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O que busca Obama ao agredir a Venezuela?

Por: Equipo Operativo Nacional de Marea Socialista | Quarta-feira, 18/03/2015 06:17 PM
Editorial #4 – 17/03/2015

A declaração da Venezuela como “ameaça incomum e extraordinária” para os Estados Unidos por parte do Sr. Obama, desnuda uma política continental do imperialismo norte-americano para recuperar o controle sobre o que consideram seu “pátio traseiro”.

Fatos que apresentavam isolados até o momento, como por exemplo, as reuniões que levam adiante em Havana pela Paz na Colômbia entre as FARC e o governo de Santos, ou o avanço de negociações feitas recentemente, para a eliminação do bloqueio a Cuba, seriam a cara amável da mesma política integral para a região, cuja cara mais abertamente ingerencistas é a das ameaças à Venezuela Bolivariana e ao governo do Presidente Maduro.

A reunião CELAC-China realizada em Beijing em janeiro deste ano, que deu como resultado a aprovação de um Plano Quinquenal de investimentos chineses de características neocoloniais; sobretudo, a irrupção de Syriza como ponto de lança de um fenômeno social e político europeu de rechaço massivo à austeridade neoliberal que impulsiona a Troika da qual faz parte os Estados Unidos através do FMI; a ameaça que representa Podemos para o regime de 78 na Espanha, 4ª Economia da Zona do Euro e membro essencial da OTAN para o Mediterrâneo, são os fatos recentes que, aparentemente, aceleraram este rumo de ingerência.

Entretanto, outros dois fatos de características de fim de ciclo sucederam em 2013 e significaram um alerta para as classes dominantes em nossa região e, supomos, para seus amos de Washington. Em junho daque ano as impactantes e multitudinárias mobilizações no Brasil abriram um período de lutas que continua e que debilitou a capacidade de controle social do PT sobre o povo trabalhador da sexta economia mundial, contagiando o “movimento de indignação” que havia começado a percorrer o sul da Europa até o país mais poderoso de nosso continente.

Enquanto que, por outro lado, em março de 2013, o falecimento do Comandante Chávez abriu um período de incerteza, instabilidade política e contrarreformas econômicas exigidas pela burguesia venezuelana e em alguns casos cedidas pelo governo do presidente Nicolás Maduro, debilitando a base social do Processo Bolivariano e impactando também a região.

Tudo isso ocorre no 8º ano de desenvolvimento contínuo da crise mundial mais prolongada e profunda do capitalismo no último século.

É neste marco que se deve entender o alcance, os objetivos e as táticas desta contra-ofensiva gringa. Apenas assim poderemos responder com precisão e contundência à política de Obama e seus aliados regionais. Saber que é o que está em jogo e por que Venezuela é o “inimigo declarado”, eleito pelo governo de Obama, é fundamental para enfrentar o que poderia ser uma nova conjuntura continental.

1- Uma década de ciclo não-neoliberal

O avanço neoliberal da década dos 90 que mais ou menos percorreu o conjunto da América Latina encontrou um potente freio em um processo de rebelião massivo e estendido a nível regional.

Equador, Bolívia, Argentina, para assinalar alguns dos países mais convulsionados desse período, como Venezuela desde antes, foram sacudidos por uma rebelião massiva que derrubou governo, atrás de governo, até demolir praticamente os regimes políticos que tentaram aplicar o conjunto de receitas do FMI.

Quando em agosto de 2004 o comandante Chávez voltou a derrotar a oposição, esta vez no Referendo Revogatório, derrotou ao mesmo as ilusões da velha oligarquia local e dos Estados Unidos de desajolá-lo do governo no momento. Tentariam com o golpe de abril de 2002, com a paralisação patrona, com a sabotagem petroleira e com o revogatório. Fracassaram.

Mas não se tratou somente da consolidação do Processo Bolivariano e do governo Chávez na Venezuela. Foi ao mesmo tempo um novo espaço em um ciclo no conjunto da América do Sul. Um ciclo que montado em uma potente rebelião de massas buscava ampliar-se desde o início da década dos 90 do século passado, mas que em 2005, com o rechaço a ALCA, impulsionado pela Venezuela desde o ano 2000, e que era acompanhado em Mar del Plata por Brasil, Argentina e Uruguai, chocou com a política central do governo Bush e encontrou um novo piso antinorte-americano no continente. Este ciclo político se conjugou com um momento extraordinário de preços das matérias-primas a nível mundia que pareceria ter chegado ao seu fim.

