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Slavoj Žižek sobre a Grécia: a coragem de desesperança

O povo grego não está sendo convidado a engolir muitas pílulas amargas em troca de um plano realista de recuperação econômica: ele está convidado a sofrer para que os outros na União Europeia possam sonhar seu sonho sem serem perturbados.
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O filósofo italiano Giorgio Agamben disse em uma entrevista que “o pensamento é a coragem de desesperança” – uma visão que é especialmente pertinente para o nosso momento histórico, onde até mesmo o diagnóstico mais pessimista como regra termina com uma dica edificante em alguma versão da proverbial “luz no fim do túnel”. A verdadeira coragem não imaginar uma alternativa, mas aceitar as consequências do fato que não há alternativa claramente discernível: o sonho de uma alternativa é um sinal de uma alternativa de uma covardia teórica; ele funciona como um fetiche que nos previne de pensar até o fim o impasse de nossa situação. Em suma, a verdadeira coragem é admitir que a luz no fim do túnel é mais plausível que os faróis de outro trem aproximando-se de nós em sentido oposto. Não há melhor exemplo da necessita de semelhante coragem que a Grécia hoje.

A dupla rotação em forma de u que a crise grega tomou em julho de 2015 pode aparecer como nada mais que um passo da tragédia para a comédia mas, como Stathis Kouvelakis observou na revista Jacobin, da tragédia cheia de reviravoltas dignas de gibis diretamente para o teatro do absurdo. Existe qualquer outro modo de caracterizar a extraordinária inflexão de um extremo para seu oposto que deslumbraria até o mais especulativo dos filósofos hegelianos? Cansados das negociações intermináveis com os executivos da UE nas quais uma humilhação sucedia a outra, SYRIZA convocou um referendo para o domingo 5 de julho perguntando ao povo grego se eles apoiavam ou rejeitavam a proposta da EU de novas medidas de austeridade. Embora claramente o governo apoiasse o voto NÃO, o resultado foi uma surpresa: a maioria esmagadora, mais que 61%, votou NÃO à chantagem europeia. Rumores começaram a circular que o resultado – vitória do governo – foi uma má surpresa para o próprio Alexis Tsipras, que esperava secretamente que o governo perdesse, para que uma derrota lhe permitisse se safar frente uma rendição às exigências da EU (“Nós temos que respeitar a voz dos votantes”). Entretanto, na manhã seguinte, Tsipras anunciou que a Grécia estava pronta para retomar às negociações, e dias mais tarde a Grécia negociava uma proposta com a UE que é basicamente a mesma que os votantes rejeitaram (em alguns detalhes, ainda mais dura). Em resumo, ele agiu como se o governo tivesse perdido, não vencido, o referendo. Como Kouvelakis escreveu:

“Como é possível que um devastador “não” ao memorando das políticas de austeridade fosse interpretado como uma luz verde para um novo memorando?… O sentido do absurdo não é apenas produto desse giro inesperado. Ele decorre sobretudo do fato que tudo isso está desenrolando diante dos nossos olhos como se nada tivesse ocorrido, como se o referendo fosse algo como uma alucinação coletiva que de repente termina, deixando-nos a continuar livremente o que estávamos fazendo antes. Mas como nem todos nós temos amnesia, deixem-nos ao menos dar um breve resumo do que ocorreu em poucos dias decorridos… Desde a manhã da segunda-feira, antes de a vitória que grita nas praças públicas do país tivesse completamente desfalecido, o teatro do absurdo começou…
O público, ainda névoa alegre de domingo, assiste como os representantes dos 62% subordinavam-se aos 38% no rescaldo imediato de uma vitória retumbante da democracia e da soberania popular… Mas o referendo ocorreu. Não era uma alucinação da qual todos tivessem agora se recobrado. Ao contrário, a alucinação é a tentativa de rebaixar o referendo a uma “saída de vapor”, antes de retomar o percurso de descida rumo a um terceiro memorando.”

E as coisas foram nessa direção. Na noite do 10 de julho, o parlamento grego concedeu a Alexis Tsipras autoridade para negociar um novo pacote de resgate por 250 votos a 32, mas 17 deputados não apoiaram o plano, o que significa que obteve mais apoio dos partidos da oposição que do seu próprio partido. Dias mais tarde, o secretariado-político de Syriza, que é dominado pela ala-esquerda do partido, concluiu que as últimas propostas da EU são “absurdas” e “excediam os limites da resistência da sociedade grega” – extremismo esquerdista?

