Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

Richard Levins, um biólogo dialético

 A morte de Levins, há um mês, significou uma perda para a comunidade científica e para o marxismo

O biólogo estadunidense Richard Levins, professor de Harvard, faleceu em 19 de janeiro de 2016, aos 94 anos. Ainda muito pouco conhecido no Brasil, Dick Levins, como é conhecido, foi um comprometido militante e prestigiado cientista. Escreveu, em conjunto com Richard Lewontin o livro “The Dialectical Biologist”, em que combate o reducionismmo e determinismo científico, afirmando a importância de se considerar a relação entre parte e todo. Foi um ativista ecossocialista tendo atuado em Porto Rico, Cuba e prestado assistẽncia a movimentos sociais de muitos países. Foi um dos entusiastas do movimento Science For The People, que segue produzindo conhecimento a serviço dos explorados e oprimidos do planeta.

Como forma de homenageá-lo a um mês de seu falecimento, trazemos a tradução de um de seus textos, escrito em 2008, já num momento de crise econômica mundial. O texto demonstra a clareza na sua avaliação política  e científica e é praticamente um testamento, recapitulando as principais contribuições de sua vida para a ciência e para a política.

 


 

Viver a tese 11

Richard Levins*

*Department of Population and International Health (Harvard School of Public Health)

Tradução: Maíra Tavares Mendes

(traduzido da versão em espanhol publicada na Revista Laberinto nº 28 / 3o quadrimestre de 2008)

Os filósofos não fizeram mais do que interpretar de diversos modos o mundo, mas agora se trata de transformá-lo.

Karl Marx, Teses sobre Feuerbach

Quando era um menino sempre tive claro que, quando me tornasse um homem, seria ou cientista ou um vermelho. Ao invés de deparar-me com o problema de como conciliar a militância com a atividade acadêmica, tinha dificuldade de separá-las.

Antes mesmo de saber ler, meu avô lia para mim Ciência e História para Meninas e Meninos (Science and History for Girls and Boys), de Bad Bishop Brown’s.1 Estava convencido de que todo trabalhador socialista deveria estar familiarizado, no mínimo, com a cosmologia, a evolução e a história. Eu nunca separei a história, em que todos participamos ativamente, da ciência, essa investigação sobre como são as coisas. Minha família havia abandonado a religião organziada havia cinco gerações, mas meu pai me fazia sentar para estudar a Bíblia todas as sextas porque era parte importante da cultura que nos rodeava e algo importante para muita gente, um relato fascinante de como as ideias se desenvolvem em condições mutáveis, e porque todo ateu deveria conhecê-la assim como os crentes.

Meu primeiro dia de escola: minha avó insistiu que eu deveria aprender tudo que pudessem me ensinar… mas não acreditar em tudo. Ela era muito consciente da “ciência racial” da Alemanha dos anos 1930 e as justificativas eugênicas e supremacia masculina, tão populares em nosso país. Sua atitude vinha de um conhecimento dos usos da ciência a serviço do poder e do privilégio, e uma desconfiança própria dos trabalhadores a respeito de seus governantes. Seu conselho deu forma a meu posicionamento na vida acadêmica.

Cresci em um bairro de esquerda do Brooklyn onde as escolas fechavam no primeiro de maio e onde conheci, com doze anos, meu primeiro republicano. No caminho de madeira de Brighton Beach se debatiam constantemente em grupo questões de ciência, política e cultura, conversas que eram também o pão nosso de cada dia das mesas e sobremesas. O compromisso político era algo fora de dúvida: como atuar em relação a tal compromisso era assunto que gerava as discussões mais ferozes.

Comecei a me interessar na genética quando adolescente, porque me fascinou o trabalho do cientista soviético Lysenko. No fim ele estava totalmente equivocado, especialmente por ter chegado a conclusões biológicas a partir de princípios filosóficos. Contudo, suas críticas à genética de seu tempo me levaram à obra de  Waddington y Schmalhausen e outros que não só o rechaçariam unicamente pelo típico da Guerra Fria, mas que tinham que responder a seu desafio desenvolvendo uma visão mais profunda da interação entre o organismo e o meio.

