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Paraguai e Brasil: a indignação da juventude não tem fronteiras!

Estou há três dias em Asunción/Paraguay, acompanhando a luta dos estudantes da UNA. Desde que cheguei, me impressionou a força da mobilização. Em todos os jornais, rádios e programas de televisão UNA é notícia. E o apoio da sociedade aos estudantes é muito grande e me parece que cresce a cada dia. O principal e maior câmpus da universidade está tomado de estudantes acampados, e doações de alimentos e água não param de chegar. Assembleias das Faculdades acontecem todos os dias, para se atualizar o debate e seguir construindo a greve estudantil.

As seis entradas do campus estão tomadas pela “Patrulha dos Estudantes” que fiscaliza a entrada e saída de carros e mochilas, para que ninguém consiga roubar documentos que comprovam a corrupção. Nos primeiros dias da greve, funcionários administrativos tentaram roubar documentos do prédio da reitoria e quando saíam de carro foram cercados pelos estudantes por horas. Duas funcionárias que estavam dentro do carro começaram a comer (a comer!) os documentos.

Esse gesto das funcionárias é uma expressão do quão é grave o caso de corrupção dentro da UNA e o quanto é poderoso o que fazem os estudantes paraguaios. Desmascarando corrupção em UNA, estão desmascarando a corrupção em Paraguai. O reitor Froilán Peralta é do mesmo partido do Presidente do Paraguai: o Partido Colorado, um dos partidos mais conservadores do país. Em poucos dias de mobilização, o reitor renunciou ao cargo, ao que foi seguido por seu vice. E com eles alguns Decanos das Faculdades da UNA. Por isso dizem os estudantes: primeiro vamos acabar com os “ratos e baratas” da UNA, para depois acabar com os “ratos e baratas” do Congresso Nacional. O tema da corrupção tem muito apelo na sociedade pelos recorrentes escândalos. O “Basta” que estão dando os estudantes da UNA comove e serve de inspiração para toda a população.

“Estamos vivendo um momento histórico, uma greve histórica.” Isso é o que dizem nas Assembleias. A última greve desse porte na UNA foi em 1996, durou três meses e não conseguiu derrubar o reitor da época. Esta em alguns dias já o fez. Mas os estudantes sabem que toda a estrutura é corrupta. Que não basta tirar uma pessoa sem mudar o estatuto da universidade, sem democratizar. Por isso nas Assembleias afirmam que vão seguir a greve até que se conquiste a Reforma do Estatuto. E essa reforma deverá ser feita com protagonismo dos estudantes. Pois eles sabem que a estrutura corrupta existe dentro da UNA e fora dela, afirmam: “Los estudiantes confian en los estudiantes! Que se vayan todos!”.

É impossível não fazer um paralelo com o que vive o Brasil. O escândalo da Operação Lava Jato escancara que a corrupção é o método utilizado pelos partidos da ordem para se sustentarem no poder. Em meio a uma crise econômica, vivemos uma crise de representação política. No Paraguai os estudantes optaram por confiar em suas próprias forças e estão travando uma grandiosa batalha. A crise orçamentária que vive as universidades brasileiras, também escancara o problema da falta de democracia em suas estruturas. Algumas semanas atrás, saiu nos jornais do Rio de Janeiro que o TCU (Tribunal de Contas da União) encontrou indício de superfaturamento em obras da UFF. Notícia grave que precisa ser investigada a fundo. Em tempos de crise as reitorias mantêm intactos seus privilégios enquanto os estudantes estão perdendo direitos. Quem decide de onde cortar? Quem decide qual é a prioridade de investimento em tempos de cortes? Precisamos lutar para radicalizar a democracia em nossas universidades. Em Paraguai querem reformar o estatuto para refundar a UNA, mais democrática, com mais participação estudantil e livre de corrupção. Estamos sintonizados e temos muito o que aprender com a luta que travam aqui.

Se eu pudesse dizer o que aprendi nesses três dias que estou aqui, sintetizaria em duas. A primeira é que a juventude impressiona, pela sua radicalidade, força e consciência. A juventude não tem medo de ousar e de enfrentar! No Paraguai, no Brasil, no Chile, no Peru, na Espanha e em tantos outros a juventude é protagonista das lutas. Queremos viver um mundo diferente, sem fronteiras e sem injustiças e estamos dispostos a lutar por isso! Em segundo, diria que a luta contra a corrupção é uma luta contra o método de agir dos poderosos para sustentarem seus privilégios, e por isso a luta pela radicalização da democracia é muito importante. Queremos que os de baixo tenham voz, que sejam protagonistas de suas vidas. Para isso precisamos refundar as estruturas de poder dentro e fora das universidades!

Que a luta dos estudantes paraguaios contagie a luta dos estudantes brasileiros! Que a coragem deles nos sirva de exemplo! Na luta contra os poderosos não estamos sozinhos, a nossa luta é internacional!

Camila Souza é militante do Juntos e 1ª Diretora Executiva de Relações Internacionais da UNE pela Oposição.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

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