Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

O terror do Estado Islâmico, o estado de exceção na França, nossas responsabilidades

Por PIERRE ROUSSET, FRANÇOIS SABADO,  publicado em VientoSur

O 13 de novembro constitui uma mudança na situação política nacional e internacional. O Estado Islâmico (EI, Daesh) atacou novamente e, também, com mais força. Em janeiro, os alvos foram os jornalistas de Charlie Hebdo, a polícia e os judeus. Dessa vez, quem esteve na mira foi a juventude. Não mataram a qualquer um em qualquer lugar: dispararam contra a gente jovem, contra a juventude, sem distinção alguma, nem de suas origens, nem de religião (ou de ausência de religião), nem de suas opiniões políticas. Ao menos 130 mortos e mais de 350 feridos; segundo testemunhas diretas da matança, como mínimo, mil pessoas. Muitos de nós temos vítimas conhecidas ou, então, amigos que as têm. A onda de choque, a emoção, é profunda.

Solidariedade com as vítimas

O objetivo perseguido pelos comandos do EI não constitui um mistério: destroçar a sociedade através do terror. Criar uma situação na qual se imponha a guerra de uns contra outros; na qual o medo levante barreiras incontornáveis entre os cidadãos e cidadãs em função de suas origens, religião, modo de vida e identidade; cavar um fosso de sangue no seio da religião muçulmana, forçando os fiéis a elegerem um caminho: quem não está conosco incondicionalmente, está contra nós e se converte em um alvo “legítimo”.

Os atentados de Paris se encontram entre os mais sangrentos perpetrados no mundo pelo EI e outros movimentos similiares que respondem à mesma lógica destruidora. Nossa solidariedade é internacional e se dirige, em particular, a quem os combatem em outros países, pondo suas vidas em risco: na Síria, e no Iraque, no Líbano e em Bamako, no Paquistão e na Turquia… Sobretudo, temos que proclamar nossa compaixão, nossa identificação, nossa fraternidade com as vítimas e com as pessoas próximas a elas.

Evidentemente, nesses momentos continuamos impulsionando a luta de classes, apoiando a luta de toda gente oprimida; mas, além disso, defendemos a humanidade frente à barbárie. Para nós, a dimensão humanista do compromisso revolucionário segue sendo uma bússola. Qualquer política progressista começa com a indignação, a emoção. E, ainda que não se reduza a isto, constitui seu ponto de partida. Não oponhamos a reflexão à aflição. Abandonemos os estereótipos; deixemos de escrever sem sentimentos. Aqui e agora, ajudemos as vítimas e as pessoas próximas a elas, soframos sua dor, participemos nos minutos de silêncio, nas manifestações de solidariedade. Formemos parte desse movimento e é a partir dele que poderemos explicar nossas razões.

Seja qual for o papel do imperialismo, o Estado Islâmico é responsável por seus atos

Os revolucionários devem rechaçar de forma clara a barbárie fundamentalista. Há que combatê-la, com nossos métodos, com nossa orientação; não com a dos nossos governantes; mas esta barbárie deve ser derrotada ativamente.

Sob o impacto dos acontecimentos, algumas organizações de esquerda e sindicatos se atrelaram à convocação de unidade nacional; outras, em reação, denunciaram tão fortemente as responsabilidades políticas e históricas do imperialismo ocidental, que sua denúncia do EI era quase inaudível. Em geral, com o passar dos dias, essas tomadas de posição foram se tornando mais claras. Tanto melhor. Mas ainda lemos muitos artigos julgando que, se bem que os atentados “não possam ser desculpados”, é necessário, sobretudo, ter em conta o “contexto”; reduzindo, no essencial, a análise do contexto à enumeração dos estragos imperialistas, se poderia concluir que os movimentos fundamentalistas não fazem mais que reagir à ação das grandes potências e que, em certa medida, deveríamos considerar tais circunstâncias como atenuantes. É necessário eliminar toda ambigüidade a esse respeito.

Curiosamente, muitas vozes da esquerda denunciam com vigor os atentados fundamentalistas, mas rechaçam condenar, nomeando-os de forma explícita, os movimentos que os cometem. Mais curioso ainda, muitas das organizações que não duvidam em fazê-lo (nomear os culpados, explicitar seu caráter reacionário) não tiram nenhuma conseqüência prática disso. Quando se chega às tarefas, já não se menciona o combate contra o terrorismo e contra esses fundamentalismos; o que, digamos de passagem, deixa aos nossos governantes o monopólio das respostas concretas.

