Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

O êxodo, a barbárie e a decadência capitalista

Maycon Bezerra – Professor, militante do MES e colaborador da Secretaria de Relações Internacionais do PSOL

1 – Qual o caráter da crise dos refugiados?

O mundo assiste estarrecido ao êxodo desesperado de muitas centenas de milhares de homens, mulheres e crianças, oriundas do Oriente Médio e norte da África, que atravessando o Mar Mediterrâneo em embarcações precárias e superlotadas, chegam à Europa ou morrem tentando. Já chegaram ao continente europeu, nesse ano, fugindo de guerras, massacres e perseguições em seus países de origem, cerca de 500 mil pessoas em busca de refúgio.  Na travessia, já morreram milhares de pessoas, sendo o pequeno Aylan Kurdi, desgraçadamente, apenas um caso a mais que se tornou célebre. Todos os dias são resgatados – ou encontrados mortos – dezenas, centenas de seres humanos à deriva no mar. Países como a Itália, a Grécia, a Hungria, dentre outros, recebem uma massa enorme de gente desesperada, em sua maioria buscando asilo e refúgio na Alemanha e outros países do norte europeu, o que evidencia a dimensão trágica da catástrofe humanitária em questão.

Não se trata de um fenômeno da mesma natureza daquele referente à migração regular de africanos e asiáticos para a Europa em busca de emprego e melhores condições de vida, a chamada “migração econômica”. O quadro atual reflete uma situação ainda mais grave, um dos maiores desastres humanitários desde a Segunda Guerra Mundial. O caos e a situação de guerra permanente que assolam a região do Grande Oriente Médio, com todas as suas devastadoras conseqüências sociais, são os elementos centrais que impulsionam essa avalanche humana em direção ao continente europeu. As pessoas não fogem apenas em busca de “uma vida melhor”, fogem, enfrentando o risco de morte, para tentar salvar as próprias vidas.

A guerra civil na Síria, um dos pontos principais de onde partem os refugiados, expressa bem a natureza do fenômeno que abordamos. Em quatro anos de conflito armado,  são mais de 200 mil mortos e cerca de 4 milhões de refugiados, em sua grande maioria precariamente estabelecidos em campos de refugiados em países vizinhos como a Jordânia, o Líbano e a Turquia. São cerca de 8 milhões pessoas obrigadas a se deslocar em fuga no interior do território sírio e quase 5 milhões vivendo em áreas sitiadas e sem a menor infraestrutura necessária ao atendimento das necessidades mais básicas.

Além do quadro estabelecido na Síria, o caos no Afeganistão e no norte e nordeste da África impulsionam também muitos milhares de homens, mulheres e crianças à perigosíssima travessia em direção à Europa. Trata-se de sociedades e Estados nacionais mergulhados em um colapso de perseguições sectárias, étnicas e religiosas, no contexto de conflitos de larga escala e massacres de população civil.  Aqueles contingentes migratórios que, sobrevivendo à indiferença institucionalizada da opinião pública internacional, chegam ao continente europeu, se deparam com um segundo momento da barbárie atual: as cercas e os guardas armados da “Fortaleza Europa”.

O governo de países como a Hungria, que servem de corredor para os refugiados que rumam em direção ao norte, mobiliza contingentes militares e chega a cogitar a dispersão dos refugiados usando a força das armas. Fica claro que a barbárie impulsionada pela decadência capitalista não se expressa nitidamente apenas na periferia do sistema, mas encontra também no seio do “velho continente” canais de expressão muito reais. Em verdade, a decadência capitalista e a barbárie são elementos que constituem uma mesma totalidade, cujo eixo de articulação está nos interesses econômicos e geopolíticos do “mundo desenvolvido”, a começar por aqueles das potências européias e, sobretudo, pelo imperialismo dos EUA.

