Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

Publicado originalmente no Sul21

O dia 5 de julho de 2015 entrará para a História, pois o povo grego decidiu nas urnas que não aceitará mais a chantagem dos capitalistas financeiros da União Europeia (UE). Há muito o vulcão grego começou a entrar em erupção, como definiu o companheiro Pedro Fuentes, Secretário de Relações Internacionais do PSOL à época.

O início da resistência nas ruas à aplicação dos programas de austeridade diante da crise econômica do capitalismo aberta em 2007-2008 são as sementes do que estamos acompanhando atualmente. Lembro bem do primeiro levante juvenil, em 2008, que há décadas (desde o fim da ditadura grega) não acontecia no país, com grandes mobilizações contra o assassinato de Alexandros Grigoropoulos, jovem de 15 anos de idade, pela polícia. Milhares de jovens sacudiram o governo de direita da Nova Democracia. Foram dezenas de greves gerais até a força de resistência nas ruas se converter em possibilidade de governo.

Não nos esqueçamos da potente greve de 2010, uma greve política contra a austeridade/ajustes, no mesmo ano em que o Syriza, coalização da esquerda que venceu as últimas eleições, conseguiu apenas 4,6% dos votos. Nesse tempo, o modelo bipartidário de revezamento de governos entre o socialdemocrata Pasok e o Nova Democracia, de direita, era a regra – em uma analogia ao que acontece no Brasil com o PT e o PSDB. Trocava-se o seis por meia dúzia e em cinco anos foi ininterrupta a aplicação das chamadas políticas de austeridade e de ajuste.

Em 2010, medidas brutais foram impostas ao povo com o chamado Programa de Resgate. Na verdade, era um resgate para financiar os bancos franceses e alemães, que detêm a ampla maioria dos títulos da dívida grega. Naquele momento, a dívida ultrapassava 100% do PIB do país, o desemprego entre os jovens era de 50% e o montante a ser pago estava perto dos 200 bilhões de euros. Para dar outros empréstimos aos gregos, condições draconianas foram impostas: privatizações, aumento da idade para aposentadoria, redução de até 30% dos salários nominais do povo e aumento de impostos da gasolina.

O Plano de Resgate, de fato, funcionou apenas para quem foi feito: os banqueiros. Hoje, a dívida grega compromete 177% do PIB e já está acima de 271 bilhões de euros. Em recente Auditoria Cidadã da Dívida da Grécia, Maria Lúcia Fatorelli demonstrou que o dito Plano de Resgate foi a imposição de mais prejuízos à Grécia para dar liquidez aos bancos. Na verdade, o país não recebeu nenhum dinheiro, e sim papéis podres! Esses papéis, no contexto da crise do capitalismo, não tinham possibilidade de ser negociados facilmente, deixando a Grécia com uma dívida maior ainda sem receber nada líquido em troca.

Ainda dentro desse plano, o FMI impôs a criação de uma sociedade anônima privada chamada “Facilidade para a Estabilidade Financeira Europeia – ESFS” com sede em Luxemburgo, para servir como veículo para a realização dessas transações. Os gestores são os Estados Membros da Zona do Euro, muito embora apenas uma instituição financeira alemã tenha controlado o ESFS até então. Mas mais grave ainda é que este mecanismo serviu para que os jogadores do capitalismo internacional passassem para a Grécia os excessivos ativos tóxicos que colocavam em perigo a solvência dos bancos acostumados a especular em fundos de alto risco, como os conhecidos fundos hedge e outros instrumentos financeiros.

Não se surpreendam com as conclusões da Auditoria Cidadã: a EFSF é agora o principal credor da dívida. Segundo Fatorelli, “um escândalo de grandes proporções teria ocorrido em 2010, se esses esquemas ilegais tivessem sido revelados: a violação do tratado da UE, as alterações arbitrárias de regras processuais por parte do BCE (Banco Central Europeu), Eurostat e FMI, bem como a associação dos Estados-Membros à companhia privada de propósito especial de Luxemburgo. Tudo isso apenas para resgatar bancos às custas de um risco sistêmica para toda a Europa, devido comprometimento dos Estados-Membros com garantias bilionárias que cobririam ativos tóxicosproblemáticos não comercializáveis e desmaterializados”2.

Ou seja, essa sociedade anônima embutida no programa de resgate funcionava como uma espécie de reciclagem, onde o país não recebia os recursos diretos e sim títulos podres e sem lastro material dos bancos credores. Tudo isso mascarado em operações de crédito como se fossem empréstimos. E ainda por cima, a Grécia ficava responsável pelo pagamento de juros e amortização como se tivesse recebido bilhões de euros!!! Não é por menos que desde 2010 a economia do país encolheu 30%, as pensões dos aposentados diminuíram em 50% e a taxa de desemprego entre os jovens chega a 60%. A Grécia foi a grande lesada dessa história.

Contra tudo isso, OXI (não) significa que a democracia venceu os interesses imediatos do capitalismo financeiro e empoderou um povo tão massacrado pelos governos anteriores. O futuro da Grécia e de outros países da União Europeia começou a ser mudado. O caminho não é fácil. Como disse Tsipras, “grandes mudanças exigem grandes sacrifícios”. A vitória estrondosa do OXI (não) fortalece a posição de enfrentamento aos parasitas do sistema financeiro. Que o governo tenha a sabedoria de aproveitar essa janela de oportunidade para modificar drasticamente as condições de vida do povo e, mais que isso, radicalizar a democracia, na qual a consciência e a ação andem juntas por um outro futuro em que a vida valha mais que o lucro.

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[1] Este termo tornou-se familiar com a crise financeira, aplicando-se não só à titularização dos créditos hipotecários, que permitiu aos bancos vender os empréstimos concedidos por si como títulos transacionáveis (como os MBS – mortgage backed securities), mas também aos produtos financeiros que a partir deles foram criados. É o caso dos CDS (credit default swaps), que são contratos de seguro do valor de um crédito em que o vendedor se compromete a indemnizar o comprador de todo o valor da dívida que não venha a ser paga. Embora estes ativos se apresentassem como muito arriscados, os ganhos que proporcionavam tornavam-nos irresistíveis, quer para as sociedades financeiras, quer para os gestores, que recebiam comissões em função dos seus desempenhos de curto prazo. Quando o setor imobiliário colapsou, tornou-se claro que estes ativos estavam sobrevalorizados. Mas os bancos e outras instituições financeiras resistiram à sua venda numa vã tentativa de evitar fortes desvalorizações. O sistema financeiro ficou assim entulhado de ativos que nada valiam. (…)

http://www.ces.uc.pt/observatorios/crisalt/index.php?id=6522&id_lingua=1&pag=7661

[2] http://www.auditoriacidada.org.br/tragedia-grega-esconde-segredo-de-bancos-privados-2/

 

 

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento. Como forma de contribuir para os debates que ocorrerão na VI Conferência Nacional de nossa corrente, o Movimento Esquerda Socialista, este volume reúne dois números da revista (7 e 8). Dessa forma, pretendemos oferecer à militância e a nossos aliados e leitores documentos que constam do temário oficial do evento, bem como materiais que possam subsidiar as discussões que se realizarão. Na expectativa de uma VI Conferência de debates proveitosos para nossa corrente, desejamos a todas e todos uma boa leitura deste volume!

Solzinho