Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

Por  Wálmaro Paz


Porto Príncipe, Haiti – Há um mês no Haiti, para fazer a cobertura das eleições presidenciais, pude observar e vivenciar as observações de Ricardo Seitenfus, brasileiro, professor de Direito Internacional e que morou cerca de dez anos no país. Em seu livro Haiti Dilemas e Fracassos Internacionais, Seitenfus faz uma crítica áspera a dominação estrangeira do pais caribenho disfarçada de ajuda internacional.

Com uma forte tradição revolucionária, nascida na Guerra da Independência, uma revolta de escravos que deu certo e comemorou 2 séculos em 2004, o Haiti ainda espera a libertação da maioria de seu povo que vive sob a dominação de uma elite política que tira o maior proveito possível se sua miséria institucionalizada.

Carros modernos e possantes entulham as ruas estreitas da Grande Porto Príncipe ao lado de um sistema de transporte público idêntico ao de gado nos outros países latino-americanos. Com um ajuste, os animais gozam de uma segurança mínima, os trabalhadores haitianos não vislumbram este direito.

A nação que foi a primeira a libertar os escravos na América, afinal nasceu de uma revolta destes trabalhadores, mantêm ainda a figura do trabalho escravo infantil, denunciado pela OIT em 2013 e reconhecido por alguns pensadores do país como elemento de sua cultura. A figura da “restavec” é o grande e triste exemplo disso. Meninas começam a trabalhar as 4 horas da manhã. Esvazia os penicos, varre a casa, carrega agua para a cozinha e, mal o sol nasce, prepara o café e esquenta o azeita para os ovos mexidos da família (não a sua). Trabalha o dia inteiro fazendo afazeres domésticos numa jornada que chega a 14 horas. Não tem repouso semanal e se alimenta dos restos de comida (restavec). A maioria tem entre sete e 14 anos. Relatório divulgado em 2013 apontou 209.100 pessoas vivendo nesta condição no Haiti e sua elite não deu a menor importância. A prática ainda continua como elemento de cultura.

Todos democráticos e de esquerda

Desde a derrubada da ditadura de François Duvalier e sues Touton Macute em 1986, nenhum partido tem discurso abertamente de direita. Nesta campanha, por exemplo, o espectro político oscila desde o discurso de “centro com preocupações sociais” da Lapeh, cujo candidato Jude Celestin é genro do ex-presidente Preval (O Lula Haitiano); até o do socialismo radical da plataforma (coalização) Petit Dessalines (filhos de Dessalines) do candidato e maior líder da oposição no Senado, Moise Jean Jacques.

Somente o Kontrapepla (Mutirão de Trabalhadores e Camponeses pela Libertação do Haiti), confessa uma preocupação com a maioria de sua população – 60 por cento de camponeses. Seu candidato Chavannes Jean Baptiste, tem constantemente afirmado que sua campanha é organizativa, diferente das tradicionais e o principal objetivo é organizar os trabalhadores para um processo real de mudança.

Conforme afirmou o economista Camille Chalmers, em entrevista ao Opera Mundi: “a população não crê mais nas instituições e em discussões vazias, mas entende as eleições como uma maneira de fazer algum dinheiro”.

Força de Ocupação

Quase todos os programas tirando os diretamente ligados ao governo, falam do fim da Minustah, que só trouxe a cólera para o país, O micróbio foi espalhado por soldados nepaleses contaminados nas águas do principal rio do país, a Rivière de L’Artibonite antes do terremoto de 2010, e até hoje assola a maior região produtora do país dizimando camponeses.

Entre os anos de 1993 e 2013 foram enviadas ao Haiti, patrocinadas pela ONU e pela OEA, sete missões de intervenção militar, policial e civil. O Conselho de Segurança da ONU resolveu “estabilizar” o Haiti. Embora a maior crise de estabilidade num país sem exército, é a disputa política inevitável entre grupos de interesse pelo poder. A violência é uma das menores nos países americanos, três vezes menor do que a brasileira. O maior problema são as fraudes eleitorais e outras discussões internas que poderiam ser resolvidas pela própria população.

Mesmo assim a ONU chama esta de “derradeira intervenção” de MINUSTAH (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti) comandada apor oficiais do Exército Brasileiro por decisão do ex-presidente Lula.
Além dessa força de ocupação que humilha o povo haitiano e machuca sua autoestima, o país sofre a invasão de inúmeras Organizações Não Governamentais (ONGs) e igrejas pentecostais que pretendem salvar estes heroicos negros do domínio de satanás – o Woudou –religião trazida da África pelos seus ancestrais e parte fundamental de sua cultura. No atual processo eleitoral, oito candidatos a presidente são membros destas igrejas e financiados abertamente por ONGs norte-americanas.

Dia 25 de outubro poderemos ter uma resposta da população nas urnas. Poderá ser o nível de participação aumentado, em nove de agosto foi de apenas 18 por cento, e até uma vitória dos camponeses. Mas isso só será conseguido com a contenção das fraudes e das violências que ocorreram nos centros eleitorais, apesar da presença de mais de 100 observadores da OEA e da União Europeia.

Foto Haiti

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

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