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Editorial: A crise do PT e as duas faces de Lula

De acordo com a tese que apresentamos ao V Congresso do PSOL: O que Brasil observa agora é mais do que o fim do lulismo como modelo de desenvolvimento econômico. Trata-se pura e simplesmente do esgotamento da Nova República, com seus atores políticos. O regime nascido da ruptura incompleta com a ditadura militar e pactuada com seus agentes e beneficiários mostra a cada dia seu esgotamento. Observamos que a situação política pela qual passa o Brasil tem como componente marcante a maior crise da história do PT, ou seja, da superestrutura de massas mais à esquerda do processo de constituição da Nova República. Particularmente após as denúncias de corrupção da Operação Lava Jato, o partido é visto pelo movimento de massas como principal responsável pela crise.

Por sua vez, o PT joga com o espectro da volta de Lula em 2018 como possível salvação da deterioração do partido e da retomada de “uma agenda menos conservadora”. O papel de Lula, no entanto, vai muito mais além. Seu movimento rumo aos “movimentos sociais” e sua Frente Brasil Popular acobertam os interesses burgueses da estabilidade política que ele tenta arranjar, para melhor implementar o ajuste a favor dos ricos e manter Dilma no governo.

A crise do PT é realmente profunda: de acordo com a pesquisa do Instituto Data Folha, a reprovação ao governo Dilma atingiu patamar mais alto (71%) desde 2011. É o mais alto índice de reprovação de um/a presidente desde o fim da ditadura militar. Os maiores haviam sido Collor, em 1992, pouco antes de ser afastado da Presidência da República, com 68% de reprovação e José Sarney, que em 1989 também era reprovado por 68%, às vésperas da eleição presidencial. Nota-se ainda uma dimensão local da crise que se expressará fortemente nas eleições de 2016, o PT já perdeu 11% dos prefeitos que elegeu em 2012. Dos 619 petistas vencedores das últimas eleições municipais em todo o país, 69 haviam deixado a legenda até este mês, segundo o TSE” (Folha de S. Paulo, 25/10/2015).

Dilma ao assumir o mandato, imediatamente implementou a receita tucana e ampliou o espaço dos partidos de direita no governo, frustrando qualquer ilusão de mudanças de rumo alimentadas por petistas saudosos. Tal estelionato, somado à corrupção escandalosa e o descrédito das formas associativas clássicas (partidos, sindicatos) expressos nas Jornadas de Junho em 2013 e a ausência de respostas do governo, colocou o PT contra as cordas e sua base órfã.

Para incrementar ainda mais o cenário de crise do PT, em nova fase da operação Zelotes, a PF investiga a empresa LFT Marketing Esportivo, que pertence a Luís Claudio Lula da Silva, filho de Lula, nos Jardins, bairro nobre de São Paulo. Segundo as investigações, a LFT recebeu pagamentos do escritório Marcondes e Mautoni, investigado na Zelotes por ter atuado de forma ilegal pela aprovação da MP 471, que beneficiou o setor automotivo. Além disso a pesquisa divulgada pelo IBOPE, que demonstra a enorme rejeição aos “presidenciáveis” do regime, Lula tem 55% dos pesquisados que não votariam nele de jeito nenhum.

 

Frente à crise e ao perigo do impeachment, duas políticas distintas e complementares

Agora o que está em jogo é se a oposição de direita, vendo que o PT não controla mais o movimento de massas, vai dar o passo “paraguaio” e afastar Dilma por meio da maioria que constituiu em torno de Cunha, após o esfacelamento da base aliada ao governo no Congresso Nacional.

Eduardo Cunha (PMDB) é peça-chave para esta estratégia, mas o principal mediador da estabilidade é Lula. É quem verdadeiramente dirige o governo e o PT, atuando com duas políticas distintas:

  1. Para manter o PT no interior do bloco de poder (político e econômico) formado quando foi presidente, capitaneia um setor do capital nacional (empreiteiras, agronegócio) que busca expandir-se para outros países, especialmente da América Latina e África, agindo como “embaixador” destes interesses e parte orgânica dos negócios da burguesia. Isso explica porque sua sorte como burocrata e gestor destes negócios está intimamente ligada ao sucesso do capitalismo brasileiro. Estabelece relações com uma parte do capital financeiro, por meio do manejo dos fundos de pensão (PREVI, Funcef) e com relações diretas com os banqueiros e grandes empresários.

