Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

Entrevista: “Socialny ruj” contra a “versão ucraniana do putinismo”

Quais grupos e ativistas fazem parte do partido “Socialny ruj”?

Andry Ischenko (militante sindical, Odessa):
Andry Ischenko

Andry Ischenko

No congresso de formação do partido estavam presentes os delegados de cinco grandes cidades do país, Kiev, Odessa, Dniepropetrovsk, Cherkassy e Krivoy Rog. Era um congresso técnico, mais para cumprir as formalidades do ministério da justiça e iniciar o registro do partido. Na realidade temos militantes e grupos simpatizantes quase em todas as grandes cidades do país. Depois do congresso, já existe maior interesse no partido e agora cada vez mais se intensifica o interesse por ele e cada dia mais gente se incorpora a nós.

O partido é formado por pessoas com diferentes pontos de vista, de social-democratas moderados a marxistas radicais. Entre eles há militantes dos grupos de esquerda, defensores de direitos humanos, militantes sindicais, mineiros, cientistas, jornalistas e muitos mais. Nos alegra que na base do partido estejam importantes sindicatos que há muito tempo vêm popularizando a ideia de representação política. Uniu-se ao processo de consolidação nosso combativo sindicato independente “Zajist pratsi” (Defesa do trabalho), toda uma plêiade dos combatentes sindicais de relevo de Krivoy Rog, Kien e outras regiões da Ucrânia.

Basta mencionar alguns nomes do núcleo do partido para entender a variedade de pessoas que integram a sua base e que sorte de diferenças conseguimos solucionar no difícil caminho de consolidação da esquerda ucraniana: Volodymyr Chemerys, Zahar Popovich, Volodimir Ischenko, Vitali Dudin, Andriy Repa, Nina Potarskaya, Denis Pilash, Oleg Vernik, Artiom Tydva, Evgeni Derkach, Oleksandr Krauchuk, Andriy Voliansky, Taras Salamaniuk, Andry Ischenko e muitos mais companheiros de relevo. Olhamos para o futuro com um otimismo reservado. Trabalharemos com empenho – haverá resultados. As ideias, esforços e energia de tantas pessoas não podem desaparecer em vão.

Existem na atual Ucrânia grupos sociais aos quais podem se apoiar a “nova esquerda”?

Andriy Repa (militante de esquerda, Cehrkassy):
Andriy Repa

Andriy Repa

A nova esquerda não pode tranquilamente se apoiar em um outro grupo social, seria muito confortável, mas sem perspectivas. Nós temos que preencher as lacunas, brechas, vazios, rachaduras, todo tipo de pontos conflitivos que aparecem dentro do sistema capitalista. Este é o lugar onde tem que estar presente a esquerda na sociedade: dentro do conflito social.

“Mas o principal meio de luta não mudou desde a época de Marx. É a luta classista entre o trabalho e o capital.”

Do interior deste conflito temos que criar as alianças. Pode ser a luta de trabalhadores cotidiana, greve estudantil, manifestação civil, exposição de arte, tudo o que pode ser explorado pelo sistema de lucro e supressão. Mas o principal meio de luta não mudou desde a época de Marx. É a luta classista entre o trabalho e o capital. No foco deste antagonismo central de nossa sociedade encontram-se não obrigatoriamente os mais numerosos ou os mais “decadentes” grupos, ali estão os operários revolucionários e os estudantes progressistas. Em poucas palavras, pode-se dizer tal como foi o maior de 1968: necessitamos uma aliança da classe operária com intelectuais.

Oleksandr Ladynenko (militante sindical, Odessa):

Oleksandr LadynenkoNa atual Ucrânia, é difícil encontrar um grupo social que não esteja interessado em um partido amplo de esquerda. E a gama destes grupos é muito ampla: desde os desempregados e aposentados até os estratos inferiores da pequena burguesia. Nossa grande base são as milhares de pessoas com trabalho assalariado.