Mas o próprio Fundo Monetário Internacional (neste caso uma voz de capitalismo minimamente racional) fez exatamente a mesma observação: um estudo publicado pelo FMI no dia anterior mostrou que a Grécia necessita de mais alívio da dívida que os governos europeus têm se mostrado dispostos a contemplar até agora – os países europeus teriam que dar a Grécia um período de carência de 30 anos para o serviço de toda sua dívida europeia, incluindo novos empréstimos, e uma dramática extensão do prazo de vencimento…

Não é de se admirar que o próprio Tsipras declarou publicamente sobre o plano de resgate: “Nós não acreditamos nas medidas que nos impuseram uma vez mais”, ele disse em uma entrevista de TV, deixando claro que ele o apoia por puro desespero, para evitar um colapso econômico e financeiro total. Os eurocratas usam tais confissões com perfídia sufocantes: agora que o governo grego aceita suas duras condições, eles duvidam da sinceridade e seriedade de seu compromisso. Como Tsipras pode lutar por um programa se ele não acredita nele? Como pode o governo grego estar realmente compromissado com o acordo quando se opõe ao resultado do referendo?

Entretanto, declarações como as do FMI demonstram que o verdadeiro problema repousa em outro lugar: a UE realmente acredita em seu próprio plano de resgate? Ela realmente acredita que as medidas brutalmente impostas despertarão o crescimento econômico e assim permitir o pagamento das dívidas? Ou será que a motivação última para a brutal pressão extorsiva sobre a Grécia não é puramente econômica (visto que é obviamente irracional em termos econômicos), mas político-ideológica – ou como Paul Krugman colocou no New York Times, “A rendição substantiva não é suficiente para a Alemanha, que deseja uma mudança de regime e uma total humilhação – e há uma facção substancial que quer empurrar a Grécia para fora, e seria mais ou menos bem-vindo um estado falido como uma advertência para o resto.” Deve-se sempre ter em mente o horror que Syriza é para o establishment europeu – um membro do Partido Conservador no Parlamento Europeu até apelou diretamente para o exército grego a fazer um coup d’état a fim que o país seja salvo.

Por que esse horror? Os gregos são convidados a pagar um alto preço, mas não por uma perspectiva realista de crescimento. O preço que eles estão sendo convidados a pagar é para a continuação da “extensa e dissimulada” fantasia. Eles são convidados a aumentar o seu sofrimento real para sustentar o sonho dos outros (Eurocratas). Gilles Deleuze afirmou décadas atrás: Si vous êtes pris dans le rêve de l’autre, vous êtes foutus. (“Se você for pego no sonho de outrem, você está ferrado”). E esta é a situação na qual a Grécia se encontra. Os gregos não estão sendo convidados a engolir muitas pílulas amargas em troca de um plano realista de recuperação econômica, eles estão sendo convidados a sofrer para que outros possam continuar sonhando seu sonho sem serem perturbados.

Quem precisa agora acordar não é a Grécia, mas a Europa. Todo aquele que não estiver preso neste sonho sabe o que nos espera se o plano de resgate é decretado: outros €90 bilhões serão jogados no cesto grego, elevando a dívida grega para cerca de €400 bilhões. A maior parte disso voltará para a Europa ocidental – o verdadeiro resgate é o resgate dos bancos alemães e franceses, não da Grécia – e nós podemos esperar a mesma crise explodir em um par de anos.

Mas esse resultado é realmente um fracasso? Num nível imediato, se alguém compara o plano com seu resultado, obviamente sim. Num nível mais profundo, entretanto, ninguém pode evitar uma suspeita de que o verdadeiro objetivo não é dar uma chance para a Grécia mas transformá-la em um semi-estado colonizado mantido em permanente pobreza e dependência, como um alerta para outros. Mas num nível ainda mais profundo, há novamente um fracasso – não da Grécia, mas da própria Europa, do núcleo emancipatório do legado europeu.