O “jogo de empurra” protagonizado pelos governos europeus frente ao imenso êxodo encontra, por outro lado, um contraponto na reação de amplos setores da população européia que se solidariza ativamente com a causa dos refugiados. Não apenas se dão manifestações espontâneas nesse sentido, como nos estádios de futebol, como o tema invade o debate político-eleitoral do continente: convertendo-se a solidariedade aos refugiados em uma forte palavra-de-ordem de toda a esquerda socialista e dos demais movimentos políticos democráticos e anticapitalistas.

As contradições inerentes à ordem burguesa, cada vez mais intensas, colocam o racismo e a xenofobia frente a frente com a solidariedade humanista e democrática militante no cenário político da velha Europa, com desdobramentos, por ora, imprevisíveis. Nesse caso, como em tantos outros, fica claro que o elemento dominante na atual situação histórica, aberta pela crise mundial que eclodiu em 2008, não é a expansão linear e incontida das forças reacionárias, mas uma polarização política cada vez mais intensa – entre forças democráticas e reacionárias – em um ambiente de imprevisibilidade e ausência de uma clara alternativa ao status quo.

2 – A decadência capitalista e o Oriente Médio

Não podemos compreender adequadamente as causas e a natureza da presente crise migratória sem enquadrá-la nos marcos mais amplos da crise múltipla do capitalismo internacional: uma crise econômica, geopolítica e ambiental. A crise da “globalização neoliberal” na qual estamos inseridos, gerada pela dinâmica irracional e predatória do rentismo financeiro, convertida pelos mais altos estratos da classe capitalista internacional (com a alta burguesia dos EUA à frente) em uma “razão universal” inquestionável, não encontrou uma força política e social capaz de superá-la apresentando uma alternativa real – democrática e anticapitalista – no plano internacional.

Reafirmando que os velhos privilégios, mesmo os mais absurdos, e as estruturas econômicas, sociais e políticas mais injustas não desaparecem sozinhas, mas precisam ser demolidas por uma força que se lhes oponha, a ausência de uma alternativa política e econômica à dominação internacional do parasitismo financeiro, permitiu que a mesma elite capitalista seguisse impondo uma “fuga para a frente”  como “solução” para a crise da “globalização neoliberal”, o que expressa a aceleração do ritmo da contrarrevolução econômica – para usar uma expressão de Nahuel Moreno – cuja essência foi descrita mais detalhadamente  em outro momento.

Essa “fuga para a frente” neoliberal aprofunda o caráter espoliativo do capitalismo atual. Não se permite que haja qualquer obstáculo à sanha predatória de uma oligarquia rentista internacional, que faz de seus interesses o limite de qualquer possibilidade política aceitável. Esse capitalismo espoliativo, para maximizar a acumulação em um contexto de estagnação, exige o desmantelamento do pouco que a classe trabalhadora e os povos das nações oprimidas e exploradas foram capazes de construir, em momentos anteriores. Tanto os direitos coletivos, associados às políticas de “bem-estar social”, como as prerrogativas de soberania nacional dos povos, de norte a sul do globo, devem ser sacrificadas no altar do ultra-capitalismo atual.

Não podendo fazer efetivas concessões democráticas e sociais aos trabalhadores e, mesmo às classes médias, os grandes capitalistas impõem aos povos do mundo uma dinâmica regressiva violenta que encontra diferentes expressões. O pacote econômico espoliativo imposto no Brasil; a imposição neocolonial dos memorandos da Troika na Grécia; a decomposição social que avança no México; bem como o incremento da pobreza e da brutalidade policial contra os de baixo, mesmo nos EUA, são todas formas de expressão dessa dinâmica regressiva.

Certamente há cada vez mais contradições e caos no plano internacional, e não se pode compreender esse contexto sem que leve em consideração a instabilidade aberta pelo enfraquecimento da hegemonia imperialista dos EUA, não apenas a base principal dos interesses dos grandes capitalistas, mas também sua maior arma de ataque (e linha de defesa). O caráter demasiadamente exclusivista e excludente do rentismo financeiro, que determina o conteúdo econômico desse imperialismo, atuou de modo decisivo para minar, por seus êxitos (primeiro) e com sua crise (depois), sua base de legitimidade.

