Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

Pedro Fuentes, Secretário de Relações Internacionais do PSOL

Passou-se um pouco mais de um mês do grande triunfo que comoveu a Europa e levou a SYRIZA, sob o comando de Tsipras, ao governo. Neste mês, o governo teve que enfrentar as negociações com o inimigo mais poderoso da Grécia e dos povos da Europa: a chamada troika, que nada mais é que as instituições europeias e todos os governos do eurogrupo, que terminam se curvando ante Merkel.

Há setores da esquerda que, com base nos acordos alcançados, já dizem que a Syriza capitulou e que o processo terminou. Que a realidade lhes deu a razão. Esta não é a nossa opinião. Compartilhamos das críticas às negociações que foram feitas, mas seria um grave erro usar essas críticas para sepultar o processo encabeçado pela Syriza e seu governo. A luta segue aberta e o processo não está perdido, pelo contrário, a luta apenas começou.

Momentos difíceis se abrem para o governo da Syriza e para o povo grego, e temos que apostar, com nossa ação, para que sigam sendo um esteio na longa e difícil luta para derrotar a troika e a globalização neoliberal.

Todos os acordos feitos até agora pelos países devedores consistiram, falando de forma simples, em uma reestruturação econômica. Significaram dar o dinheiro de quem trabalha para os bancos, seja mediante o corte de salários, das pensões, a precarização ou o desemprego para a juventude, os cortes na previdência, saúde e educação. Os acordos firmados pelos governos gregos anteriores foram os mais “draconianos”, os que mais dano fizeram ao país. A Europa, como em seu momento disse Eduardo Galeano sobre a América Latina, também tem aberto suas veias para que seu trabalho e riqueza (sobretudo dos países do sul) possam ir para as grandes corporações e os grandes banqueiros que dominam a eurozona. As imposições (melhor dito que “acordos”) da troika com os governos da vez têm significado também a liquidação dos mecanismos democráticos de decisão do povo, e convertido os partidos em agentes a serviço dos grandes capitalistas, deformando e esvaziando os regimes democráticos burgueses.

A Syriza chegou ao poder levantando um programa anti-austeridade que se confronta com os planos da troika. O entusiasmo que causou esse triunfo é compartilhado não apenas por aqueles que elegeram o partido na Grécia, mas também por milhões em toda Europa e no mundo. O programa eleitoral que apresentaram pressupunha a permanência na zona do euro com a política de procrastinar e condicionar o pagamento da dívida ao crescimento do país, ao mesmo tempo ficando com as mãos livres para aplicar as medidas anti-austeridade. A contradição lógica que existia e segue existindo é que o programa de combate à austeridade significava uma negociação com a maldita troika e seus planos de austeridade.
A impressão que deixava esta política do setor majoritário do Syriza, sob a direção de Tsipras, é que se especulava que haveria certas fissuras dentro da burguesia europeia entre a ala dura encabeçada por Merkel, com a social-democracia francesa, e o mesmo Dragui, o que permitiria obter concessões importantes para ganhar tempo e aplicar minimamente a política anti-austeridade.

Mas não ocorreu desta maneira. Todos formaram um cerco em defesa dos bancos alemães e seu governo, em primeiro lugar os países mais afetados como Portugal, Itália e Irlanda ante o temor que suas cabeças rolassem agora mesmo, caso fosse feito um acordo diferente. Daí que Syriza teve que se confrontar diretamente com a implacável troika.
As negociações terminaram em 24 de fevereiro com as últimas propostas apresentadas pela Syriza e aceitas pelo eurogrupo. O acordo mereceu serias críticas da ala esquerda da Syriza. De membros do Comitê Central como Kouvelakys e Manolis Glezos, o velho lutador antifascista que hoje é deputado aos 92 anos.

É verdade que nas negociações de sexta a Syriza fez grandes concessões, entre elas a supervisão das medidas que tomem por parte das instituições europeias, o reconhecimento da dívida total, o tempo deste acordo que vale para quatro e não seis meses quando a Grécia terá que pagar 6 milhões de euros ao FMI, entre outras.

Nas propostas que fizeram na terça-feira (rapidamente aceitas pelo eurogrupo), as coisas ficaram mais ambíguas, entre elas não está registrado o superávit do orçamento. Ficou a impressão de que as coisas estão mais abertas e que há interpretações diferentes sobre vários temas importantes. Pode ser que a Syriza consiga aplicar, nestes três meses, medidas de emergência para combater a pobreza extrema. Após as negociações de sexta, nas quais a Syriza cedeu muito, o novo texto deixou várias questões de forma ambígua (por exemplo, sobre as privatizações disse duas coisas diferentes, uma que vai haver privatizações, e outra que podem não acontecer as que estão em andamento).

