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Oriente Médio: A luta do povo curdo e a política na Turquia

Por Frederico Henriques, sociólogo e colaborador da Secretaria de Relações Internacionais do PSOL

No último dia 24 de janeiro, o PSOL participou como único partido convidado das Américas do 2º Congresso do Partido Democrático dos Povos (Halkların Demokratik Partisi – HDP), da Turquia. A delegação do partido foi composta por Luiz Araújo, Presidente Nacional do PSOL, Frederico Henriques, membro da Secretaria de Relações Internacionais do partido e Juliano Medeiros, representando a Fundação Lauro Campos.

PSOL junto com Figen Yüksekdağ (Presidenta) e Alp Altınörs (vice-presidente) do HDP.

PSOL junto com Figen Yüksekdağ (Presidenta) e Alp Altınörs (vice-presidente) do HDP.

O texto pretende expor um pouco do aprendizado e acúmulo dessa viagem, além de apontar tarefas que podem fazer do PSOL protagonista na discussão política do Oriente Médio no Brasil, em especial, como porta vozes do movimento curdo em defesa do processo de negociação de paz e dos direitos humanos na Turquia. Por isso se faz necessário avançar neste debate e propor tarefas a serem cumpridas no próximo período. A ideia deste texto é apontar alguns elementos ao debate internacional a partir das experiências dessa visita.
A ascensão de Edorgan até o início da Primavera Árabe

1 – Assim como aconteceu em todos os países emergentes, o final da década de 1990 e o início dos anos 2000, a Turquia sofreu com uma grande crise econômica e questionamento do seu regimento político. A principal consequência política foi a criação do AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento), organização com a sua origem no movimento social conservador, com atuação nas ruas e escolas religiosas. Além disso, tem consegue combinar ética empresarial com devoção religiosa e parlamentarismo de linha pró-muçulmana convencional. Apesar das relações islâmicas, sua linha pró União Europeia e as visitas frequentes aos Estados Unidos nunca assustou as potências ocidentais.

2 – A tradição de ponte entre o Ocidente e o Oriente se manteve com o novo governo da Turquia. Sua posição na Otan assim como sua permissão de instalar bases americanas na Turquia para a empreitada americana no Iraque, não apenas alinhava o país junto ao imperialismo como dava folego às negociações para sua entrada na União Europeia. Para o ocidente, a Turquia sempre serviria como modelo para o Oriente médio: uma democracia parcial, com liberalização dos mercados e padrões de consumo ocidental que legitimava as intervenções imperialistas nesta região.

3 – O carácter secular da ideologia kemalista, assim como a dominação do antigo império romano sempre dificultou as relações comerciais e políticas com os seus vizinhos na região. Porém após a derrota da entrada na UE em 2007 Edorgan vê a possibilidade e a necessidade de expansão comercial no Oriente Médio e Mesopotâmia. Sua origem religiosa e a política de “Zero Problemas” foi a fórmula para multiplicar o comércio na região. Além da entrada massiva de divisas das monarquias, em especial a saudita, o mercado imobiliário, a expansão das empreiteiras turcas e o financiamento do governo AKP foram principais vetores de crescimento. O auge da política se dá com o inicio da criação de área de livre comércio entre Turquia, Síria, Líbano e Jordânia.

4 – Porém a expansão neoliberal no continente não foi diferente na Turquia do que aconteceu em todo mundo Árabe e Persa. O aumento da desigualdade e os limites da expansão do consumo começaram a atingir de forma significativa o país otomano. A solução inicial foi a criação de inimigos internos como distração para os problemas econômicos. A punição da cúpula militar por problemas de corrupção em 2010, assim como a investida contra os Curdos no leste foram as primeiras intervenções nesse sentido.

