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O arenque de Bismarck: Mélenchon contra Merkel

Capa-o Arenque de Bismarck-Mélenchon

O polêmico ensaio “O arenque de Bismarck (O veneno alemão)” de Jean Luc Mélenchon tem um objectivo claro: apresentar a “outra face” de um país que a mídia não quer difundir, tentado mostrar que o tão nomeado “modelo alemão” não tem nada de invejável.

Artigo de Manolo Monereo, publicado no Cuartopoder.


Daqui a uns dias, a editorial El Viejo Topo publicará o polêmico ensaio de Jean Luc Mélenchon “O arenque de Bismarck (O veneno alemão)”. O conhecido dirigente da esquerda francesa não tem nenhum problema em denominá-lo panfleto, como também não oculta a motivação última do mesmo: denunciar o “tratamento” que a Troika, em geral, e a Alemanha, em particular, estão a aplicar à Grécia do Syriza. Hoje sabemos que as coisas pioraram e que os poderes da União conseguiram que Tsipras capitulasse. Uma tragédia, não só grega.

A indignação deu lugar a uma raiva contida e parece, esperemos, que se abre espaço para uma crítica mais profunda deste sistema de dominação em que se transformou a Europa alemã. Pôr termo, finalmente, às imposições que impedem uma discussão a fundo sobre a União Europeia (a sua natureza política e de classe; o seu papel geopolítico ou as suas relações com os EUA, NATO) e sobre o papel do Estado alemão. Ambas as coisas estão intimamente ligadas e já não se podem separar.

Talvez valha a pena ressaltar, antes de continuar, que o ensaio-panfleto de Mélenchon insere-se numa discussão mais ampla, especialmente rica e estimulante, que tem vindo a ter lugar há anos na França “decadente”. Os nome são conhecidos, Chevènement, Sapir, Cassen, Lordon, Todd,… Todos eles, desde as suas diferenças, caracterizam-se por uma crítica séria e cada vez mais argumentada contra a União Europeia, desde a defesa do Estado nacional republicano e, mais além, pela impugnação do projeto globalitário que tem no seu centro o domínio imperial dos EUA.

O panfleto-ensaio de Mélenchon tem um objectivo claro, apresentar a “outra face” de um país que os media não querem difundir, tentado mostrar que o tão nomeado “modelo alemão” não tem nada de invejável; que oculta uma sociedade envelhecida, crescentemente marcada pelas desigualdades sociais; umas relações laborais e sindicais cada vez mais degradadas, onde a precariedade se generaliza e os salários reduzem-se para uma parte significativa da força de trabalho; a deterioração ecológico-social cresce, com um insano e contaminante sistema agro-alimentício, fortemente controlado pelas grandes empresas de distribuição de baixo custo, e o domínio, tradicional na história alemã, da indústria química; tudo isso, ao serviço de um padrão de crescimento baseado, denominou-o assim Lafontaine, num nacionalismo exportador, desde uma explícita estratégia neo-mercantilista.

Não se trata, aqui e agora, de comentar os diversos aspectos do ensaio-panfleto que o socialista francês vai desfiando na sua lúcida crítica da Alemanha de Merkel; somente assinalar aqueles dados, que, de uma ou de outra forma, têm que ver com o modo em que o país teutão exerce o seu domínio na UE e que explicam o conteúdo último das suas políticas. Mélenchon destaca, acho que é o centro do seu texto, a reunificação alemã e o que ele apelida de “método” de anexação, no que poderíamos chamar os antecedentes necessários para entender como e para quem manda a Alemanha.

A primeira coisa que devemos assinalar é que o Estado alemão, a sua classe política, os seus governantes de ontem e de hoje – são praticamente os mesmos – sabem muito bem o que significa aplicar no concreto e real a união monetária e econômica a um território desigual, mais débil e diferenciado: refiro-me à antiga República Democrática Alemã. O assunto é conhecido e a palavra anexação explica com bastante precisão o que ocorreu. Um país inteiro, uma sociedade, uma economia e uma cultura foram destruídos, por assim dizer, num abrir e fechar de olhos. A “doutrina de choque” foi sistematicamente aplicada: privatizações, encerramento de empresas, entrega de latifúndios, venda do património público e “limpeza política” das instituições e aparelhos do Estado, começando pelas universidades. As consequências: desemprego, emigração, aumento brutal das desigualdades e degradação dos direitos sociais e trabalhistas, especialmente para as mulheres.

Os beneficiários? As grandes empresas financeiras e as grandes corporações industriais que, de repente, se encontraram com 16 novos milhões de consumidores, uma mão de obra qualificada e disciplinada, e, o que foi mais importante, herdaram um amplo conjunto de contatos, redes e relações que as empresas da RDA tinham com o antigo campo socialista. Não devemos esquecer que a “outra” Alemanha exportava metade do seu produto e que era, de longe, o país mais desenvolvido desse mundo. A “colonização” do centro e do este de Europa começou com a anexação e, como refere Mélenchon, foi a descoberta de um “método”.