É preciso compreender que o principal inimigo da esquerda política e de nossa base social é o grande capital dos oligarcas, companhias estrangeiras transnacionais, os corruptos de todo tipo e outros parasitas. Nosso partido no momento oferece um programa moderado de reformas cuja necessidade é reconhecida em todos os níveis da sociedade. E tudo depende de que se poderemos convencer a sociedade civil da necessidade da luta direta por estas reformas. Depois da luta, contando com a confiança das massas, poderá se falar sobre um programa novo com as verdadeiras transformações da sociedade. A tarefa do flanco revolucionário do partido será a elaboração deste programa já que outra situação revolucionária em nosso país pode surgir bastante rapidamente.

Como vocês veem a interação do partido com os sindicatos? Quem mais necessita do outro: os sindicatos ao partido ou ao contrário?

Evgeni Derkazh

Evgeni Derkazh (militante sindical, Dniepropetrovsk):

Os sindicatos necessitam mais do partido, já que o partido não será um sujeito autossuficiente sem o apoio nos reais coletivos operários e seus sindicatos. Sem os sindicatos, o partido ficará suspenso no ar e no transcurso do tempo se converterá em um outro projeto de autopromoção. O partido é uma ferramenta coletiva e os membros dos sindicatos sabem pensar e atuar de modo coletivo, à diferença dos mais corretos teóricos individuais.

O que permite a vocês chamar o novo partido de “esquerda ampla”?

Evgeni Derkazh:

O partido de esquerda ampla é a organização onde está presente a ampla gama de diferentes correntes de esquerda, tais como trotskista, anarquista, comunista de esquerda, social-democrata e etc. A esquerda ampla é quando o partido de novo tipo utiliza em sua atividade toda a gama dos métodos de luta e suas diferentes combinações. A alternância destes métodos, sua utilização em separado e em diferentes combinações de avanço e defesa nos permitirão dizer que o partido da esquerda ampla foi criado.

A constituição do partido foi acompanhada de grandes discussões. Certamente foi discutido o tema principal, o da guerra, o das repúblicas autoproclamadas, opiniões sobre Maidan, sobre o novo regime político na Ucrânia, métodos de superação da crise atual. Qual é, em breves palavras, a posição do partido nestes temas?

Vital Dudin (militante social, Kiev):

As opiniões sobre Maidan e a guerra no leste do país se diferenciam muito, por isso me limito a expressar alguns critérios que eu, como militante de esquerda, havia mencionado durante os protestos em Maidan e durante o desenvolvimento dos acontecimentos posteriores.
Vital Dudin

A princípio Maidan levantava reivindicações democráticas apoiadas por toda a esquerda. Ao mesmo tempo apontávamos que sem reivindicações sociais, Maidan não poderia vencer. “A causa da maioria dos problemas, segundo a nossa opinião, é o sistema oligarca que se formou graças ao desenvolvimento descontrolado do capitalismo e da corrupção;- dizia o preâmbulo do panfleto da “Oposição de esquerda” intitulado “10 pontos” em dezembro de 2013, – Nós consideramos danoso apelar às bandeiras gerais sobre a eurointegração; faz falta indicar claramente as mudanças que se necessitam para o bem do povo e sobretudo dos trabalhadores assalariados”. Maidan venceu taticamente, alcançando no fim a destituição de Yanukovich e realizando a mudança para a república presidencialista-parlamentar. Ao mesmo tempo, as tarefas de melhorar a vida da sociedade não foram alcançadas já que não foram defendidas. O principal resultado é que Maidan despertou na sociedade o desejo de influir sobre os processos sociais.

A guerra começou devido à intervenção da Rússia, mas suas causas estão no terreno ucraniano. Os assim chamados “milicianos” são agentes do imperialismo russo, e o pior é que entre eles há também cidadãos ucranianos. As “repúblicas populares” seguindo o método da obtenção e realização do poder, são verdadeiras “juntas”. As LNR e DNR são formações artificiais mantidas por Moscou e repetem os piores traços autoritários da Rússia. Assim, em condições ilegais, há tentativas de aprovar resoluções que limitam os direitos e as liberdades.

Ao mesmo tempo os habitantes do Oriente e do Ocidente da Ucrânia perceberam negativamente a perspectiva de reorganização do país de acordo com as ideias dos nacionalistas ucranianos (e a televisão russa havia hiperbolizado a influência da direita ucraniana sobre o poder depois de Maidan). O empobrecimento total em decorrência também da administração de Victor Yanukovich havia contribuído muito para as expectativas de que a aproximação com a Rússia podia melhorar a situação das pessoas.