Em geral, nos pomos de acordo para fazer frente aos imperialismos e a suas guerras, a uma globalização capitalista destruidora, às desigualdades e às discriminações, à ideologia do choque de civilizações, aos racismos – entre eles, a islamofobia -, às heranças do passado colonial, às políticas de segurança e aos Estados de exceção, aos chamamentos à unidade nacional e à paz social… a determinadas causas e às conseqüências dos dramas que vivemos. Mas também devemos combater a influência do Estado Islâmico (entre outros) nas nossas próprias sociedades e solidarizarmo-nos de forma concreta com as resistências populares nos países do Sul, transtornados pelo fanatismo religioso. Esse é um dever internacionalista. Em uma boa parte da esquerda radical, incluindo a que não se vincula ao nocivo “campismo”, existe tal “ponto cego”. Por isso damos importância a essa questão em nossa contribuição.

O EI, ou outro movimento similar, não se contenta em reagir: atua segundo sua própria agenda. São agentes políticos que perseguem objetivos. Efetivamente, não há nenhuma dúvida de que o EI seja o responsável pelos atentados de Paris. Esta organização construiu um proto-Estado em um território equivalente ao da Grã-Bretanha. Gere uma administração, acumula imensas riquezas (avaliadas em cerca de 1,8 bilhão de dólares), organiza contrabando de petróleo e de algodão. Desenvolve operações de guerra em múltiplas frentes de batalha, recrutaram especialistas de informática de alto nível… não se trata de uma marionete! É responsável por seus atos; totalmente responsável por todos os atentados que comete em tantos lugares.

Esta responsabilidade própria não se dilui nas responsabilidades do imperialismo, por muito profundas que sejam essas últimas e ainda que o sejam desde há muito tempo: desde os acordos Sykes-Picot do começo do século XX até as intervenções atuais das grandes potências. Na verdade, se ouve dizer que sem a intervenção dos EUA em 2003 no Iraque (que desestabilizou a região e desintegrou Estados), EI não existiria. Isto não é verdade além do que diz respeito ao encadeamento específico que conduziu à fundação do Estado Islâmico, tal como o conhecemos. Em tudo o mais, é falso. A emergência das forças jihadistas não deriva mecanicamente da dominação imperialista; é o produto combinado de numerosos fatores, que vão desde a derrota das esquerdas árabes (e européias) até a vontade das burguesias da região de contar com novas forças contrarrevolucionárias para dar impulso a suas ambições regionais, ou combater o ascenso revolucionário no seio do mundo árabe. Isto também é certo no que diz respeito ao ascenso dos fundamentalismos religiosos em outras partes do mundo; inclusive em países que não conheceram nada comparável à guerra de 2003, tais como a Índia (extrema-direita hindu), Birmânia (extrema-direita budista) ou Estados Unidos (exrema-direita cristã, poderosa antes do 11 de setembro de 2001 e muito próxima a Bush).

Às voltas com o “choque de barbáries”

Existe uma responsabilidade imperialista ocidental, como houve no dia seguinte da guerra de 14-18 (o tratado de Versalhes) em relação ao ascenso do nazismo na Alemanha. Naquela época, não faltaram antifascistas que o recordavam de forma sistemática. No entanto, uma vez que o nazismo se desenvolveu, denunciaram o partido nazista e o combateram. O Estado Islâmico já se desenvolveu…  

Temos que continuar explicando o contexto, mas há que compreender o Estado Islâmico naquilo que é, não como uma mera sombra do Ocidente. O imperialismo contemporâneo, as políticas neoliberais, a globalização capitalista, as empresas de recolonização, as guerras sem fim, esgarçam o tecido social de um número crescente de países, dando espaço a todas as barbáries. Mas os fundamentalismos religiosos também são agentes temíveis da desintegração de sociedades inteiras. Neste caso, não existe uma “barbárie principal” (do Ocidente) que haveria que combater hoje e uma “barbárie secundária” (EI e seus consortes) com a qual não deveríamos nos preocupar, a não ser em um futuro indefinido. O contrário também é verdade: não se deve fechar os olhos para a barbárie imperialista e das ditaduras “aliadas” sob o pretexto de combater a barbárie fundamentalista. No horror não existe hierarquia. É preciso defender ativamente e sem demora todas as vítimas destas barbáries gêmeas, que se alimentam umas às outras, sob pena de fracassar em nossas obrigações políticas e humanitárias.

