Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

Por: Alfons Bech 

Os resultados das eleições gerais no Reino da Espanha deixam um panorama muito complicado para o regime de 78. Num certo sentido político se esgotou um sistema bipartidarista e, portanto, o motor do próprio regime. Os dois partidos nos quais se sustentava, PP e PSOE, sofreram a maior perda de sua história. O regime ficou afetado, suas duas patas estão com graves fissuras e não encontram reposição.

Os dados são claros: a esquerda foi remontada. A soma de votos de partidos à esquerda do PSOE ultrapassa a este em mais de meio milhão de sufrágios. A soma de formações de esquerda (inclusive o PSOE) fica à frente da direita. E, dentro desse panorama, aparece no horizonte de maneira ainda mais clara, o que já faz alguns meses, a possível ruptura da Catalunha. O velho regime, a monarquia cujo rei foi escolhido a dedo por Franco  e depois pactuado numa “transição” realizada com o ruído de sabres ao fundo, está irremediavelmente ferido.

OS PARTIDOS

O Partido Popular ganhou as eleições. Mas, como em Portugal, é uma vitória com sabor de derrota. Seu decréscimo de 186 para 126 cadeiras é brutal. Na realidade, o PP ficou comprometido e até mesmo bloqueado. Suas promessas eleitorais sobre a melhora económica… “se houver estabilidade política”, agora se demonstram o que valem: nada. Merkel e toda a Europa neoliberal assistem pasmas a tamanha derrota política depois de haver dado todo o apoio a um governo corrupto e que matratou a quase todos os setores da população e, em particular, a Catalunha.

O PSOE, por mais que tenha se esforçado por seguir montado no carro do bipartidarismo, é o primeiro que sofreu o empuxe das camadas trabalhadores e populares e, em lugar de aproveitar o desgaste do PP, quase entrou pelo cano. Perde a Catalunha e só mantém a fidelidade em parte da Andaluzia e de Extremadura, pasando de 110 para 90 deputados/as. Seu flamante e agressivo secretario-geral demonstrou que não tinha nada a oferecer de novo, que seu partido está preso nas mesmas políticas do PP, do mesmo fidalguismo espanholista e até dos mesmos personagens corruptos e incapazes do passado, como González e Zapatero. Que mudança podía vender?

A renovação da direita espanhola, impulsionada pela banca e alguns meios de comunicação, para ter um substituto ao desgastado PP, não funcionou. A direita “moderna”, ou melhor descolada, de Ciudadanos, não pode se sustentar ao longo da campanha eleitoral. Como bola esvaziada, perdeu fôlego no decorrer da campanha mostrando-se como a ala mais neoliberal e anticatalã possível, o que causou a perda de muito voto de trabalhadores confusos que usaram essa candidatura para castigas as esquerdas e as direitas em outras ocasiões. De um possível segundo lugar nas pesquisas e debates, passou para a quarta colocação, muito atrás dos demais postulantes, com 40 cadeiras.

Porém o mais surpreendente destas eleições foi a remontada do “fator Podemos” em quase todo o territorio do atual Estado espanhol. Uma coalizão de coalizões à esquerda dos socialistas, as quais foram praticamente descartadas pelos meios e pelas pesquisas, mas que no final não pode ter seu crescimento ocultado. Até Merkel torceu o nariz quando Rajoy lhe informava uma semana antes do 20D de que Podemos “poderia chegar a ser a segunda força”!

Na realidade quando se fala de Podemos é preciso entender que se trata de uma vasta coalizão entre a esquerda espanhola e outras esquerdas nacionais: a catalã, a basca, a galega. É tão assim que na Galícia nem sequer figura o nome do Podemos. E na Catalunha, onde se realizou o pacto sob a pressão do mal resultado anterior das autonômicas de 27 de setembro, onde a coalizão Catalunya Sí Que Es Pot teve poucos deputados, houve um compromisso mútuo entre a prefeita e alma mater do Em Comú Podem, Ada Colau, faria campanha pelo território espanhol, e por outro lado Pablo Iglesias defenderia na Espanha o “direito a decidir” da Catalunha e a realização de um referendo vinculante em seu programa. Essa combinação, essa confluência, sobretudo com Ada Colau, é a que criou uma sinergia de remontADA com 69 assentos.

É necessário assinalar também o mal resultado de Izquierda Unida- Unidad Popular. Com mais de meio milhão de votos só obteve dois deputados. É um resultado triste, injusto. Porém, é um resultado do tipo de políticas sectárias que as esquerdas devem superar rapidamente. Não colocar as confluências, o que une, os pontos comuns e, sobretudo, a vontade de servir como instrumento de mudança acima dos personagens, penaliza. Na Catalunha e na Galícia as formações de EUiA catalã e IU galega somaram nas confluencias, obtendo os melhores resultados. No resto dos territórios, o resultado é que IU perdeu. Mas Podemos também. Juntos teriam sido provavelmente o segundo partido mais votado, acima do PSOE.