O Não do referendo foi indubitavelmente um grande ato ético-político: contra a bem-coordenada propaganda inimiga espalhando temores e falsidades, sem nenhuma perspectiva clara do que vem pela frente, contra todas as probabilidades pragmáticas e “realistas”, o povo grego heroicamente rejeitou a brutal pressão da UE. O Não grego foi um gesto autêntico de liberdade e autonomia, mas a grande questão é, com certeza, o que acontece no dia depois, quando nós temos que voltar do êxtase da negação para o sujo negócio de cada dia – e aqui, outra unidade emergiu, a unidade de forças “pragmáticas” (Syriza e os partidos da grande oposição) contra a esquerda de Syriza e a Aurora Dourada. Mas isso significa que a longa luta de Syriza foi em vão, que o Não do referendo foi apenas um gesto sentimental vazio, destinado a fazer uma capitulação mais palatável?

O aspecto catastrófico da crise grega é que o momento em que a escolha apareceu como um Grexit ou uma capitulação a Bruxelas, a batalha já estava perdida. Ambos os termos dessa escolha se movem dentro da predominante visão eurocrática (lembrando que os alemães linha-dura anti-Grécia tais como Wolfgang Schäuble também preferem o Grexit!). O governo Syriza estava lutando não apenas para um maior alívio da dívida e para mais injeção de dinheiro dentro das mesmas coordenadas globais, mas para o despertar da Europa de seu sono dogmático.

Nisso reside a autêntica grandeza de Syriza: na medida que o ícone do descontentamento popular na Grécia foram os protestos na Praça Syntagma (Constituição), Syriza engajou-se em um trabalho hercúleo de aprovar a mudança de paradigma para o Syntagma, no longo e paciente trabalho de traduzir a energia da rebelião em medidas concretas que mudariam a vida cotidiana do povo. Nós devemos ser bastante precisos aqui: o Não do referendo Grego não foi um Não à “austeridade” no sentido de sacrifícios necessários e trabalho duro, mas um Não ao sonho da UE de continuar com sua ordem atual.

O ex-ministro das Finanças do país, Yanis Varoufakis, repetidamente fez esta clara observação: não mais empréstimos, mas sobretudo um novo curso era necessário para dar a economia grega uma chance para se recuperar. O primeiro passo nessa direção deveria ser um aumento da transparência democrática de nossos mecanismos de poder. Nossos aparelhos de estado democraticamente eleitos são, então, redobrados por uma grossa rede de “acordos” e corpos de “experts” não eleitos, que perfazem um potência econômica (e militar) real. Aqui está o relato de Varoufakis sobre um extraordinário momento em suas tratativas com o negociador da EU Jeroen Dijsselbloem:

“Houve um momento em que o presidente do Eurogrupo decidiu se mover contra nós e efetivamente nos afastar, e fez saber que a Grécia estava essencialmente no seu caminho para fora da Zona do Euro /. . . / Há uma convenção que comunicados devem ser ser unânimes, e o presidente não pode simplesmente convocar uma reunião da Zona do Euro e excluir um estado-membro. E ele disse, “Oh, eu tenho certeza que eu posso fazer isso”. Então eu pedi uma opinião legal. Criou-se um pouco de tumulto.
Por cerca de cinco a dez minutos a reunião foi interrompida; assessores, funcionários estavam conversando com outros em seus telefones; e eventualmente algum funcionário, algum expert legal se dirigiu a mim, e disse as seguintes palavras: “Bem, o Eurogrupo não existe na lei: não há um tratado que tenha convocado esse grupo.” Então o que nós tínhamos é um grupo não-existente que tinha o maior poder de determinar as vidas dos europeus. Ele não é responsável perante ninguém, dado que ele não existe na lei; nem as minutas são mantidas; e ele é confidencial. Então nenhum cidadão jamais sabe o que é dito dentro do Eurogrupo… Essas decisões são quase de vida ou morte, e nenhum membro tem que prestar contas para alguém.”

