Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

Por Gabriel Lindenbach | Fotos: Francisco Toledo e Gabriel Soares

Publicado originalmente em guerrilhagrr.com.br

“(…) a combinação de um cenário de recessão econômica, uma latente crise politica proveniente da Lava Jato, e com a manipulação da grande mídia, que convocou as farsantes manifestações do dia 15 de Março, deu força às políticas de “ajuste fiscal” das elites brasileiras, que estão na ofensiva contra os direitos humanos e trabalhistas históricos da população. Confira mais sobre o debate realizado entre os Professores da USP, Henrique Carneiro e Ruy Braga com Luciana Genro, sobre as perspectivas de resistência e defesa dos direitos sociais.

Na noite de ontem, 29 de abril, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP recebeu em suas dependências mais de 400 pessoas para o debate “Para onde vai o Brasil?”, organizado pelo professor Henrique Carneiro, do Departamento de História e militante da esquerda antiproibicionista e libertária. O espaço contou com a contribuição de Henrique, de Ruy Braga, professor de Sociologia dessa Universidade e um dos pesquisadores de maior relevância no campo das terceirizações no mundo do trabalho, e de Luciana Genro, advogada dos direitos humanos e ex-candidata à presidência pelo PSOL. A juventude estudantil e trabalhadora esteve presente para debater a situação atual de nosso país e os desafios na defesa dos direitos sociais históricos.

Segundo os debatedores, a combinação de um cenário de recessão econômica que se aprofunda, com aumento geral do custo de vida, dos alimentos, das tarifas de luz, água, transporte, com uma crise política latente, que se agrava com as investigações da Operação Lava Jato, e com a atuação da grande mídia, em especial da Rede Globo, que manipulou o sentimento de indignação das pessoas convocando grandes manifestações no dia 15 de Março, disputando o protagonismo da luta nas ruas e criando um verdadeiro “simulacro” bizarro das Jornadas de Junho, onde as “famílias de bem” tiravam fotografias com os Policiais Militares e pediam ‘intervenção militar constitucional’, reproduzindo os piores preconceitos, ganhou mais força o setor da elite econômica e política brasileira, fazendo sangrar qualquer possibilidade de “valentia” em defesa dos direitos dos trabalhadores por parte dos ditos setores progressistas do governo federal.

A saída do governo Dilma, ao contrário, foi “perder sem lutar”, como colocou o professor Ruy Braga. O governo colocou em prática um “ajuste fiscal” que vem cortando verbas dos serviços públicos, como os 7 bilhões à menos na Educação, que vem tornando caótica a situação das universidades brasileiras, e atacando de morte direitos trabalhistas e sociais conquistados pelos trabalhadores há décadas, como o seguro desemprego e diversos outros direitos garantidos pela Consolidação das Leis do Trabalhos, a CLT, enquanto garante os maiores lucros da história para os banqueiros e empresários. As medidas provisórias (MPs) 664 e 665, sancionadas no final de 2014 pelo executivo, na figura do então Ministro da Casa Civil, Aloysio Mercadante, abriram as portas para a defesa a as aprovações atropeladas e antidemocráticas do Projeto de Lei das Terceirizações, o PL 4330, encabeçado pelo PMDB no Congresso Nacional, e da flexibilização das terceirizações via OSs, fundações privadas, nos setores da Educação e da Saúde públicas, pelo Superior Tribunal Federal. Os ataques a esses direitos intensificaram um processo de indignação e de mobilização social independente e autônomo que se desenvolve de maneira ainda inicial no Brasil desde 2013, com as grandes manifestações de Junho. Desde então, “temos os maiores índices de greves de categorias e de horas paradas desde 1989”, apresentou Ruy Braga. Em 2015, esse índice deve aumentar ainda mais. Braga expos, ainda, uma série de dados que demonstram os planos dos setores da elite para atacar a CLT. Descreveu que os salários brasileiros já são, na prática, menores do que os que recebem os trabalhadores chineses das zonas especiais de exportação, em sua maioria já terceirizados e com péssimas condições de trabalho, e que é possível e provável que se concretizem planos de achatamentos mais agressivos no salário mínimo. “A Terceirização afetará toda a classe trabalhadora, mas principalmente os trabalhadores mais jovens, que recém ingressam no mercado, as mulheres e os negros”, “mas o PL 4330 é apenas a ponta do iceberg desses planos.” Nesse aspecto, “é urgente que se construam mobilizações organizadas e independentes em defesa desses direitos” concluiu.
protagonizadas por uma juventude que não é viúva do falido projeto petista, o governo perdeu o controle dos movimentos de massa”, afirmou Luciana. A passividade social e o estancamento dos processos de indignação social realizado pelas direções sindicais tradicionais, da CUT e de outras centrais sindicais pelegas, assim como a complacência de dirigentes de movimentos sociais ligados ao PT, foram colocadas em cheque. “A rejeição momentânea aos partidos políticos e entidades tradicionais, muito presentes naquelas manifestações, eram sintomas do esgotamento do regime sustentado pelo PT e demais partidos da ordem desde a redemocratização do Brasil”, completa. Desde então, afirmou Henrique Carneiro, diversos movimentos sociais vêm se organizando de maneira independente e autônoma dos governos para resistir às políticas de ataques aos direitos. “O MTST, sem sombra de dúvidas, é a maior expressão disso, no caso da crise do modelo de vida nas cidades, da resistência urbana: Vem protagonizando, desde 2014, diversas mobilizações em defesa da moradia, com suas ocupações urbanas, contra o colapso hídrico do governo Alckmin e, mais recentemente, da organização de uma frente ampla e unitária contra as terceirizações, levando dezenas de milhares de trabalhadores ao Largo da Batata e às ruas no dia 15 de Abril”, lembrou o professor.