Agora nossa sociedade está separada, por isso a guerra continuará a favor da classe governante tanto ucraniana como russa. Mas o imperialismo de Moscou não poderá fazer nada depois da liberação social da Ucrânia

A guerra precisa ser parada depois das negociações, o Donbass temos que levantar juntos. O Oriente precisa ser reintegrado depois de reformas sociais radicais, a retirada do poder dos oligarcas, cancelamento da dívida externa, entrega da economia sob o controle da sociedade. Agora nossa sociedade está separada, por isso a guerra continuará a favor da classe governante tanto ucraniana como russa. Mas o imperialismo de Moscou não poderá fazer nada depois da liberação social da Ucrânia.

Andry Ischenko:

Sim, no comitê constitutivo e dentro do partido constantemente há debates sobre isso e outros temas importantes. São questões muito complicadas e delicadas. Há vários apontamentos e nos debates tentamos chegar a um denominador comum. Penso que diferentes setores e plataformas do partido de esquerda ampla podem ter opiniões um pouco diferentes , mas também temos pontos de contato. Agora no partido se realiza o trabalho de aprovação dos detalhes do programa e de votação eletrônica de cada parte sua.

Aqui posso expressar minha própria opinião. Eu penso que os acontecimentos dos anos 2013-14 na Ucrânia é uma clássica situação revolucionária que não chegou a ser revolução e que foi abortada pela classe governante do país com o apoio direto do imperialismo que se radicou nas castas mais reacionárias da sociedade ucraniana, nos nacionalistas russos e ucranianos. Nesta etapa era grande a ajuda dos imperialistas pois na Ucrânia (à diferença da Irlanda e do País Basco) não há tradição de nacionalismo social nem revolucionário-libertador. A grande maioria dos grupos nacionalistas ou professam ideias próximas ao nazismo ou mantêm posições pró-oligarcas, burguesas.

A guerra na Ucrânia é o resultado natural das atividades durante mais de dez anos dos grupos da burguesia internacional e ucraniana. Eles de maneira artificial criavam e mantinham toda classe de prejuízos nas massas para sujeitar a seu lado, os operários, pequenos empreendedores, camponeses e outras categorias de trabalhadores. Eles estavam partindo a Ucrânia para recolher os votos em suas bases eleitorais. Eles estavam dividindo as pessoas para governar e enriquecer. E do exterior, ajudavam nisso os imperialistas dos Estados Unidos, da União Europeia e da Federação Russa. Eles manipulavam as contradições regionais e as fomentavam para trazer o poder para o clã amigo dos oligarcas ucranianos. São as forças imperialistas internacionais as que junto com os capitalistas ucranianos e seus criados os que são responsáveis pela instigação do atual massacre. Esta incitação de contradições na luta pelo poder, comércio, esferas de influência colocou a Ucrânia frente a catástrofe.

Nem uma das partes do conflito está interessada na interrupção das operações militares. E os iniciadores da guerra não a deixarão por iniciativa própria. Nem o imperialismo americano, nem o russo, nem o europeu está interessado na interrupção do massacre pelo qual cada um deles são responsáveis junto com suas marionetes na Ucrânia, oligarcas e nacionalistas de todo tipo. É cruel e assustador dizer isso. Mas a guerra na Ucrânia continuará. E morrerá mais gente.

Podem por fim à catástrofe outras forças? Podem! Como? Apelos? Negociações? Mesas redondas? Conferências? Declarações? Não! Só com sua atuação ativa para tirar do poder seus próprios governos responsáveis pelo massacre na Ucrânia. A esquerda ucraniana em sua maioria adotou esta posição contra o governo, contra os oligarcas. Mas isso não é suficiente. É hora de que nossos companheiros nos EUA, Rússia e Europa façam o mesmo. Esperamos que eles adotem uma ativa posição antimilitarista. E isso consiste não em abstrações pacíficas e declarações, mas sobretudo é preciso ser uma pressão radical contra seus governos. Uma atitude verdadeiramente antibélica da esquerda consiste na luta contra seus próprios governos imperialistas.

