do PSUV, sua influência sobre os novos fenômenos. Contra as organizações sectárias que tem como centro o isolamento da realidade, repetindo dogmas.

Colocamos tais discussões, a luz da intervenção real da luta de classes, do acompanhamento da esquerda mundial, para fortalecer os laços e a unidade daqueles que defendem uma saída socialista e internacionalista para o século XXI.

 

 

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

Leon Trotsky Joseph Stalin