Segundo o economista Paul Krugman em sua coluna no New York Times “a questão era saber se a Grécia seria forçada a impor mais austeridade (o governo grego anterior havia concordado em triplicar o superávit primário nos próximo anos) Isso não aconteceu, e a verdade é que a Grécia ganhou nova flexibilidade para este ano e que a linguagem sobre os excedentes futuros está obscura. Isso pode significar qualquer coisa ou quase nada”.
Segundo Francisco Louçã do Bloco de Esquerda, a Syriza foi às negociações sem um plano B, quer dizer, sem um plano de manterem-se firmes em todas as propostas (inaceitáveis por Merkel), ou seja, não foram com a espada na mão que acabaria terminando com sua expulsão da zona do euro e as mais imprevisíveis conotações que isso abriria. Esta é a mesma crítica de Kouvelakys.

De todo modo, a questão decisiva é saber qual será a atitude do governo nas negociações em Junho. Se a estratégia é ganhar tempo, este pequeno prolongamento serve para encarar a emergência social e assim fortalecer-se ante as massas, mas em Junho a discussão já será outra.

A história não acaba com esses acordos. Concordamos que Syriza fez concessões mas que também ganhou tempo, e deixou muitas ambiguidades plantadas. Por isso a luta recém começou. Uma ampla maioria do povo grego (80%) está apoiando os passos que deu Tsipras e isso não pode ser uma casualidade, de alguma maneira vêem que as coisas estão um patamar diferente ao dos outros governos e há expectativas. Essas expectativas podem desaparecer dependendo de como o governo atue nesses meses e particularmente em Junho quando se decidirá mais claramente o curso que tomarão na situação.

Esquematicamente, vendo o processo de longe, podemos apresentar duas hipóteses. Uma delas é que o governo aposte em seguir com este programa mínimo reformista sem comprometer-se com o superávit e tente passá-lo sem um novo acordo. Em meio à atual correlação de forças nos parece que esta seria a variante mais utópica, e como diz Kouvelakys, “não armaria o povo sobre o que está para vir”. O governo se veria obrigado a adaptar-se às novas exigências para terminar aplicando medidas de austeridade. (Haveria que se saber se há na Grécia algum setor burguês soberanista apoiando o governo).

A outra possibilidade, e em nossa opinião é a mais provável e para a que a Syriza tem que se preparar, é que o governo sem apoio na Europa e na burguesia local prepare as massas para uma negociação dura em que termine com sua expulsão da zona do euro. Isto obrigaria o governo a tomar urgentes medidas anticapitalistas como a nacionalização de todos os bancos, controle de todos capitais etc.

Um elemento fundamental e pelo qual não podemos dar o processo como encerrado é o terremoto que se iniciou na Grécia (e que não vai parar em pouco tempo) se propague mais rápido do que o esperado na Espanha, Irlanda, e porque não em Portugal ou outros países. Não podemos adivinhar o que acontecerá, mas a profunda crise europeia continua e as condições mudaram após o triunfo da Syriza.

Temos que nos guiar com cautela para compreender as novas situações que vivemos neste século XXI, em que a Grécia é muito importante. Se trata de não perdermos as ferramentas políticas e metodológicas. Do ponto de vista metodológico, tomar a realidade em sua totalidade, e não de uma parte dela como costumam fazer os movimentos ultra ou sectários: já que a parte falhou (os acordos), isto determina o todo (a capitulação definitiva e o fim da Syriza).
E, por outra parte, não confundir os momentos desse momento progressista (e/ou revolucionário, se se quer definir dessa forma) que acontece na Grécia como se tratasse de uma revolução dos trabalhadores e do povo com seus organismos de poder prontos. Syriza chegou ao poder através das eleições. Por trás das mesmas houve um poderoso movimento de mobilização. Mas temos que distinguir entre o triunfo eleitoral e uma revolução. Temos que tomar a Syriza como o que é para julgá-la, o que não significa marcar críticas e erros como parece estar fazendo sua ala esquerda. O terremoto que o governo da Syriza provocou na Europa não é por serem revolucionários ou reformistas, mas simplesmente porque propuseram uma política alternativa à da austeridade.
Apostamos na continuação dessa política, de um processo que pode também ter suas idas e vindas. Nós revolucionários latino americanos, temos nosso próprio acúmulo de experiências graças aos processos antineoliberais que se abriram via eleições depois das grandes mobilizações que ocorreram no início da década em nosso continente. Seus anos de ascensão e agora de seu declínio. Mas foram anos de ascensão em que as correntes sectárias foram marcadas pelas massas por ficar totalmente por fora, sem nenhuma incidência nesses anos e nem atualmente.

Os grupos de esquerda críticos que existem na Grécia por fora da Syriza podem ganhar vários militantes se diferenciando e atacando de frente ao governo Syriza como responsável de todos os problemas. De nossa parte, sem deixar de apontar as críticas, afirmamos que é um momento de frente única e de ação de dentro do processo, da Syriza, de mobilização concreta ao redor de levar adiante o programa mínimo anti-austeridade e não de pretender colocar a Syriza como inimiga dos trabalhadores. Esta política só confundiria os trabalhadores e o povo grego e ajudaria a direita grega, a troika e mesmo os setores neofascistas. É o momento em que a principal tarefa é atuar e apostar para que o processo avance e muito especialmente que contagie a mais países.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

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