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TERESA RODRÍGUEZ: A estabilidade das instituições é a instabilidade do povo

Entrevista com Teresa Rodríguez* por Carmen Torres

Traduzido por Fabiana Lontra

Estamos em Sevilha. Ela corre para alcançar o ônibus C1 que vai levá-la até a estação de Santa Justa para chegar a Cádiz. Teresa Rodriguez, secretária-geral do Podemos na Andaluzia e porta-voz de seu grupo parlamentar, abriu mão de seu veículo oficial: “Se você vive em um bairro e vai e volta do Parlamento em um veículo oficial, todo mundo imagina que você não vivencia a pressão das ruas”, explica ela. Dos 4.254 euros que correspondem à remuneração pelo seu mandato, ela guarda somente 1.730, o salário que ela recebia enquanto era professora. O resto vai para causas sociais. Ela caminha prudentemente pelo tapete do Parlamento para evitar que a “sedução das instituições” inspire o Podemos!.

Carmen Torres: O Podemos vai administrar Cádiz?

Teresa Rodríguez: Eu tenho a impressão que o PSOE vai acabar se dando conta que será difícil de explicar para a população que deixou Teófila Martínez governar por mais quatro anos após um grande fracasso eleitoral e depois de uma grande expectativa de mudança na cidade. O que nós gostaríamos de fazer está para além das eleições para a prefeitura – porque para isso eles não têm chance -, nós poderíamos estabelecer um acordo prévio para que o mandato fosse estável, que nos permitisse governar, com acordos e desacordos por vezes, mas procurando uma boa gestão para a cidade. Nós queremos que eles sejam responsáveis e que, se votarem a favor de um projeto, que seja para permitir que este siga adiante.

Carmen Torres: Isso significa que o PSOE vai participar do governo municipal?

Teresa Rodríguez: Não. Em Cádiz os camaradas vão debater com duas forças políticas, com o PSOE e com “Ganar Cádiz en Común”. Não com o Partido Popular (PP) porque nós propomos um programa de oposição à Teófila Martínez, e nem com Ciudadanos, pois seu programa econômico se parece muito com o do PP. Nós pensamos que, no que concerne a certas medidas, pode haver convergências e acordos com os dois outros partidos, a despeito de nossas diferenças que nos separam. O PSOE tem carregado um grande peso com as políticas que conduziu, e, além disso, conhecemos bem o tratamento que ele reserva às forças que governam em conjunto. Nós o vimos na Andaluzia durante os três últimos anos.

Carmen Torres: Qual é o objetivo do Podemos nos governos municipais? A Izquierda Unida (IU), por exemplo, pretende destronar o PP a qualquer preço. É o que vocês buscam?

Teresa Rodríguez: Cada candidatura deve decidir por si mesma e é autônoma. O Podemos tem um critério comum para os que se inscreveram nessas candidaturas baseado em três pontos: Expulsar o PP das instituições porque sabemos que ele tem uma particular responsabilidade pela política administrada nesse país ao longo dos últimos anos e que causou muito sofrimento a uma grande parte da população. E como o PSOE infelizmente fez parte dessa estratégia durante um longo período, nós não faremos parte de governos ao lado do PSOE. Isso significa que o que nós vamos priorizar, como em Madrid, Barcelona ou no Parlamento, são medidas que consideramos urgentes, relacionadas à corrupção, à transparência, aos despejos e aos serviços públicos. É o que queremos pôr na mesa, e não trocar por parcelas de poder.

Carmen Torres: Significa que vocês descartam, a princípio, as coalizões tri-partidárias.

Teresa Rodríguez: É a nossa posição, mas cada candidatura toma suas decisões. Fazemos um apelo a não procurar atalhos, a obter o máximo do potencial dos parlamentos e das assembleias, para que estas retomem sua importância face aos governos.

Carmen Torres: Alguns partidos advertem que tal situação vai gerar uma perigosa instabilidade das instituições.

Teresa Rodríguez: Creio que estávamos acostumados ao fato de que, quanto maior a estabilidade dos governos, mais os cidadãos sofriam com instabilidades em sua vida cotidiana. As maiorias absolutas aprovam nos conselhos de ministros cada sexta-feira medidas mais duras contra a população. Na quinta-feira metade da população espanhola não está consciente do que vai lhe acontecer na sexta. Essa era a estabilidade das instituições e a instabilidade para o povo. Reformas nos direitos trabalhistas, cortes nas áreas sociais, condições cada vez piores nas escolas, nos postos de saúde… A estabilidade dos governos serviu somente para reduzir os direitos sociais e trabalhistas. Se agora eles enfrentam uma resistência interna para seguir levando adiante o plano de acabar com os direitos sociais na Europa, quem sai ganhando são os cidadãos. Na Bélgica passou-se um ano e meio sem governo e com isso houve uma melhora em todos os indicadores, porque não havia governo para aplicar novas medidas de austeridade, que reduziam salários e privavam as pessoas de consumir. Portanto, o mínimo social foi preservado por um ano e meio. Mas com isso não quero dizer que preferimos que não haja governo. Por outro lado, o governo é provisório perante a assembleia.

Carmen Torres: A que ponto o Podemos se preocupa com as eleições legislativas e como isso influencia os acordos municipais e regionais?

