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Os EUA e sua contraofensiva para América Latina

Contribuição ao dossiê: Os EUA e seu retrocesso na hegemonia mundial.

Por Maycon Bezerra – Professor, militante do MES e colaborador da Secretaria de Relações Internacionais do PSOL

Nós latino-americanos conhecemos, por experiência própria, o imperialismo dos EUA há bem mais tempo que o resto do mundo. Quando o “grande irmão do norte” ainda não aparecia como um competidor efetivo pela liderança geopolítica global, em meados do século XIX, já foi possível constatar, na divisão forçada do México e na anexação de parcelas imensas de seu território, a tônica das relações que se estabeleceriam entre o poder estadunidense e a maioria dos povos do continente americano.

Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, sob a Doutrina Monroe e a projeção imperialista do “Big Stick”, os EUA avançavam em sua construção como potência às custas de uma sujeição crescente dos países latino-americanos, por todos os meios considerados necessários pela burguesia ianque, inclusive a ocupação militar pura e simples e a anexação formal (Porto Rico) ou semi-formal (Cuba).

Sendo assim, o “privilegiado” ponto de vista latino-americano talvez possa contribuir, agora, para a reflexão a respeito do imperialismo dos EUA em sua atual dinâmica de crise, como contribuiu para dimensionar sua emergência no passado.

Tomamos como ponto de partida dessa breve reflexão a análise da etapa mais recente da história do desenvolvimento capitalismo consagrada na literatura acadêmica e militante como “neoliberalismo” ou “globalização neoliberal”. Esse termo, que não está livre de inconvenientes, expressa a etapa histórica aberta pela contra-ofensiva dos estratos mais altos (e mais reacionários) da grande burguesia dos EUA, arrastando seus parceiros europeus atrás de si, contra o compromisso burocrático keynesiano no contexto da crise econômica dos anos 1970[1].

Duménil e Levy (2014), aprofundando a análise, explicam que o arranjo neoliberal e sua forma própria de “globalização”: fundadas na liberalização internacional do comércio; dos investimentos; da atividade bancária e dos mecanismos financeiros, corresponde à reação da cúpula das classes proprietárias contra a preponderância da “classe gerencial” que, articulada aos sindicatos de trabalhadores, sustentava aquele compromisso keynesiano a partir da contenção firme do mundo das finanças.

O grande marco dessa reação elitista, que construiu uma “saída” radicalmente mais capitalista à crise econômica capitalista dos anos 1970, foi o “golpe” expresso na brusca e violenta elevação da taxa de juros pelo Fed, o banco central dos EUA, no ano de 1979[2]. Esse golpe, que não apenas aprofundou o que o antecedeu:  o abandono do padrão ouro-dólar pelos EUA, afirmando os interesses unilaterais da superpotência como os únicos legítimos, fez deslanchar a dinâmica da acumulação financeira às custas do super-endividamento dos países da periferia, especialmente, latino-americanos. O resultado seria a crise da dívida e a quebra financeira dos países de nossa região.

A partir de então foram lançadas as bases para um “regime de acumulação financeira”[3] internacionalizado que alcançou uma expansão muito acelerada durante os anos 1990, na esteira da restauração capitalista na ex-União Soviética e no leste europeu. Esse “regime de acumulação”, nascido da composição entre a mais alta burguesia e os estratos mais elevados da tecnocracia privada e estatal dos EUA e também da Europa ocidental, faz dos interesses do proprietário de capital-dinheiro portador de juros, em busca de sua reprodução ampliada na esfera financeira, o centro a partir do qual a economia mundial é reorganizada, em todos os seus aspectos.

Em seu momento de maior vigor, durante a década de 90, a hegemonia do rentismo financeiro na economia internacional estava visível e indiscutivelmente associada à hegemonia dos EUA. Não poderia mesmo ser de outra forma, em função da centralidade e do peso desproporcional do mercado financeiro dos EUA no âmbito mundial e do papel desempenhado internacionalmente pelo dólar. A supremacia dos EUA no interior desse arranjo global também se evidenciava pelo fato de que constituía uma ilha quase exclusiva de crescimento econômico (juntamente com os “tigres asiáticos”[4]) em um cenário internacional de crescimento muito lento[5].

A explicação para o padrão – quase exclusivo – de crescimento econômico dos EUA ao longo da década de 90 está no modelo de desenvolvimento que foi se consolidando a partir de dois fatores centrais: a importação de mercadorias mais baratas do exterior, como suporte do consumismo desenfreado, principalmente, das famílias de maior renda; e a importação de capitais do exterior a um custo proporcionalmente baixo. No que diz respeito a esse segundo fator, tanto a atração dos investimentos produtivos, como daqueles de natureza propriamente financeira, se relaciona diretamente com a solidez e estabilidade (real e aparente) da dominação burguesa e imperialista estadunidense, nos planos interno e externo.