5 – O início da primavera Árabe intensificou a crise na região. A Turquia volta como mediadora dos interesses do ocidente no Oriente Médio, porém a intensificação das relações comerciais com a dinastia Riad (saudita) e a explosão da guerra civil na Síria faz com que a Turquia se posicione de forma mais contundente alinhada aos governos Sunitas da região. As relações do governo de Edorgan com Israel não se deterioram mesmo com o ataque à flotilha humanitária turca enviada à Gaza, em 2010. A demora de solução das guerras na região, o enfraquecimento econômico e o crescimento de inimigos internos faz com que em 2013 o AKP inicie uma negociação com os Curdos que durou até Junho de 2015.

Agressão

De Gezi à Kobane

6 – Crise social e econômica, especulação imobiliária, a islamização da educação infantil e principalmente a violência policial e a falta de democracia fez surgir o levante do parque de Gezi, em 2013. A região de encontro de jovens seria alvo do mercado imobiliário e do governo para a instalação de Shopping e monumentos em memória do império otomano. A partir da violência policial, a resistência à destruição do Parque se transformou num levante de milhões que rapidamente se espalhou por todas as grandes cidades do centro – oeste turco. Dentre as mais diversas reivindicações, as principais eram por mais democracia e a manutenção do parque.

7 – A instabilidade do governo aumentou e a crise econômico piorou. O armistício com os Curdos e o levante de Gezi fizeram com que um dos principais pilares do governo, o movimento Gülen (um movimento islâmico moderado e nacionalista que atua a partir do ensino religioso, presente em todo o Estado e sociedade civil turca) rompesse com o governo. A piora da crise na Síria, assim como a aposta dos EUA na resistência Curda iraquiana (peshmega), fez com que o governo perdesse mais força. A vitória do AKP nas eleições locais de 2014 deram uma sobrevida ao governo que passa a ter como principal eixo a centralização do poder e o presidencialismo.

8 – A partir de outubro de 2014 é o momento do leste da Turquia estourar em um grande levante a partir da luta por Kobane (abaixo no mapa). A luta por uma das três maiores cidades curdas da Síria, não apenas fez com que centenas de jovens turcos fossem engrossar as fileiras do YPG/YPJ (Unidades de Proteção Popular) como também muitos jovens começaram a se manifestar e cobrar nas cidades curdas da Turquia mais autonomia e democracia. A vitória sobre o Daesh (Estado Islâmico do Iraque e da Síria) em Janeiro de 2015 fez com que não apenas os Curdos sírios consolidassem a sua posição, como as comunas, as ocupações e o avanço da juventude no leste da Turquia prosperassem.

9 – Nas eleições de Junho de 2015 Edorgan esperava atingir a maioria para conseguir implementar o presidencialismo, centralizar o poder e tomar as rédeas de uma situação cada vez mais crítica. O restabelecimento das relações com os militares e as vitórias nas eleições do ano anterior dava certa segurança. Porém a manutenção do espaço dos sociais democratas, Partido Republicano do Povo (CHP), e a vitória do Partido Democrático dos Povos (HDP) sepulta a pretensão centralizadora inicialmente e muda de patamar a conjuntura.
A Revolução dos Curdos

10 – As diversas tribos Curdas, assim como a divisão do Império Otomano pelas potências vencedoras da primeira guerra mundial, sempre fizeram com que os Curdos tivessem dificuldade de se organizar enquanto nação e enfrentar os problemas nos diferentes territórios de forma unificada. A vitória de vários movimentos de libertação nacional contra o neocolonialismo fez com que no final da década de 1970 surgisse o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), inicialmente como uma guerrilha na Turquia de tradição vietnamita maoista, mas depois disseminada por todos os países que hoje compõem o Curdistão, nas mais distintas formas. O seu principal líder é Abdullah Öcalan, que se encontra preso desde 1999.