Para além das diferenças de país para país, nos processos de avanços sociais e políticos e entre os próprios governos, o rechaço à ALCA foi uma amálgama entre ideário da Agenda Bolivariana de Chávez, de Segunda Independências continental, e a vocação de busca de hegemonia na região da burguesia brasileira, que tentou com o PT e com Lula, uma ferramenta de disciplinamento social em seu país, para se lançar à conquista dessa hegemonia.

Esta amálgama tinha um roteiro que não pode se desenvolver plenamente, mas era distinta do neoliberalismo dos prematuros 90. No terreno econômico arrancava justamente do rechaço à ALCA, a construção do Banco do Sul, e a instalação do SUCRE como moeda alternativa ao dólar para o comércio interregional, entre outras medidas. Algumas delas se implementaram, outras lamentavelmente ficaram engavetadas pelas vacilações de governos que respondiam mais aos interesses de suas próprias burguesias.

Por outro lado, desde o ponto de vista político e da integração sul-americana, a construção de instâncias superadoras da OEA, como UNASUL. Um projeto que frente à agressão de Obama está mostrando suas debilidades estruturais. Debilidades que se acentuaram depois da morte de Chávez.

Os governos surgidos desta onda que percorreu a América Latina no final do século passado, não foram todas iguais. Pelo contrário, exceto o de Chávez e o de Evo Morales e quiçá o de Correa, o resto não tentou uma saída de relativa independência nacional e em distinto grau manteve sua relação de dependência ou semidependência. E com rusgas com os Estados Unidos, começaram a abrir-lhes as portas à penetração do emergente colosso chinês. Estes governos, exceto os que se reivindicam bolivarianos, se escudavam mais num discurso ou “relato” de tom supostamente “progressista” que numa política concreta de soberania e unidade latino-americana.

No entanto, seria um grave erro de enfoque não entender que por trás das ameaças à Venezuela Bolivariana, a ofensiva norte-americana é sobre toda a região, e tem um objetivo fundamental: recuperar a dominação plena, que, mais ou menos, foi questionada nesta década. Sobretudo em uma situação econômica regional montada na queda dos preços das matérias-primas e do petróleo, que, como parte da crise mundial, dá impressão de haver chegado para ficar por um tempo prolongado.

A política ianque busca a instalação de governos mais confiáveis, sólidos e menos degastados, para cumprir as tarefas que lhes encomende o grande capital e frear ou enfrentar as lutas sociais que esta nova etapa abrirá como já adiantou o “junho” de 2013 brasileiro.

Em segundo lugar, mas nem por isso menos importante, tentam frear o rápido, extenso e profundo avanço da penetração chinesa no continente. Sem esquecer que tentará amortecer o impacto que poderia ter nos mais de 50 milhões de latinos, que vivem nos Estados Unidos, uma situação de explosão ao Sul do Rio Grande.

2.- Uma política fruto da debilidade e a crise

Para além dos anúncios de recuperação econômica por parte das autoridades gringas, pelo terceiro ano consecutivo o governo estadunidense balança à beira do pedido de ampliação da capacidade de endividamento fiscal como maneira de manter “aberto” os trabalhos da administração central. Ao mesmo tempo que sua suposta recuperação não conseguiria ainda chegar a alguns indicadores fundamentais de superação da crise que eclodiu em 2007.

Paul Craig Roberts, ex-adjunto do Secretário do Tesouro durante o governo Reagan, escrevia no princípio de março.

“De acordo com o conto de fadas econômico oficial, a economia norte-americana tem se recuperado desde o mês de junho de 2009.

Este conto de fadas dá apoio para a imagem dos Estados Unidos como um porto seguro, imagem que sustenta o dólar e o mercado de valores em alta e às taxas de juros para baixo. Trata-se de uma imagem que faz com que enormes quantidades de norte-americanos desempregados culpem a si mesmos e não aqueles que manejam mal a economia.

Este conto de fadas sobrevive apesar do fato de que não existe informação econômica que o sustente.

