Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

Notas sobre a situação do mundo e da América Latina

Estas notas são um resumo da recente reunião entre membros do MES/PSOL, MPGT de Peru, MST de Argentina, partidos de nossa corrente internacional que participa das reuniões do Comitê Executivo da IV Internacional.
Este material não é, certamente, um documento nem um texto acabado, mas anotações e notas da reunião que integra as intervenções dos companheiros que participaram no debate do ponto internacional.

(Pedro Fuentes, Tito Prado, Sergio García, Israel Dutra e Honório Oliveira)
02/09/2015


A evolução da situação mundial

A corrente tem escrito textos, artigos e documentos dos processos mais importantes que tem acontecido durante este ano: as eleições gregas e a afirmação do acordo pelo governo de Syriza e a troika, a evolução de Podemos e os outros processos políticos que aconteceram na Espanha, a situação dos EUA e os processos mais importantes na América Latina onde, como logo falaremos, avaliamos que entramos em uma nova situação caracterizada por:

 A entrada da crise econômica no conjunto do continente.

A estagnação e crise dos processos bolivarianos.

Também a crise aguda econômica e do regime político no Brasil.

A presença de muitas lutas e mobilizações que fazem que o que domina não seja um processo de direitização.

Cremos que a atualidade reafirma a caracterização de nossa corrente de que vivemos uma situação internacional qualitativamente diferente às etapas anteriores, um novo período histórico aberto com a crise econômica de 2007/2008 que ainda não tem possibilidade de mudança e permanece em suas características gerais.

Estende-se ao longo do tempo com uma contradição ou desigualdade que continua e que tem se feito mais aguda:

De um lado não há saída por parte do sistema e a crise econômico-política que se agrava adquirindo traços dramáticos, como estamos vendo agora com os refugiados saídos do mundo árabe e África.

Não aparece uma alternativa que seja uma saída revolucionária que tome peso de massas. É esta situação que faz com que hajam muitos elementos de imprevisibilidade, de incertezas.

A crise econômica, sua entrada na China e os “emergentes”

A crise econômica se prolonga de maneira desigual. Quando iniciou seu ponto mais algo foram os EUA e logo a Europa, e agora foi transladado para o que foi o motor da economia mundial, ou seja, a China e entrou nos países subdesenvolvidos. Em certo sentido estamos em um novo momento de uma crise que é global, assinalado pela entrada da crise na China.

O que é a crise chinesa? Com todas as suas especificidades não deixa de ser uma crise de superprodução e de sobreacumulação de capitais e parte da crise mundial. A economia chinesa sofre pelo recesso da economia mundial e, por tanto, de mercado para colocar sua produção no exterior.

A bolha do mercado de ações que agora estoura é uma expressão das deformações e contradições que há na formação e desenvolvimento da economia capitalista chinesa, baixo o capitalismo controlado pelo estado burocrático. Em última instância a contradição maior dessa economia é a de um país capitalista: como desenvolver um mercado interno para realizar a mais valia no marco de um regime de exploração onde os salários são miseráveis.

O capitalismo burocrático chinês desenvolveu grandes inversões em construção e infraestrutura como forma de manter o alto grau de crescimento e isto produziu não apenas mega construções (muitas delas sem sentido), mas também uma enorme acumulação de dívidas dos governos provinciais.

A entrada da crise na China e nos países subdesenvolvidos e, em especial para nossa análise, na América Latina, termina com a ideia de falsos progressismos e “neodesenvolvimentismos” que poderiam ocorrer nos chamados países emergentes em contraposição aos grandes países capitalistas.

A questão do imperialismo e crise de dominação mundial

Temos escrito que a predominância mundial é de mais crise e caos. À luz dos acontecimentos nos últimos anos é importante que analisemos o que está ocorrendo em relação à dominação imperialista a partir da decadência objetiva da hegemonia americana.

Há uma idéia sustentada pelo campismo que diz que já existe uma multipolaridade e uma disputa mundial da qual China, Rússia e países emergentes seriam um bloco progressivo frente à decadência americana. De outra parte, há também a idéia de que a mundialização do capital, (em particular a produção em rede das multinacionais que em sua produção em cadeia rompem fronteiras nacionais), mudou o caráter do imperialismo neste novo período. Esta idéia se assemelha também com a de multipolaridade. Nos parece que as duas são visões erradas, embora haja elementos certos das duas na atual fase imperialista de mundialização: há um imperialismo que, com suas debilidades e crises, continua jogando um papel predominante.