Até o estouro da bolha que se formou na bolsa de títulos das empresas de alta tecnologia (Nasdaq), em 2000, a massa de capitais atraídos do exterior teve papel central na dinamização desse setor da economia que contribuía decisivamente para puxar o crescimento do país. Desde então, a política do Fed vem impulsionando ainda mais a especulação financeira lastreada na promoção do endividamento crescente das famílias, do governo e do próprio setor financeiro, nesse caso através dos complexos mecanismos de crédito e “securitização” entre bancos e outros “investidores institucionais” (fundos de pensão, fundos mútuos, sociedades seguradoras e etc)[6]. A economia dos Estados Unidos adquiriu, em relação ao resto do mundo, a característica de um “imperialismo glutão”[7]: consumo e endividamento elevados e crescentes com nível de poupança e investimento produtivo doméstico em franca decomposição. Nesse contexto, são as mercadorias produzidas no exterior e os capitais provenientes do exterior que são drenados para o país de modo a sustentar um arranjo praticamente insustentável.

 O que se encontra na base desse arranjo é a lógica mesma do rentismo financeiro, agora dominante. Como reação da mais alta burguesia em busca do mais alto nível de rendimento possível a partir da propriedade de capital-dinheiro, títulos e ações, a composição neoliberal impõe, na política econômica e na gestão das empresas não-financeiras, uma direção que é refratária ao crescimento do nível de investimento produtivo; da atividade econômica geral e do emprego.

A internacionalização desregulada dos mercados de títulos públicos, de moedas e de ações imposta pelo rearranjo neoliberal da economia mundial, deu aos administradores dos imensos fundos financeiros dos países centrais (EUA à frente) o poder de ditar aos demais países do mundo a política econômica a ser adotada, através da chantagem da descapitalização. A imposição de uma taxa de juros elevada, voltada a remunerar seus investimentos, esteve sempre no centro dessa estratégia rentista, com graves conseqüências para a atividade produtiva e o emprego. A partir do ano 2000, a taxa de juros decresce nos EUA, em função do crash da Nasdaq, mas isso não afetou de modo significativo os ganhos rentistas, pois os estímulos criados pelo governo atuaram no sentido oposto.

No que se refere à lógica neoliberal de gestão das empresas não-financeiras, seu objetivo é extrair delas o maior rendimento possível aos acionistas, mesmo que comprometendo sua capacidade de investimentos futuros. Os “gestores de fundo”, como são respeitosamente definidos os especuladores rentistas, em nome dos acionistas, impõem que os lucros das empresas sejam distribuídos na forma de dividendos em sua quase totalidade, reduzindo ao mínimo – ou a nada – a parcela destinada aos reinvestimentos, sobretudo na área de “pesquisa e desenvolvimento”, cujo retorno é mais lento. Aquisições e fusões são realizadas apenas de modo a gerar altos ganhos aos seus operadores financeiros, muitas vezes com conseqüências catastróficas para os trabalhadores e para a cadeia produtiva na qual se inserem as empresas assim “alavancadas”[8].

A partir dos primeiros anos da década passada, se consolidou uma relação simbiótica entre os EUA e a China: firmas transnacionais e investidores dos EUA direcionando suas plantas industriais e capital-dinheiro para a China e esta, por outro lado, fornecendo mercadorias baratas para os EUA, bem como transformando esse saldo comercial positivo em uma imensa reserva composta por títulos do tesouro dos EUA, financiando a dívida desse país. Essa simbiose, que respondeu perfeitamente às necessidades de curto prazo do “imperialismo glutão”, já mencionado, provocou, no médio prazo, duas conseqüências indesejáveis: a crise financeira de 2008 (impulsionada pela reprodução ampliada da especulação financeira possibilitada também, em larga medida, pelo financiamento chinês e estrangeiro, em geral) e o emergir da China como uma potência rival.

Todos esses aspectos da reação neoliberal conduzida pela mais alta burguesia dos EUA, com seus aliados europeus, revelaram que tal compromisso elitista é demasiadamente excludente e desagregador (social, econômica e politicamente) para sustentar uma relação hegemônica que, segundo Gramsci, pressupõe a incorporação dos subalternos mediante concessões a eles dirigidas. O avanço da escalada belicista e unilateral do imperialismo estadunidense a partir da última década, incapaz até de se servir do véu de legitimidade conferido pelos organismos “multilaterais”, deixou claro que, restringida a base material da hegemonia, falaria alto a coerção pura e simples.

A crise que vivemos desde 2008 e que tende a se arrastar, já que não há sinal de saída no horizonte, é uma verdadeira crise de destino para a civilização contemporânea. O imperialismo dos EUA viu enfraquecer sua hegemonia, na mesma medida do aprofundamento exclusivista do poder rentista. No entanto, nem de longe está derrotado. Ao contrário, está agora mesmo em uma contra-ofensiva na América do Sul.