Como costuma acontecer, o aumento substancial dos lucros das grandes empresas teve um custo econômico, social e territorial enorme, que foi logo “socializado” por e desde o Estado. As cifras variam. Calcula-se que a “operação anexação” custou ao erário público cerca de 2 biliões de euros e, o que é pior, 25 anos depois, as feridas causadas ainda continuam abertas e uma parte importante da população da “outra” Alemanha continua sem se sentir incluída numa pátria comum. Efetivamente, as classes dirigentes germânicas sabem o que significa a união econômica e monetária com um território mais atrasado e débil; também conhecem o seu enorme custo. Agora não estão dispostas a pagá-lo com os países do sul, com os países orientais da UE.

Hoje esquece-se, mas a todo-poderosa Alemanha, felizmente reunificada e integrada na NATO, foi durante anos “a doente” da Europa, incumpriu sistematicamente os critérios de convergência aprovados em Maastricht e favoreceu o laxismo monetário do BCE, por interesses próprios, que ajudou a alimentar as bolhas financeiro-imobiliárias da Grécia, Espanha e Irlanda. O governo de Tsipras precisava de tanta compreensão, tanta prudência como os seus homólogos germanos. A lei nunca é igual para todos quando existem pelo meio poderes e Estados desiguais, quando quem manda construiu regras de jogo que sempre o beneficiam.

Há momentos em que os poderes precisam urgentemente de um social-democrata audaz, valente, a quem não trema o pulso ante os sindicatos, que desafie as suas bases partidárias e que faça o que a direita cobarde não se atreveu a fazer, precisamente porque este político impedia-o quase sempre a partir da oposição. Já se sabe, os programas existem para não serem cumpridos e as promessas leva-as o vento da responsabilidade: os que mandam, mandam, e o melhor é não se opor e encabeçar a manifestação. Esse homem apareceu: Gerhard Schröder. A sua proposta: a “Agenda 2010”.

É necessário entender bem este passo no raciocínio que articula Mélenchon. Temos de ver a “Agenda 2010” como uma estratégia das classes dirigentes alemãs para organizar o seu modelo de crescimento em torno das exportações. Para isso era necessária uma desvalorização salarial substancial, reduzindo o papel dos sindicatos e debilitando a capacidade contratual dos trabalhadores. A anexação contribuiu muito para este objectivo e justificou a necessidade de (contra) reformas estruturais. A questão é conhecida e durante anos o crescimento alemão baseou-se na repressão salarial, redução das prestações sociais e debilitamento do Estado social. A precariedade laboral foi fomentada desde o próprio poder e, como já se indicou, as desigualdades sociais e a pobreza aumentaram. Alemanha praticava o dumping social para impulsionar ainda mais a competitividade da sua economia.

Quando a senhora Merkel diz que já cumpriram os seus deveres refere-se a isto, converter a desvalorização salarial num mecanismo de ajustamento permanente que compense as diferenças de produtividade entre as economias desiguais. O que a dirigente alemã não diz é que o modelo alemão só é aplicável quando é implementado pelo Estado economicamente relevante; quando todos o implementam ao mesmo tempo, o modelo não funciona. Concretamente, a estratégia neo-mercantilista aplicada baseia-se em “arruinar o vizinho” e é incompatível com qualquer processo de integração supranacional. A melhor forma de o explicar é dizer que, como a crise demonstrou, um conjunto de políticas provocou a consolidação de um centro cada vez mais rico e poderoso especializado em exportar mercadorias e importar capitais e uma periferia importadora e crescentemente devedora.

Podem verificar que utilizo com muita frequência o termo Estado alemão. O que quero sublinhar com isto é que existe um Estado, o alemão, que expressa uma matriz de poder e de classe, que organiza determinadas políticas de alianças sociais internas que, por exemplo, fazem com que hoje governem social-democratas e democratas-cristãos e que uma parte considerável dos sindicatos apoie as políticas que vêm deste governo de coligação. Estamos a falar de um Estado que define interesses nacionais, que tem uma estratégia não cooperativa com os demais Estados e que concebe a UE como um grande mercado para o desenvolvimento das grandes empresas alemãs.

Quando se emprega o mantra de que, no processo de integração europeia, os Estados tendem a perder influência e poder, diz-se só uma parte da verdade, pior, uma meia verdade. O que se reduz, de forma planeada, é a soberania econômica dos Estados, isso a que se chamou, em vários sentidos, o Estado Social. Mas isto, que é de carácter geral, ou seja, é aplicado aos outros países e não ao Estado alemão, continua a ser um imponente aparelho de poder, que organiza as classes dominantes, regula a economia e a sociedade, define a “grande estratégia” de inserção na UE e no mundo, contribui com sucesso para articular o consenso das classes subalternas e, sobretudo, que não admite nem admitirá que se crie um poder soberano que decida sobre o destino da sua nação, sobre o destino do seu povo.

Aqui terminam os sonhos do federalismo europeu: não existirá algo parecido aos Estados Unidos de Europa. Mais Europa será mais domínio e mais controlo do Estado Alemão. Assim é o sistema de poder que a UE institucionaliza e aplica; o resto, literatura de evasão.

A única coisa que espero com este comentário é incentivar a leitura de um ensaio-panfleto, irreverente e contra corrente que deverá suscitar debate, polêmica, sobre uma questão que diz respeito a todas e todos. Boa leitura.


Artigo publicado em http://www.cuartopoder.es/cartaalamauta/2015/09/01/melenchon-contra-merkel-el-estado-aleman-viene-para-mandar/112

Tradução de Mariana Carneiro para o Esquerda.net

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

Solzinho