Os Estados Unidos continuam sendo o imperialismo com política e poder (embora esteja debilitado) para sustentar, de forma mais crítica, a dominação capitalista, apesar de sua decadência e suas derrotas políticas/militares (Afeganistão e Iraque). O são, pelo menos, da mais alta tecnologia e, com isso, das produções industriais mais sofisticadas e complexas, o maior período militar e o dólar ainda como moeda padrão da economia mundial.

A ala do imperialismo dos EUA que está hoje em dia no poder (e que parece que continuará com a Hillary Clinton se o escândalo de seus e-mails não terminar virando a situação), é responsável pela política dos novos pactos com Cuba e Irã, que vota a demonstrar o papel política predominante que joga o império americano. A situação mundial obriga esta ala predominante nos EUA a empregar políticas mais defensivas, assim se tem que entender o pacto com Irã (seu arque inimigo no grande oriente médio) e também com Cuba.

O pacto com Irã (de longe o mais importante), objetivamente move o tabuleiro do Oriente Médio, já que Israel fica mais isolado. O pacto com o regime chiita dos aiatolás tem significados que escapam a este texto, mas objetivamente é o reconhecimento do fracasso de sua política no Iraque e Afeganistão (parecido à Nixon com a China depois do Vietnam).

Seu objetivo é uma nova política para tentar estabilizar a região, melhor dizendo, tentar que o caos não seja maior; em troca de acabar com sansões, o que permitirá ao Irã um desenvolvimento de sua economia nos marcos do neoliberalismo, entrega aos aiatolás o papel de estabilizar o Iraque e o Afeganistão, dando-lhes também liberdade para competir com os sunitas da Arábia Saudita e, é claro, também usar como aliado para frear o avanço da ISIS. É uma política defensiva para evitar a propagação do grande caos que vive a região e seu elemento de maior desestabilização que é ISIS e a política do ditador da Siria

Por outro lado, o acordo com Cuba também tem esse componente de política nova; é um reconhecimento da independência cubana e de seu regime e uma política, ou talvez uma nova estratégia, de dar mais importância ao seu pátio de trás, além da NAFTA e em busca de um salto nas inversões ianques na ilha. Esta política, que também está se demonstrando em sua posição conciliadora com a Venezuela, não significa apenas diálogo.

Uma estratégia imperialista não se baseia apenas nisso, senão também na coerção. Por isso um fato a destacar é a presença militar crescente no Peru, como parte de uma estratégia global ante o perigo de uma maior entrada chinesa, que hoje já tem uma importante presença. O tratado do pacífico que abrange Chile, Peru, Colômbia e agora o novo tratado em construção de Obama com países da Asia (Australia, Japon, Vietnam, Coreia do Sul …) e América (México, Perú, Chile, Colombia…). em que entra estes países são ferramentas com as quais combate a maior presença chinesa.

Na realidade uma síntese do domínio mundial deveria dize que o que mais prevalece é o G2, ou seja, a relação dos EUA com a China, uma associação altamente conflitiva mas necessária para os dois. A China segue sendo o principal possuidor de bônus da dívida permanente do orçamento americano e isto é o que lhe permite ser o principal exportador para este país. A competição econômica pode ser dura, mas os interesses de domínio da zona de influência política militar da China são limitados ao Oriente da Ásia, lugar onde a presença americana também é forte.

O ISIS. Como dizíamos, os elementos de caos e inclusive regressivos também existem e se estendem. O ISIS é uma regressão pré capitalista, não tem nada de anti-imperialista. O terrorismo que impulsiona é muito daninho à luta de classes e tem se transformado em um componente importante da situação mundial.

O imperialismo carrega sobre suas costas a grande responsabilidade das crises humanitárias de imigração, de guerras quase permanentes na região formada pelo Grande Oriente Médio, o mundo árabe e islâmico, mas o surgimento do ISIS, que desgraçadamente se tornou cada vez mais protagonista conjuntamente com a Al Queda, é regressivo e reacionário não apenas por sua ideologia, mas também pelo papel que joga no território que ocupa, no caso da Síria, e fazendo o jogo da Turquia e do governo Erdogan e seu combate na região ao PKK e ao partido HDP (que conseguiu 13% e deputados) que hoje sofre um ataque repressivo sobre suas localidade e sedes (um companheiro do MST se encontra agora na zona e temos informes atuais da região).

O ISIS conta com seguidores na Europa, dali recruta muitos voluntários o que torna mais perigosa e chata sua ação para o movimento de massas e o avanço em sua consciência.