A agressividade belicista e unilateral da política externa dos EUA, como expressão desses mesmos interesses, combinada ao crescente papel econômico da China, e político da Rússia, no plano internacional da última década e meia, em um sentido também proto-imperialista (ou neoimperialista) abriu espaço ao questionamento da “pax estadunidense”: ou seja, ao realinhamento e à diversificação das forças atuantes nos espaço geoestratégico global.

Certamente que, para além do surgimento desses novos pólos econômico e político na ordem internacional, a irrupção das massas populares e sua luta ao redor do mundo constitui o aspecto mais relevante desse enfraquecimento da hegemonia dos EUA e da nova situação que vivemos nesse plano. Desde o rechaço da ALCA e desencadeamento dos movimentos políticos bolivarianos na América do Sul, no início da década passada, até os processos políticos mais avançados que se dão hoje na Europa (Corbyn na Inglaterra, o independentismo na Catalunha, a reorganização da esquerda socialista na Grécia…) e no interior mesmo dos EUA (a candidatura presidencial de Bernie Sanders), passando pelo movimento dos indignados e pelas revoluções árabes, tornou-se impossível desconsiderar a ação das massas como personagem da trama histórica presente.

De modo algum, no entanto, se pode dizer que o imperialismo dos EUA deixou de ser a força dominante em escala internacional, seu enfraquecimento é relativo e o país segue sendo a maior economia, potência militar e base tecnológica do planeta. Contudo, especialmente depois da crise financeira de 2008 que teve no país o seu epicentro, essa dominação se exerce em um ambiente mundial mais contraditório e imprevisível, com mais mediações e mais competição. A região do Oriente Médio se destaca como cenário privilegiado dessa complexa situação internacional.

Depois da invasão do Afeganistão e do Iraque pelas tropas dos EUA na década passada, a década presente foi aberta pela eclosão das revoluções democráticas que varreram a região, da Tunísia ao Bahrein, do Egito à Síria. No entanto, a intervenção de múltiplas forças contrarrevolucionárias, a começar pelo imperialismo estadunidense e pelos neoimperialismos russo e chinês, bem como a ausência de uma alternativa de poder democrática, antiimperialista e não-sectária, levaram ao impasse a Primavera Árabe. Em meio à desorientação das forças populares revolucionárias e ao banho de sangue promovido pela contrarrevolução – em suas distintas faces – foi se aprofundando um cenário extremamente caótico e brutal na região.

A polarização entre revolução e contrarrevolução (complexificada pela influência do sectarismo religioso, tribal e étnico) combinou-se com a rivalidade entre as principais potências regionais e suas ligações com os velhos imperialismos ocidentais dos EUA e Europa, por um lado, e com os neoimperialismos russo e chinês, por outro. Nesse cenário, os processos revolucionários foram esmagados, como no Bahrein pelas tropas sauditas, ou estagnaram e degeneraram de diferentes maneiras. A consolidação da violenta ditadura militar contrarrevolucionária de Al-Sissi no Egito e o pântano da guerra civil sectária no Iêmen, Iraque e Síria expressam bem a dramaticidade do momento atual para os povos da região.

Contornada, por ora, a maré revolucionária, os grandes interesses regionais e globais movem suas peças no tabuleiro convulsionado do Oriente Médio buscando arrancar vantagens e conquistar terreno em uma disputa geopolítica e econômica extremamente custosa em vidas humanas. Israel, Arábia Saudita, Turquia, Egito e Irã, assim como Estados Unidos (e seus aliados europeus), China e Rússia, desenvolvem sofisticadas políticas de aliança e dissuasão na região que estão na raiz da situação de guerra permanente e da catástrofe humanitária que segue se radicalizando e se tornando cada vez mais dramática.

