Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

Discurso de Lazafanis Durante evento da Plataforma de Esquerda da Syriza

Amigas e Amigos,
Camaradas,

Um caloroso bem-vindo à sua presença militante na convocatória de cinco anos de nossa página web, de Iskra.
Como sabem, Iskra em russo significa faísca.
E Iskra foi o primeiro periódico revolucionário de Lenin nos anos duros da Russia czarista, que reivindicou plenamente seu título.
Nossa Iskra tirou seu nome daí.
Certamente não podemos comparar.
Mas nossa Iskra tem ajudado com sua faísca para acender, durante estes 5 anos duros de memorando, o grande incêndio de luta e esperança em nosso país.
Amigas e amigos,
No dia de hoje, sua grande presença confirma que as lutas democráticas e progressistas de nosso povo contra o memorando não foram perdidas ou terminaram.
Sua grande presença hoje em dia, no final de julho, neste lugar, sugere que as lutas continuam e, da próxima vez, receberão um novo impulso e alcance.

Camaradas,
Diante de vocês e neste lugar quero honrar a todos aqueles e todas essas centenas de milhares que, desafiando valentemente e obstinadamente o terrorismo, o medo e a lavagem cerebral, disseram um orgulhoso e rebelde “NÃO” no referendo de 5 de julho.
Este grande “Não” do povo grego, que foi profundamente um produto da luta de classes, patriótico e democrático, foi produzido, em primeiro lugar, pelas maiores vítimas dos memorandos dos estratos mais pobres de nossa sociedade plebeia, os depreciados e os que não tem esperança neste país.
Assim, este “NÃO”, patriótico e de luta de classes, se converteu em um marco brilhante para nosso lugar e seu curso.
Um marco brilhante que não pode ser eclipsado ou extinguido.
O governo de nosso povo, na semana que se seguiu, ignorou este novo “NÃO”.
Mas isto, de maneira alguma, significa que este “NÃO” foi derrotado, ou que nosso povo se converteu em “SIM”.
Alguns cometem um grande erro se pensam que os 62% de “não” de domingo passado foi uma tormenta passageira.
Os que pensam que este “NÃO” foi uma explosão efêmera do povo que poderia ser manipulado de cima, cometem um grande erro.
Este “NÃO”, um dos melhores momentos da democracia neste país, demonstrou a necessidade deste povo viver com dignidade e participação, sua paixão por expressar a ira e a frustração, e sua esperança de ver nosso país independente, democrático e justo sem a tutela da subordinação.
Pois bem, este “NÃO”, como diz nosso lema, não perdeu.
Este “NÃO” continua e nós seguimos a luta até que o “NÃO” triunfe, com uma Grécia sem memorando, sem austeridade, sem protetores e guardiões. Uma Grécia democrática, progressista e, em última análise, socialista.

Camaradas,
Amigas e amigos,

Nestes dias, nós, que dissemos “NÃO” com nosso voto e nossa razão no novo memorando, recebemos um ataque sem precedentes.
De fato, uma verdadeira guerra.
Uma guerra muito suja.
Esta guerra foi desencadeada de forma muito coordenada pelos dirigentes da Europa e meios de comunicação estrangeiros, em colaboração com a maioria dos meios de comunicação sistémicos domésticos, a oligarquia grega e alguns centros da classe política local.
Nossos anciãos dizem que a terminologia destes ataques, que fala de conspiradores, bandidos, gangue do dracma, foi ouvida na época da guerra civil e no período posterior à guerra civil.
Certamente não me interessa a degeneração grave dos meios de comunicação internacionais que mostram seu verdadeiro rosto, como os Financial Times. Os Financial Times, que disseram que eu falei de roubar e ocupar a Casa da Moeda e de prender Stournaras, o chefe do Banco da Grécia.
Com tais informações vinculando roubos e chegando à KGB, com uma mescla de anticomunismo antigo barato, não é de estranhar que o Financial Times tenha se vendido aos Japoneses.