A crise de modelo socialista alternativo ao capitalismo e o desenvolvimento das novas alternativas de massas

Esta emergência do ISIS também tem uma explicação no retrocesso das revoluções árabes e pela debilidade de alternativas e como fato mais importante a ausência de modelo alternativo.

O fundamental é que esta ausência de modelo complica também o fortalecimento mais rápido e consistente de alternativas que foram surgindo. Não existe um modelo alternativo, porque o socialismo real (falso modelo), mas que viam as massas como alternativa, fracassou e não existe mais, e porque também colapsou (entre outras coisas porque também era uma utopia declamatória) o socialismo do século XXI do bolivarianismo. Por isso não existe outro modelo visível para o movimento de massas. Isto age negativamente sobre experiências tipo Syriza, Podemos ou outras que possam surgir.

Isto torna mais complexo o desenvolvimento de alternativas anticapitalistas, ou seja, de processos de massas que tenham um programa de ruptura acabado e que se sustenha com o apoio de massas e seja uma alternativa de poder. A crise provocada no Syriza pelas vacilações e capitulações políticas de Tsipras e as vacilações do Podemos em converter-se em uma força firmemente anti regime se explicam também por este contexto de falta de alternativa, que pressione positivamente para uma saída pela esquerda.

Temos que levar em conta também a ausência de direção mais conseqüente que é por agora inexistente. E outra questão fundamental é a ausência de um pólo, modelo, ou bloco econômico alternativo ao do imperialismo. Estes são temas que temos que desenvolver mais em próximas reuniões internacionais: a relação entre as novas alternativas, as eleições, o governo, o poder, a ruptura anticapitalista, o caráter do estado na fase atual do capitalismo imperialista e com serão as rupturas. Tudo isto são temas novos e muito importantes para nossa intervenção concreta em cada país. (No Executivo da IV Internacional abriu este debate, em especial o tema do imperialismo e nos temos que fazer nosso aporte).

Não há uma direitização na situação mundial

É falso que haja uma direitização da situação mundial como sustentam alguns. Há grupos contrarrevolucionários, e a também peso político de partidos e correntes de direita na Europa, nos países do Este, o mesmo governo de Putin é bem direitista, também os candidatos direitistas do Tea Party nos EUA por exemplo, mas não podemos dizer que a situação mundial está indo para a direita ou que surjam na pequena burguesia grandes setores que vão até o fascismo ou um proto fascismo. Hás direitas não são o fator dominante na situação mundial. (Uma prova real disto que entusiasma, é o humanismo solidário que conservam as massas europeias, visível nas torcidas de futebol de recebimento dos refugiados na Alemanha). Seguindo com o tema da direitização por exemplo mesmo na França a filha Marie Le Pen derrotou a seu pai que era sim a encarnação do fascismo.

O que domina a situação são as crises dos regimes políticos e os partidos que aplicam o ajuste. Moreno, em 1985, disse que havia uma contrarrevolução econômica permanente (é debatível se foi um pouco exagerado como definição para este período), mas atualmente temos que pensar se, frente à crise capitalista, não é uma definição correta, e esta é uma explicação para até onde vão todos os regimes em sua aplicação de políticas de ajuste muito brutais, com consequências sobre a população.

E o outro elemento que domina o mundo é que existem muitas lutas de resistência contra os ajustes e muitas lutas democráticas de alto caráter político contra governos e regimes e a corrupção. Neste sentido seguem as insurreições ou levantes indignados. No grande meio oriente temos junto ao caos social dos refugiados da guerra síria a heróica resistência do povo kurdo em Kovane, as mobilizações democráticas no Líbano e também grandes mobilizações populares em Irak, na Indonesia. Também na América Latina na Guatemala, onde os indignados terminaram derrubando o governo, em Honduras a marcha das tochas (como aconteceu anteriormente, surgem independente de partidos políticos) e na Argentina onde depois das eleições na província de Tucuman houve um “tucumanazo”.

São lutas democráticas que chegam a ter expressão política de luta contra os governos em muitos países do mundo e são referência de uma resistência global. De certa forma, através delas toma corpo a luta contra a ditadura do capital. São o 1% é uma grande consigna, que une o democrático ao anticapitalista.