A situação de caos na região e o enfraquecimento de sua hegemonia internacional têm levado os EUA a se moverem no Oriente Médio apoiando-se mais e mais em aliados regionais crescentemente dotados de agenda própria e contraditória entre si. No atual momento, o quadro se torna ainda mais complexo depois da assinatura do acordo nuclear com o Irã, que expressa uma importante inflexão na política regional dos EUA, reconhecendo seu antigo arquiinimigo como interlocutor e eventual aliado na luta contra o Daesh (“Estado Islâmico”). A fração da burguesia imperialista ligada a Obama adota uma perspectiva mais realista diante do fracasso da linha unilateralista mais dura dominante até então. Como destaca Pedro Fuentes, secretario de relações internacionais do PSOL, essa mudança de orientação do imperialismo (expressa também na nova relação com Cuba) guarda semelhanças com o movimento de aproximação com a China na década de 1970, depois da derrota no Vietnã que, longe de significar um espasmo democrático, reflete um reposicionamento da estratégia imperialista diante de uma nova conjuntura mais adversa.

A Rússia, por sua vez, juntamente com a China (que se posiciona muito mais nos bastidores), segue firmemente enlaçada ao regime dos aiatolás iranianos, seus aliados estratégicos mais decisivos na região. A mudança do status internacional do Irã, expressa no estabelecimento do acordo nuclear com o país, fortalece a posição russo-chinesa na região, ao demonstrar sua capacidade de bloquear as iniciativas regionais unilaterais dos EUA. As relações privilegiadas de Moscou-Beijing com os governos do Iraque e, principalmente, do sanguinário Bashar Al-Assad da Síria – de extração religiosa xiita e aliados ao Irã – bem como a proximidade com o ditador Al-Sissi do Egito, em um momento em que o jihadismo sunita do Daesh (combatido por todos esses aliados do bloco russo-chinês) aparece como o “inimigo público internacional número 1”, eleva seu prestígio e amplia o espaço para suas manobras na política da região.

O regime de Al-Assad na Síria (sustentado fundamentalmente no apoio financeiro e militar russo-chinês e iraniano), que segue controlando importantes parcelas do território e bombardeando população civil, tende a se fortalecer e, inclusive, pode vir a alcançar a aceitação dos EUA e seus aliados europeus, no contexto em que o Irã se afirma e o Daesh emerge como problema principal na região, do ponto de vista “ocidental”. No entanto, não se pode esquecer que a brutalidade das Forças Armadas sírias contra seu próprio povo, sob o comando de Al-Assad, é a principal responsável pelo quadro dantesco que se estabeleceu no país.

As recentes ações militares aéreas russas, em território sírio, contra forças de oposição ao regime que também combatem o Daesh, deixam bem claro que Putin e sua agenda para a região está voltada a fortalecer Al-Assad e seus demais aliados, na disputa com seus rivais regionais, e assim fortalecer sua própria posição. Os democratas sírios e curdos, que enfrentam tanto Al-Assad como o Daesh; a minoria sunita oprimida pelo regime xiita no Iraque e o povo do Egito, esmagado sob a brutal ditadura de Al-Sissi, de sua parte, não alimentam nenhuma ilusão com um suposto caráter “democrático” e “antiimperialista” do acionar russo-chinês na região.

Israel, no atual contexto, sai dos holofotes, mas atua fortemente nos bastidores da política regional. Tendo sofrido o revés do acordo iraniano (seu inimigo declarado) com os EUA (seu aliado mais importante no mundo), o Estado sionista, que vê sua posição internacional se fragilizar, consolida sua articulação com as monarquias do Golfo Pérsico na luta contra o Irã e pelo desmantelamento do “crescente xiita”. O termo faz referência ao arco que une Irã, Iraque, Al-Assad na Síria e o Hizbollah no Líbano. Em função das origens históricas do regime iraniano que sustenta esse arco e, também, do fato de que representa uma minoria religiosa (xiita) no mundo árabe e islâmico, o centro de sua estratégia política foi sempre a mobilização de uma retórica e um acionar prático que buscava criar unidade em torno de uma linha anti-sionista e anti-EUA.

