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Massacre em Orlando: a dor que nos une

Felipe Aveiro – é membro do Juntos e da Casa da Juventude

“É preciso estar atento e forte

Não temos tempo de temer a morte”

(Caetano Veloso)

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A postagem na página de Facebook da boate Pulse, uma movimentada boate gay em Orlando (EUA) foi o primeiro anúncio da tragédia que acontecia: “Que todo mundo saia da Pulse e comece a correr”. E o mundo acordou neste domingo em choque com o massacre dos que se divertiam numa noite de sábado durante o mês do orgulho LGBT.

Ao menos 50 pessoas foram mortas por um atirador que abriu fogo dentro da boate, deixando ainda outros 53 feridos, alguns em estado grave podendo ainda aumentar o número de óbitos. O maior ataque em solo estadunidense desde o atentado em 11 de setembro de 2001.

O autor dos disparos foi morto pela polícia após uma troca de tiros e identificado pelas autoridades estadunidenses como Omar Mateen, um jovem de 29 anos, nascido em Nova York. Apesar das especulações de um suposto envolvimento com o Estado Islâmico ou alguma organização terrorista, o pai do rapaz não acredita em uma motivação religiosa, apontando a homofobia como provável motivo.

Segundo ele, há alguns meses atrás viu o filho ficar fuiroso ao ver um casal de homens se beijando. Sua ex-esposa afirmou também que ele era violento e que a agredia com frequência.

Se por um lado o ataque reacende o debate sobre o portede armas nos Estados Unidos, onde incidentes com armas de fogo causam mais mortes do que ataques terroristas – 40 vezes mais segundo o Departamento de Justiça e do Conselho de Relações Exteriores estadunidense – ; é necessário falarmos também sobre a intolerância àqueles que divergem do “padrão” heteronormativo da sociedade, sejam esses gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transsexuais e todas as variações de identidade de gênero.

O ocorrido não poderia deixar de ser mencionado pelos principais pré-candidatos à disputa pela presidência, expressando um pouco da polarização que o país vive.

O discurso proto-fascista de Donald Trump fica claro em seus comentários no Twitter  defendendo o endurecimento do Estado policialesco e agradecendo aos que o parabenizam pelo discurso xenófobo anti-imigração. Trump é a expressão de uma direita conservadora e do fundamentalismo religioso nos EUA, os setores que se opõe às legislações sobre o casamento homoafetivo.

Hillary Clinton, por sua vez, não pode deixar se expressar seu horror com o ataque, sem deixar de twittar também em Espanhol, lembrando que na noite de ontem acontecia uma festa de música Latina. Mas Bernie Sanders foi além e não deixou de expressar nominalmente em seu tweet a comunidade LGBTQ (o “Q” da expressão “queer”).

Assim como Luciana Genro entrou para a História da luta pelos direitos da população LGBT no Brasil ao falar, pela primeira vez em um debate presidencial em rede Nacional nos temas da homofobia e transfobia, a candidatura de Bernie Sanders expressa as forças do novo que surge nas ruas e nas redes contra os de cima, por uma nova ordem institucional.

E ambas não podiam deixar de canalizar a força dessa importante luta democrática tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil.

A LGBT-fobia mata diariamente, e o Brasil não está distante dos EUA nesse tipo de violência. O país encontra-se vergonhosamente no topo da lista de assassinatos movidos por essa intolerância. Segundo dados do Grupo Gay da Bahia, acontece uma morte por LGBTfobia no Brasil a cada 28 horas. E é necessário ainda fazer um recorte e ressaltar o alarmante índice de morte de pessoas trans, mais de 600 nos últimos 6 anos.

Já nos Estados Unidos, segundo o FBI 17,6% dos crimes de ódio relatados à polícia basearam-se em discriminação pela orientação sexual. Um dos casos mais notórios no nosso vizinho do norte, e que chamou a atenção da opinião pública nacional e internacional sobre esse tipo de violência foi o de  Matthew Shepard, estudante da Universidade de Wyoming de 21 anos torturado e assassinado em 1998.

Aqui no Brasil poderíamos elencar diversos casos, dos garotos agredidos com lâmpadas fluorescentes na cabeça na Avenida Paulista em 2010 ao menino Alex de 8 anos, morto após ser espancado por duas horas pelo pai na Vila Kennedy, Rio de Janeiro. Em depoimento na delegacia o pai do menino afirmou que as surras eram um “corretivo” para ensinar o filho a “andar como homem”.

Mas por trás de cada mão que espanca ou dispara um tiro há a cultura da LGBT-fobia, propagada no Brasil pelos setores mais reacionários, alguns deles ligados às igrejas neopentecostais como a chamada “bancada da Bíblia” no Congresso Nacional, que professa seu discurso de ódio do púlpito do parlamento, como o fascista Jair Bolsonaro que chegou a afirmar que filho gay é “falta de porrada”. Não por coincidência os mesmos que militam pela flexibilização da legislação sobre o porte de armas no país.

Apesar das diferenças no tempo e no espaço que separam esses casos, é o ódio como denominador comum que é o problema a ser enfrentado se quisermos ser uma sociedade livre dessa forma de intolerância e opressão. Sem deixar a luta de classes de lado o compromisso dos revolucionários socialistas é defender a humanidade frente à barbárie.

E aqui no Brasil combater esse mal é também combater politicamente os setores obscurantistas que professam esse discurso e utilizam-se da “defesa da família e dos valores tradicionais” para angariar apoio e anuviar seus negócios espúrios e as agendas regressivas e anti-populares que defendem.

Combater esses setores é combater também a velha casta política carcomida que representa o que há de mais atrado no Brasil: machistas, racistas e LGBT-fóbicos, que vão no sentido contrário ao sentimento democrático que se amplia no país principalmente entre a juventude que não aceita mais ser vítima de quaisquer formas de opressão.

Se no Congresso Nacional temos apenas um parlamentar assumidamente homossexual, pesquisas recentes mostram que entre os brasileiros da geração Y (aqueles entre 18 e 34 anos), quase 1/3 se reconhecem como homo ou bissexuais. Essa diferença geracional aponta o caminho que o país deve seguir.

Como disse hoje mais cedo no Twitter o ativista LGBT carioca David Miranda, “Não há muito o que comemorar num dia dos namorados que amanhece com um atentado ao direito de amar”. Os mortos dessa madrugada não foram os primeiros, e certamente estão longe de ser os últimos. O baiano Caetano Veloso já cantava que “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, e nosso papel é fazer dessa dor que nos une o combustível para a nossa luta.

E que este 12 de junho de 2016, dia em que comemoramos no Brasil o Dia dos Namorados, fique na memória de todos e todas aqueles que lutam diariamente para efetivar o direito de viver e de amar.

E toda solidariedade aos familiares e amigos das vítimas!

Até a vitória!

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

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