Na Europa a derrota do Syriza é uma derrota que atua negativamente sobre a Espanha e mostra as dificuldades para impor uma saída, uma alternativa. É positivo que em seu interior sempre tenha organizada uma ala mais à esquerda que mostre que é possível persistir e que hoje forma a Unidade Popular; isso expressa nossa tese central de participar dentro dos processos vivos e reais. Todos nós estamos com esse setor, que não é sectário, que tem uma política para setores do Syriza e do resto da esquerda radical e os movimentos sociais que fizeram, juntos, os Comitês do NO. Temos que ver como se desenvolve esta experiência depois das eleições de 20 de setembro.

Na Inglaterra o processo surgiu por dentro do trabalhismo através do pré-candidato Crosby às presidenciais que tem um programa contra os ajustes e de tipo radical. Isto é muito importante porque parecia que se fortalecia a direita na Inglaterra, e há setores de esquerda trotskista que estão apoiando este processo. De certa forma a tentativa de fazer uma nova esquerda de massas com o New Left Party não avançou e o processo se dá por dentro do trabalhismo, algo que é notável e que nos exige ser abertos em nossas análises. O processo da Inglaterra não está desconectado do que sucedeu na Escócia com o plebiscito e o posterior resultado obtido pelo ScotishNacionalistParty, que esmagou o trabalhismo e a direita.

Este também é o caso dos EUA com Bernie Sanders, que junta multidões, que de certa forma se transformou em continuação e ícone do Occupy Wall Street. Nos EUA Sanders se diz socialista e está pondo Clinton de saia justa dentro do Partido Democrata. Isso é bom? Temos que apoiar como fazem alguns setores da esquerda norte-americana? Cremos que sim, é uma possibilidade tática com os limites que tem o fato de ser uma luta dentro do Partido Democrata. Mas desta luta podem surgir fatos novos e positivos para o futuro.

Por outro lado, na Espanha “Podemos” tem sentido o impacto da Syriza e caiu nas pesquisas (também seguramente pela própria política da direção), e a idéia de Iglesias de tomar o poder ficou bastante distante, mas nem por isto o fenômeno deixou de seguir adiante, se deu nas prefeituras de Madri e Barcelona e vai se transladar para a luta pela independência, em particular da Catalunha que é o setor mais dinâmico, mas que também existe no País Basco e na Galícia. A questão nacional e a independência parece ser a forma na qual se desfaça o regime monárquico do Pacto da Moncloa. A consigna “República Catalã” levantada pelo POR e que foi assumida em geral pela frente eleitoral que leva como presidente ao ex companheiro do POR Luis Rabel, “Catalunya sic que por”, (Catalunha sim que pode), combina bem este processo independentista de uma futura república com a luta antiausteridade.

→Outro tema a seguir analisado na situação geral, é o dos setores sociais em luta: A classe trabalhadora não é hoje o motor e líder de todos os processos que ocorrem, mas dialeticamente existem muitas lutas dos trabalhadores e ocorrem processos importantes à esquerda. Existem novos protagonistas sociais e um peso também da juventude em diversos processos, mas não tira a colocação estratégica da classe trabalhadora no mundo e, portanto, em nossa orientação concreta.

Nova situação em nosso continente Latinoamericano

Na América Latina assistimos a uma nova situação. Os elementos que já destacamos no inicio e aqui retomamos são: o fim do bolivarianismo como modelo alternativo e como processo político; a entrada, como apontávamos, da crise econômica que irá alcançando cada vez mais magnitude, apesar de que alguns países conservam certas gorduras do período anterior; a crise política e econômica do Brasil e com elas o colapso total do PT; o desenvolvimento de muitas lutas sociais de diferentes tipos, mas que todas vão contra os governos; uma grande dificuldade da direita para capitalizar a crise tanto do bolivarianismo na Venezuela como do PT no Brasil ou o Kichnerismo na Argentina.

Se a direita especulava por uma volta ao neoliberalismo em estreita associação com os EUA, não parece que isto seja possível pelas lutas sociais, a mesma competência econômica que se estabeleceu no continente com a China, e em definitivo porque as massas latino-americanas são as que mais experiência tem feito com a direita. Daí as dificuldades que tem na Venezuela, Chile, Equador, Bolívia, Argentina e inclusive no Brasil. Como dissemos, existe por hora uma nova localização dos EUA na América Latina, tanto em sua política desde os acordos do Pacífico como sua nova política sobre Cuba.