Muitas vezes, os fundamentalismos religiosos estiveram apoiados por Washington em nome da luta contra a URSS (no Afeganistão, Paquistão…) antes que afirmassem sua autonomia ou, inclusive, se voltassem contra seus padrinhos. Estes movimentos não têm nada de progressistas, são profundamente reacionários. O antiimperialismo reacionário não existe. Querem impor um modelo de sociedade, ao mesmo tempo, capitalista e que nos devolva ao passado: totalitário no sentido forte do termo. Certamente, a França foi atacada em função de sua política no Oriente Médio ou de sua história colonial e pós-colonial. Mas, quando o EI massacra os Yazidis porque são Yazidis, reduz as populações ao escravismo, vende as mulheres, desestabiliza o Líbano, leva ao extremo as violências interconfessionais (sobretudo contra os xiitas), que tem a ver isso com um suposto antiimperialismo?

Os movimentos fundamentalistas, como um todo, não têm as mesmas bases nem a mesma estratégia. Alguns, como o Estado Islâmico, são fascistas? Não mantém as mesmas relações (complexas) com setores das burguesias imperialistas como na Europa dos anos 30, mas as reproduzem com setores das burguesias das “potências regionais” como no Oriente Médio, Irã, Arábia Saudita, Qatar, Turquia… Atraem a “decomposição da humanidade”  nas sociedades que se desintegram, assim como elementos das “classes médias”, da “pequena burguesia”, de uma assalariado culto. Para impor sua ordem, utilizam o terror “por baixo”. Desumanizam o Outro e o convertem em “bode espiatório”, como antes fizeram os nazistas com a população judia, cigana ou com os homossexuais. Erradicam toda forma de democracia e de organização popular progressista. A exaltação religiosa cumpre o mesmo papel que a exaltação nacional durante o período entre-guerras e, além do mais, permite que se desloque internacionalmente. Seria estranho que as convulsões provocadas pela globalização capitalista não dessem origem a novos fascismos, da mesma forma que seria estranho que estes fossem idênticos aos do século passado. Existe uma diferença em relação aos fascismos europeus; é a superposição dessa reação integrista totalitária, com o desmantelamento dos Estados e a crise das relações de dominação imperialistas, econômicas e militares que contextualizam a região. A luta anti-terrorista deve ser impulsionada pelos povos da região e não por uma coalizão de potências ocidentais. Uma nova intervenção militar das potências imperialistas e da Rússia, apoiada em cada um de seus flancos pelos países do Golfo e pela ditadura síria, pode debilitar o EI no terreno militar mas não pode provocar mais que uma reação de rechaço de todos os povos sunitas da região.

A crise da sociedade francesa

Os atentados de 13 de novembro foram cometidos, sobretudo, por franceses ou franco-belgas; a França, junto com a Bélgica são dois dos países de onde mais partiu gente para a Síria. Não existe um perfil único das pessoas que se unem ao Estado Islâmico. Podem vir de famílias religiosas, de famílias muçulmanas laicas ou não muçulmanas: são bastante numerosos os não-árabes recém-convertidos. Também podem provir de meios muito precarizados ou estáveis, ter um passado delinqüente ou não. Em determinados casos, a “radicalização” de um indivíduo é o ponto de chegada de um processo largo; para outros, se trata de uma transformação repentina. Como era de esperar, a maior parte dos homens, mas não todos, que cometeram os atentados na França provêm de áreas particularmente desfavorecidas, conheceram a prisão e foram membros de gangues. Frente a essa pluralidade de perfis, não podemos nos contentar com explicações simplistas, unicamente sociológicas (precarização, racialização das relações sociais…) ou históricas (o rastro pós-colonial).