11 – A primeira mudança após a prisão de Öcalan foi focar o grupo político no debate das mulheres. O Oriente Médio sempre teve dificuldades de lidar com os direitos das mulheres e a partir dos anos 2000 esse passa ser um trabalho central das organizações ligadas ao PKK. Inicialmente num trabalho em tempos de paz, até 2004, e em seguida a partir de guerrilhas auto organizadas de mulheres até o cessar fogo de 2012. A segunda mudança vem a partir de 2005 com a criação da Confederação dos Povos do Curdistão (KCK) onde o grupo abandona a ideia da criação de um Estado Nacional, tendo em vista os desdobramentos no Curdistão Iraquiano e suas profundas relações com os Estados Unidos, e passa a trabalhar com a ideia de confederalismo e autonomia. A tática está em aproximar os mais diversos partidos Curdos que existiam nos quatro Estados do Curdistão.

12 – As sucessivas derrotas do PKK para o Estado turco, assim como o avanço da Primavera Árabe fez com que a estratégia mudasse novamente, em especial na Turquia. A criação do Congresso Democrático dos Povos (HDK) em Outubro de 2011 é uma resposta ao que acontecia no norte da África e no oriente médio. A ideia do congresso é a de juntar todos os povos e minorias oprimidas, não apenas os Curdos, de uma forma que todos se sentissem representados sem princípios muito amarrados, para conseguir unificar a todos. No ano seguinte, o congresso se torna partido, o HDP, e conta com expressiva participação no levante de Gezi, tornando-se assim referência em toda a Turquia.

13 – A crise na Síria colocou a possibilidade de se criar uma zona liberada curda e influenciar toda a região. Muitos militantes do PKK saíram da Turquia rumo à Síria, enquanto o cessar fogo estava em vigor no território turco. A vitória contra o Daesh (EI) em Kobane foi a vitrine internacional para a causa Curda fortalecendo não apenas o PYD (colateral do Partido dos Trabalhadores do Curdistão na Síria), como criando expectativa em todos os territórios do Curdistão. A atuação contra o Estado Islâmico se consolida nas duas frentes Curdas em Rojava (Síria) e com os Peshmegas do Iraque.Entre Turquia, Síria, Iraque e Irã o Curdistão é a maior nação do mundo (26 milhões de pessoas) sem um Estado.

Mapa

Após Junho as eleições gerais de 2015

14 – O HDP consegue alcançar 13% nas eleições gerais de junho de 2015, fazendo com que Erdogan já não possuísse mais a maioria no parlamento. Essa derrota foi um grande baque para o AKP, que reorganiza as forças e fecha o regime a fim de derrotar os adversários. Com a perda do apoio do Gülen, Edorgan se restabelece plenamente com os militares e cria um departamento para processar e prender oposicionistas, com destaque na Turquia Ocidental para jornalistas e acadêmicos. Faz jogo duplo para ampliar o apoio internacional permitindo a Otan liderar ataque aéreos ao Daesh da Turquia, e apoia o Estado Islâmico estabelecendo rotas para escoar a produção de petróleo em troca de ataques sistemáticos aos Curdos. Retoma a guerra ao PKK a fim de fechar o Regime e atacar de forma sistemática a esquerda, seja com prisões, seja direcionando atentados contra o povo Curdo e o HDP.

15 – Com a conquista do HDP e não havendo maioria parlamentar o governo de Edorgan chama novas eleições para o fim do ano com o objetivo de recuperar o espaço perdido. A estratégia para intimidar os eleitores perpassa por ataques fascistas nas sedes do HDP e diversos atentados, como o de Outubro de 2015 aonde morreram 100 ativistas e mais de 400 ficaram feridos em Ancara. Nas eleições de novembro o AKP retoma a sua maioria através da política do medo, mesmo assim o HDP superar a clausula de barreira de 10% e mantém sua representatividade no parlamento. Desde então o massacre ao povo Curdo no leste continua com alguma resistência das unidades de autodefesa. Censores e advogados estão processando todos os opositores e Edorgan está colocando em frente o projeto de centralizar o poder e se tornar presidente.

