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PERU, no 1º turno o grande destaque foi a campanha de Veronika Mendoza

Por Evelin Minowa (*)

Publicado originalmente em Portal De La Izquierda

No último dia 10 de abril aconteceu o 1º turno das eleições para presidente e deputados nacionais no Peru. Foi um 1º turno surpreendente do início até o final da apuração de todos os votos. O 2º turno será no dia 05 de junho.

Sem sombra de dúvidas o grande destaque desta eleição foi a campanha realizada pela coligação Frente Ampla, encabeçada por Veronika Mendoza como candidata à presidência. Mesmo não indo para o 2º turno, a campanha vocalizada por Veronika, uma mulher jovem e feminista, pautou o 1º turno do começo ao fim, e terminou quase empatada com o candidato que foi ao 2º turno.

Já no período de escolha dos candidatos dos partidos, o processo realizado pela Frente Ampla demonstrou a diferença com que se apresentaria ao povo nas eleições em 2016: a escolha de suas candidaturas à presidência e ao congresso foi realizada por meio de eleições primárias abertas. Em outubro de 2015 todo cidadão ou cidadã que apresentasse um documento poderia votar nos seus pré-candidatos. Dessa maneira, Veronika Mendoza, já deputada nacional por Cusco, foi escolhida como a candidata à presidência da Frente Ampla (FA), e a lista dos candidatos ao congresso por cada departamento do país foi estabelecida.

Cenário eleitoral no início de 2016

Em janeiro deste ano o cenário eleitoral continha como principais candidaturas: Keiko Fujimori (Força Popular), Julio Guzman (Todos pelo Peru), Cesar Acuña (Aliança para o progresso), Pedro Pablo Kuczinsky “PPK” (Peruanos pela mudança), Veronika Mendoza (Frente Ampla), Alfredo Barnechea (Ação Popular), Alan Garcia (Aliança Popular) e Gregório Santos (Democracia Direta). Neste cenário, FA e Veronika Mendoza tinham 2% das intenções de voto e a principal preocupação da frente era passar o coeficiente eleitoral para garantir seu reconhecimento perante à justiça eleitoral no próximo período.

Porém, uma decisão do Jurado Nacional Eleitoral já em março, há apenas um mês das eleições, retirou a candidatura de Guzman e Acuña: o primeiro por problemas na formação da chapa e o segundo por tentativa de compra de votos. Essa decisão alterou bastante o cenário eleitoral.

Keiko Fujimori se manteve constante, pontuando 30% desde o início da campanha. Contudo, essa pontuação não garantia a ela uma vitória em 1º turno, e assim se confirmou. Apesar de um crescimento nas intenções de voto até o final da campanha, ela terminou com 39% dos votos e uma das vagas do 2º turno consolidada. Com a saída de Guzman e Acuña, PPK se distanciou das demais candidaturas e subiu para o 2º lugar, enquanto Veronika e FA estavam mais distante, disputando o 3º lugar com a Ação Popular de Barnechea. Porém, o decorrer da campanha, o desempenho de cada candidato, as campanhas dos partidos e o tom que foi sendo dado pelos diversos atores da opinião pública, especialmente conforme Keiko Fujimori ia se consolidando como primeira colocada, fez com que FA e Veronika fossem se consolidando em 3º lugar e mais, que passasse a ser uma realidade a disputa pela 2ª vaga para o 2º turno. Dos 2% de janeiro, Veronika foi a 15% das intenções de voto ao final de março. Seu crescimento foi notável entre os jovens, as mulheres, no interior do Peru e entre os setores mais pobres da população. E os resultados do 1º turno demonstraram uma amplitude maior ainda.

Destaque das eleições 2016: Veronika Mendoza e Frente Ampla

Veronika era a única que falava de resgatar as bandeiras abandonadas por Humala, que reivindicava o rompimento com o nacionalismo e a persistência na defesa do projeto que elegeu o último presidente. A campanha de Veronika foi marcada pelas bandeiras de uma assembleia constituinte, defesa da soberania nacional sobre os recursos naturais – contra os mega projetos mineradores de Conga e Tía Maria, e em defesa de uma empresa estatal para administração e manejo do fornecimento de água -, a defesa de um estado plurinacional e pluricultural que respeite a diversidade dos diferentes povos que vivem no Peru e os direitos da juventude, das mulheres e das LGBT. Ou seja, a campanha da FA e de Veronika conseguiu vocalizar parte da esperança e da expectativa de transformação radical contida no povo peruano, manifestada no histórico e na atualidade das lutas, que sofreu um golpe forte com a traição de Humala mas que ainda se manifesta. Com o gás das mobilizações contra os projetos mineiros transnacionais, contra a precarização da educação e do trabalho da juventude e também em torno do forte sentimento anti-Keiko. Um dos motes da campanha era “por uma mudança real, Frente Ampla e Veronika Mendoza!” e se falou muito em mudança profunda de modelo de desenvolvimento com inversão de prioridades, com o povo no centro das prioridades.