O Brasil é alvo preferencial dessa contra-ofensiva. Desde a eleição presidencial passada e a posse da presidente reeleita que está clara a disposição do governo em se atrelar firmemente aos ditames financistas. A nomeação de Joaquim Levy para o ministério da fazenda, homem ligado diretamente à área de investimentos do Bradesco e a Armínio Fraga, o guru do financismo brasileiro, selou o compromisso de Dilma com o rentismo transnacional e nacional associado.

O duríssimo ajuste fiscal imposto à sociedade brasileira, que já apresenta seu saldo de aumento do desemprego e queda da renda dos trabalhadores (ao mesmo tempo em que a inflação segue subindo)[9], é justificado pela necessidade de assegurar que a agência estadunidense de classificação de riscos Standard & Poor’s mantenha a classificação do Brasil como “grau de investimento”, orientando dessa forma a atividade especulativa dos rentistas. A subordinação absoluta do país aos interesses da alta finança dos EUA e sua agência de consultoria é apresentada como “racionalidade pragmática” e “excelência de gestão”[10].

A viagem de Dilma a Washington, com a agenda de negócios que leva, sinaliza de maneira inequívoca o grau de profundidade da incorporação do governo brasileiro ao projeto estratégico dos EUA. Para além da adesão ao receituário neoliberal mais duro, na gestão da política econômica, Dilma expressa a intenção de promover o aprofundamento do livre comércio entre os dois países, cujo significado é uma retomada da agenda da ALCA, não apenas pela relevância da economia brasileira em si, como pelo seu papel no Mercosul[11].

Do ponto de vista da classe dominante estadunidense, é fundamental impor novamente o receituário ultra-ortodoxo do financismo aos países do seu “pátio traseiro” latino-americano. Em primeiro lugar para assegurar rentabilidade a seus investimentos; em segundo, para restringir a soberania política das classes dominantes locais através da arbitragem financeira internacional, incorporando-as de modo subordinado. Por último, para reafirmar o lugar do dólar.

É importante reter que durante as últimas décadas, os rendimentos da alta burguesia dos EUA extraídos de investimentos no exterior ficaram no patamar de 80% dos rendimentos auferidos dos lucros domésticos[12]. Assim sendo, são uma condição estrutural do capitalismo estadunidense, do mesmo modo como os investimentos estrangeiros no país o são.

No momento atual, em que a economia interna se arrasta estagnada e que o cenário externo se apresenta cada vez mais caótico, o imperialismo dos EUA, dirigido pela alta finança, tentará restringir o espaço para o aumento da presença chinesa na região. Seu receituário de estagnação, baixos salários e desemprego tende a colher muita resistência popular novamente, como já é o caso.


Bibliografia:

Chesnais, F. org., 2005. A finança mundializada. São Paulo: Boitempo.

Dreifuss, René Armand. A internacional capitalista: estratégia e táticas do empresariado transnacional (1918-1986). Editora Espaço e Tempo, 1986.

DUMÉNIL, Gérard, and Dominique LÉVY. A crise do neoliberalismo. São Paulo: Boitempo. 2014.


Notas:

[1]Dreifuss (1986) apresenta essa radicalização organizativa e militante dos segmentos do topo da classe dominante dos EUA na formação do Business Roundtable, ainda na década de 1970. Essa organização de vanguarda dos interesses empresariais monopolistas mais agressivamente exclusivistas e reacionários, em um plano de ação bem elaborado, pôde avançar sistematicamente suas prerrogativas conservadoras, anti-keynesianas e ultra-capitalistas desde o governo Carter até consolidá-las sob o governo Reagan.

[2] Duménil e Levy (2014)

[3] Chesnais [org] (2005)

[4] Países como a Coréia do Sul e Taiwan experimentaram um período de crescimento econômico acelerado em função de sua conversão em plataformas de exportação de produtos industrializados a partir de investimentos maciços de capital estrangeiro. No entanto, sua sujeição à dinâmica especulativa da flutuação internacional de capitais provocou uma grave crise econômica no final da década de 1990, da qual não houve recuperação significativa.

[5] Chesnais [org] (2005)

[6] Idem. Ibidem

[7] Duménil e Levy. In: Chesnais [org] (2005)

[8] Duménil e Levy (2014)

[9] http://www.valor.com.br/brasil/4096086/queda-de-renda-e-credito-restrito-afetam-comercio-aponta-ibge

[10] http://www.valor.com.br/brasil/4083664/mercado-ve-inflacao-maior-e-contracao-mais-acentuada-do-pib-em-2015

[11] http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/06/150625_dilma_visita_eua_pai_jf

[12] http://www.scielo.br/pdf/ecos/v16n1/a01v16n1

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

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