Para se ter uma ideia, na lista de 41 empresas, nas quais Lula deu “palestras” em nome de seu Instituto, entre 2011 e 2015, constam: Associação de Bancos do México, Ambev, Andrade Gutierrez, Banco Santander, Bank of America, Camargo Corrêa, Itaú BBA, Microsoft, Nestlé, OAS, Odebrecht, Pirelli, Queiroz Galvão… Nota-se uma colaboração orgânica com um amplo setor da burguesia, que busca uma estratégia de estabilização política para permitir o ajuste contra o povo sem lutas e para manter seus negócios lucrativos durante uma recessão econômica. Levy é o nome que simboliza esta estratégia pró-burguesa e é ela que explica Lula ter entrado na mediação com o PMDB para salvar a pele de Cunha.

Desde agosto vem articulando com Michel Temer, Renan Calheiros, José Sarney e os senadores Eunício de Oliveira, Jader Barbalho e Romero Jucá, as medidas de contenção do PMDB, como liberação de emendas parlamentares, ministérios e cargos. Entretanto, a hipótese mais concreta do impeachment ganhou força apenas recentemente pelas mãos de Cunha.

Nesse caso, Lula atuou com pulso firme para centralizar a bancada do PT em defesa de Cunha, já que 34 dos deputados do PT haviam endossado o pedido de cassação feito pelo PSOL. Lula fez de tudo para evitar tanto a cassação de Cunha, quanto o impeachment de Dilma, como parte do mesmo movimento de busca pela estabilidade. Recentemente em Salvador afirmou que “Enquanto ele [Cunha] for presidente da Câmara, ele vai comandar a pauta do Congresso. Então, em vez de ficar querendo afundar ele [sic], quero que ele coloque as coisas em votação”. (Folha, 23/10/2015)

  1. Para tentar recuperar a base social com referência na esquerda, organizada nos movimentos sociais, nos sindicatos e suas correspondentes burocracias, a outra face de Lula teatraliza um enfrentamento com Levy, polemiza com o ajuste fiscal e diz que o governo precisa ouvir os movimentos e enfrentar a crise com medidas estruturais.

O discurso muda com a ocasião, chega ao ponto de se enfrentar com Dilma. Em início de outubro deste ano, durante evento da CUT, Lula declarou “Ganhamos as eleições com um discurso e os nossos adversários perderam as eleições com um discurso. Mas a impressão que passamos para a sociedade é que adotamos o discurso de quem perdeu”. (Valor, 14/10/2015) Ao mesmo tempo em que utiliza o PT para se diferenciar de Levy, utiliza a burocracia da CUT para legitimar o ajuste fiscal e o PPE. O próprio PCdoB, quase sempre mais realista que o rei, deu um jeito de aprovar por meio da UNE e da UBES apoio a Eduardo Cunha seguindo a linha de Lula.

Na verdade, todo o proselitismo político em torno da Frente Brasil Popular, a demagogia dos encontros de Dilma e Lula com os movimentos sociais e as tentativas (fracassadas) de fazer atos em defesa do governo, não passam de um véu para esconder o grau de incorporação da direção do PT à ordem, da qual Lula é o chefe. Suas duas faces são da mesma moeda, não podemos nos confundir. As determinações reais dos rumos do governo não sofrem nenhuma pressão “pela positiva” dos movimentos. Como em qualquer governo burguês, somente quando se enfrentam arrancam pequenas concessões. O arranjo da estabilidade política, como bem assinalou Ruy Braga, até 2013, esteve baseado tanto no consentimento passivo das massas quanto no consentimento ativo das direções, entretanto este ciclo se encerrou, abrindo espaço para novas alternativas.

 

Nem direita, nem governo: por um terceiro campo

A possibilidade de desenvolvimento de um campo político e social pela esquerda, envolve todos aqueles que se opõem ao ajuste e que lutam para que os ricos paguem pela crise. Neste sentido é preciso unificar iniciativas como a Frente Povo Sem Medo, fortalecer a intervenção da Conlutas e animar movimentos como o Juntos, etc.

Mas sabemos que não estamos sozinhos na disputa pelo futuro. Setores reacionários apostam suas fichas para que balanço negativo do PT, signifique uma derrota para toda a esquerda. Felizmente o acerto de fundar o PSOL e a candidatura de Luciana Genro em 2014, nos permite estar perfilados nacionalmente como os “inimigos nº1” de Cunha, sem com isso capitular ao governo.

Contudo, afirma-se cada vez mais a necessidade de um terceiro campo ao governismo e à direita. Evidentemente que  Rede também buscará ocupar um espaço de centro entre o PT e o PSDB. No entanto, uma verdadeira saída para a crise só será real com medidas profundas e de ruptura do ponto vista democrático e econômico: taxar as grandes fortunas, suspender o pagamento da Dívida Pública e auditá-la, transformar as instituições falidas do regime em um novo poder popular, ampliar direitos dos trabalhadores e distribuir a riqueza, são medidas urgentes e necessárias que só a esquerda socialista pode realizar.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

Leon Trotsky Joseph Stalin