As monarquias do Golfo Pérsico (Arábia Saudita, em primeiro lugar, seguida por Kwait, Bahrein, Omã, Emirados Árabes Unidos e Catar) são Estados controlados com mão de ferro por uma burguesia oligárquica e rentista que faz da riqueza petroleira seu recurso de poder, regional e global, mais fundamental. A classe dominante saudita, como seus aliados nos reinos vizinhos, dirigem regimes políticos autocráticos cuja base de legitimidade, tanto interna quanto regional, é de natureza teocrática. A vertente wahabista do islã sunita – profundamente obscurantista, reacionária, sectária e belicista – que defende o retorno do mundo islâmico aos padrões sociais vigentes no século VII, não apenas é a religião oficial do regime saudita como também o é da Al-Qaeda e da grande maioria do jihadismo sunita que atua desde o Afeganistão, com os Talibãs, até a Nigéria, com o Boko Haram.

O financiamento do jihadismo sunita (wahabista) por todo o Oriente Médio tem sido uma política permanente dessa oligarquia rentista do Golfo. Não apenas responde às necessidades de garantir a legitimidade política interna de seus regimes autocráticos e corruptos junto ao clero e seu vasto campo de influência, como também serve ao objetivo de buscar submeter o mundo árabe e islâmico sunita à liderança saudita, contra o regime xiita do Irã. A Arábia Saudita e seus satélites na região são profundamente vinculados ao imperialismo dos EUA e ao capital financeiro que o dirige. Sempre foram, ao lado de Israel, uma base principal de apoio a esse imperialismo na região e, sendo assim, atuam de modo cada vez mais intenso para reproduzir e ampliar seu poder regional subimperialista. A violência contrarrevolucionária das tropas sauditas no Bahreim, durante a Primavera Árabe, e agora no Iemen (contra os rebeldes houties: xiitas e apoiados pelo Irã), fala por si.

O governo islamista “moderado” de Erdogan na Turquia também busca ampliar sua esfera de influência na região. Desfiando, ainda que não agressivamente, o laicismo que constitui um dos pilares do moderno Estado turco, Erdogan afirma uma agenda regional que busca garantir a ampliação de seu arco de alianças. Aliado histórico dos EUA, membro da OTAN, inimigo do Irã e do ditador sírio Al-Assad, o governo turco vive um momento de tensão também com a ditadura egípcia, em função do fato de seguir manifestando apoio à Irmandade Muçulmana. Esta organização que foi deposta do poder e se encontra sob a selvagem repressão do governo do Cairo, busca se apresentar como um movimento político islamista mais “moderado”, diferenciando-se do jihadismo wahabista que chama a atenção mundial.

Expressando uma aproximação forte com o governo saudita, Erdogan têm financiado conjuntamente com Riad o “Exército da Conquista” na Síria: um agrupamento heterogêneo e reacionário de forças político-militares que reúne desde a Al-Qaeda e outras organizações do jihadismo wahabista até a Irmandade Muçulmana atuante no país. A este “Exército da Conquista”, nos marcos da estratégia de Erdogan (mas também dos sauditas), compete a tarefa de combater Al-Assad, o Daesh e, principalmente (do ponto de vista do governo turco) o movimento revolucionário curdo. Essa disposição em forjar uma aliança sólida com a Arábia Saudita também se expressa no apoio da Turquia ao enfrentamento contra os houties no Iemen, onde todas as potências regionais do Oriente Médio combatem esses aliados do Irã.