Minha mulher, Rosario Morales, me colocou em contato com Porto Rico em 1951 e os onze anos que passei ali deram uma perspectiva latinoamericana a minha forma de entender a política. As recentes vitórias da esquerda na América do Sul são inclusive uma fonte de otimismo nestes tempos sombrios. A vigilância do FBI em Porto Rico me bloqueou o acesso aos trabalhos que estava buscando e, para ganhar a vida, acabei como agricultor em uma fazenda nas montanhas do oeste da ilha.

Quando era estudante da Cornell University School of Agriculture me ensinaram que o principal problema da agricultura nos Estados Unidos era como se livrar dos excedentes das fazendas. Mas como um fazendeiro em uma região pobre de Puerto Rico eu percebi a importância da agricultura para a vida das pessoas. Essa experiência me ensinou as realidades da pobreza, como mina a saúde, encurta a vida, fecha portas e endurece o desenvolvimento pessoal, e as formas específicas que o sexismo assume em áreas rurais pobres. A organização direta do trabalho em plantações de café se combinava com o estudo. Rosario e eu escrevemos o programa agrário do Partido Comunista de Porto Rico no qual combinamos análises econômicaa e sociais nem tão sérias com o que começava  a ser alguma compreensão do funcionamento de métodos de produção ecológica, da diversificação conservação e cooperativas.

Eu fui a Cuba pela primeira vez em 1964 para ajudar no desenvolvimento da genética de sua população e ter um vislumbre da Revolução Cubana. Ao longo dos anos eu terminei me implicando na luta cubana pela agricultura ecológica e uma forma ecológica de desenvolvimento económico que era justo, igualitário e sustentável. O pensamento progressista, tão potente na tradição socialista, supunha que os países em desenvolvimento tinham de atingir o nível dos países avançados como único caminho para a modernização. Rechaçava aos que criticavam a via da alta tecnologia da agricultura industrial taxando-os de “idealistas”, sentimentalistas da cidade nostálgicos de uma idade de ouro rural bucólica que nunca existiu na realidade. Mas havia outra visão: a de que cada sociedade cria suas próprias formas de se relacionar com o resto da natureza, seu modo particular de uso da terra, sua tecnologia adequada, os seus próprios critérios de eficiência. Essa discussão se tornou mais acirrada em Cuba nos anos 1970 e pelos 1980 o modelo ecológico quase ganhou o jogo, embora a sua implementação levaria tempo. O Período Especial, o momento de crise econômica após o colapso da União Soviética, quando não havia materiais de alta tecnologia disponível, fez com que os ambientalistas por convicção recrutassem os ambientalistas por necessidade. Isso só foi possível porque os ambientalistas por convicção haviam preparado o caminho.

Meu primeiro contato com o materialismo histórico teve lugar durante a minha adolescência precoce, através dos escritos dos cientistas marxistas britânicos JBS Haldane, JD Bernal, Joseph Needham e outros, e, posteriormente, Marx e Engels. Fiquei imediatamente cativado tanto intelectual quanto esteticamente. A visão dialética da natureza e da sociedade tem sido um tema importante da minha pesquisa desde então. Fiquei encantado com a ênfase dialética na totalidade, a conexão e o contexto, a mudança, a historicidade, a contradição, a irregularidade, a assimetria, e na multiplicidade de níveis dos fenômenos, um contrapeso alentador ao reducionismo dominante então e agora.