O crescimento de Veronika impressionou e pautou toda a campanha eleitoral. A possibilidade de um 2º turno entre mulheres foi bastante discutida também. Nesse sentido, dois fatos são importantes de se ressaltar: 1) nas pesquisas eleitorais, as simulações de um 2º turno entre Keiko e PPK demonstravam mais possibilidades de vitória para PPK, enquanto as simulações entre Keiko e Veronika, as chances de vitória de Veronika eram muito menores. Isso provavelmente teve influência sobre os eleitores indecisos cujo voto tinha como critério ser um voto anti-Keiko; 2) o pior cenário para a burguesia peruana seria um 2º turno entre Keiko e Veronika, por ambas serem possibilidades de governos “instáveis” para a economia neoliberal, cada uma por fatores respectivos.

Nesse cenário, a burguesia orquestrou uma intensa “guerra suja” contra Veronika. Durante toda a campanha ela foi atacada pela grande imprensa e por setores da Igreja Católica principalmente por não vacilar ao ser indagada sobre os temas da legalização do aborto e da união civil entre casais do mesmo sexo. A grande mídia também incidiu contra Veronika difundindo notícias que tentavam liga-la ao terrorismo ou à situação atual da Venezuela, a supostos esquemas de corrupção envolvendo ainda o Partido Nacionalista Peruano (PNP) e uma de suas fundadoras, a também primeira dama Nadine Heredia.

Às vésperas das eleições estavam consolidadas como principais candidaturas Keiko Fujimori, já garantida no 2º turno, e a briga voto a voto entre PPK e Veronika. Vale lembrar que Pedro Pablo Kuczinsky é um grande empresário, ex-ministro em governos anteriores com histórico de privilegiar empresas estrangeiras na exploração dos recursos naturais peruanos, de privatização de setores estratégicos como o energético e de uso indevido de sua influência institucional, sendo citado no Panamá Papers por isso; realizou uma campanha milionária bancada por grandes empresas estrangeiras, não tendo declarado de modo transparente seus financiadores. Veronika Mendoza tem 36 anos, é psicóloga, mãe, eleita deputada nacional principalmente por sua participação nas lutas contra a exploração capitalista dos recursos naturais e humanos da região sul do Peru.

O engajamento da juventude, das mulheres e dos movimentos populares de cultura na campanha de Veronika foram fatos marcantes. Diversos comitês autônomos e auto-organizados de jovens, mulheres e artistas se formaram em torno de sua candidatura.

1º turno

O resultado de 10 de abril foi Keiko com 39%, PPK com 21% e Veronika com 18,8%. Dos 26 estados, Keiko venceu em 17. Veronika venceu em 7 estados (Tacna, Moquegua, Puno, Cusco, Apurímac, Ayacucho e Huancavelica). Gregorio Santos venceu em Cajamarca. E PPK venceu apenas no estado de Arequipa. No congresso nacional as três principais candidaturas elegeram: 65 deputados por Força Popular (Keiko), 21 deputados pela Frente Ampla (Veronika) e 20 deputados por Peruanos pela mudança (PPK).

2º turno

Com a consolidação do 2º turno entre Keiko e PPK, imediatamente iniciou-se a pressão sobre o posicionamento da Frente Ampla e Veronika Mendoza nesse cenário. Seguindo o sentimento da base ratificado em um conselho nacional da Frente realizado 15 dias depois do 1º turno, a decisão é de que a FA evidentemente é absolutamente contrária à candidatura de Keiko Fujimori e também não irá apoiar a PPK, por representar o mesmo modelo de desenvolvimento para o Peru que Veronika durante a campanha rechaçou e combateu.