A renda real familiar não experimentou crescimento durante anos e se encontra por debaixo dos níveis da década de 70 do século passado.

Não houve crescimento real nas vendas de varejo durante os últimos seis anos.
Como faz uma economia que depende do crescimento da demanda dos consumidores quando a reanda real do consumidor e as vendas de varejo não crescem?
Não se deve a falta de investimentos empresariais. Por que investir se não há crescimento nas vendas? A produção industrial com inflação reduzida permanece muito abaixo do nível recessivo.

Não se deve à construção. O valor real da construção total acabada baixou de maneira aguda no período 2006 até 2011 e foi saltando desde o nível de 2011 durante os últimos 3 anos.”

Mas que Estados Unidos ainda esteja submersos na crise aberta em 2007, não quer dizer que tenha deixado de ser a potência mais poderosa e agressiva do planeta. É justamente por isso, pela sua debilidade, e como uma política para eliminar os efeitos do rechaço à ALCA, para frear a China, e para tentar que não descarrile a relativa estabilidade política da década. Por tudo isso é que, aproveitando o desgaste e a clara intenção de pactuar com alguns dos governos chamados progressistas, ou as necessidades de outros, onerados por longos anos de crise econômica e isolamento, o governo de Estados Unidos parece haver decidido uma política com a qual tenta retomar seu controle e influência passada no continente.

3- As táticas dos Estados Unidos
O professor Luis Brito Garcia fez uma contagem de todos os passos, táticas ou combinação delas que estariam dispostos a empregar os EUA em sua escalada contra a República Bolivariana e o legado do Comandante Chávez. Diz em seu artigo Venezuela Ameaça(da): que as táticas estadunidenses podem variar desde as declarações ingerencistas até a intervenção militar, as manobras diplomáticas e o manejo midiático para justificar suas políticas.

Nesse artigo, recomendável para a leitura e o debate, aconselha duas propostas. Uma econômica, e outra política. Ambas em sintonia com as quais vem apresentando Marea Socialista. Uma delas é o monopólio estatal da parte essencial do comércio exterior e a outra tem a ver com o perfil dos candidatos que o chavismo deve apresentar nas eleições da Assembleia Nacional.

Ainda que desde nosso ponto de vista as condições atuais da realidade venezuelana e continental seja muito pouco provável uma intervenção bélica direta dos Estados Unidos, é imprescindível que, em qualquer circunstância, o governo avance na proposta econômica de Monopólio do Comércio Exterior, para nós integral, que se sintetiza na consigna “nem um dólar a mais para a burguesia”, assim como o reconhecimento da necessidade de que nossos candidatos à Assembleia Nacional tenham uma trajetória irretocável e não sejam suspeitos de corrupção. São propostas corretas para elevar a moral do povo bolivariano, tentar resolver uma crise econômica que mantém angustiado e molestado o povo que vive de seu trabalho e encaminharmos com possibilidades de êxito na disputa eleitoral pela Assembleia.

Também estamos convencidos de que a articulação da ofensiva gringa, está centrada em todo tipo de chantagem econômica, política e diplomática de ingerência flagrante contra nossa soberania e para isso nós temos que nos preparar. Contudo, estar desde agora, como está fazendo o governo venezuelano, anunciando a intervenção militar direta e iminente, debilita a preparação política de nosso povo e não ajuda a que o movimento de massas de Nossa América, antinorteamericano até a medula, entenda que deve se preparar para a defesa e aprofundamento dos avançados conseguidos na década passada, muitos deles conseguidos na luta contra seus próprios governos, que em todo territorial continental estão sendo ameaçados.

Não se trata somente de realizar exercícios militares preventivos, que é preciso realizar. Senão de preparar a base social do processo com ferramentas políticas para o debate nacional, para desenvolver uma mobilização social contundente e ajudar a levantar uma vontade de solidariedade ativa e mobilizada, na defesa das conquistas obtidas.

4- Venezuela símbolo da rebeldia

Uma série de circunstâncias particulares explicam a decisão dos EUA de desenvolver esta política de recuperação de sua proeminência na América Latina. O impulso de organismos, inclusive vacilantes como CELAC ou UNASUL, significaram um passo, ao menos diplomático, de reduzir o poder da OEA ao suprimir a participação dos EUA e Canadá neles.

