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EUA EM MOVIMENTO: O fenômeno Sanders

1.- O que parecia ser um outsider minoritário da política eleitoral dos EUA, Bernie Sanders, se converteu em um fator real e objetivo das eleições primárias, como o único candidato democrata com possibilidades reais ante Hillary Clinton. Faz alguns meses escrevemos um artigo junto com Tiago Madeira no qual não negávamos esta possibilidade já que considerávamos que o país estava em movimento provocado pelas crescentes desigualdades, a pobreza, as lutas e a polarização social. Mas isso se transformou numa realidade. Aqueles que opinam que o povo americano são todos uns idiotas que estão por trás da política do imperialismo e que o regime segue sendo um corpo com duas cabeças (democratas e republicanos iguais), estão indo contra a realidade. Sobretudo aqueles os que defendem um imperialismo supra fortalecido para sustentar a ideia campista que a China e a Rússia são progressivos.

2.- A verdade é que esse movimento que ocorre nos EUA é o sintoma de que todo o mundo está se movendo, que num sentido a diferença entre norte e sul (no sentido da luta de classes) está desaparecendo, na medida que a pobreza e desigualdade aumentam em todo o mundo, como consequência da crise e da grande concentração capitalista em poucas mãos que em termos, mais populares é conhecida com o 1% contra os 99%. Não podemos separar o fenômeno Sanders, do que se passa na Espanha com Podemos, ou em Portugal com o Bloco de Esquerda ou na Inglaterra, -o segundo grande país onde se alojam os proprietários das grandes corporações depois dos EUA-, com Jeremy Corbyn, que tem características bastante similares a Bernie Sanders.
Faz um tempo que viemos sustentando que no mundo, como resultado da grande crise que alcança os partidos dos regimes, que existe uma grande desigualdade entre esta situação e a decepção as mobilizações e os protestos que a mesma acarreta e a ausência de uma alternativa anticapitalista e socialista frente a esta situação. Daí o surgimento dos fenômenos intermediários que mencionamos como o foi Syriza e os outros que mencionamos que se dão no plano político. Bernie Sanders expressa isso nos EUA.

3.- E este processo tem uma enorme importância mundial e em particular para a América Latina, justo nestes momentos que as alternativas nacionalistas radicais estão em retrocesso, porque em certa medida, o que sucede nos EUA tem uma relação direta. E o dono dos maiores investimentos, aplica suas políticas extrativistas, etc. etc., em tanto que a pobreza promove também um fluxo imparável de imigrantes até o país do Norte. Por isso também existe a polarização e Donald Trump.

4- Os dados concretos indicam que nos dois primeiros estados em disputa nas primárias, Iowa e New Hampshire, Sanders está empatado com Hillary no primeiro e ganharia no segundo. É possível que isso se estenda a outros estados onde o establishment democrata é mais forte? Não o sabemos. O que já existe objetivamente é uma polarização social e política nas eleições que destruí essa ideia de um só regime e um só corpo com duas cabeças, que existia nos EUA quase sempre, salvo momentos muito especiais. Por ora, é concreto que exista uma profunda mudança. Trump de um lado, Sanders do outro. E há uma pesquisa que diz que se for Trump o candidato dos republicanos, ou seja a extrema-direita xenófoba, quem melhor ganharia do lado dos democratas seria Sanders.
Sanders é o candidato que numericamente mais arrecadou utilizando os novos meios de comunicação social ainda que não sejam quantitativamente enormes. Este é o fato mais simbólico da campanha: a negativa em receber dinheiro das grandes empresas e cartéis.

5.- O que está defendendo Sanders em seus discursos e agora também em seus debates.
– O salário mínimo. A liberdade de sindicalização para os trabalhadores.
– A extensão do Medicare a todo o sistema de saúde.
– Os direitos das minorias.
– O enfrentamento a Wall Street e ao capital financeiro.
– A aplicação da lei dos monopólios contra as corporações e os bancos.
– Taxação das grandes fortunas.
– A revolução política. Ou seja a mobilização e organização dos trabalhadores e o povo para alcançar esses objetivos. Já que Sanders sabe bem que se governasse teria todo o parlamento contra ele.

6.-O “Yes We Can” (sí nosotros podemos) do candidato negro Obama que derrotou Hillary nas primárias há 9 anos já em alguma medida expressava a necessidade de mudança e gerou imensas expectativas. Num sentido, Sanders aparece como a continuação desse processo mas com diferenças qualitativas. Sanders tem programa. Sanders é socialista (ainda que se diga socialista democrata, isso é dizer muito nos EUA). Por isso é um processo mais profundo que atrai a juventude e a muitos setores.

7- Não é uma causalidade que isso ocorra agora no país do norte. Tem que ver com os elementos que assinaláramos acima, mas também que o povo não está sofrendo a angústia da crise no nível que se vive agora no Brasil ou em muitos outros países. Sem negar que a crise e motor das revoluções, sucede que quando há certa melhora na economia (e ainda que seja muito parcial nos EUA ela existe), o povo se sente com mais força e energia para reivindicar direitos, enfrentar os patrões, tem mais tempo para pensar em porque não melhorar suas necessidades sociais. (Assim também ocorreu no Brasil em 2013 ou mesmo na Turquia, meses depois – quando os emergentes estavam em ascenso).

8- Falemos do futuro, das perspectivas que se abrem. Como foi o caso do Podemos na Espanha ou do Bloco em Portugal, é muito difícil para não dizer impossível que pela via eleitoral o programa de Sanders se imponha. Muito dificilmente, ainda que esteja perto de Hillary em Iowa e ganhe em New Hampshire, possa ser o candidato dos democratas. O regime tem debilidades, crises, mas conserva poder para impedir que uma coisa como essa ocorra. O que sim está colocado é o que fazer no dia depois de terminadas as primárias. Um setor da esquerda – que considerava Sanders mais um “porco burguês” ou similar a outras alternativas de esquerda que tiveram os democratas, infelizmente vai raciocinar dizendo, “viram?, tínhamos razão, venham a nossas organizações”. Essa forma de raciocinar é jogar o bebê com a água suja. Nos interessa polemizar com estes setores que de essa maneira ficam por fora dos processos progressivos.
Mas o importante é ver que se faz para que este processo continue. Ver se toma formas organizativas novas, como ocorreu na Espanha, ou se dilui. Ou seja, se a indignação que já deu um passo ao ter um programa, se organiza, ainda que esse não seja nosso programa e essa organização não seja a da revolução socialista, seria um passo de gigantes que se dá no país hegemônico do imperialismo.

Pedro Fuentes

Movimento - Crítica, teoria e ação

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Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

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