Um exemplo: quando Rosario me sugeriu que eu assististe a mosca drosófila no ambiente natural e não somente em frascos de laboratório, comecei a trabalhar com drosófila no nosso bairro em Porto Rico. A minha pergunta era a seguinte: como a espécie de drosófila suporta os gradientes temporais e espaciais em seu meio? Comecei a examinar as muitas maneiras em que diferentes espécies de Drosophila respondiam aos desafios ambientais semelhantes. Em um único dia, podia reunir Drosophila nos desertos do Guánica e em florestas tropicais de nossa fazenda no topo da serra. Descobriu-se que algumas espécies se adaptam fisiologicamente a altas tempera-turas em dois ou três dias, mostrando relativamente poucas diferenças genéticas à tolerância ao calor ao longo de um gradiente de 3.000 metros. Outras tinham subpopulações genéticas definidas em diferentes habitats. Outras inclusive se adaptavam e habitavam só uma parte dos meios disponíveis. Uma das espécies do deserto não tolerava melhor o calor que qualquer drosófila da floresta tropical, mas era muito mais hábil em buscar microlugares frescos e úmicos e esconder-se neles depois das 20:00 ou assim. Esses achados levaram-me a descrever os conceitos de seleção co-gradiente na qual o impacto direto do meio aumenta diferenças genéticas entre as populações, e a seleção contra-gradiente, em que as diferenças genéticas compensa o impacto direto do meio. Posto que em minha seção transversal as altas temperaturas estavam associadas a condições secas, a seleção natural atuava incrementando o tamanho das moscas em Guánica,wnconto o efeito da temperatura as deixava em menor tamanho. O resultado foi que as moscas do deserto a nível do mar e a floresta tropical tinham mais ou menos o mesmo tamanho em seus próprios habitats, mas as moscas de Guánica eram maiores se fossem criadas com a mesma temperatura que as do bosque tropical.

Neste trabalho, questionei o viés reducionista dominante na biologia insistindo que os fenômenos ocorrem em diferentes níveis, cada um com suas próprias leis, mas também conectados. Meu enfoque foi dialético: a interação entre adaptações nos níveis fisiológicos, comportamentais e genéticos. Minha preferência pelo processo, a variabilidade e a mudança deu as bases para a minha tese.

O problema era o seguinte: como as espécies podem se adaptar ao meio quando o meio não era sempre o mesmo. Quando comecei a trabalhar na tese fiquei intrigado com a fácil suposição de que, quando confrontados com necessidades conflitantes, por exemplo quando o meio favorece um tamanho pequeno numa parte do tempo e um tamanho grande o resto do tempo, um organismo teria que adotar um estado intermediário como uma forma de compromisso. No entanto, esta é uma aplicação irrefletida, mecânica, um lugar comum liberal: a de que quando há pontos de vista opostos a verdade fica em algum lugar no meio do caminho. Na minha dissertação, o estudo dos padrões de adaptação foi uma tentativa de examinar quando uma posição intermediária é realmente a ideal e quando é a pior escolha possível. A resposta simples resultou ser que quando as alternativas não são muito diferentes, uma posição intermediária é certamente ideal, mas quando elas são muito diferentes em comparação com a gama de tolerância da espécie, então é preferível uma extremidade ou, em alguns casos uma mistura de extremidades.

O trabalho da seleção natural em populações genéticas assumiu quase sempre uma média constante, mas o que me interessava era sua inconstância. Propus que a “variação do meio-ambiente” deve ser uma resposta a muitas questões de ecologia evolutiva e que os organismos se adaptam não só às características ambientais específicas, tais como alta temperatura ou solos alcalinos, mas também ao padrão do seu meio: sua variabilidade, sua incerteza, o grau de suas disparidades, as correlações entre diferentes aspectos do ambiente. Além disso, esses padrões do meio não são simplesmente dados, exteriores ao organismo: os organismos selecionam, transformam e definem seus próprios meios.

Independentemente do assunto ou objeto de uma investigação (ecologia evolutiva, agricultura, saúde pública), meu principal interesse sempre foi o de compreender a dinâmica de sistemas complexos. Além disso, meu compromisso político exige que eu questione a relevância do meu trabalho. Em um poema Brecht diz: “Realmente vivemos em uma época terrível … quando falar de árvores é quase um crime, porque é uma maneira de calar a injustiça.” Brecht, é claro, estava errado em relação às árvores: hoje em dia quando se fala de árvores não estamos ignorando a injustiça. Mas ele estava certo: a pesquisa acadêmica que é indiferente ao sofrimento humano é imoral.

A pobreza e a opressão custam anos de vida e saúde, diminuem os horizontes e cortam os talentos potenciais antes que eles possam florescer. O meu apoio e compromisso com as lutas dos pobres e oprimidos e meu interesse na variabilidade em conjunto fizeram que centrasse minha atenção nas vulnerabilidades sociais e psicológicas das pessoas.

