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Esta é a hora – diz Stathis Kouvelakis, dirigente do Syriza

Fonte: Revista Jacobin, tradução para o português: Gabriel Zatt

A decisão do governo Syriza de transferir todos os recursos disponíveis no setor público para o Banco da Grécia marca uma virada política. Esta movimentação de alto risco expõe da forma mais clara possível a natureza da situação, e como ela tem se desenvolvido nestes dois meses e meio desde o acordo de 20 de fevereiro.

O argumento colocado em favor do acordo foi que ele “comprou tempo”, ainda que por um custo doloroso, para preparar o terreno para as negociações do verão.

A reivindicação foi de que por um período de quatro meses o banco central europeu iria parar com a tortura que foi imposta à economia do país desde 5 de fevereiro, quando  decidiu exterminar com o mais importante mecanismo de financiamento do país: os bancos gregos. O que agora é amplamente conhecido, é que o governo foi arrastado para assinar este acordo desigual sob a pressão de um escoamento acelerado dos depósitos bancários e ameaça de colapso o sistema bancário.

Agora com os cofres públicos esvaziados para prevenir cortes no serviço da dívida e das obrigações fundamentais do estado, fica evidente que o único tempo que foi comprado é um tempo que serve às grandes instituições europeias e que expõem o lado grego a uma intensa chantagem enquanto suas posições se deterioram.

O clima beligerante sem precedentes no encontro do Eurogrupo em Riga, com o ministro das finanças grego Yanis Varoufakis sendo ridicularizado pelos seus pares (até mesmo os de países de peso como Eslováquia e Eslovênia) mostra claramente quanta humilhação o governo teve que engolir nos últimos dois meses.

Por trás dos erros

Em uma declaração digna de nota em 23 de abril, to ministro responsável pelas relações econômicas internacionais que agora substituiu Varoufakis como cabeça do time de negociação grego, Euclid Tsakalotos, fez uma afirmação característica: “Quando assinamos o acordo em 20 de fevereiro, nós cometemos o erro de não deixar claro que este acordo seria um sinal para o Banco Central Europeu começar a contar as horas para a liquidez”.

Mas este “erro” não tem nada de secundário, pois é o ponto central do acordo. Existe uma explicação para isso, e esta razão é política,  não de caráter técnico.

O lado grego não se deu conta do que era óbvio desde o início, que o Banco Central Europeu não ficaria de braços cruzados quando enfrentado por um governo de esquerda radical. A maior arma em seu arsenal é a liquidez e era completamente lógico e previsível que eles recorreriam a isso imediatamente. E, naturalmente, os credores tem todas as razões para continuar “apertando a rosca” (como o próprio primeiro ministro Alexis Tsipras colocou) até que tenham forçado o lado grego a uma capitulação total.

Vendo por outro lado, se com o acordo de 20 de fevereiro os credores tivessem concordado em “garantir liquidez”, se eles tivessem desvinculado sua provisão dos planos de austeridade que eles buscam impor, eles simplesmente teriam se privado do melhor meio para exercer pressão que eles tem a sua disposição. Isso Tsakalotos acreditava que fariam, com traços de extrema ingenuidade política, para não dizer cegueira total, particularmente quando uma grande parte de seu próprio partido estava alertando desde o começo da inevitabilidade deste desenvolvimento.

Então o “erro” resulta de uma hipótese de trabalho fundamentalmente errada, na qual toda a estratégia do governo está baseada desde o começo: de que “nós iremos finalmente chegar a um acordo com os credores” permitindo o Syriza implementar seu programa enquanto permanece na zona do euro. Está é a logica decadente do “europeísmo de esquerda”.

O que vem depois?

Ainda que se tenha falado muito, não podemos encontrar uma forma melhor de descrever a atual situação do país do que dizer que está sendo enforcado por uma ameaça.

Com o método e conteúdo da legislação de transferência de fundos, o governo se encontra numa situação muito difícil não apenas financeiramente, mas politicamente. As atuais condições podem bem ter sido criadas na Grécia em função dos panelaços, demonstrações do modelo favorecido pelos reacionários e pelas oposições patrocinadas por estrangeiros para derrubar governos de orientação de esquerda na América Latina.

A única rota de fuga do confinamento ameaçador da cela do Memorando, e do descarrilhamento do projeto do governo, reside no chamado à mobilização popular, recuperando a combatividade e o clima de esperança que prevalecia antes do acordo de 20 de fevereiro.

Ainda não é tarde. Agora é precisamente a hora para falar francamente, só assim se pode impactar e mobilizar o povo, precisamente por que assim lhes damos o devido respeito, como adultos e agentes de seu próprio destino.

O que está em jogo na Grécia é a possibilidade de uma transformação radical e a abertura de um caminho para uma reviravolta política e emancipação do seu povo, sua classe trabalhadora, mas também o futuro dos trabalhadores através da Europa.

O medo da Grexit (neologismo criado por Vroufakis para a saída da zona do euro, Grecia+exit) logo, logo irá nos aleijar. Chegou a hora de deixar claro, para começar, que qualquer fundo que é canalizado sob a nova legislação, para os cofres públicos, é destinado para cobrir as necessidades públicas e sociais e não para pagar credores.

Chegou a hora de por fim no falatório soporífico sobre “negociações indo bem” e “acordo a caminho”.

Chegou a hora de por fim imediatamente nas referências surrealistas às “soluções de benefício mútuo” e aos “sócios” com os quais nos supostamente somos a “junta de proprietários da união europeia”

Chegou a hora para revelar à Grécia e para a opinião pública internacional os dados que irão expor a guerra implacável que começa a ser travada contra este governo.

E chegou a hora, acima de tudo, de se preparar finalmente, politicamente, tecnicamente e culturalmente, para a única solução honrosa, bater em retirada da estrada apontada pela cartilha neoliberal.

Chegou a hora de tornar concreto o conteúdo, e explicar a viabilidade, da proposta alternativa, começando pela iniciativa dupla de suspensão do pagamento aos credores e a nacionalização dos bancos e progredir, se necessário, para a escolha de uma moeda nacional, aprovada pelo público através de um referendo popular.

Chegou a hora para uma séria reflexão mas também decisiva. Esta é a hora que desastre e redenção ficam próximos.

Esta é a hora do contra-ataque.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

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