“Nisso consiste o teor da luta da esquerda pela paz: derrubada de seus próprios governos de guerra. Quem não entende isso, não entende nada”

Por isso agora não há outros caminhos da luta pela paz na Ucrânia. Apenas a luta por retirar do poder os governos de guerra em Kiev e Moscou, em Bruxelas e Washington. Nisso consiste o teor da luta da esquerda pela paz: derrubada de seus próprios governos de guerra. Quem não entende isso, não entende nada.

O conflito militar em Donbass seguirá sendo um permanente conflito latente. Já cumpriu e segue cumprindo de uma maneira eficaz os objetivos dos que planejaram o conflito. A Rússia e sua classe governante conseguiram instigar a histeria bélico-patriota, criação da imagem do inimigo interno da Rússia para tapar a boca dos que opõem à política de reformas neoliberais, distrair a atenção da ocupação e anexação da Crimeia, obter a ferramenta para manter a Ucrânia no campo de seus próprios interesses imperialistas.

A Ucrânia e sua classe governante conseguiram instigar a histeria bélico-patriota, a criação do inimigo interno, para tapar a boca dos que se opõem à política de reformas neoliberais, submeter a população na condição de temor contínuo e levar a cabo sua “terapia de choque” e distrair a atenção de sua política econômica misantrópica, liberar-se de gastos orçamentários nas províncias de Donetsk e Lugansk.

Juntos conseguiram seu principal objetivo: abortar a situação revolucionária na Ucrânia que ameaçava à elite russa e ucraniana terminar em uma revolução. No caso do mínimo perigo para as classes governantes, uma mínima possibilidade de sua destituição, o conflito em Donbass será reanimado artificialmente e logo apagado mediante acordos a nível internacional quando a ameaça desapareça. E assim de novo. Os futuros revolucionários têm que levar em conta este meio que utilizam as classes governantes e seguirão utilizando para buscar o método de contraposição eficaz a esta tática. A única saída para os revolucionários é a consolidação dos trabalhadores em diferentes regiões na luta social em comum pelas verdadeiras reformas.

E eu considero que o regime atual de Kiev pouco se diferencia dos regimes semelhantes na Rússia, Cazaquistão, Bielorrússia ou Turquia. Penso que a versão ucraniana do “putinismo” se diferencia de seu análogo russo só pela sua maior dependência dos centros imperialistas, menor autonomia e que a Ucrânia na realidade é um país semi colonial, não um estado imperialista débil com próprias ambições regionais.

A superação da crise na Ucrânia está no caminho da luta internacional dos trabalhadores, no caminho da luta classista e da solidariedade classista. O método de tratamento está em uma revolução verdadeira que única é capaz de solucionar as contrariedade do capitalismo periférico no espaço pós-soviético.

Depois do congresso de formação do partido se ouvem vozes críticas contra ele. Como comentaria a declaração do funcionário do partido “Borotba” que disse “Fiodor Ustinov, um dos líderes do partido “Socialny ruj” era membro do departamento punitivo do batalhão “Tornado”?

Fiodor Ustinov (militante social, Khmelnitsky):
Fiodor Ustinov

Fiodor Ustinov

A informação de que eu tenho relação com o batalhão “Tornado” é uma simples mentira dos politiqueiros desalinhados que muito cômodos se sentem no posto de pessoa do imperialismo russo. Eu, Fiodor Ustinov, um simples membro do partido “Socialny ruj” não sou e jamais fui combatente do batalhão “Tornado”, apesar de que sim, me encontrava em julho de 2014 na zona das operações contraterroristas. Os membros do “Borotba” me conhecem em pessoa, mas não se preocuparam em comprovar e justificar a informação. O infame funcionário deste grupo, Victor Shapinov, está sofrendo dolorosamente a crise e o isolamento de sua organização devido ao espírito aventureiro do mesmo. Apressado preparou o texto dedicado ao novo partido de esquerda ucraniano em geral e a mim, em particular. Toda essa história com o “violador e assassino Ustinov” descreve perfeitamente o que é o cidadão da Federação Russa Shapinov, como jornalista e como político. Já publiquei a resposta detalhada desta mentira em minha página do Facebook e repito uma vez mais que é pura mentira cujo objetivo é difamar nosso partido.

Não quero dedicar minha resposta só para analisar uma mentira de baixo nível. Por isso considero necessário expor minha própria opinião sobre a guerra.