Estudei a capacidade do corpo de se auto-recuperar depois de sofrer desnutrição, contaminação, insegurança e cuidado com a saúde insuficiente. O estresse continuado prejudica mecanismos estabilizadores nos corpos das populações oprimidas tornando-as mais vulneráveis a qualquer coisa, a pequenas diferenças em seus meios. Isto se mostra na variabilidade aumentada da pressão arterial, no índice de massa corporal e na expectativa de vida, em comparação com resultados mais uniformes em populações confortáveis.

Ao examinar os efeitos da pobreza, não basta examinar que diferente doenças são as mais comuns em populações diferentes. Embora certos patógenos ou contaminantes possam precipitar ou favorecer o aparecimento de determinadas doenças, as condições sociais criam uma vulnerabilidade mais difusa que corresponde a doenças sem relação clínica. Por exemplo, a desnutrição, infecção ou contaminação podem abrir uma brecha nas barreiras de proteção do intestino. Uma vez rompidas, por qualquer dessas razões, tornam-se ponto de invasão de contaminantes, micróbios ou alérgenos. Portanto, os problemas de nutrição, as doenças infecciosas, o estresse e os elementos tóxicos causam uma grande variedade de doenças sem qualquer relação aparente.

A noção dominante desde os anos sessenta foi que as doenças infecciosas desapareceriam com o desenvolvimento econômico. Na década de 90 eu contribuí para a criação Harvard Group on New and Resurgent Disease, que rechaçava essa ideia. Nosso argumento foi em parte ecológico: a rápida adaptação de vetores a habitats em mudança: desmatamento, projetos de irrigação, e deslocamento de populações pela guerra e pela fome. E a igualmente rápida adaptação dos patogéneos aos pesticidas e antibióticos. Mas também criticávamos o isolamento físico, institucional e intelectual da investigação médica da patologia da flora e os estudos veterinários que poderiam ter mostrado há tempos o padrão amplo de recrudescimento: malária, cólera e AIDS, mas também a febre suína africana, a leucemia felina, a doença “tristeza dos citros”, e o vírus do mosaico do fumo. Esperamos por mudanças epidemiológicas com o crescimento das disparidades econômicas e com as mudanças do uso da terra, o desenvolvimento econômico, o assentamento humano e a demografia. A fé na eficácia dos antibióticos, vacinas e pesticidas contra as plantas, os animais e os patógenos humanos é ingênua à luz da evolução adaptativa. Os acontecimentos estão mostrando que as esperanças desenvolvimentistas de que o crescimento econômico levará o resto do mundo à abundância e à eliminação das doenças infecciosas são um erro.

O ressurgimento das doenças infecciosas é uma das muitas manifestações de uma crise mais geral: a síndrome da angústia ecossocial. Uma crise em vários níveis e onipresente das relações disfuncionais entre nossa espécie e a natureza. Desta forma parte toda uma rede de ações e reações, padrões de doenças, relações de produção e reprodução, demografia, nosso esgotamento e destruição obstinada e sem sentido de fontes naturais, a mudança no uso da terra e no assentamento e as mudanças climáticas em nível global. Trata-se de uma crise mais profunda do que as anteriores, que penetra profundamente na atmosfera, nas profundezas da terra, mais extensa no espaço e de maior duração, alcançando os lugares mais recônditos de nossas vidas. Trata-se de uma crise geral da espécie humana e uma crise específica do capitalismo mundial. Portanto, constitui a principal preocupação tanto de minha ciência como de minha forma de entender e de fazer política.

É certo que a complexidade desta síndrome em nível mundial pode ser assustadora, mas esquivar-se da complexidade deixando o sistema de lado para tratar os problemas em separado pode ser desastroso. Os grandes fracassos da tecnologia científica derivam-se de propor problemas em perspectivas estreitas. Os cientistas do campo da agricultura que propuseram uma Revolução Verde sem ter em conta a evolução das pragas e a ecologia de insetos, esperando portanto que os pesticidas controlariam as pragas, acabaram surpreendendo-se com o fato de a aspersão ter aumentado o problema das pragas. De forma semelhante, os antibióticos criaram novos patógenos, o desenvolvimento econômico cria a fome, e o controle de inundações gera inundações. Todos problemas que têm de ser resolvidos considerando sua rica complexidade; o mesmo estudo da complexidade torna-se uma prática urgente, assim como um problema teórico.

