Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

por Marcelo Freixo, deputado estadual do PSOL do Rio de Janeiro.

Fonte: Folha de São Paulo

Um verso do poema “Pneumotórax”, de Manuel Bandeira, traduz o melancólico esgotamento dos quase 13 anos da era petista: “A vida inteira que podia ter sido e que não foi”.

Lula terminou as eleições de 2002 com um enorme capital político e a chance histórica de promover mudanças estruturais. Sua vitória não foi obra exclusiva do pacto com as elites política e econômica.

Ela também se deveu à mobilização de milhões de pessoas que clamavam por transformações.

Por isso, apesar dos acordos eleitorais, o futuro da gestão não estava determinado, mas em disputa. Foi ao longo do mandato que Lula trocou a possibilidade de transformação pela acomodação aos vícios da política tradicional.

Reconheço conquistas como o fortalecimento dos órgãos de investigação, a valorização do salário mínimo, o aumento do poder aquisitivo dos trabalhadores e a redução da miséria. Entretanto, o PT não avançou nas reformas de base no sistema político, na educação, na saúde, na ampliação da participação social e nas questões agrária e indígena.

A Agenda Brasil, proposta pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, como saída para a crise, é o episódio mais recente da agonia do governo.

Diante do risco de sofrer um golpe na Câmara, dirigida por Eduardo Cunha, Dilma apela a Renan e abraça uma agenda que representa um retrocesso histórico nos direitos sociais.

O resultado desse pragmatismo é a crescente negação da política e o empobrecimento do debate sobre democracia.

Os sonhos das transformações deram lugar ao pesadelo da corrupção. Enxergamos o país sob a ótica do escândalo, não das utopias possíveis.

O desencanto nos fez perder a capacidade de projetar o futuro: os indignados sabem mais o que não querem do que o que querem.

Sou contra o impeachment, pois ainda não há elementos que liguem Dilma às denúncias. A saída de uma presidente deve ser uma medida excepcional, tratada com cautela, para o bem da democracia.

A ética na política não é secundária, mas não pode ser tratada como problema exclusivamente comportamental.

É preciso criar mecanismos para combater a corrupção de forma estrutural, porque esta não é monopólio de um só partido. Isso não diminui a gravidade dos delitos e a desfaçatez dos argumentos que relativizam escândalos devido aos precedentes tucanos.

Paulo Freire dizia que quando não há mais sonho, só nos resta o cinismo.

No fim do poema de Bandeira, o paciente pergunta ao médico se há remédio para suas mazelas. A resposta é ironicamente sombria: “Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino”. O tango é a trilha sonora do desencanto petista nestes tempos de Agenda Brasil.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento. Como forma de contribuir para os debates que ocorrerão na VI Conferência Nacional de nossa corrente, o Movimento Esquerda Socialista, este volume reúne dois números da revista (7 e 8). Dessa forma, pretendemos oferecer à militância e a nossos aliados e leitores documentos que constam do temário oficial do evento, bem como materiais que possam subsidiar as discussões que se realizarão. Na expectativa de uma VI Conferência de debates proveitosos para nossa corrente, desejamos a todas e todos uma boa leitura deste volume!

Solzinho