Eu penso que a intervenção militar na Crimeia e a instigação do conflito militar em Donbass são funcionais para o Kremlin, para seus protegidos em LNR e DNR, e para os malandros que estão no poder em Kiev. A existência de uma ameaça externa estabiliza o poder destes e até certo ponto reduz os riscos de reunião de novos Maidans, mas ainda sociais. Ademais, a instabilidade controlada do conflito latente na região em certo ponto é bom para os países do Ocidente, sendo uma ferramenta de pressão contra o Kremlin.

O que tem de fazer os habitantes da Ucrânia e do LNR/DNR é parar a guerra e se dedicar aos problemas sociais internos. Tudo o que necessita agora a esquerda russa e ucraniana é estender as pontes entre os trabalhadores assalariados da Ucrânia e de Donbass. Não podemos encomendar a conversa de Putin, Poroshenko e Zakharhenko. As negociações e busca dos caminhos de integração pacífica precisam ser realizada entre os coletivos de trabalhadores das empresas que ainda seguem sendo parte de uma economia comum.

Durante os protestos massivos em Kiev e no começo do conflito no leste da Ucrânia se ouviam vozes antioligarcas. E se não fosse pelos fantasmas do passado que envolviam a situação e que ao final se apoderaram das massas, a situação não chegaria a ser tão dramática. Não existem guerras sem torturas, sem sequestros nem violações. Ao fim e ao cabo qualquer guerra é um crime contra a vida pacífica. Eu estou seguro que para parar hoje o crescimento de nosso próprio “putinismo” na Ucrânia com a ordem ultraconservadora, censura política, onipotência dos da “Força” e oligarcas, é necessário parar a guerra.

Vital Dudin:

Ultimamente chegamos ao ponto de que é difícil distinguir o stalinista Shapinov do anarcofascista Volodarsky. Os dois chovem com declarações falsas sobre diferentes crimes graves tendo o único fim de impedir a criação de um verdadeiro partido operário de esquerda. Mas o crime verdadeiramente grave está nas atividades destes sujeitos. Eles, estando fora da Ucrânia, arriscam os que tentam dar à luz ao movimento de esquerda de dentro dos obscuros labirintos do sectarismo.

Nosso partido vai unir pessoas com diferentes experiências. Entre eles haverá gente que lutava do lado da Ucrânia, gente motivada a lutar contra o imperialismo russo. E ademais os trabalhadores devem aprender a manipular a arma. Não podemos permitir que este hábito seja privilégio dos fascistas e da oligarquia. Além disso, estamos contentes que nossos companheiros não estão manchados pela relação com os crimes militares. Segundo testemunhas visuais, os soldados às vezes eram vítimas dos crimes do mando sendo submetidos à humilhação e agressões.

Andry Ischenko:

Os ataques ao recém criado partido da esquerda ampla por parte de todo tipo de “velha esquerda” são esperados. As antigas forças de esquerda depois de sua capitulação política durante os últimos acontecimentos na Ucrânia, depois de sua dissolução em um ou outro acampamento imperialista, não são capazes de entender o papel do partido. Estão acostumados a viver em suas próprias seitas. Nós vemos claramente como na prática os sectários se unem com os oportunistas para lutar contra nosso empreendimento lúcido. Sem dúvida, nosso partido consolidado representa a estas personalidades uma ameaça direta. Ao fim e ao cabo, nossos primeiros militantes e os trabalhadores começam a abrir os olhos e entendem que especialmente a ausência de uma organização potente é causa da derrota das forças progressivas de esquerda na situação revolucionária dos anos 2013-2014 na Ucrânia.

Nossos críticos atuais no período dos anos 2013-2014 deliberadamente desistiram da crescente situação revolucionária, “imobilizaram” seus próprios militantes, desorganizaram as pessoas simpáticas à esquerda e praticamente deixaram o protesto nas mãos dos devoradores ultradireitistas. Diferentemente, para nós não há nenhuma confusão desde os primeiros dias de protesto. Nós aproveitamos cada possibilidade para desenvolver nossa iniciativa em Maidan e fora dele. Desde os primeiros dias tentávamos iniciar a criação de uma terceira força porque entendíamos que ambos os lados são reacionários. Víamos claramente que o imperialismo americano, europeu e russo fundavam suas esperanças nas mais reacionárias forças da sociedade ucraniana: conservadores liberais e nacionalistas russos e ucranianos. O imperialismo investiu milhares de dólares em abortar a situação revolucionária e entabular uma guerra na Ucrânia.