Diferentemente de outras radicalizações anteriores da juventude, esta é muito minoritária e não reivindica aspirações humanistas. O Estado Islâmico mostra a si mesmo da forma mais crua: “venha cortar cabeças conosco”.  O exército francês torturou massivamente, sobretudo durante a guerra da Argélia, mas o governo e o Estado-Maior negavam de forma encarniçada seus crimes: jamais fizeram um chamamento proclamando: “Venham aderir ao vosso grande exército, venha torturar conosco”. O Estado Islâmico explicita publicamente um discurso de ódio e de exclusão do Outro (como a mais extrema das extremas-direitas). Não há analogia possível entre as atuais partidas para a Síria e a constituição das Brigadas Internacionais durante a guerra civil espanhola ou a radicalização dos anos 60.

Não existe nada de banal em tudo isso, nem no recurso ao terror de massas. Pretender que o terrorismo seria a arma “natural” dos oprimidos nas guerras “assimétricas” é ignorar as lições dos grandes combates de libertação nacional do século passado, das guerras revolucionárias. Nas lutas a favor de sua independência ou contra o imperialismo, na Indochina ou na América Latina, os atentados terroristas da época foram raros e os movimentos implicados compreenderam rapidamente que o custo político de tais operações era demasiadamente elevado e que geravam muitos problemas éticos. Na Argélia, a FLN, que se aventurou nesse terreno, deu marcha atrás rapidamente sob a pressão de alguns de seus setores ou dos movimentos de solidariedade com a independência argelina.

Sofremos as conseqüências profundas da “crise política”, da perda de socialização inerente a nossas sociedades neoliberais e de sua crescente injustiça, da derrota sofrida por nossas gerações (os radicais dos anos 60-70), da incapacidade das esquerdas em nossos países em oferecer uma perspectiva radical e desenvolver uma atividade no seio das comunidades precarizadas. Nos enfrentamos com questões que a maioria de nós não domina: a psicossociologia, a relação entre as fragilidades identitárias individuais e o esgarçamento do tecido social, as buscas adolescentes… O Estado Islâmico oferece uma armadura identitária e de poder: poder de representação, poder das armas, poder sobre as mulheres, poder sobre a vida e a morte… Nisso se baseia seu poder de atração, muito mais que um suposto antiimperialismo.

Trata-se de questões que devemos integrar mais do que fizemos até agora e das quais podemos extrair algumas conseqüências. A luta anti-racista, por muito importante que seja, não é suficiente. Frente ao individualismo neoliberal e seu anonimato (quem conhece a seus vizinhos e vizinhas?) é preciso favorecer, reconstruir, os espaços de socialização, de “convivência”, a mistura étnico-cultural, e reintroduzir uma reflexão de fundo sobre a ética do compromisso e a luta.

Nesta situação, todos os racismos constituem um perigo mortal; entre eles o racismo de Estado, por suposto, mas não apenas. Lutemos contra o que pode alimentar as tensões intercomunitárias, fazer com que uns oprimidos enfrentem a outros, seja através do racismo anti-árabe, ou da negrofobia, do anti-semitismo ou da islamofobia, ou da discriminação dos ciganos; e para isso, nutramo-nos de uma cultura de convivência, de respeito aos direitos de todos e todas.

Nossas tarefas internacionalistas

Os últimos acontecimentos (13 de novembro, atentados no Sinai contra o avião de linha russo…) precipitaram uma evolução das alianças, que já se percebia desde antes, com a formação de uma grande coalizão: integração da Rússia, abandono das pretensões de autonomia da França, preocupação manifesta, inclusive pela Arábia Saudita, em torno ao avanço do Estado Islâmico… Em contrapartida, se apóia o regime de Assad, ainda que esteja na origem da crise síria e seja culpado dos crimes que conhecemos. Basta isto para favorecer um acordo temporário entre as potências regionais pertencentes aos chamados “blocos” sunita e xiita?

Ainda é muito cedo para medir todas as implicações desse giro na situação internacional. Por ora, assinalemos os seguintes pontos.

Os acordos entre os ocidentais e a Turquia ou com o regime de Assad se farão em detrimento das forças que mais merecem nosso apoio na região: curdos, yazidis, componentes progressistas e não-confessionais de resistência ao regime sírio. É preciso levar a eles nossa solidariedade política e material e, sobretudo, exigir que recebam armas adequadas, essas que os componentes progressistas do ELS (Exército Livre da Síria) jamais tiveram (e, ainda assim, resistem!) e das quais os curdos poderiam se ver privados, em particular na frente síria. É obrigatório reconhecer que, no que nos diz respeito, na França nunca fizemos o que era necessário.