Soa familiar? Sim, para alguém que sabe como o poder chinês funciona hoje em dia, depois de Deng Xiaoping colocar em ação um sistema único dual: o aparato estatal e o sistema legal são redobrados pelas instituições do Partido, que são literalmente ilegais – ou, como He Weifang, um jurista de Beijing, descreveu sucintamente: “Como uma organização, o Partido se situa fora e acima da lei. Ele deveria ter uma identidade legal – em outras palavras, uma pessoa para ser processada – mas ele não é sequer registrado como uma organização. O Partido existe totalmente fora do sistema legal” (Richard McGregor, The Party, Londres: Allen Lane 2010, página 22). Isso é como se, nas palavras de McGregor, a violência fundante do estado permanecesse presente, corporificada em uma organização com um status legal incerto:

“Parece difícil esconder uma organização tão grande como o Partido Comunista Chinês, mas este cultiva seu papel nos bastidores com cuidado. As grandes seções de controle pessoal e a mídia do partido mantêm um perfil público propositalmente baixo. Os comitês do partido (conhecidos como “pequenos grupos de direção”), que guiam e ditam a política para os ministérios, os quais por sua vez têm o trabalho de executá-las, trabalham fora da visão pública. A composição de todos esses comitês, e em muitos casos até sua existência, é raramente reportada na mídia controlada pelo estado, muito menos qualquer discussão de como eles chegam às decisões.”

Não surpreende que exatamente a mesma coisa aconteceu tanto com Varoufakis quanto com um dissidente chinês que, há alguns anos, formalmente foi ao tribunal e acusou o Partido Comunista Chinês como sendo responsável pelo Massacre de Tiananmen. Depois de alguns anos, ele obteve uma resposta do ministro da Justiça: eles não podem proceder sua acusação, por não há nenhuma organização chamada “Partido Comunista Chinês” oficialmente registrado na China.

E é crucial notar como o inverso dessa falta de transparência do poder é o falso humanitarismo: depois da derrota grega, há, com certeza, tempo para as preocupações humanitárias. Jean-Claude Juncker imediatamente declarou numa entrevista que ele estava muito contente com o acordo de resgate, porque iria imediatamente aliviar o sofrimento do povo grego, que o preocupava muito. Cenário clássico: depois de uma repressão política, preocupação humanitária e ajuda… até mesmo adiar o pagamento da dívida.

O que se deve fazer alguém em situação tão desesperadora? Deve-se resistir a tentação do Grexit como um grande ato heroico de rejeitar mais humilhação e caminhar para fora – rumo ao quê? Para qual nova ordem positive nós estamos caminhando? A opção Grexit aparece como o “real-impossível”, como algo que levaria à desintegração social imediata. Krugman escreve: “Tsipras aparentemente permitiu-se ser convencido, algum tempo atrás, que a saída do euro era completamente impossível. Parece que Syriza nem sequer fez qualquer planejamento de contingência para uma moeda paralela (eu espero descobrir que isso não confere com a realidade). Isso o deixou em uma desesperadora posição de barganha.”

O ponto de Krugman é que o Grexit é também um “impossível-real”, que pode acontecer com consequências imprevisíveis e que, portanto, pode ser arriscado. “Todas as cabeças pensantes que dizem que o Grexit é impossível, que isso levaria a uma complete implosão, não sabem do que estão falando. Quando eu digo isso, eu não quero dizer que eles estão necessariamente errados – eu acredito que eles estão, mas qualquer um que esteja confiante sobre qualquer coisa aqui está se iludindo. O que eu quero dizer ao invés disso é que ninguém tem qualquer experiência para o que nós estamos olhando.”

Enquanto, a princípio, isso é verdade, há, no entanto, muitas indicações que um súbito Grexit agora levaria à absoluta catástrofe econômica e social. Os estrategistas econômicos estão bem cientes que tal atitude causaria uma queda mais do que imediata no padrão de vida em algo no mínimo de 30 %, trazendo a miséria um novo nível insuportável, com a ameaça de indignação popular e até ditadura militar. A perspectiva de semelhantes atos heroicos é, portanto, uma tentação a ser resistida.

Depois, há as chamadas para o Syriza retornar às suas raízes: ele não deve se tornar apenas mais um partido parlamentar que governa; a verdadeira mudança só pode vir das raízes da grama, do próprio povo, de sua auto-organização, não dos aparelhos de estado… outro caso de postura vazia, porque se evita o problema crucial, que é como lidar com a pressão internacional no que diz respeito à dívida, ou mais geralmente , como exercer o poder e administrar um estado. A auto-organização das raízes não pode substituir o estado, e a questão é como reorganizar o aparato estatal para que funcione de modo diferente.

