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ELEIÇÕES NA ESPANHA: entrevista a Miguel Urbán

Em entrevista ao programa “Mais Esquerda”, o eurodeputado do Podemos Miguel Urbán fala do processo coletivo de balanço do resultado eleitoral e sugere que “deixemos de ser tanto partido e um pouco mais de movimento”.

Os resultados das eleições espanholas voltaram a não dar maioria absoluta a um partido. Quais os cenários possíveis?

Em teoria, agora cabe ao Partido Popular (PP), que ganhou as eleições, tomar a direção política da formação do governo. Pela primeira vez desde as eleições de 20 dezembro, o PP está disposto a ir nessa direção e a falar com o Ciudadanos, fundamentalmente, e com o Partido Socialista (PSOE). Vai tentar incluir o Ciudadanos num possível governo de coligação e conseguir a abstenção do PSOE, porque no cenário político atual, não basta a soma dos votos do PP e do Ciudadanos, necessitariam também da abstenção de um número importante de deputados na Assembleia.

Acho que o PSOE agora mesmo tem uma disputa forte e em certa medida uma crise de liderança importante. Uma parte, sobretudo os seus barões territoriais liderados por Susana Díaz, se não falam abertamente na abstenção do PSOE, falam em facilitar o governo do PP para que não haja terceiras eleições. Enquanto isso, a direção e as pessoas mais próximas do PSOE ponderam não ceder para favorecer um governo do PP, nem de forma ativa, votando a favor, nem de forma passiva, abstendo-se. Acho que, no final, o PSOE se absterá, para favorecer o governo do PP.

O que há de diferente é que, se o governo estiver liderado por Mariano Rajoy, que é um elemento que o Ciudadanos tinha posto em cima da mesa – a possibilidade de Mariano Rajoy dar um passo atrás e que houvesse uma renovação dentro do PP – e, se o governo é apenas do PP com o apoio do Ciudadanos desde fora, ou se o Ciudadanos entra definitivamente no governo, acho que essas são as incógnitas que estão neste momento em cima da mesa, como se resolve a possibilidade de uma formação de governo em Espanha.

O Unidos Podemos teve um resultado muito abaixo do que indicavam as sondagens, perdendo um milhão de votos. O que aconteceu entre dezembro e junho e qual o futuro da coligação?

Acho que ainda é demasiado cedo para chegar a conclusões. Na verdade, começamos um processo interno de avaliação dos resultados e do que pode ter falhado. O Podemos nasceu perguntando e vai continuar a caminhar perguntando. Acabamos de fazer um inquérito a todos os simpatizantes inscritos nos círculos do Podemos sobre qual é a sua opinião, queremos saber também qual é a opinião das pessoas que trabalharam na campanha, as pessoas que estiveram connosco, as pessoas que apoiam o Podemos, sobre o acham que falhou e o que funcionou. Temos de nos lembrar que tivemos mais de 5 milhões de votos, que é um número muito importante.

As sondagens que nos colocavam em segundo lugar nos davam um número de mandatos maior fez com que um resultado incrível, 5 milhões, 71 deputados, nos pareça pouco. Acho que é normal que nos pareça pouco, porque a nossa ideia era mudar o governo e mudar as políticas do governo. Isso não aconteceu, em certa medida, porque esse milhão e duzentos mil votos que o Podemos e a Esquerda Unida conseguiram obter a 20 de dezembro em separado, desta vez, não votaram. Mas também não votaram noutros partidos. Os dados demoscópicos dizem que esses votos foram para a abstenção. É preciso avaliar, e esse é um dos trabalhos importantes, o que não fizemos bem, para que um milhão de pessoas tenham decidido não votar a 26 de junho, mas que tenham ido votar a 20 de dezembro, neste caso, pelo Unidos Podemos.

Sobretudo temos de trabalhar para recuperar a confiança, não tanto dos votantes, mas também do setor social que vai ser fundamental para reconstruir a oposição a um governo de direita, um governo que favoreça os cortes, um governo da corrupção. Vamos ter de voltar a dar esperança a toda essa gente, a toda a gente que votou em nós e que viu o resultado como um fracasso, para poder resistir desde o Parlamento, mas, sobretudo, desde as praças e das ruas, ao que aí venha, esse é o objetivo agora.

Vamos ter de fazer um debate profundo dentro do Podemos, em que reformulemos o nosso papel, a nossa função e a nossa função enquanto organização política. Para que deixemos de ser tanto partido e um pouco mais de movimento, que acho que é o que nos vai calhar agora. Um movimento contra a austeridade, contra o racismo, contra o autoritarismo que estamos a ver em toda a Europa.

Agora mesmo, são esses, agora, os objetivos do Podemos, num debate que deve ser público, que os meios de comunicação estão a vender como divisões internas, mas que acho que é a diversidade de opiniões e de ideias que se têm de converter em pluralismo, dentro do Podemos. Evidentemente, teremos de fazer uma assembleia cidadã, dentro de um tempo razoável, para poder organizar todos estes debates internos que, como tudo o que se faz no Podemos, serão públicos.

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