Teresa Rodríguez: No que nos concerne não há influência. Na Andaluzia (2) nós formulamos claramente nossas condições desde o primeiro minuto, desde a reunião de San Telmo após as eleições regionais (3). Nós nos atemos a nossa palavra. Não podemos mudar agora o que planejamos. Ninguém nos disse se aceita ou não essas condições. Não conseguimos nem mesmo que nossos interlocutores socialistas expliquem porque não podem fechar certas contas bancárias do governo.

Carmen Torres: Você acredita que o PSOE tenha sequestrado o Parlamento?

Teresa Rodríguez: Exista uma certa vontade de que o Parlamento não funcione. Mas de qualquer forma, pelo que eu vejo aqui a cada dia, tenho a impressão que o Parlamento jamais teve protagonismo. Esperamos que, assim que se constituam as comissões, se torne um lugar de trabalho intenso. Para nós é tão insólito ser deputado que queremos ter dedicação exclusiva a uma tarefa essencial, a de legislar para nove milhões de habitantes. Me surpreende ver um Parlamento vazio e a falta de respeito em reuniões plenárias. Creio que há falta de respeito pelo Parlamento em geral. Agora mesmo nós estamos nos reunindo com coletivos que estão em conflito com o governo de Andaluzia.

Carmen Torres: Você disse que ao entrar no Parlamento, é preciso enfrentar a “sedução das instituições”. A que você se refere?

Teresa Rodríguez: É necessário prestar atenção porque as pessoas me exigem, entre outras coisas. Quando me veem na rua, no ônibus ou no trem, me pedem para que comecemos a fazer coisas para a população da Andaluzia, que proponhamos soluções e sigamos trabalhando. Dessa maneira é impossível esquecer. É fácil se acomodar nesse espaço, por ser um lugar de reconhecimento, de repente você se torna “vossa Excelência”, trabalha em um lugar bonito, as pessoas na rua lhe reconhecem porque aparece na mídia… Creio que é fácil se acomodar e esquecer que o que se faz aqui é essencial para os cidadãos. Administrar a vida coletiva é uma oportunidade excepcional que nos deram. E foram eles que nos confiaram essa tarefa.

Carmen Torres: Vocês se preocupam com as ameaças de Susana Díaz de refazer as eleições na Andaluzia se não apoiarem a sua posse?

Teresa Rodríguez: Não, mas queremos seguir esse debate e ficamos perplexos ao saber que o PSOE não deseja o mesmo . Recuperar esse diálogo é sério, racional e maduro. É como um jogo de tabuleiro, seguir jogando os dados até chegar à última casa. ■


* Teresa Rodríguez, foi eleita para o Parlamento europeu em 2014. Ela renunciou para conduzir a lista do Podemos para as eleições regionais na Andaluzia (22 de março de 2015) e foi eleita para o Parlamente Andaluz. Militante do movimento Anticapitalistas (seção da IV Internacional na Espanha), ela é secretária-geral do Podemos-Andaluzia. Essa entrevista, realizada pela jornalista Carmen Torres, está disponível no El Mundo de 30 de maio de 2015: www.elmundo.es (Traduzido do espanhol por JM).

1. Nas eleições regionais andaluzas de 22 de março, a lista do Podemos estava no topo em Cádiz, obtendo 18.655 votos. (28,8 %). Nas municipais de 24 de maio, a lista sustentada pelo Podemos (Por Cádiz si se puede) obteve 18.277 votos (27,98%) e oito eleitos; a lista do PP obteve 22.004 votos e dez eleitos; a do PSOE 11.359 votos (17,39%) e cinco eleitos; Ganar Cádiz en comun 5.487 votos (8,4%) e dois eleitos; por fim, a lista de Ciudadanos teve 4.666 votos (7,14%) e dois eleitos. O PP, apesar de ficar em primeiro lugar, precisou do apoio do PSOE para obter a maioria no conselho municipal…
2. Nas eleições regionais na Andaluzia (22 de março) a lista do Podemos ficou em terceiro lugar com 590.011 votos (14,84%) e 15 eleitos, atrás do PSOE (47 eleitos) e do PP (33 eleitos), mas a frente do Ciudadanos (nove eleitos) e da Izquierda Unida (cinco eleitos). O PSOE perdeu a maioria governamental.
3. Teresa Rodríguez e outros deputados do Podemos (15 no total) propuseram três condições para abrir um diálogo com Susana Díaz e explorar a possibilidade de votar na sua posse: 1) Tolerância zero com a corrupção e acabar com a impunidade. Para isso dois ex-presidentes (socialistas) da administração da Andaluzia investigados por corrupção deveriam ser demitidos de suas funções (eles seguem ocupando uma cadeira no Parlamento Andaluz). Consequentemente todas as somas que permitiram o desvio de dinheiro público e financiamento ilegal de campanha devem ser restituídas aos cofres públicos. 2) A comunidade andaluza exclui a possibilidade de assinar contratos com bancos que realizam ordens de despejo. Ela deve se comprometer a não executar nenhuma ordem de despejo se não estiver combinada com um realojamento das pessoas com dificuldades, assim como evitar qualquer situação de exclusão social causadas por despejos gerados por hipotecas. 3) Baixar drasticamente o número de altos funcionários (CCs) e conselheiros políticos na administração andaluza. Mesma coisa para diretorias de empresas públicas. O número e salário dessas pessoas deve se tornar público. A redução desses cargos será correlacionada à restituição de empregos que foram cortados da educação, saúde e serviços de bem-estar social.

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