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A juventude francesa está de pé: Nuit Debout contra o grande vazio da política

Publicado na Revista Fakir

Por FRANÇOIS RUFFIN

Tradução: Maíra Tavares Mendes

A França vive uma grande ebulição protagonizada pela juventude. Após a proposta de reforma nas leis trabalhistas por parte do Partido Socialista, uma reforma que aumenta a insegurança nos postos de trabalho, desde 31 de março jovens ocupam a Place de la Republique, em Paris, e outras praças públicas em diversas cidades, como ocorrido com os Indignados na Espanha e o Occupy Wall Street.

Mal compreendido por setores conservadores e desafiando interpretações simplistas da esquerda, os jovens franceses seguem há mais de um mês num movimento de ocupação profundamente democrático e plural. Trazemos entrevista com Emanuel Todd, antropólogo e cientista político que discute o espaço “vazio” à esquerda ocupado pelo movimento “Nuit Debout” (“noite de pé”).


Fakir : É uma coisa pequena, Nuit Debout…

Emmanuel Todd: Não diga isso. Em primeiro lugar, pode ser uma coisa pequena, mas no meio de nada mais. E isto, o fato de que os meios de comunicação estão interessados nesta pequena coisa, também é um sinal de um grande vazio. Os jornalistas, que certamente pertencem a grandes grupos ligados ao dinheiro, que certamente nunca põem em causa nem o euro nem a Europa, nem o livre comércio, mas que são pessoas qualificadas, nem sempre estúpidos, eles sentem esse grande vazio. Eles sabem que dão a palavra para os políticos desprezíveis, inexistentes, bastante ocos. Bem, o que se diz que está acontecendo na Praça da República, e também em outros lugares como o interior, porque você olha para o Oeste da França, Rennes, Nantes, Toulouse, a juventude das cidades universitárias, o que se diz sobre estes lugares, por mais excêntrico que seja, é sempre muito melhor que este grande vazio. E não é por encher páginas, vender jornal…

Fakir: Isto preenche a alma? É o indício de uma crise metafísica?

E.T.: Quase! E então, por mais que seja ainda pequeno, pode ser um prenúncio. Veja o Occupy Wall Street. Alguns meses mais tarde, vendo as pesquisas que apareceram nos Estados Unidos, os jovens estavam se tornando favoráveis ao Estado, ao protecionismo. E hoje, mesmo com Bernie Sanders perdendo de Hillary Clinton, ele se reivindicou “socialista” nos EUA, e seus temas são agora parte da campanha.

Fakir: Então, isso poderia levar a uma inflexão?

E.T.: Esta é sem dúvida uma etapa na maturação dos raciocínios. Por agora, se isso puder levar a um compromisso simples entre os jovens: “Nunca mais vamos votar no Partido Socialista!” Eu me sinto muito melhor, é uma libertação racional, desde que fiz esta promessa para mim. Eu sonharia em enterrar o PS. Isso pode ser o que Hollande irá trazer, há uma abertura para se desvencilhar do Partido Socialista. E agora há uma avenida à esquerda.

Fakir: Então há o encontro de duas juventudes em vista?

E.T.: Com um marxismo simplista, diríamos que sim, é isto que deve ocorrer, os interesses objetivos são os mesmos. Mas o sistema escolar notadamente opera uma estratificação, ele separa de tal modo destinos, escolhas, avaliação, a junção não é óbvia. E vemos que a juventude popular virou-se maciçamente para a Frente Nacional [1]…

Fakir: Isto por conta de hábitos culturais diferentes? Techno contra Manu Chao?

E.T.: Isso eu não sei. Não sei se você percebeu, mas não sou jovem! Esta é também uma coisa muito positiva: trata-se de algo que pertence à juventude. Até que enfim! A sociedade francesa é escravizada pelos velhos e pelos bancos. Não só pela riqueza, mas pelo poder acima de tudo: o sufrágio universal torna-se uma forma de opressão dos jovens pelos mais velhos, que decidem sobre um futuro em que não viverão. Eu milito pelo enterro de minha geração. Assim, a idéia de um território libertado, tanto de velhos como de bancos, não me desagrada. É por esta razão que a expulsão de Finkielkraut parecia ser uma boa notícia [2]. Até agora, eu achava os jovens muito amenos, considerando a dominação por que passam.

Fakir: Mas neste movimento, há uma recusa da organização …

E.T.: Este é o drama dessa juventude: é o nosso, piorado. O maio de 1968 descobriu as alegrias do individualismo, mas eles tinham atrás de si, na sua família, a formação sólida em coletivos: o Partido Comunista, a Igreja, os sindicatos. Nesta época, as gerações nasciam individualistas, hoje eles são os de 1968 ao quadrado, quase ontológicos. Não há nem mesmo a memória destes coletivos fortes. E o desejo de não se organizar é quase elevada a uma religião. Mas é terrível, porque se soubessem, se soubessem como os caras na frente deles, os patrões, o estado, o Partido Socialista, os bancos são organizados. São máquinas. E eu que sou bastante moderado, keynesiano, por um capitalismo manso, lembro-me a lição de Lenin: “Não há revolução sem organização”!

Notas da tradução:

[1] Frente Nacional (Front National) é o partido político ultraconservador liderado por Marine Le Pen.

[2] O jornalista francês Alan Finkielkraut, conhecido por posições políticas conservadoras, foi expulso da ocupação na Place de la Republique.

 

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