CATALUNHA COMO PANO DE FUNDO

Catalunha esteve muito presente nesta campanha. Na realidade, se esta foi considerada unanimemente como “a campanha mais importante desde a transição” se debe também à situação de empuxe para a independencia na Catalunha. O PP sofreu um desgaste ao não saber responder “o desafio catalão”. Inversamente, sua política de negar todo o direito do povo catalão de se expresar e de perseguir a autonomía com o Tribunal Constitucional e com o estrangulamento económico, exacerbou o independentismo convertendo-o na prática em majoritário.

Essa política repressiva teve na realidade uma “frente nacional española” da qual fizeram parte o PP-PSOE-Ciudadanos. A única diferença é que o PSOE ainda trata de aparecer diferente propondo uma “reforma constitucional”. Mas, mesmo sim, sobre a base de que a Catalunha não pode decidir por si mesma. Os mais duros contra ese direito foi precisamente o mais derrotado: Ciudadanos; nem seque rem seu feudo original, Catalunha, conseguiu se manter. Poderá o cimento nacional-espanhol contra o nacional-catalão ser suficiente para permitir outro governo do PP no reino da Espanha? Seguramente não.

Na frente interna, na Catalunha, a situação também está estancada depois do 27S. As eleições autonómicas deram maioria absoluta aos deputados independentistas. Mas só deram 48% dos votos. E o empenho da burguesía catalã de impor seu candidato, Artur Mas, o mesmo que ficou à frente da aplicação dos cortes salariais, sociais, privatizações e do partido que mais corruptos há na Catalunha, bloqueia cada passo adiante que dá o povo nas enormes mobilizações do 11 de setembro ou nas eleições.

A situação na Catalunha agora é tão instável ou mais que no resto da Espanha. Mas aquí como ali, uma coisa está clara: a cada eleição, a burguesía perde terreno, a camino da derrota. Nas eleições do 20D En Comú Podem foi a primeira força. Pela primeira vez numas eleições gerais uma confluencia de esquerdas, à esquerda dos socialistas, substituem estes. A segunda força foi Esquerra Republicana de Catalunya – ERC- uma força de centro-esquerda, que também ultrapassa pela primeira vez os socialistas e a burguesía catalã. E o partido “refundado” de Artur Mas, diminui de 16 para 8 deputados e para a quarta posição. Essa é a situação no territorio mais maduro para uma ruptura com o regime.

ALGUMAS CONCLUSÕES PROVISÓRIAS

Como conclusão podemos dizer que as eleições de 20 de dezembro podem ser o início do fim do regime surgido depois de Franco. O reino da Espanha entra numa época de turbulencia políticas no qual as esquerdas emergentes desempenham um papel cada vez mais decisivo ao se afogar o bipartidarismo.

Entretanto, o trânsito até um afundamento do regime, se recordamos a história, nunca foi algo feliz e pactuado, mas uma dura uta entre as classes sociais onde muito interfere a classe trabalhadora. As direitas espanholas nunca abandonaram a cena pacificamente. Das esquerdas e territórios o que está mais avançado para uma ruptura é a Catalunha. Falta que as esquerdas espanholas entendam a importância de apoiar esse passo adiante onde ele já é possível. De forma natural, a constituição de uma República Catalã abriria espaço para as Repúblicas na Espanha, Euskalerria, Galiza, e até uma posterior forma de federação, porém desta vez de igual para igual. A exigência de Podemos de um acordo para a celebração de um referendo na Catalunha para investir o presidente de governo do Estado espanhol, é um bom sinal de que se pode andar e confluir nesse caminho.

O movimento operário e sindical tem que aproveitar esse período de desgoverno para incidir num giro, uma ruptura nas políticas econômicas neoliberais. Somente assim será possível recuperar tudo o que se perdeu nos últimos anos. Do contrário o batalhão de pobres e precários tornará insuportável toda a vida e acabará de pulverizar todas as conquistas trabalhadoras… e até os próprios sindicatos. É preciso aproveitar a ocasião, tanto ou mais como se aproveitou a debilidade do regime sob os primeiros anos de Suarez.

As mudanças e giros que estão dando países como a Grécia e Portugal são um indicativo de que talvez uma nova etapa se aproxima na Europa. A crise que provocam as políticas econômicas suicidas da austeridade, junto com a cada vez maior restrição das liberdades – aproveitando os atentados e o drama dos refugiados – são o atual marco geral que requer urgentemente mudanças na sua base. Uma nova crise económica poderia ser o fator que precipitará a instabilidade para um giro radical. Por algum elo deverá começar a se romper a cadeia.

 

Alfons Bech

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

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