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Haitianos ficam indignados com nota da OEA

Por Walmaro Paz, jornalista e militante do PSOL

direto de Porto Príncipe – Haiti

Ao ler a nota da Organização dos Estados Americanos (OEA)junto com os amigos haitianos que me hospedam o agrônomo Ronel Thuelesmond e o educador popular Willians Thuelesmond, mais uma vez senti uma vergonha profunda de ser brasileiro branco. Senti com eles a dor da espada da vingança e da humilhação entrando em seus peitos e arrancando um grito. “Não! Mais essa não!” exclamou Ronel indignado e lembrou que a nota denotava uma decisão que somente o povo haitiano, seu conselho eleitoral, enfim, seus poderes constituídos poderiam tomar.

Mesmo concordando que há uma fraude, os dois foram votar no último dia 25. A esperança é o principal motor desse povo que há 200 anos proclamou sua república e espera sua liberdade, contestada sempre pela comunidade branca internacional. O presidente norte americano Franklin Delano Roosevelt, declarou durante a ocupação do Haiti por seus marines, entre 1915 e 1035, que deveria “dividir estes negros entre ricos e pobres, entre interesses diferenciados, para melhor dominá-los. Pois este povo que nasceu de uma revolução de escravos é um péssimo exemplo para os 25 milhões de negros norte-americanos”.

Quem me mostrou essa citação foi Ronel Thuelesmond, e logo após me contou como os franceses maltratavam os seus antepassados e com que atrocidades. “Agora estou sentindo novamente esta dor”, afirmou ele sentindo sua integridade ferida pela nota assinada pelo ex-chanceler brasileiro Celso Amorim.

Um sentimento comum

O líder camponês Chavannes Jean Baptiste, em uma longa conversa na sexta-feira à tarde, antes da publicação da nota ofensiva já me havia dito que fora procurado pelo segundo colocado Jude Celestin para dar o seu apoio e dos milhões de camponeses das montanhas do Platô Central. “Disse a ele que iria consultar os camponeses mas que só daríamos este apoio baseado em um programa mínimo. Em primeiro lugar lutar pela saída imediata da Minustah, força de ocupação que agride nossa soberania; segundo, a convocação de novas eleições dirigida ´por haitianos com um sistema eletrônico que não permita fraudes; terceiro, a retomada da reforma agrária paralisada neste governo títere; e o compromisso de não entregar as reservas minerais do país”. Segundo ele, este último ponto está em negociações entre o governo de Martelli e empresas multinacionais.

A saída da Minustah é uma reivindicação dos principais partidos de esquerda do Haiti e até do povo nas ruas das principais cidades onde pichações nos muros lembram os males trazidos pelas forças de ocupação, o principal deles é a epidemia de cólera que já matou mais de 9 mil haitianos.
Realmente a nota da OEA dá quatro recados ao povo deste país: o primeiro é para o partido do governo de que haverá segundo turno; o segundo é o de que apoiará a repressão aos protestos nas ruas pela Policia Nacional do Haiti; o terceiro é para os partidos de oposição que “devem usar os meios legais para protestar e não incitar o povo e o quarto é para que o povo participe massivamente do segundo turno respaldando esta eleição que, como a de 2010 deverá ser fraudulenta.

Chavannes revelou em sua entrevista na sexta-feira que uma empresa espanhola especializada em situações de crise e fraudes havia sido contratada por Martelli. “Vimos muitos carros da Minustah e de outras entidades internacionais carregando pessoas que chegavam aos locais de votação no dia 25 e faziam sair os mandatários (fiscais) dos partidos para que pudessem agir trocando as urnas ou boletos de votação”, contou o líder camponês que retirou sua candidatura uma semana antes dos eleições e denunciou a fraude denominada por ele de “golpe eleitoral”.
Mesmo assim, ele entende que se toda “a sociedade se unir contra o governo, todos os candidatos de oposição apoiarem a Jude Celestin no segundo turno e com um programa mínimo democrático poderá haver alguma mudança”.

Na próxima semana Chavannes estará reunido com as lideranças do MPP (Movimento Paysan Papaye) em Inche, onde traçarão a estratégia a ser seguida nos próximos meses. O MPP tem 60 mil filiados e é aliado a outros movimentos camponeses do Haiti formando a Via Campesina. O Haiti ainda é um país rural e 62% de sua população é de camponeses.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

A edição n.6 da Revista Movimento celebra o centenário da Revolução de Outubro com artigo de Kevin Murphy sobre as origens do stalinismo. Luciana Genro discute a continuidade da Operação Lava Jato. Alvaro Bianchi introduz a nossos leitores conceitos de Antonio Gramsci. A revista também apresenta tradução de palestra de Angela Davis. Na seção internacional, publicamos artigo de Perry Anderson sobre a resiliência do centro neoliberal europeu. Edgardo Lander trata da situação venezuelana, Pedro Fuentes e Charles Rosa abordam a questão catalã. Um instigante artigo de Maycon Bezerra sobre Florestan Fernandes, a tese do MES para o Congresso do PSOL e nossa plataforma sindical completam a edição.

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