Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

Nossas crianças e adolescentes querem ser mais do que o sistema tenta lhes impor

Por Max Costa*

Em vez de armas, violinos. Em vez do barulho de cadeados, melodias requintadas. Em vez de prisões, o ar livre. Foi assim, brindando com música nossos ouvidos, que crianças da República de Emaús celebraram os 25 anos do ECA, na manhã de hoje, em frente ao que deveria ser um espaço de produção cultural do município de Belém – o Solar da Beira no Mercado do Ver-o-Peso.

Para muitos, pode ter passado despercebido. Para outros, pode ter sido uma apresentação qualquer. Mas para aquelas crianças vindas do bairro do Benguí, foi uma forma de empoderamento e de romper a invisibilidade de uma sociedade que teima em os criminalizar e esconder o que, na lógica do capital, enfeia a sociedade do consumo, pelo simples fato de serem filhos da pobreza.

O que vimos hoje no Mercado do Ver-o-Peso é o que nossos governantes não vêem. Ou melhor, fingem que não vêem, legitimados por aqueles que, no seu afã individualista, não reconhecem o direito do outro. Principalmente, se este outro é pobre, preto e de periferia.

Talvez porque prefiram dar audiência aos programas policiais, que reproduzem o simulacro de que os adolescentes são os responsáveis pela violência em nossa cidade, ao invés de cobrarem políticas públicas que incentivem nossas crianças e adolescentes à inicialização musical e à práticas culturais, esportivas e de lazer.

Talvez porque prefiram se deter aos artigos do ECA que falam da responsabilização penal, e desconhecem ou fingem desconhecer os demais artigos do Estatuto que são invibilizados pelas autoridades de nosso país, a cada dia que uma violação de direito é cometida contra crianças e adolescentes.

Talvez porque, ao não quererem reconhecer os seus fracassos no processo educacional das crianças e adolescentes e na fiscalização efetiva dos políticos picaretas, transferem suas responsabilidades para os adolescentes e os culpabilizam por problemas sociais – como a violência urbana – que não foram gerados por estes.

No dia em que o ECA completou 25 anos, juntamente com crianças e adolescentes, fomos às ruas. Incomodamos o trânsito sim, porque assim como Estatuto incomoda tanta gente, continuaremos incomodando os poderosos e conservadores deste país que criminalizam adolescentes e jovens, para querer esconder os seus próprios crimes.
Parabéns ao ECA! Parabéns às crianças do Emaús! Parabéns às organizações que estão na luta cotidiana por mais direitos! Parabéns às entidades que desenvolvem projetos sociais com crianças e adolescentes, diante da ausência criminosa da Prefeitura de Belém, do Governo do Estado e da Presidência da República, que ao não promoverem políticas públicas aos vulneráveis socialmente, empurra diariamente nossas crianças e adolescentes às ruas, ao crime, à drogadição e à exploração sexual.

Ao som de violinos, neste 13 de julho, nossas crianças e adolescentes mostraram que querem ser muito mais do que este sistema capitalista e os governantes tentam impor à elas.
Viva os 25 anos do ECA!

*Max Costa é jornalista, mestre em Ciência Política e Conselheiro Estadual do Direito da Criança e do Adolescente do Pará. É da direção do PSOL e do MES.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e
trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

Solzinho