Naquele momento a confusão ocorreu também nas mentes de alguns da esquerda que consideravam seu principal inimigo, o mais cômodo para si, o imperialismo. Especialmente então na Ucrânia apareceram os social-patriotas de dois cursos. Os socialistas declarados e, na realidade, chauvistas. Ao final estas forças se converteram nos satélites do imperialismo, melhor dizendo, em marionetes do mesmo. Alguns de “esquerda” ficaram atrás dos nacionalistas ucranianos pró-oligarcas e os outros dos russos. E claro está em um momento artificialmente criavam a impressão da boa perspectiva dos social-patriotas. Parecia que esta esquerda graças a uma pequena ajuda econômica e à conjuntura política são capazes de se apegar ao terreno cada um em seu segmento. Fracassaram ontem e hoje de qualquer modo tentam parar o progressivo processo de criação de uma organização da esquerda na Ucrânia.

Indo como voluntário ao Donbass, Fiodor Ustinov tomou não a decisão mais correta mas era sua. O mesmo ocorreu com muitos anarquistas que são meus conhecidos. Era seu ponto de vista naquele momento. E pelo menos ele mesmo viu o que ocorria e dentro de pouco tempo aprovou o ponto de vista antimilitarista. O fato de que a gente capaz de ter sua própria opinião e tomar decisões independentes venham a nós é bom sinal. O processo de formação do partido é um processo verdadeiramente progressivo o qual ninguém é capaz de detê-lo?

O “Socialny ruj” tem previsto fazer parte das eleições? Como avaliam as possibilidades da esquerda?

Andry Ischenko:

Penso que o partido se apresentará em qualquer que seja as eleições baseando-se nos interesses do movimento operário e social. Se a participação do partido fortalecerá as posições de nosso movimento de base nos apresentaremos. Se não houver nenhum benefício para o movimento dos trabalhadores não nos apresentaremos. Em qualquer caso vamos analisar atentamente a situação em contexto de cada situação social e política. Só podemos fazer constar que as mudanças reais na sociedade não se realizam mediante as eleições. As eleições solucionam poucas coisas. Mas seria uma tolice rechaçar o uso desta ferramenta para consolidar e fortalecer o movimento de base. Por isso, minha opinião é que o “cretinismo antiparlamentar” não se diferencia do parlamentar.

Amiúde podemos ouvir o argumento que os deputados se desgarram das massas. É assim. Sendo informado disso temos que entender que apenas o controle constante das massas podem impedir a transformação dos deputados. E não só deles. Amiúde se transformam e traem os funcionários do partido, os jornalistas, voluntários públicos e, inclusive, os ativistas.

Agora é atual a ameaça não de transformação de nossos futuros deputados que no momento não temos, e não temos a quem simplesmente vá ao departamento do interior para retirar dali os militantes. Existe uma ameaça concreta de repressões do aparato estatal contra os militantes de esquerda. E é isso o que temos que prestar a atenção. Temos que nos centrar na necessidade de fomentar o nosso movimento de base. E negar este fomento com uma das possíveis ferramentas como participação nas eleições é irracional.

Eu penso que em caso de progresso na constituição do partido nós podemos nas próximas eleições promover a nossos representantes a deputados dos órgãos de administração locais. Isso permitiria a todo o movimento receber a tribuna para difundir amplamente as ideias progressistas e desenvolver uma luta social eficaz.

Suas atividades são afetadas pela atual legislação? Qual é a ameaça por parte da ultradireita?

Andriy Repa:

Claro que eles vão tentar  nos impedir mediante a pressão social e a censura. Os ultradireitistas simplesmente realizam todo o trabalho sujo pelos “senhoritos” (por exemplo, liberais) que apenas sonham com isso. As leis de descomunização como qualquer outra lei provocam na população um pensamento conformita, gregário: se algo está proibido pela lei, caso resolvido. Estas leis são parte de formação de um consentimento na sociedade. Eles nos ditam o que falar, o que fazer. Ao diabo! Para o sentido razoável de uma pessoa livre isso é inadmissível. Temos que fugir de todo tipo de consenso com o estado. Temos que recordar o que era o comunismo para Marx: “movimento real que levanta a existente situação”, ou seja, suspende a exploração, propriedade privada, estado. Neste sentido, o comunismo segue sendo atual. Se proíbem-no, é porque o temem.