A intensificação dos bombardeios da coalizão, com o exorbitante preço pago pela população civil, corre o risco de reforçar o apoio ao EI dentre outros componentes islamistas que operam na Síria. O resultado desta política seria então reforçar tanto o regime de Assad como as organizações fundamentalistas (começando pelo Estado Islâmico). Para evitar essa armadilha, é preciso romper com a lógica das grandes potências: ajudemos as forças populares na Síria e no Iraque a continuar sua luta, em lugar de querer substituí-las ou, inclusive, marginalizá-las ainda mais.

Lutemos pois contra a política de guerra de nossos governantes, mas compreendamos também a especificidade deste conflito, muito diferente das guerras da Indochina ou da Argélia: nelas, a retirada das tropas francesas ou americanas significou o fim das principais ingerências estrangeiras e criou as condições para uma vitória. Não é o caso, nesse momento, no Oriente Médio, ainda estariam lá: Turquia, Irã (e Hezbollah), Arábia Saudita, Qatar, Argélia, Egito… Em uma geopolítica tão complexa, é necessário prestar atenção aos movimentos que apoiamos para saber o que necessitam, material e politicamente. São os povos que têm que decidir, não as coalizões imperialistas. Mas, e isso constitui uma dimensão específica nessa guerra, tanto os curdos como os democratas sírios têm pedido, e seguem pedindo, ajuda médco-sanitária e militar, inclusive aos governos ocidentais. É preciso garanti-la. Não à substituição da capacidade de decisão e auto-determinação das forças democráticas sírias e curdas; mas, ao mesmo tempo, nenhuma dúvida na hora de ajudá-las e fazer pressão sobre nossos governos para que respondam às reivindicações que fazem e aos apelos que lançam.

No âmbito internacional, há que denunciar a hipocrisia das forças ocidentais: de um lado, pretendem combater o terrorismo e de outro, apóiam os regimes do Qatar, Arábia Saudita ou Turquia.

A coalizão que se constitui não tem nada que ver com uma aliança “democrática” contra uma ameaça totalitária. Além de nossos imperialismos “clássicos” esta coalizão inclui a Rússia de Putin, a Arábia Saudita, cujo regime está muito próximo do modelo de sociedade preconizado pelo EI, o Qatar, a teocracia iraniana, a Turquia de Erdogan, etc. Qualquer que seja a natureza do Estado Islâmico, toda analogia com uma “frente democrática anti-fascista” não tem nenhum sentido. Não estamos nem com a coalizão nem com o EI, nem com Assad. Estamos pelo direito à auto-determinação dos povos – entre eles o povo palestino – e contra todas as barbáries.

Um inflexão na situação nacional

Igual a janeiro passado, depois do massacre dos jornalistas de Charlie Hebdo, o assassinato dos policiais e o ataque de Hypercacher, a emoção submerge o país, o que é totalmente normal. Os atos islamofóbicos se multiplicaram, mas só correspondem a uma faixa da população. Os atos de solidariedade e de convivência também se multiplicaram: mostras de simpatia no metrô quando se cruza com uma pessoa do Magreb, a amabilidade ostensiva (inclusive, fora de moda) abrindo espaço para deixar passar uma mulher com véu, reocupação dos espaços festivos e de mistura étnico-cutural… Desgraçadamente, todos esses gestos não se registram nem formam parte das estatísticas.

Igualmente, como em janeiro, se aclamam as políticas de segurança e se aplaude as forças da ordem. Só que, mais ainda que em janeiro, o governo se aproveita da ocasião para adotar medidas liberticidas. Foi o caso da Lei de Inteligência, que outorga poderes exorbitantes aos serviços secretos. É o que ocorre hoje com a implantação do estado de exceção e seu endurecimento por parte do Parlamento, com o chamamento do governo francês a que a União Européia se comprometa, especialmente fichando a quem viaja de avião, e o anúncio de François Hollande de uma reforma constitucional.