Para disputarmos uma saída à esquerda para essa crise geral que se aprofunda, defendendo os direitos sociais históricos conquistados na sociedade democrática, é necessário que reorganizemos os setores da “esquerda real, social”, argumentou Henrique: “A esquerda no Brasil, infelizmente, sofre com muitas fragmentações, mas é necessário superar esses obstáculos para fazer frente aos ataques que estamos sofrendo. A construção de uma greve geral pode ser decisiva para consolidar uma frente ampla de lutas por direitos, que vá muito além das eleições de 2018.” Para combater “a direita que não teme dizer seu nome”, disse Henrique, numa referência ao livro do Professor Vladimir Safatle, “é necessário defender de maneira intransigente as bandeiras dos movimentos sociais, de uma maneira cada vez mais unitarista.” A heroica greve protagonizada pelos professores do Paraná, contra a truculência do governador Beto Richa, do PSDB, é um exemplo disso. “E a greve dos professores já atinge 8 estados brasileiros, na prática já é nacional”, completou Carneiro.

Luciana pontuou, em sua fala, resgatando elementos apresentados por Ruy Braga, que a situação que vivemos no Brasil é preocupante, pela perspectiva da maior parte da população, mas não é isolada. É uma expressão desigual e combinada com as crises e planos de austeridade aplicados nos países do sul da Europa, como na Grécia, Espanha e Portugal. “Na ausência de uma organização política que vocalize sem vacilar as demandas da população, consequência da traição protagonizada pelos partidos da social democracia, como o PT do Brasil, a direita, alicerçada no atraso de consciência, e na legitima indignação do povo, pode chegar a se fortalecer, como na Espanha, onde chegou até a ganhar as eleições, e na França, com o fortalecimento da Front National. Mesmo assim, o povo espanhol fez sua experiência também com o partido da direita e isso permitiu a criação de um fenômeno político como o Podemos, que tem ligação orgânica com o movimento dos indignados espanhóis. Para evitar os retrocessos ainda piores que podemos ter em nossos direitos, com o fortalecimento dos setores de direita econômicos, mas também ideológicos e de costumes, devemos disputar e ocupar o espaço político aberto pela falência do PT, construindo, na prática e em movimento, com participação, organização e protagonismo popular, uma alternativa e um novo modelo político e econômico para o Brasil, retirando as lições necessárias das novas experiências da esquerda, como da Syriza e do Podemos, e também aprendendo com os erros e se diferenciando das experiências fracassadas das antigas esquerdas, autoritárias e conciliadoras de classes. A juventude não tem amarras com os partidos da ordem vigente e é fundamental, junto dos trabalhadores combativos, para a construção dessa alternativa. “A grande quantidade de jovens presentes nesse debate, que deve se repetir cada vez mais, é um sintoma disso. Estamos todos angustiados e querendo participar da construção de uma saída de esquerda real, coerente e consequente para a crise do país.” disse Luciana.

USP auditório

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

A edição n.6 da Revista Movimento celebra o centenário da Revolução de Outubro com artigo de Kevin Murphy sobre as origens do stalinismo. Luciana Genro discute a continuidade da Operação Lava Jato. Alvaro Bianchi introduz a nossos leitores conceitos de Antonio Gramsci. A revista também apresenta tradução de palestra de Angela Davis. Na seção internacional, publicamos artigo de Perry Anderson sobre a resiliência do centro neoliberal europeu. Edgardo Lander trata da situação venezuelana, Pedro Fuentes e Charles Rosa abordam a questão catalã. Um instigante artigo de Maycon Bezerra sobre Florestan Fernandes, a tese do MES para o Congresso do PSOL e nossa plataforma sindical completam a edição.

Abaporu

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

Leon Trotsky Joseph Stalin