Esse quadro geral, aqui apresentado de modo bastante esquemático e simplista, em razão dos limites do texto, evidencia a tremenda complexidade da situação política na região. A teia intrincada de alianças e hostilidades entre as principais potências regionais e os poderes globais que aí intervém (EUA e aliados europeus, de um lado, Rússia e China, de outro) não deixam dúvidas a respeito da necessidade de superação do quadro de caos e guerra permanente que se estabeleceu no Oriente Médio. O que está colocado nesse momento como hipótese mais provável, com o fortalecimento do Irã, é o acirramento da competição entre o regime xiita dos aiatolás e seus rivais na região, a começar pela monarquia saudita. Sendo assim, o quadro atual, apesar das motivações declaradas por todos esses governos burgueses, não aponta para o arrefecimento dos conflitos, mas para sua intensificação, com o saldo correspondente de mais mortos, feridos e refugiados.

Nesse sentido, se torna premente que as massas populares e trabalhadoras do Oriente Médio possam seguir fortalecendo sua mobilização por democracia e por direitos como forma de apontar para a construção de uma alternativa política capaz de retirar o destino da região das garras dos distintos imperialismos e governos burgueses locais. A crise dos refugiados só pode ser enfrentada de modo efetivo se a ganância e os interesses estreitos das classes dominantes forem combatidos por uma vigorosa luta de massa que abra aos povos da região uma perspectiva de futuro, muito distinta do presente de guerras e perseguições.

3 – O horror e a luta por sua superação

Nos marcos desse quadro geral, torna-se necessário, sob uma perspectiva marxista, ir além da tarefa de compreender a polarização política estabelecida entre os imperialismos atuantes na região, e entre os governos burgueses locais. Torna-se necessário tentar identificar, em meio a esse ambiente convulsionado, como se expressam as contradições entre as demandas democráticas revolucionárias das massas populares, de um lado, e os interesses das forças contrarrevolucionárias, de outro lado. Essa polarização segue encontrando expressão regional, ainda que com o impasse  a que chegou a Primavera Árabe tenha adquirido outra dimensão e intensidade. O triunfo momentâneo, parcial e precário das distintas forças contrarrevolucionárias que, além do mais, são profundamente contraditórias entre si, não foi capaz de impedir o surgimento de novas expressões de luta das massas por democracia e contra a miséria que segue o rastro da guerra. As recentes jornadas massivas de luta popular no Líbano e no Iraque, além do processo revolucionário em curso no Curdistão, não podem escapar à observação.

Nesse sentido, é preciso compreender o significado da ação político-militar do Daesh (e do jihadismo wahabista como um todo) como expressão da mais extrema e bárbara contrarrevolução no Oriente Médio da atualidade. Organizações terroristas como o Talibã (no Afeganistão e Paquistão), o Daesh (na Síria e Iraque), a Al-Qaeda e suas ramificações (em toda a região), o Al-Shabbab (na Somália) e o Boko Haram (na Nigéria) têm em comum tanto a ideologia obscurantista e os métodos sanguinários e dementes quanto o suporte oficial e oficioso da classe dominante ultrarreacionária e subimperialista das ricas monarquias petroleiras do Golfo. Essas organizações reivindicam o extremismo wahabista que considera que todos os infiéis merecem a morte ou a escravização: sunitas moderados, xiitas, cristãos e etc. Os massacres que têm sido executados por essas forças em todo o Grande Oriente Médio estão também na raiz da avalanche migratória de refugiados em busca de salvação, sendo uma face muito visível da barbárie que a decadência capitalista vem promovendo.

A violência extrema que esses grupos promovem opera como um simulacro da luta revolucionária. Assim como seu irracionalismo obscurantista “antiocidental” funciona como simulacro da crítica revolucionária antiimperialista. Longe de representar qualquer alternativa à duríssima situação de opressão sofrida pelas massas muçulmanas do Oriente Médio, em sua terra ou na diáspora, o jihadismo wahabista promove sua reprodução e seu aprofundamento. Seu sectarismo religioso, bestial e assassino, não apenas arrasa, desorienta e divide as massas trabalhadoras da região, semeando o caos, como se vincula aos interesses da burguesia dos reinos do Golfo Pérsico: a mais reacionária e organicamente articulada ao imperialismo dos EUA e ao capital financeiro que o dirige. Apenas o desenvolvimento de uma alternativa revolucionária de poder, democrática, antiimperialista e não-sectária na região pode impor um limite efetivo à expansão cancerosa desse obscurantismo assassino.

