Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

O dia 5 de novembro de 2015 pode, acertadamente, entrar para a história como o dia em que a metáfora ganhou corpo. O mar de lama deixou de ser uma figura de linguagem e, de forma impiedosa, matou, devastou, desfigurou, destruiu e deixou sequelas, talvez permanentes, na paisagem de vasta região do Brasil e na memória de muitos brasileiros.

Criou-se ensejo para discutir questões de elevada importância, como o poder sem limites de atividades empresariais como a mineração, sempre alimentado pela promíscua relação que tais atividades sempre mantiveram com os governos, com os parlamentares, com a política como um todo. A concessão do licenciamento para a execução de projetos temerários, como as barragens de rejeitos de mineração, deveria ter imediatamente entrado na ordem do dia, pois aponta, com clareza, para a existência de uma hierarquia de valores que coloca a busca desenfreada pelo lucro acima da vida, do meio ambiente, do sustento de populações inteiras. Essa hierarquização perversa não é obra e graça apenas de empresas como a Vale, a BHP e a Samarco; o Estado dela participa de forma ativa.

Infelizmente, parece que o recado não será ouvido com todas as suas implicações. Preguiçosamente recostados em um sistema que apodrece rapidamente e que ameaça ruir a qualquer momento, políticos e militantes das maiores legendas do país se negam a enxergar que o momento de operar profundas mudanças na maneira como o capital se entrelaça com a política é agora e se perdem em ações pontuais (como se o problema não fosse sistêmico) ou, simplesmente, tentam tapar o sol com a peneira, no eterno empurra-empurra eleitoral que nos legou a polarização pós-eleitoral de 2014.

Enquanto alguns falam em punir os culpados e outros, mais suspeitamente moderados, apregoam que se deve ser cuidadoso na apuração de responsabilidades, negam-se, todos, a agir para que o contexto que propiciou a realização do mar de lama se altere em profundidade.

Nesse sentido, assistiu-se, na última semana, à aprovação, a toque de caixa, do PL 2946 de 2015 na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. O projeto de inciativa do governador Fernando Pimentel, que criou o Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, visava, entre outros pontos, facilitar e tornar mais ágil a concessão de licenças ambientais no Estado e já havia sido alvo de críticas por ambientalistas antes mesmo que a Barragem do Fundão se rompesse. Sua tramitação, em regime de urgência, não foi interrompida depois do que se assistiu em Mariana e ao longo do Rio Doce, havendo persistente cegueira por parte do governo e de parlamentares de situação e oposição no que tange à óbvia relação que o projeto guardava com a trágica situação vivida em Minas e Espírito Santo no momento em que foi colocado em votação.

As discussões dos deputados sobre o projeto,  as quais acompanhamos em parte, oscilavam entre o trágico e o cômico. No primeiro dia de discussão do projeto em plenário, embora boa parte dos parlamentares se encontrasse presente na casa de acordo com o painel, foram poucos os que se dignaram a comparecer ao local onde estavam sendo realizados os “debates”. Quando se dignavam a discutir o projeto, os deputados tornavam-se, de repente, em experenciados ambientalistas, tecendo, por vezes, longos e cansativos discursos acerca de rios que banham os seus currais eleitorais e sobre o tanto que esses rios, atualmente, se encontravam depredados. Nenhum deles se perguntou, nenhuma vez sequer, se as empresas que lhe financiaram as campanhas eleitorais trabalharam para depredar os rios por que choravam; nenhum deles se recordou de que talvez, algum projeto de lei que tenham ajudado a aprovar no passado, tenha contribuído para que Minas tenha chegado ao estado de calamidade ambiental a que chegou.

Enquanto as discussões seguiam no plenário, atingindo níveis de profundidade e equilíbrio dignos de um arranca-rabo sobre política no grupo de whatsapp da família, as pessoas que a tudo assistiam nas galerias, bestializadas com o vergonhoso espetáculo, observaram que o fim prenunciado da encenação só poderia ser a aprovação do PL sem concessões, sem maiores discussões e com a manutenção do regime de urgência. O governo, segundo nos relatou um deputado da bancada governista, avaliava que aquele projeto precisaria de passar imediatamente, ou não passaria nunca e que, embora a bancada do PT se encontrasse aberta ao diálogo, o projeto seria votado, impreterivelmente, dali a um dia.

Diante disso, só nos foi possível concluir que a lama da Samarco não impactou nossas instâncias de poder da mesma forma que impactou, por exemplo, os moradores de Bento Rodrigues ou os pescadores do Rio Doce. Para os poderosos, aquilo, em breve, será esquecido e a aprovação do PL, no momento mais grave de uma crise ambiental sem precedentes, não terá significado absolutamente nada.

Outras barragens virão por aí.

Pedro Munhoz – Executiva PSOL BH

Sara Azevedo – Presidenta PSOL MG

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

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