Estas mudanças são refletidas também pela Igreja. O Papa Francisco se impôs sobre a ala direita da Igreja encarnada em Ratzinger. Não é apenas uma derrota interna dos setores vinculados às altas finanças do aparato e sua corrupção na Instituição de dominação mais velho do mundo. É uma mudança de política para readequar a Igreja. Com Francisco vai dialogar com o povo e seus problemas. Por um lado é para recuperar o espaço perdido ante as seitas evangélicas (que são bem obscurantistas), em particular da Europa e América, onde a Igreja tem mais força. E por outro é uma adaptação à nova situação mundial, daí sua encíclica sobre ecologia, seus eventos com movimentos sociais, etc. Nos parece que faz parte da ala do imperialismo que prevalece por enquanto, de aceitar alguns avanços em direitos democráticos importantes como as causas dos homossexuais, as drogas e outras questões que são compatíveis com o domínio do grande capital. Tudo pensado para intervir melhor, desde a Igreja, em uma situação internacional nova.

Por outra parte, o fim do bolivarianismo se expressa mais claramente na Venezuela onde há um giro até um bonapartismo populista perigoso cuja maior expressão é o tratamento para com os imigrantes colombianos na fronteira, mas que pode ter mais consequências para o movimento operário. No Equador, Correa mantém uma posição de apoio de massas e talvez mais independente, mas a crise econômica o leva a pactuar com as companias multinacionais. O enfrentamento com o indigenismo, por mais que se queira combinar com a direita é pouco sustentável, já que apesar de sua burocratização a CONAIE e sua luta expressa o deslocamento que se produziu pelo acordo com grandes corporações. Na Bolívia, Evo conseguiu mudanças progressivas democráticas e de soberania nacional, mas estas conquistas, que foram resultados de grandes lutas e que se mantém, levaram também a uma adaptação do capital multinacional com o qual negociou acordos.

A conclusão é uma: estes processos não podem ficar na metade do caminho. Se isto acontecer vão retroceder, como foi colocado quando prima a burocratização (como aconteceu em todo o mundo), termina em pactos e retrocessos. Tem que haver uma política de radicalização permanente das mudanças e das medidas no quadro de que se necessita uma política de integração latino-americana pela II independência. Avançar nessa direção só é possível com o povo organizado e mobilizado.

A situação mundial segue aberta para novos processos de massas

A situação mundial é que segue aberto o espaço para novos processos de massas e de recomposição da superestrutura política desses processos. Podemos surgiu do 15M. Nós temos que continuar sendo parte dos processos sem perder de vista as limitações e mantendo-nos como corrente leninista trotskista dentro dos mesmos (no caso da Espanha seguindo e relacionando-nos com os companheiros da IV que tem uma boa colocação).

Os processos são variados como já dissemos. Na América Latina temos que destacar o Peru e a formação da Frente Ampla que integramos com o partido do Padre Arana. O MPGT ultrapassou em muito seu primeiro desenvolvimento como uma corrente do nacionalismo. Ao juntar-se com o ecologismo do Padre Arana, que tem ampla legalidade no seu campo de ação e reflete um processo muito mais rico que o mero nacionalismo primitivo de Humala, unindo-se ao movimento social de maneira muito mais direta. O fato de que tenham decidido fazer internas abertas é uma questão que tem que ser debatida por toda nossa corrente, como forma de enfrentar o aparatismo e burocratização dos novos processos, mesmo no PSOL. Como apelamos a métodos de consulta direta, seja pela Internet, se se trata de um país com mais desenvolvimento tecnológico como é o caso do Brasil, ou essa prática que inaugurou nossa própria corrente morenista com a Esquerda Unida.

Temos que seguir o desenvolvimento de nossos companheiros do Brasil que vão para um novo e importante Congresso do PSOL em dezembro, com uma boa colocação do MES como principal força do Bloco de Esquerda. Também de nossos companheiros venezuelanos que vivem uma situação de oportunidade de extensão nacional com a Marea Socialista e, no momento de dificuldades pela perseguição do regime, este processo possivelmente termine com uma Conferencia ou evento nacional da Marea, por volta de março de 2016. E na Argentina, após os resultados das eleições de outubro veremos como sai o FIT desse processo (já que atravessa uma crise interna), enquanto nossos companheiros do MST desenvolvem uma orientação de fortalecimento estrutural na juventude e na vanguarda e avaliamos se a médio prazo pode surgir ou não algum fenômeno ao qual se junte.

Precisamos atualizar nosso programa de transição e caminhar em nossa aplicação internacional

Na nova situação internacional que precisamos viver e sobre a qual intervimos, necessitamos um novo programa de transição, que nos ajude a articular as consignas democráticas e transicionais.