Na atual conjuntura, é o movimento revolucionário curdo, dirigido pelo PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), que aparece no Oriente Médio como a força política mais avançada nessa direção. Com sua base mais sólida situada na Turquia, onde está a maior concentração dos 30 milhões de curdos distribuídos pela região, as forças ligadas ao PKK têm impulsionado um movimento revolucionário também no norte da Síria, no Iraque e no Irã. Os governos burgueses de todos esses países combatem, com maior ou menor ferocidade, os revolucionários socialistas curdos, inclusive o governo burguês pró-imperialista e pró-sionista do Curdistão iraquiano, cuja semi-independência foi alcançada a partir do desmantelamento do antigo Estado iraquiano pelas forças dos EUA. Contudo, é o governo turco de Erdogan a mais agressiva e contundente força adversa que a democracia popular curda tem que enfrentar.

Sob o pretexto de combater o Daesh, as forças militares turcas têm lançado bombardeios contra posições do YPG e do YPJ (unidades regulares de defesa da revolução curda no norte da Síria) e dos destacamentos armados do PKK no Curdistão iraquiano. Além disso, sob o mesmo pretexto, armam e financiam o “Exército da Conquista” na Síria que, mais que combater Al-Assad ou o Daesh, se lança ao ataque contra a revolução curda em Rojava. No cenário interno turco, Erdogan endurece a repressão nos bairros e comunidades curdas e tenta jogar na ilegalidade o HDP (Partido Democrático dos Povos) que, impulsionado pelo movimento revolucionário curdo, alcançou quase 15% dos votos nas últimas eleições nacionais do país e retirou de Erdogan, e seu partido, a maioria absoluta que lhes permitiria mudar a constituição e instalar o presidencialismo, como ambicionavam.

O HDP foi formado a partir do agrupamento de uma ampla gama de organizações e correntes políticas da esquerda anticapitalista e democrática da Turquia, reunidas em torno do movimento revolucionário curdo: o setor com mais forte presença na animação e na direção partidária. As principais bandeiras do partido, que se apresentou em 2015 pela primeira vez às eleições turcas, fazem referência ao combate democrático à corrupção, ao autoritarismo e à influência política da religião; à defesa da classe trabalhadora, das mulheres, da comunidade LGBT e, obviamente, da combativa e expressiva minoria nacional curda. Em uma sociedade profundamente machista e religiosa, o partido estabeleceu em suas chapas uma cota de 50% para mulheres e 10% para a comunidade LGBT. Desse modo o HDP foi bem além das fronteiras políticas do nacionalismo curdo.

A similaridade das bandeiras de luta e do formato organizacional do HDP com o fenômeno Syriza, na vizinha Grécia, e com o Podemos espanhol, quando de sua emergência, não é acidental. As fortes jornadas de luta popular democrática que sacudiram a Turquia em meados de 2013, como resposta à repressão do regime aos protestos pacíficos contra a destruição do Parque Gesi, em Instanbul, abriu uma nova etapa de lutas no país, sintonizada com a luta dos indignados gregos, espanhóis e de várias partes do mundo, e pôs na mesa a demanda por uma clara e efetiva expressão política. O êxito eleitoral e político do HDP demonstram não só a seriedade, como a impressionante flexibilidade da nova orientação da política revolucionária do PKK, que anima um amplo partido de esquerda socialista democrático e de massas, ao norte, na Turquia, e forma um exército a serviço do poder popular, ao sul, na Síria.