Estes são os interesses que informam o meu trabalho político: dentro da esquerda, a minha tarefa tem consistido em defender que nossas relações com o resto da natureza não podem se separar de uma luta global pela libertação humana, enquanto no interior do movimento ambientalista a minha tarefa tem sido questionar e desafiar o idealismo da “harmonia natural” do ambientalismo do primeiro período, e insistir na necessidade de identificar relações sociais que conduzem à disfuncionalidade atual. Por outro lado, a minha política determinou minha ética científica. Creio que todas as teorias que promovam, justifiquem ou tolerem a injustiça estão equivocadas.

Uma crítica pela esquerda da estrutura da vida intelectual é um contrapeso para à cultura de universidades e fundações. O movimento anti-guerra de 1960 e 1970 se posicionou ante questões como a natureza da universidade como um órgão de dominação de classe e fez da própria comunidade intelectual tanto um objeto de interesse teórico quanto prático. Eu mesmo me uni a Science for the People, uma organização que começou em 1967 com uma greve de pesquisa no MIT (Massachusetts Institute of Technology), como protesto contra a pesquisa militar no campus. Como membro, ajudei no desafio à Revolução Verde e ao determinismo genético. A militância anti-guerra também me levou ao Vietnã para investigar os crimes de guerra (especialmente o uso de desfolhantes) e a partir disso a organizar o Science for Vietnam. Denunciamos o uso do Agente Laranja (desfolhante usado na selva do Vietnã) que estava causando defeitos congênitos em camponeses vietnamitas. O agente de laranja era uma das piores utilizações de herbicidas químicos.

O movimento de independência de Puerto Rico fez crescer em mim uma consciência anti-imperialista que me serve bem em uma universidade que promove a “reforma estrutural” e outros eufemismos do império. O intenso feminismo de classe de minha esposa é uma fonte constante de crítica do elitismo e sexismo onipresentes. O trabalho frequente com Cuba me mostra, de forma vívida, que há uma alternativa a uma sociedade competitiva, individualista e exploradora.

As organizações comunitárias, especialmente em comunidades marginalizadas, e o movimento de saúde das mulheres levantam questões que o mundo acadêmico prefere ignorar: as mães de Woburn percebendo que muitos de seus filhos do mesmo bairro tinham leucemia. As centenas de grupos de justiça ambiental que perceberam que o despejo de produtos tóxicos concentram-se em áreas de negros e latinos. O projeto Women’s Community Cancer e outros que insistiam sobre as causas ambientais doo câncer e outras doenças, enquanto os laboratórios universitários estão à procura de “genes culpados”. Suas iniciativas ajudaram-me a manter uma agenda alternativa tanto na teoria quanto na ação.

Dentro da universidade eu tenho uma relação contraditória com a instituição e com os colegas, uma combinação de cooperação e conflito. É possível que compartilhemos uma preocupação pelas diferenças na saúde e na persistente pobreza, mas surgem conflitos quando se trata de pesquisas pagas com recursos de corporações para patentes de moléculas e agências governamentais, como a AID, que buscam objetivos do império3.

Eu nunca aspirei ao que se convencionou chamar de uma “carreira de sucesso” na academia. Eu não estou procurando o melhor de minha realização como pessoa na recompensa formal e no sistema de reconhecimento da comunidade científica e tento não compartilhar das suposições comuns de minha comunidade profissional. Isso me proporciona uma grande liberdade de escolha. Assim, quando eu decidi não participar da National Academy of Science, recebi muitas cartas de apoio elogiando minha coragem ou considerando-a uma decisão difícil. Eu posso dizer com toda honestidade que não foi uma decisão difícil, mas simplesmente uma escolha política tomada coletivamente pelo grupo Science for the People, em Chicago. Julgamos que era mais útil posicionar-se publicamente contra a colaboração da Academia na Guerra do Vietnam-EUA do que unir-se à Academia e tentar influenciar suas ações a partir de dentro. Dick Lewontin já havia tentado, sem sucesso, e havia renunciado, juntamente com Bruce Wallace.

