Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

ENTRE O LACRE E O LUCRO: MERCADO E REPRESENTATIVIDADE

Por Guilherme Cortez – militante do MES SP e vice-presidente do PSOL Franca

Recentemente, a televisão brasileira exibiu a primeira cena de sexo entre dois homens em canal aberto. Os personagens André e Tolentino da novela “Liberdade, Liberdade”, exibida pela Rede Globo, protagonizaram o marco na teledramaturgia brasileira. Algumas semanas antes, dois comercias heterodoxos também chamaram a atenção do público. A Avon e a Skol lançaram peças publicitárias exaltando a diversidade sexual e de gênero.

A propaganda da Skol, marca de cerveja que sempre usou do machismo e da hipersexualização do corpo feminino para promover suas vendas, enaltece a união dos grupos sociais marginalizados frente ao preconceito e à intolerância. A Avon anuncia uma nova linha cosmética com destacados rostos da “geração tombamento”, artistas brasileiros contemporâneos que contestam os padrões de gênero e enfrentam as opressões sistêmicas de nossa sociedade.

Setores da comunidade LGBT vibraram com a conquista de uma porção de representatividade nos grandes meios de comunicação. Quem também comemorou foi o Partido Social Liberal (PSL), que passa por um processo de reorganização de quadros e busca se conectar às redes e grupos sociais. Os liberais exaltaram a diversidade como parceira do mercado. Em uma publicação mais antiga, o partido defende que o respeito às orientações sexuais é um fator positivo para as empresas elevarem seus lucros.

“Os pensamentos da classe dominante são também, em todas as épocas, os pensamentos dominantes, ou seja, a classe que tem o poder material dominante numa sociedade é também a potência dominante espiritual. A classe que dispõe dos meios de produção material dispõe igualmente dos meios de produção intelectual; de tal modo que o pensamento daqueles a quem é recusado os meios de produção intelectual está submetido igualmente à classe dominante”. (Karl Marx, A Ideologia Alemã)

Dentro de uma sociedade capitalista, a discussão sobre a representatividade dos grupos sociais oprimidos e marginalizados é sempre bastante delicada, pois os grandes canais de comunicação e poder estão à serviço das classes sociais dominantes. A mídia é a grande máquina ideológica da classe dominante e, portanto, exerce a função de alinhar as massas aos pensamentos daquela.

Os grandes meios de comunicação exibem a realidade da forma que é mais interessante para os ricos, os banqueiros, os donos de terras, empresários e industriais. Torna-se possível apagar um grupo social inteiro do pensamento das massas – ou demonizá-lo quando preciso.

Em meio a tudo isso, os grupos sociais oprimidos reivindicam visibilidade –ocupar os espaços da mídia e da sociedade. As comunidades negra e LGBT, historicamente, lutam por espaços dignos nos meios de comunicação. O Movimento Negro Unificado (MNU) travou uma grande batalha para que atores e atrizes negros e negras não representassem somente personagens servis. A militância LGBT luta contra estereótipos, ridicularização e hipersexualização que recobrem personagens gays, lésbicas, travestis e transexuais, além da invisibilização completa das pessoas bissexuais.

A conquista de visibilidade dos grupos oprimidos é sempre motivo para se comemorar, pois é conquista de luta, da ocupação de cada vez mais espaços e da pressão sobre os meios de comunicação, que já não são capazes de escondê-los. A luta por representatividade e visibilidade nos canais de comunicação representa a disputa pela consciência coletiva das massas.

Mas a classe dominante não concede esse espaço de bom grado, reconhecendo a valentia dos movimentos que o conquistaram e a nobreza de suas causas. Ela o faz buscando cooptar suas pautas. O faz tendo em visto a expansão de seus interesses.

O que podemos pensar, então, de um comercial de grande empresa voltado para o público LGBT? É uma conquista da mobilização dos movimentos, sim. Não deixa, entretanto, de se caracterizar como uma estratégica para expandir os lucros tendo em vista o consumo da comunidade de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis. É o que o aceno de grandes empresas, do PSL e demais grupos liberais às pautas progressistas evidencia. Há que se comemorar a ocupação de cada vez mais terrenos, mas sem nunca nos deixarmos enganar pelos artifícios burgueses.

É imprescindível que se compreenda que o racismo, o machismo e a LGBTfobia são opressões funcionais ao capitalismo, isto é, a violência e o preconceito contra negros e negras, mulheres cis e trans, travestis, gays, lésbicas e bissexuais são fundamentais para a manutenção do sistema econômico baseado na exploração do homem pelo homem. A classe dominante não pode e nem irá abrir mão das opressões que servem para a sustentação de seu domínio.

Portanto, por mais longe que a burguesia possa ir para exaltar a diversidade, a igualdade e as lutas sociais, ela nunca transporá o limite dos seus interesses. A ideologia da classe dominante é heternormativa e patriarcal. Ela pode ceder em uma linha ou duas, mas não irá além do limite da sua conveniência. A desconstrução da ideologia dominante, que é reproduzida em maior ou menor escala em todas as esferas da sociedade, passa obrigatoriamente pela destruição da classe que a impõe e do sistema a que ela serve.

A mobilização dos grupos sociais oprimidos por visibilidade e representatividade é fundamental, pois obriga a classe dominante a desenrijar seu discurso moralista e preconceituoso ao mesmo tempo que disputa a mente dos trabalhadores. Tão fundamental quanto é cuidar para que as pautas dos movimentos não sejam envolvidas pela perspectiva burguesa, tendo sempre em vista que o sistema de dominação capitalista dá espaço para os grupos explorados e marginalizados somente quando e enquanto lhe é proveitoso.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento. Como forma de contribuir para os debates que ocorrerão na VI Conferência Nacional de nossa corrente, o Movimento Esquerda Socialista, este volume reúne dois números da revista (7 e 8). Dessa forma, pretendemos oferecer à militância e a nossos aliados e leitores documentos que constam do temário oficial do evento, bem como materiais que possam subsidiar as discussões que se realizarão. Na expectativa de uma VI Conferência de debates proveitosos para nossa corrente, desejamos a todas e todos uma boa leitura deste volume!

Abaporu