Essa nova orientação política do PKK abandonou o guerrilheirismo e, apesar de certas inconsistências, incorporou uma perspectiva mais objetivamente revolucionária que se vale das mais distintas táticas a partir da “análise concreta da situação concreta”. Seu grande acerto foi reorientar a linha do “separatismo curdo” em direção a uma linha nacional-internacionalista, cuja concepção política busca fazer do curdistão revolucionário o centro de uma revolução regional (do Oriente Médio à Ásia Central) democrática anti-capitalista e nacional-internacionalista de novo tipo, além de feminista. É a antítese do sectarismo religioso e do chauvinismo nacional. Uma esperança de paz, justiça e democracia para a região.

Tanto na Síria quanto na Turquia, os revolucionários curdos estabelecem alianças com o movimento de massas das nacionalidades dominantes, impulsionando na prática o processo revolucionário para além dos limites do Curdistão. Estão combatendo o subimperialismo militarizado turco, juntamente com os turcos, com luta política e desobediência civil. Estão combatendo o Daesh, os demais jihadistas wahabistas, além de Al-Assad, juntamente com os sírios, com um exército popular. Precisam ser apoiados por toda a esquerda democrática e socialista e mais: se os governos das grandes potências econômicas, das nações “educadas e civis”, realmente quisessem agir para pôr fim ao Daesh e ao drama dos refugiados, deveriam, em primeiro lugar, parar de apoiar a quem persegue o movimento revolucionário curdo – a mais dura oposição ao Daesh e ao jihadismo na região e a mais avançada alternativa à guerra sectária permanente. Erdogan precisa ser detido em sua escalada repressiva e beligerante contra o povo curdo e seu movimento nacional e democrático.

Nos marcos dessa luta internacional contra a barbárie do jihadismo wahabista e da catástrofe humanitária dos refugiados do Oriente Médio, é preciso que todas as forças democráticas e populares do mundo denunciem e combatam as manobras imperialistas que dão sustentação (diretamente ou em aliança com potências regionais) à selvageria obscurantista e aos regimes que, como o de Al-Assad, promovem bombardeios e massacres contra a população civil. É preciso fortalecer a solidariedade internacional e exigir que os governos europeus garantam todos os direitos democráticos aos refugiados que chegam ao continente fugindo da morte. Nesse caso, o exemplo das prefeitas socialistas de Madri e Barcelona é a principal referência do que deve ser a orientação da esquerda européia no tocante ao acolhimento a esses milhares de homens, mulheres e crianças.

Indo além, a aproximação mais efetiva da esquerda socialista européia com a esquerda revolucionária que atua no Oriente Médio, na luta contra a barbárie da decadência capitalista e seus efeitos dramáticos, parece ser a forma mais efetiva de acender uma luz nessas trevas de violência e brutalidade que temos diante de nós.

 

Referências:

 

http://www.telesurtv.net/news/Turquia-reprimen-manifestacion-en-apoyo-a-kurdos-en-Estambul-20150914-0009.html

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/09/150904_graficos_imigracao_europa_rm

http://www.rebelion.org/noticia.php?id=203299

http://www.rebelion.org/noticia.php?id=203039

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/10/internacional/1441900979_328621.html

http://www.telesurtv.net/telesuragenda/Refugiados-Los-hijos-de-las-guerras-de-Occidente-20150909-0062.html

http://www.librered.net/?p=35916

http://www.rt.com/news/316705-china-syria-isis-fight/

http://news.yahoo.com/putin-heads-un-showdown-obama-over-syria-065654533.html

http://www.telesurtv.net/news/EE.UU.-bloquea-declaracion-rusa-sobre-solucion-de-conflictos–20150929-0010.html

http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2015-09/obama-e-putin-concordam-em-solucao-politica-para-siria

http://www.telesurtv.net/news/Terroristas-del-EI-depositan-dinero-robado-en-bancos-sauditas-20150928-0053.html

http://www.theguardian.com/world/2015/sep/30/russia-launches-first-airstrikes-against-targets-in-syria-says-us

 

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