A maior parte da minha pesquisa coloca os seus objectivos em dois níveis: o problema particular próximo e alguma questão teórica ou controvérsia mais fundamental. O estudo da adaptação à temperatura de moscas da frutas também foi um argumento para múltiplos níveis de causalidade. A Teoria do Nicho 4 também foi uma incursão à interpenetração dos contrários (organismo e ambiente). A biogeografia tratava dos múltiplos níveis de dinâmica ecológica e evolutiva. O manejo ecológico de pragas também foi uma demanda por estratégias omnisistêmicas [whole-system strategies]. O trabalho sobre doenças infecciosas novas e ressurgidas combinava biologia e sociologia. Examinamos por que a comunidade de saúde pública ficou surpresa quando a doença infecciosa não desaparecia. Foi, portanto, um exercício de auto-exame da ciência.

Sempre gostei de usar a matemática e ver como uma de suas tarefas é tornar óbvio o obscuro. Emprego com regularidade uma espécie de matemática de nível médio em formas não convencionais para chegar a uma compreensão, mais do que a uma previsão. Grande parte do modelo atual tenta chegar a equações dque produzam previsões precisas. Isto faz sentido em engenharia. No campo das formas políticas, faz sentido para aqueles que são assessores dos poderosos que imaginam ter o controle do mundo suficiente para serem capazes de otimizar ao máximo seus esforços e investimentos de recursos. Mas aqueles de nós que estamos em oposição, não temos ilusões. O melhor que podemos fazer é decidir onde pressionar o sistema. Para isso, uma matemática qualitativa é mais útil. Meu trabalho com dígrafos marcados ( “análise de loop”) é uma destas abordagens. Ao rejeitar a oposição da análise qualitativa / quantitativa e a noção de que quantitativo é superior a qualitativo, trabalhei principalmente com aqueles instrumentais matemáticos que apoiam a conceitualização de fenômenos complexos.

O ativismo político, é claro, atrai a atenção de agências de repressão. No que concerne a este ponto, eu tive sorte, já que experimentei apenas uma repressão relativamente leve. Outros não tiveram tanta sorte: carreiras perdidas, anos de prisão, ataques violentos, assédio contínuo inclusive contra as suas famílias, deportações. Alguns, integrantes em sua maioria de movimentos de libertação porto-riquenhos, afro-americanos e nativos americanos, assim como os cinco anti-terroristas cubanos presos na Flórida, ainda são presos políticos.

A exploração mata e fere as pessoas. O racismo e o sexismo destroem a saúde e frustram as vidas. Estudar a ganância, brutalidade e petulância do capitalismo tardio é doloroso e exasperante. Às vezes tenho que recitar o Ballad of Evil Genius de Jonathan Swift:

Como o barqueiro do Tâmisa passo remando e grito nomes. Como o sábio de eterno riso gasto minha raiva em ironias … mas que fique claro: eu os suspenderia, se pudesse.

A pesquisa e o ativismo me deram, em sua maior parte, uma vida agradável e gratificante, fazendo o trabalho que encontro intelectualmente estimulante, e com as pessoas que eu amo.


Notas

John Montgomery Brown foi um bispo luterano da Igreja Episcopal do Sínodo de Missouri, excomungado por ser marxista. Nos anos 1930, ele publicou a revista trimestral Heresia [Quarterly Journal Heresy]. [ ‘Bad Bishop Brown’: lit. ‘Bishop Brown Evil’. Nota do tradutor.]

‘Transecto’ é o termo para um conjunto de passos ou caminho em que o pesquisador registra a freqüência de um fenômeno estudado (nota do tradutor).

AID: Agência para o Desenvolvimento Internacional, desenvolve programas para a saúde e desenvolvimento em países do terceiro mundo estrategicamente escolhidos. Seus programas, isoladamente, são por vezes úteis, e seus participantes são motivados por preocupações humanitárias. Mas a agência é também uma organização terrorista que apoia grupos contrarrevolucionários na Venezuela, Haiti e Cuba. Chegou a promover o LEAP  (Law Enforcement Assistance Program) que ensinou a polícia uruguaia e brasileira a torturar.

Em ecologia, a palavra nicho descreve a posição relacional de uma espécie ou população em um ecossistema ou espaço concreto no ecossistema. Quando falamos de nicho ecológico, referimo-nos ao “trabalho” ou função de determinado indivíduo dentro de uma comunidade (nota do tradutor).

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

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