A França já dispõe de dois regimes de exceção forjados, fundamentalmente, motivados pela guerra da Argélia: o estado de exceção (uma pseudo-lei marcial que dá carta branca às forças da ordem, ao controle judicial e limita as liberdades) e o estado de sítio (uma lei marcial integral que outorga todo o poder ao exército). Por que isso não basta aos governantes? Porque o recurso ao estado de exceção, por exemplo, está limitado no tempo e exige um voto no parlamento; que nessa ocasião foi quase unanimemente favorável: foi apoiado pela grande maioria dos socialistas, dos verdes e dos deputados comunistas. A reforma constitucional permitirá ao governo (ou ao presidente?) adotar as medidas de exceção com mais liberdade e, finalmente, converter a exceção em regra: intervenção do exército em assuntos policiais, registros arbitrários, detenções “preventivas”, proibição de manifestações ou greves, censura da imprensa, etc. Ainda não se conhece o texto da lei que elaborará Hollande, mas suas intenções estão claras. O regime se fará cada vez mais autoritário e a militarização da sociedade dará um salto adiante.    

Muitas pessoas se inquietam pelo que aconteceria se Marine Le Pen e a Frente Nacional ganhassem as eleições (um cenário que nada tem a ver com a ficção), mas não se colocam o que os Hollande, Valls, Sarkozy ou outros fariam. Por isso é muito importante recordar o que fizeram no passado os governos “republicanos”: a tortura na Argélia, a adoção de uma lei de anistia que proíbe acusar seus autores (Só se pode acusá-los de apologia da tortura se, depois de tudo, defendem sua utilização), o esquecimento midiático do massacre das argelinas e argelinos, no 17 de outubro de 1961 em Paris (que não foi outra coisa, foi terrorismo de Estado), o golpe dos generais da Argélia, os múltiplos jogos sujos dos serviços secretos, o atentado contra o Rainbow Warrior do Greenpeace (um morto; de novo, terrorismo de Estado), o assassinato dos dirigentes kanakos, etc. De fato, o conjunto de leis de segurança adotadas nesses últimos anos e os dispositivos de vigilância instituídos podem permitir ao poder, esteja quem esteja nele, desenvolver uma guerra civil latente quando o deseje. Enfim, além de seguir rumo a uma [sociedade] “totalmente securitária” existe um cálculo político: Hollande e Valls contam com o estado de exceção para utilizar, uma vez mais, o arsenal bonapartista e situar-se, de certo modo, por cima dos partidos e instituições. Uma operação cujo objetivo é neutralizar o balanço catastrófico dos governos desde 2012 e prometer, ao Partido Socialista, melhores resultados eleitorais. Uma aposta tremendamente imprudente. Hollande e Valls, apoiados nas instituições da V República, podem jogar a cartada da segurança, mas na situação política atual, em que os maus ventos sopram na direção da direita e da extrema-direita, são essas forças que correm o risco de aproveitar-se desta manobra.    

As resistências ao prolongamento do estado de exceção têm sido muito débeis na esquerda parlamentar, ainda que mais importantes ao nível das bases (no seio do PCF, por exemplo, contra o voto de seus representantes na Assembléia Nacional) ou nos movimentos sociais: declaração de Solidaires e, também, da CGT.

O atual momento político é duro e comporta grandes riscos. A democracia política já foi esvaziada de conteúdo; os parlamentos já não decidem sobre as questões principais (que estão nas mãos da União Européia, da OMC ou dos tratados intergovernamentais). Agora se trata das liberdades civis, já sob pressão, que correm o risco de converterem-se em uma casca vazia. O governo quer pôr a sociedade em prisão domiciliar, mas o povo não tomou consciência disso ainda.

O importante é estabelecer pontes entre as resistências, manifestar nossa solidariedade com as vítimas do terrorismo, oferecer aos povos que lutam por sua liberdade os meios materiais, políticos e militares para sobreviver e vencer; ajudar as forças progressistas e não-confessionais que lutam no Oriente Médio, tanto contra o obscurantismo sanguinário, terrorista, do Estado Islâmico como do regime de Assad, que tanto o favoreceu. É pôr fim à escalada de guerra e bombardeios, pôr fim ao apoio aos regimes absolutistas e à promoção de injustiças sociais e políticas, tanto no Oriente Médio como em outras partes.

A situação das forças progressistas na frança é bastante desastrosa, mas neste momento chave existem pontos nos quais se apoiar para resistir: o sentimento de solidariedade presente na população, a reação da juventude, o rechaço de um bom número de organizações e sindicatos a aceitar medidas liberticidas, um regime de exceção permanente. Daí que seja necessário construir uma frente única em defesa das liberdades, da convivência e solidariedade, aqui e por toda parte.

Movimento - Crítica, teoria e ação

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