16 – A principal bandeira da oposição, e do HDP, é a volta da mesa de negociação com vistas à paz e a retomada do ambiente democrático. O clima de guerra, real e psicológica, toma conta da sociedade e a esquerda, assim como os poucos sindicatos oposicionistas, não conseguem fazer frente ao avanço do fascismo. As principais vozes de oposição são os dois líderes do HDP no parlamento, já na sociedade civil apenas o Curdistão turco tem mobilização com densidade contra o governo. Sabendo que não tem como se manter num regime democrático, Edorgan apresenta o problema do forjado sistema de terrorismo e a guerra da Síria como agenda para centralizar o poder.

17 – Dentre os motivos da comunidade internacional, em especial a Europa, em fazer vista grossa aos ataques aos Direitos Humanos e a Democracia na Turquia está a crise dos refugiados. A principal passagem daqueles que fogem da Guerra na Síria é o território turco, que desde outubro de 2015 firmou um acordo de 3 bilhões de Euros para manter os imigrantes na Turquia, além de facilitar os vistos de cidadão turco para Europa e negociar a volta da adesão do país otomano na UE. Hoje mais de 2 milhões de refugiados encontram-se nos territórios do Curdistão da Turquia em condições degradantes sem perspectivas nenhuma de solução para a situação.

18 – A guerra da Síria tem mudado de forma muito rápida seus contornos. A entrada da Rússia de forma enérgica, assim como a retirada dos embargos do Irã, deram novos rumos à guerra contra o Estado Islâmico e a geopolítica na região. O regime de Assad tem retomado territórios, enquanto a oposição junto com Arábia Saudita, Otan e EUA batem cabeça nos termos de negociação, como bem visto na última semana em Genebra. Enquanto isso aumenta a ameaça sobre Rojava. Além dos ataques sistemáticos dos Turcos, Assad e a oposição síria junto com a OTAN questionam estes territórios e colocam PYD como terrorista. Esta situação dificulta cada vez mais o reconhecimento internacional de Rojava, e assim, a inserção dos curdos nas rodadas de negociação da paz na Síria.

19 – O Curdistão do Norte, localizado na Turquia, se encontra sobre forte ataque de Edorgan em busca de autonomia e paz. O Curdistão Iraquiano mantém sua resistência na principais cidades, mas deixou as pequenas vilas a mercê sem condições de enfrentar o ISIS, especialmente depois que o EUA começou a intensificar o apoio a oposição Síria e tirou o pé do Iraque. E Rojava é território liberado, organizado por assembléias populares, nas quais se elegem delegados para as regionais e nacionais. No território sírio todas as representações de lideranças são compartilhadas, 50% para homens e 50% para mulheres. Em termos de estrutura produtiva e organização econômica está bem debilitado pelo Estado de Guerra. Apesar do front com o Daesh estar bem guardado, o avanço do Estado turco, assim como a posição das potências ocidentais de considerar o PYD como grupo terrorista ameaça a consolidação do território.

Figura 5

Tarefas

a) Campanha contra o ataque aos direitos humanos e a prisão de curdos, jornalistas e intelectuais pelo governo fascista de Edorgan.

b) Campanha pela volta da negociação de paz, a fim de restabelecer a ordem de antes de Junho de 2015.

c) Campanha pelo fim do isolamento total de Öcalan e sua libertação.

d) Propaganda de Rojava e da revolução das mulheres.

e) Apresentação de um Projeto de lei pela liderança do PSOL que proíba a venda de armamentos, letais ou não letais, para áreas de conflitos, especialmente naquelas que os Direitos Humanos não são respeitados.

O PSOL tem todas as condições para ser protagonista na luta em defesa da autodeterminação dos povos, defesa dos direitos humanos e no avanço da luta dos Curdos no Brasil. O próximo período será de grandes avanços e estreitamentos destes laços a partir da divulgação destes enfrentamentos em nosso país e em toda América Latina.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

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