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Macri ganhou: é a volta do neoliberalismo na Argentina e na América Latina?

Os jornais brasileiros e de todo o mundo, após a divulgação da vitória apertada de Macri na Argentina, se apressaram em dizer que isto significava uma “mudança histórica”. Na aparência, o triunfo de um burguesinho que havia sido até agora prefeito de Buenos Aires, que se apresenta como de centro-direita (ainda que tenha se cuidado muito em dizê-lo durante as eleições), confrontado a Scioli, um candidato light do peronismo, que não era exatamente do estafe kirchnerista, deu um ar à nostálgica direita neoliberal na América Latina. Inclusive no Brasil, onde os tucanos e a centro-direita querem apresentá-lo como a vingança frente à suposta relação carnal entre a petista Dilma, Cristina e Maduro.

As “verdades” aparentes são meias verdades. Sempre são muito exploradas pelos meios de comunicação para confundir a opinião pública, mas, no entanto, estão bem distantes da realidade; da essência da situação argentina e, inclusive, do que pode ocorrer na América Latina nos próximos anos. Como marxistas, sabemos que um triunfo eleitora não significa mecanicamente uma mudança na correlação de forças. Há muitos outros fatores e elementos que fazem parte da realidade e determinam o que podem fazer os governantes, dependendo do que façam as massas e, portanto, o que vai acontecer a partir de agora no país.

Uma anedota do que aconteceu ontem, segunda-feira (23), na Argentina é suficiente para ilustrar o que estamos dizendo. “La Nación”, o jornal de maior expressão burguesa do país, se apressou em publicar no mesmo dia um editorial com o título “Não mais vingança”, no qual diz que é preciso acabar com as mentiras dos anos 70, que é preciso deixar em liberdade os velhos militares que estão presos, igualando ações guerrilheiras ao terrorismo de Estado e misturando também com o terrorismo do Estado Islâmico. A reação de repúdio desatada, não deixou dúvidas do que pensa o povo argentino.

A mais importante foi instantânea, para que se tenha uma idéia da magnitude dos protestos, foi a manifestação dos próprios jornalistas e trabalhadores do jornal (que, evidentemente, a direção do jornal assegura que não sejam de esquerda). Seu repúdio ficou claro na foto que publicamos e que o próprio jornal, após a exigência de seus trabalhadores teve que publicar.

Jornalistas e trabalhadores do jornal La Nación repudiam o editorial pró-militares genocidas da ditadura argentina publicado na segunda-feira (23/11/2015).

A legisladora Victoria Donda (filha de um desaparecido da ditadura) resumiu assim: “La Nación afirma que a eleição de um novo governo é momento propício para acabar com as mentiras dos anos 70. Os donos do centenário jornal, irresponsavelmente, falam em vinganças, comparam o acontecido em nosso país com o terrorismo internacional que assola a Europa atualmente, para justificar de maneira elementar o terrorismo de Estado”.

Este editorial não foi um deslize de “La Nación”, mas um sinal para a reivindicação dos militares e para tratar de alterar o pensamento formado sobre eles nas classes médias.

Voltar aos anos 90 é impossível

Para os jovens que não conhecem tanto a história, os anos 90 na Argentina – como também em escala mundial – foi o triunfo do neoliberalismo. Na Argentina, Menem dolarizou o peso e privatizou até as praias públicas de Mar Del Plata.

Mas não é casualidade que tenha sido um escândalo o editorial de La Nación, que terminou sendo um tiro no pé. Acontece que a consciência das massas argentinas assumiu e assimilou o papel nefasto da ditadura, em grande medida graças às Mães da Praça de Maio, como também assimilou negativamente a etapa do neoliberalismo. A história foi que logo após Menem ganhou um governo do Partido Radical de De La Rua (que tem similaridades com o de Macri que se apóia bastante nos Radicais) e que quando quis apertar mais o ajuste contra o povo, teve que fujir de helicóptero da Casa Rosada, pela grande mobilização popular que foi o “Argentinazo” em 2001.

Foi como conseqüência desta grande mobilização revolucionária que o kirchnerismo tece que tomar as medidas democráticas, julgar os militares genocidas e fazer, graças à situação econômica favorável que se viveu no continente pela alta das exportações, concessões como os abonos familiares por filho e a aposentadoria para todos os maiores de 65 anos, tendo contribuído ou não.

As verdadeiras mudanças na América Latina

O episódio do jornal La Nación mostra o quão difícil será para o novo governo conseguir as condições de aplicar o plano de ajuste que pede toda a burguesia argentina (e que Scioli também teria que fazer), da mesma forma que está fazendo Dilma no Brasil. Contraditoriamente, talvez fosse mais fácil para Scioli fazê-lo, já que contava com o aparato peronista. Para Macri não vai ser fácil e não podemos descartar que termine como De La Rua. O povo já tirou presidentes com sua mobilização e pode voltar a fazê-lo.

O triunfo de Macri na Argentina explica-se por uma série de mudanças que ocorreram na América Latina neste último período. Para enumerá-los sinteticamente:

  1. a) a entrada da crise econômica em nosso continente, após uma década de relativo crescimento graças ao preço elevado das matérias-primas exportadas especialmente à China;
  2. b) estancamento e retrocesso do bolivarianismo (especialmente na Venezuela, pela dilapidação que fez a nomenclatura no poder, particularmente após a morte de Chávez)
  3. c) débâcle do governo do PT que, diferentemente do comentarismo vulgar dos jornais burgueses, teve (e tem) estreita relação com a alta da burguesia brasileira e suas multinacionais, como Odebrecht, e que cumpriu um papel de contenção dos processos bolivarianos. A diferença entre Macri e Cristina, como a de Lula e Aécio é que tinham, pela boa situação econômica e o ascenso do bolivarianismo, uma relação política mais independente do imperialismo.
  4. d) Mas talvez o ponto mais importante (e nossa aposta é que se desenvolva), é que independentemente do recúo do bolivarianismo, e sem nenhuma conexão com o que foi este recuo, há uma grande expressão de descontentamento popular com todos os partidos políticos e regimes marcados por uma corrupção orgânica. Isso vai afetar rapidamente a Macri como a qualquer outro político burguês em qualquer país do Continente, demonstrando as debilidades das novas alternativas da chamada direita.

 E existem lutas. Desde a heróica luta estudantil chilena, passando pelas Jornadas de Junho de 2013 e agora com a ocupação das escolas no Brasil, na resistência à mineração extrativista no Peru e na Argentina, na mobilização que derrubou o governo da Guatemala e os indignados de Honduras, apenas para citar alguns casos.

Elas acontecem em uma realidade na qual o processo de surgimento de alternativas com peso de massas no Brasil e em todo o Continente (como no mundo), frente à crise do capitalismo é frágil. Mas é possível que esta contradição gere o fortalecimento de alternativas já existentes como é o caso do PSOL no Brasil, assim como o surgimento de novos processos, talvez mais intermediários, não puramente anticapitalistas, mas que expressem a necessidade de uma democracia real, radicalmente diferente dos regimes que vivemos e reivindicando uma política econômica mais igualitária.

É verdade então que se abriu no Continente um período de mudanças. Mas o mais provável é que seja bem diferente do que espera a burguesia e seus comentaristas. Haverá lutas, novos processos e disputas nas quais estaremos.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

Leon Trotsky Joseph Stalin