Não é, todavia, suficiente afirmar que Syriza deve heroicamente ir à luta, testando o que é possível – a luta continua: ela apenas começou. Em vez de nos determos nas “contradições” da política de Syriza (depois de um triunfante Não, aceita-se muito do programa que foi rejeitado pelo povo) e de nos apegarmos em recriminações mútuas sobre quem é culpado (a maioria de Syriza cometeu uma “traição” oportunista, ou a esquerda foi irresponsável em suas preferências pelo Grexit?), deveríamos nos focar mais no que o inimigo está fazendo. As “contradições” de Syriza são um reflexo das “contradições” do establishment da UE, que mina gradualmente as próprias fundações da Europa unida.

Sob o disfarce de “contradições” de Syriza, o establishment da UE está apenas recebendo de volta sua própria mensagem em sua forma verdadeira. E isso é o que Syriza deveria estar fazendo agora. Com pragmatismo cruel e cálculo frio, dever-se-ia explorar as menores rachaduras na armadura do oponente. Deveria usar todos os que resistem às políticas da UE, dos conservadores britânicos ao Ukip no Reino Unido. Deveria flertar descaradamente com a Rússia e a China, jogando com a ideia de dar uma ilha para a Rússia como sua base militar no Mediterrâneo, só para assustar a merda dos estrategistas da OTAN. Parafraseando Dostoievski, agora que o Deus UE fracassou, tudo é permitido.

Quando se ouve críticas que a administração da UE brutalmente ignora o sofrimento do povo grego em sua obsessão cega por humilhar e disciplinar os gregos, que mesmo os países do sul europeu como Itália e Espanha não demonstram qualquer solidariedade com a Grécia, nossa reação deveria ser: mas há qualquer surpresa nisso tudo? O que os críticos esperavam? Que a administração da UE fosse magicamente compreender o argumento de Syriza e agiria com complacência com eles? A administração da EU está simplesmente fazendo o que ela sempre esteve fazendo. Depois há a acusação de que a Grécia está procurando a ajuda da Rússia e da China – como se a própria Europa não estivesse empurrando a Grécia naquela direção com sua pressão humilhante.

Depois há a alegação de que o fenômenos como Syriza demonstram como a dicotomia esquerda/direita sobreviveu. Syriza na Grécia é a chamada “extrema-esquerda”, e Marine Le Pen na França “extrema-direita”, mas esses dois partidos com efeito tem muito em comum: ambos lutam pela soberania do estado, contra as corporações multinacionais. É portanto bastante lógico que, na própria Grécia, Syriza esteja em coalizão com um pequeno partido direitista pró-soberania. Em 22 de abril de 2015, François Hollande disse na TV que Marine Le Pen hoje soa como George Marchais (um dirigente comunista francês) nos anos 1970 – a mesma defesa patriótica da situação dos franceses comuns explorado pelo capital internacional – então ele não estava surpreso que Marine Le Pen apoie Syriza… Foi uma declaração esquisita, que não diz muito mais que o velho truísmo liberal que o fascismo é também um tipo de socialismo. No momento em que trazemos para relevo o assunto dos trabalhadores imigrantes, todo esse paralelo desmorona.

O problema ultimo é algo muito mais básico. A recorrente história da esquerda contemporânea é aquela de um líder ou partido eleito com entusiasmo universal, prometendo um “novo mundo” (Mandela, Lula) – mas então, mais cedo ou mais tarde, depois de alguns alnos, ele ou ela tropeça no dilema-chave: The ultimate problem is a much more basic one. The recurrent story of the contemporary left is that of a leader or party elected with universal enthusiasm, promising a “new world” (Mandela, Lula) – but then, sooner or later, usually after a couple of years, he or she stumbles upon the key dilemma: atrever-se a tocar nos mecanismos capitalistas ou decidir-se por “jogar o jogo”? Se alguém perturba os mecanismos, esse alguém é muito rapidamente “punido” pelas perturbações do mercado, caos econômico e todo o resto.