No caso da América Latina segue sendo importante o problema nacional e democrático (agora não apenas contra os EUA mas também contra a China), que se combina com o problema ecológico que passou a ter uma grande importância pelo extrativismo e, por sua vez, se relaciona com medidas necessárias anticapitalistas ao redor do sistema financeiro, o controle bancário e o comércio exterior, a ruptura com desígnios de organismos internacionais, entre outras questões.

Além de tudo isto, precisamos mais educação e propaganda política.

Nossos quadros precisam formar-se bem nos conceitos fundamentais do capitalismo e imperialismo, pois nos processos novos enfrentamos correntes pós modernas que negam os avanços mais importantes nestas matérias. Isso é chave quando se trata de ir além, de romper os limites que nos impõe o modelo e o sistema. E na perspectiva de ir fortalecendo nossas construções nacionais, na situação em que se encontrem, juntamente nossas corrente internacional.

Para avançar em todas estas questões políticas, programáticas e de orientação de intervenção, estamos avaliando os próximos passos e iniciativas de eventos e de difusão web que precisamos tomar para ganhar mais presença internacional e nossa intervenção comum na próxima reunião de executiva da IV, em final de fevereiro de 2016.


Apontamentos de Israel Dutra ao primeiro rascunho

Alguns pontos que merecem ser reforçados:

O problema internacional dos imigrantes. Essa é uma questão capital para a classe trabalhadora no mundo, pois é um ponto de unidade entre a denúncia da política imperialista de livre comércio e circulação de capitais com repressão e fechamento das fronteiras entre os povos. Também é uma forma de evidenciar os crimes que as atuais guerras revelam. Daria mais peso com um item estruturante, entre o item 3 e 4. Não apenas pela comoção no caso da morte do menino Aylan, mas porque é um divisor da águas com posições direitistas e racistas como Orban e Cia.

A questão das nacionalidades oprimidas. A grande questão, que está citada no item “tarefas democráticas” é a luta democrática pela independência e respeitos às nacionalidades e etnias oprimidas pelos atuais Estados. Uma espécie de novo movimento nacionalista progressista, de caráter pequeno burguês e cívico, que joga contradições contra o Estado Neoliberal. Guardada às proporções se encaixariam os povos da Catalunha, Escócia, Curdistão, País Vasco, ressurgimento do debate irlandês, entre outros povos que reclamam mais autonomia e democracia étnica e linguística.  

A questão da China está muito bem posta. Se fosse possível ilustrar um pouco mais com dados- visto que Pedro e Maycon de Brasil fizeram vários artigos a respeito. O fato é que é uma mudança que atinge o coração da produção mundial, nas palavras de Chesnais, aquela que foi desde os ’90, a fábrica do mundo. Essas contradições externas vão mover também contradições internas, com greves, protestos e lutas dentro do gigante chinês que recém desperta.

Colocaria com mais força o problema da “Contrarevolução econômica”, ainda que não tenha segurança de que esse é  o melhor termo. O fato é que a classe trabalhadora, apesar de estar empreendendo lutas heróicas, teve uma série de direitos quitados nos últimos anos. Em última instância isso explica parte do estado de ânimos das massas, mesmo em países onde a esquerda ganhou projeção política como Grécia e Espanha. O peso das derrotas é parte de nossa analise e caracterização.

No item “América Latina”, creio que está bem polemizar com as correntes que afirmam que se vem uma diretização, mas expressando que existe mais que uma ofensiva conservadora, uma polarização maior com posições  de direita. Também vale colocar as fissuras e crises que incluem os diferentes regimes: Chile, Honduras, para além da citação de Guatemala e do Tucumanazo argentino.

O item “7” está bom, precisamos lhe dar mais precisão e conteúdo. Os novos fenômenos mostram três coisas:

  •  segue a busca por saídas à esquerda como Syriza, Podemos, HDP turco,  agora Corbyn e Sanders.
  • Tal busca ganha formas diferentes para um conteúdo comum: uma plataforma democrática que dialoga com crise dos regimes e  contra a austeridade. Essa diversidade de formas não corresponde a um modelo único de Partido, tal como alguns setores da esquerda fazem fetiche.
  • Devemos insistir na tática de sermos parte dos processos mais dinâmicos sem diluir nossa organização revolucionária.

Por fim, creio que está muito bem a orientação em construir esforços para atualizar o programa de transição e aprofundar nossa atividade de propaganda. Reivindicar o marxismo revolucionário não-dogmático para disputar o melhor da vanguarda do século XXI. 

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

Leon Trotsky Joseph Stalin