Keiko No Va

Desde o início da confirmação de Keiko Fujimori como candidata, entidades de direitos humanos e movimentos independentes se unificaram em torno da luta contra essa candidatura. Este artigo já publicado explica como tem se conformado o movimento Keiko No va: http://portaldelaizquierda.com/2016/04/por-justica-e-liberdade-fujimorismo-nunca-mais-peru/

No dia 5 de abril, dias antes do 1º turno, o movimento Keiko No Va organizou marchas por todo o Peru, colocando nas ruas do país seguramente centenas de milhares de pessoas, sendo que no centro de Lima a marcha chegou a 100 mil. Ainda que Keiko tenha ido para o 2º turno com uma votação expressiva, é muito relevante o sentimento antifujimorista, tendo se consolidado como um marco dessa eleição, e demonstra o grau de instabilidade política em torno desse processo. A participação e protagonismo juvenil neste movimento tem sido muito expressivos e as pesquisas eleitorais têm demonstrado que o eleitorado jovem será decisivo no 2º turno, pois está compondo cerca de 30% do total de eleitores.

No próximo dia 31/05, semana que antecede a votação, está convocado um novo dia nacional de marchas contra Keiko. A expectativa é que essa marcha possa ser um termômetro do que pode vir a acontecer nas urnas no próximo 5 de junho. As pesquisas recentes apontam praticamente um empate: PPK figura com 43,3%, Keiko com 43,1%, votos em branco são 8,8% e nulos 4,8%. Quando se consideram apenas os votos válidos, PPK fica com 50,1% e Keiko com 49,9%.

Pós-eleitoral e perspectivas

Uma vitória do processo eleitoral de 2016 até agora foi a derrota da figura de Ollanta Humala e do PNP. Humala termina seu mandato com um rechaço de 83% de acordo com pesquisas recentes. Ao se somar o resultado de Veronika com o de Gregorio Santos (candidato da esquerda também, liderança regional em Cajamarca, estado do conflito sobre Conga), chega-se à cifra de 23%. Esse resultado e o rechaço à Humala são uma demonstração de que o projeto do nacionalismo foi derrotado, porém sem a destruição total de perspectivas para a esquerda. Apesar do esforço da direita e da grande mídia em ligar as propostas defendidas por Veronika e Gregorio à ideia de um novo nacionalismo, de uma repaginação da campanha de Humala, ou seja, mais uma vez a história de promessas de mudanças radicais que terminam em traição, foi massiva a resposta positiva a esse cenário, mais de 20% da população segue acreditando e disposta a confiar e construir um projeto de enfrentamento ao modelo neoliberal de desenvolvimento.

Agora a Frente Ampla tem a grande tarefa de coordenar a 2ª bancada de congressistas nacionais nos próximos cinco anos. E, como já debatido em seus organismos internos, os congressistas deverão atuar como um time, coesionado em torno do programa defendido pela FA durante as eleições e respaldado nas bases que batalharam pelo resultado obtido, ancorado na construção junto aos trabalhadores, aos movimentos sociais, aos comitês de jovens, mulheres, de cultura, de bairros que deram seu voto de confiança às candidaturas da FA.

Em agosto deste ano a Frente Ampla realizará um congresso nacional, onde deverá debater questões muito importantes para sua existência, organização e atuação nos próximos anos. É evidente que a Frente e Veronika se consolidaram como alternativa eleitoral para as próximas eleições nacionais. Também no meio do caminho para 2021 estão eleições municipais, em que a Frente Ampla poderá novamente se colocar. Porém, para além das perspectivas eleitorais, há todo um caminho pela frente. Em que os indícios são de que a crise econômica no mundo seguirá se agravando, o que por sua vez tem como uma de suas expressões o aumento da pressão para que iniciativas de exploração de recursos naturais e humanos em países como o Peru e semelhantes na América Latina se intensifiquem, ou seja, agravando os conflitos socioambientais; cada vez mais esse modelo de institucionalidade em decadência, sendo questionado pelo fortalecimento de novos movimentos sociais autônomos, com democracia direta e transparência como princípios, face aos escândalos de corrupção que não param de surgir (vide como a operação Lava Jato do Brasil consegue chegar até o Peru); em que os jovens vêm demonstrando que não irão ficar por fora da política e não vão deixar que levem seus direitos, como se levantaram contra a reforma universitária em 2013 e derrubaram a Lei Pulpin de 2015; em que as mulheres vêm cada vez mais fortalecendo sua auto organização e a luta por seus direitos.

Os desafios colocados para Frente Ampla são muitos e o desenrolar de sua história no Peru certamente será fundamental para a esquerda, especialmente neste momento da conjuntura latino-americana.

(*) Evelin es membro del Directorio Estadual del PSOL São Paulo pelo MES e está no Peru para ajudar à campanha e organização do MPGT e o Frente Amplio

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