O heroísmo de Syriza era que, depois de vencer a batalha política democrática, eles se arriscaram um passo adiante em perturbar o bom funcionamento do Capital. A lição da crise grega é que o Capital, embora seja em última instância uma ficção simbólica, é o nosso Real. Ou seja, os protestos e revoltas de hoje em dia são sustentados pela combinação (sobreposição) de diferentes níveis, e essa combinação é responsável por sua força: eles lutam pela democracia (parlamentar “normal) contra regimes autoritários; contra o racismo e o sexismo, especialmente contra o ódio dirigido aos imigrantes e refugiado; pelo estado de bem-estar social contra o neoliberalismo; contra a corrupção na política e na economia (companhias poluentes do meio-ambiente, etc); por novas formas de democracia que transbordem os rituais multipartidários (participação, etc); e, finalmente, questionando o sistema capitalista como tal e tentando manter viva a ideia de uma sociedade não-capitalista. Duas armadilhas devem ser evitadas aqui: o falso radicalismo (“O que realmente importa é a abolição do capitalismo liberal-parlamentar; todas as outras lutas são secundárias”), assim como o falso gradualismo (“Agora nós lutamos contra a ditadura militar e por uma democracia simples; esqueça os seus sonhos socialistas: isso vem mais tarde – talvez…”).

Quando temos que lidar com uma luta específica, a questão-chave é: como o nosso envolvimento nela ou desprendimento dela afetará as outras lutas? A regra geral é que, quando uma revolta começa contra um regime opressor semi-democrático, como era o caso do Oriente Médio em 2011, é fácil mobilizar grandes multidões com slogans que não são possíveis mas que agradam as massas – por democracia, contra a corrupção, etc. Mas depois nós gradualmente nos aproximamos mais de escolhas difíceis: quando nossa revolta atinge o seu objetivo direto, nós percebemos que aquilo que realmente nos incomodava (nossa não-liberdade, humilhação, corrupção social, falta de perspectiva de uma vida decente) continua em uma nova roupagem. No Egito, manifestantes conseguiram se livrar do regime opressivo de Mubarak, mas a corrupção se manteve, e a perspectiva de uma vida decente ficou ainda mais distante. Depois da derruba de um regime autoritário, os últimos vestígios de paternalismo com os pobres podem cair também, de modo que a liberdade recém-adquirida é, de fato, reduzida à liberdade de escolher a forma preferida de sua miséria: a maioria não somente permanece pobre, mas, para adicionar insulto à injúria, eles estão sendo informados que, por causa de sua nova liberdade, a pobreza é sua própria responsabilidade. Em tal situação, temos que admitir que houve uma falha na nossa própria meta, que essa meta não era suficiente específica – digamos que o padrão de democracia política pode também server com uma forma de não-liberdade: liberdade política pode facilmente fornecer a estrutura legal para a escravidão econômica, com os desvalidos vendendo-se “livremente” para servidão. Nós somos então levados a exigir mais que apenas democracia política: democratização também da vida social e econômica. Em suma, nós temos que admitir que aquilo que nós antes tomamos como um fracasso em realizar plenamente um princípio nobre (liberdade democrática) é um fracasso inerente ao seu próprio princípio. Aprender esse movimento da distorção de uma noção, sua incompleta realização, para a distorção imanente a essa noção é o grande passo da pedagogia política.

A ideologia dominante mobiliza aqui seu arsenal inteiro para nos impedir de chegar a essa conclusão radical. Ela começa a nos falar que liberdade democrática traz sua própria responsabilidade, que isso vem com um preço, que nós não estamos maduros ainda se nós esperamos muito da democracia. Deste modo, ela nos culpa por nosso fracasso: numa sociedade livre, assim nos dizem, todos nós somos capitalistas, investindo em nossas vidas, decidindo colocar mais em nossa educação que nos divertindo caso queiramos ser bem-sucedidos, etc. Num nível mais diretamente politico, a política externa dos Estados Unidos elaborou uma estratégia detalhada de como exercer o controle de danos por meio da canalização da revolta popular para as aceitáveis restrições capitalistas-parlamentares – como ocorreu com sucesso na África do Sul depois da queda do regime do apartheid, nas Filipinas depois da queda de Marcos, na Indonésia depois da queda de Suharto, e assim por diante. Nessa conjuntura precise, a política radical emancipatória enfrenta seu maior desafio: como empurrar para mais além depois que a primeira fase de entusiasmo acaba, como dar o próximo passo sem sucumbir à catástrofe da tentação “totalitária”- em síntese, como mover-se para além de Mandela sem se tornar Mugabe.

A coragem de desesperança é crucial nesse momento.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

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