O avanço dos BRICS, do qual Brasil é um dos animadores principais, também na última década, com seus organismos multilaterais de crédito, com seus bancos, suas políticas de investimento e comércio na região e outros, significaram neste período de crise não resolvida, uma ameaça para a já deteriorada hegemonia mundial dos EUA.

No entanto, para EUA no que toca a recuperação de seu status em nosso continente, o verdadeiro símbolo de rebeldia, de contestação, de desobediência irreverente, é o Processo Bolivariano. É o Processo que mais avançou para uma relativa independência econômica, o que tem dado mais mostras de vocação de conquistar sua soberania política, e o que mais tem feito para instalar um avanço na justiça social na distribuição de sua renda nacional.

O Processo Bolivariano e o Legado do Comandante Chávez são o símbolo a derrotar para que a inclinação a ceder aos EUA de amplos setores dominantes e seus governos, em nosso continente, se faça realidade.

A isso ajuda a atual conjuntura na Venezuela. Alguns de cujos dados salientes são: a) O falecimento de Chávez e a abertura de uma etapa de disputa pelo controle do país. b) A política de aplicação de contrarreformas às conquistas do povo bolivariano levada adiante pelo governo do presidente Maduro; c) A crise econômica, que se agudiza com a queda abrupta dos preço do petróleo; e d) O mal-estar crescente com o governo de amplos setores de base do chavismo.

Por isso a pressão sobre o Processo e o governo Bolivariano não cederá. Faz parte dessa política integral para Nossa América.

Contudo esta contra-ofensiva enfrentará um povo que vem de ter obtido triunfos importantes e que mantém elevado seu espírito de luta, como hoje mesmo demonstra a resposta frente à agressiva ingerência.

O que podemos afirmar é que esta política prenuncia que entraremos em um novo momento de lutas, convulsões sociais e novos fenômenos políticos. Do ponto de vista objetivo, se começo a desenvolver uma enorme oportunidade, a de avançar para um novo nível na luta por impor o verdadeiro conteúdo da Agenda Bolivariana.

A condição é que esta luta não pode ser apenas antiimperialista. Deve avançar decididamente para o anticapitalismo, ser, ao mesmo tempo, profundamente democrática e buscar um novo tipo de integração não-capitalista da América Latina: uma integração solidária, mobilizada e independente dos grandes centros do poder mundial.

5- As tarefas da esquerda radical nesta hora

Marea Socialista, corrente crítica, enraizada com clareza no Processo Bolivariano, não se confunde, e enfatiza que a primeira obrigação da militância de esquerda no continente e a nível internacional é o rechaço contundente, com nome próprio, à agressiva ingerência ianque.

Não serve se escudar em supostos ou reais erros do governo bolivariano atual, grande parte dos quais temos apontado. Não se trata de “direitos humanos” limitados a tal ou qual dirigente de tradição golpista e violenta da oposição. A defesa da Venezuela Bolivariana ante a ingerência gringa é hoje uma tarefa imprescindível para a esquerda latino-americana e mundial. Inclusive para além da políticas acertadas ou equivocadas do próprio governo para defendê-la.

A outra obrigação irrenunciável é impulsionar o debate sobre como construir em melhores condições uma política de rechaço às aspirações dos EUA para com nosso país e o continente. Este debate, aberto, crítico, democrático, com participação inclusiva é, ao contrário do que observam altos hierarquas do governo, mais importante que nunca para encontrar a melhor forma de defender as conquistas do Processo, construir um piso de resistência às contrarreformas internas e promover um política continental de soberania e independência para além das vacilações ou a vontade negociadora dos governos da região.

Em terceiro lugar chegou a hora de estreitar laços, abrir debates e construir confiança e partir da ação unitária, entre a esquerda radical de nosso continente. Porque, como ficou demonstrado, são insuficientes as políticas antineoliberais, devemos reconstruir o antiimperialismo continental, impulsionar um anticapitalismo militante, lutar por uma integração solidária e pós-capitalista da região. Estes podem ser os pilares da construção de uma nova onda revolucionária que revitalize o espírito da Agenda Bolivariana para Nossa América e conquistar a definitiva independência.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

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