Oleksandr Ladynenko:

As leis de descomunização são simplesmente populismo e mistificação do regime atual. São simplesmente incitação de discórdia e divisão a base da história e cultura. A tarefa consiste não só na perseguição dos comunistas, senão em desacreditar a ideia, a qual o poder oligarca tenta associar na percepção das massas com o stalinismo. O que dizem agora que a lei permitirá perseguir as pessoas simplesmente por sua concepção comunista, é pouco provável. É a luta com o crime de pensamento… A lei é absurda per si, ainda que não haja estupidez que não possa fazer realidade o capitalismo.

A principal ameaça de perseguições agora vem do aparato estatal. O nível escasso de publicidade e atividade da esquerda limitará consideravelmente as possíveis ameaças dos ultradireitistas lacaios dos oligarcas até ataques individuais. Temos que estar preparados para isso fazendo frente a cada centímetro da frente de luta social e estando no núcleo do movimento das massas.

Quais forças políticas são seus principais rivais hoje em dia?

Andry Ischenko:

Não temos concorrência. Nosso principal rival somos nós mesmos. Penso que o principal perigo na criação da esquerda ampla na Ucrânia está ali onde estava no momento de criação do célebre “sujeito político de esquerda” alguns anos atrás. Como todos recordamos, naquele momento o processo de consolidação foi iniciado pelo setor “Borotba” da ex- “Organização marxista”. Quando ao processo começou a desenvolver-se como uma avalanche, o pequeno grupo dos iniciadores da criação do “sujeito” se deu conta de que o processo de consolidação já não está controlado por ele. E não queriam ser minoria. Ao entender isso, a parte “Borotba” da ex-”Organização marxista” saiu rapidamente do processo e creio sua pequena seita “Borotba”, uma pequena organização bem controlada pelo grupo de fundadores. O que saiu disso, sabemos perfeitamente e era natural, chegaram a ser marionetes do imperialismo russo e se autodestruiram.

O mesmo risco corre o processo de consolidação agora. E é preciso contrapor a este possível guia de transformação da futura esquerda ampla em um projeto reduzido controlado por uma ou outra patota de Kiev ou qualquer outra a máxima transparência, caráter público e democrático do processo. Só neste caso poderemos conseguir algo.

É preciso por a futura esquerda ampla da Ucrânia fora do perigo de qualquer que seja os cenários de sua transformação em um projeto político da burguesia. Por esta razão temos que levar em conta o perigo de transformação burocrática dos círculos dirigentes nas capitais e que tal transformação pode ocorrer nas primeiras etapas de fomento desta força. Nós, desde Odessa, Dniepropetrovsk, Cherkassy, Dniepropetrovsk, Cherkassy, Krivoy Rog, Khelnitsky, Lviv e Kiev vamos lutar pela consolidação de um partido verdadeiramente democrático e de esquerda desde o princípio até o final. Estamos preparados para lutar.

Para nós esta organização não é um objetivo por si, senão uma ferramenta que deve funcionar com eficácia pelo bem dos trabalhadores ucranianos. E se vai funcionar com eficácia pelo bem dos trabalhadores ucranianos. E se vai funcionar em benefício de um grupo pequeno, criaremos um novo instrumento de maior eficácia. Não temos nada que ocultar nem ignorar. Neste processo complicado e delicado não pode haver nenhum guia preparado. Agora estamos reservados e otimistas ao mesmo tempo. Eu, por exemplo, penso que a futura vanguarda revolucionária sem a qual não há revolução, sairá do novo partido “Socialny ruj” e não das microsseitas. O tempo demonstrará se foi correta nossa decisão. Como disse depois do congresso de consolidação um dos mais famosos participantes, o defensor dos direitos humanos Volodymyr Chemeyrs, “dentro de poucos meses veremos se funciona nosso partido”. Esperamos que vá funcionar e vamos nos esforçar para conseguir isso.

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