Camaradas

A guerra suja dos centros nacionais e estrangeiros e dos meios de comunicação não está dirigida apenas contra os membros da Plataforma de Esquerda e mesmo à Plataforma como tendência da esquerda do SYRIZA.
Na nossa cara, e na frente da Plataforma, estes ataques buscam zombar, para caluniar e denegrir todo SYRIZA, suas lutas e seu programa.
Para denegrir e zombar de toda esquerda.
Acima de tudo, tratam de zombar e denegrir aos 62% que votaram “não” no referendo.
Eles querem desacreditar a alternativa aos memorandos e à austeridade.
Porque isto é o que os confunde e lhes causa medo.
Sem dúvida, não terão êxito.
A calunia, a lama, o alarmismo e o terrorismo cairão num saco furado.
Cairão em saco furado como caiu em saco furado a propagando antes do referendo.
O povo lhes deu as costas.

Camaradas,
Amigas e amigos,
Chama a atenção que duas semanas depois do orgulhoso “NÃO” do povo grego, o governo pediu a autorização do parlamento para aplicar um novo, terceiro Memorando, baseado no acordo inaceitável de Bruxelas.
Ao pedido do governo responderam com entusiasmo e alegria ND, PASOK, e To Potami.
Mas muitos de nós, membros de SYRIZA, se negaram a conspirar com este novo e ampliado “consenso de austeridade” e não votaram a favor da autorização de um novo memorando.
Então camaradas, fiéis ao “não” do referendo, dissemos um claro “não” aos dois projetos de lei com as medidas pré-requisitos que chegaram ao parlamento com os piores procedimentos possíveis, e que violaram flagrantemente o Regulamento e a Constituição.
Dissemos um claro “não” aos pré-requisitos, medidas impopulares que eram ao mesmo tempo uma precondição para iniciar as discussões sobre a conclusão do terceiro memorando com medidas integrais e duras, que junto com os pré-requisitos, podem sobrecarregar a incrível quantidade de 12 milhões de euros.
Quem e como poderia pagar somas tão fabulosas em um país devastado e em ruinas, com milhões de pobres e desempregados?
Camaradas,
Não lamentamos mas nos sentimos orgulhosos do “NÃO que dissemos no parlamento sobre dois projetos de lei para os pré-requisitos.
Estamos orgulhosos de nós mesmos como membros do SYRIZA, porque cremos que somos fiéis a sua história e futuro.
Estamos orgulhosos deste “NÃO” como ex-ministros e não nos interessa que este “NÃO” nos tenha tirado do governo.
Não participamos da esquerda durante décadas para perseguir boas cadeiras e escritórios.
Na esquerda, os ministérios e os espaços parlamentares não são um fim em si mesmo.
São os meios para servir aos princípios, os valores e as políticas progressistas, como cada um de nós os entende e os avalia, da maneira mais conscienciosa e objetiva.
Amigos, esta atitude, e o “Não” no parlamento, foram o que provocou a reação furiosa e a guerra contra nós pelos centros nacionais e estrangeiros do estabelecimento. E tudo indica que esta guerra alcançará proporções frenéticas no próximo período.
Sem dúvida, nossa atitude não apenas provocou esta guerra, mas “punhaladas de companheiros” de alguns executivos e de certos líderes do SYRIZA.
Como sempre fiz, superei estes últimos ataques.
Aprendi a não sucumbir às invenções e às acusações fáceis.
Aprendi, também, a não personificar as diferenças e as contradições na esquerda. Creio que as diferenças e os conflitos dentro da esquerda devem ser mantidos em um nível alto e civilizado, sem mesquinharia e calunia.
Por estas razões não vou responder à acusações dos companheiros, mas tenho que dizer uma palavra sobre estes ignorantes da história, inclusive o presidente, que se apressou a dizer que, com nossa atitude, supostamente fazemos uma sabotagem à unidade e ao progresso de nosso partido.
Lhes peço, portanto, diretamente:
Agora, estes que defendem, a pesar de toneladas de lodo e ataques sujos, os princípios e valores do partido e seu programa radical, estão enterrando a SYRIZA?
Enterram a unidade do partido estes que querem manter as promessas não apenas de nosso programa, mas também de nossas grandes tradições de lutas contra a austeridade?
Estes que são fiéis a nossas grandes tradições em defesa dos direitos sociais e trabalhistas?
Por último, quem são os que enterram o Presidente do Partido, que sempre, a pesar de nossas diferenças, apoiamos?
Enterramos o governo nós, que indicamos ao partido e ao governo um caminho que não negue nossos compromissos programáticos, ou todos aqueles que abrem facilmente a porta que conduz à mudança do partido em favor da austeridade?

Não merecemos tal desenvolvimento.
Camaradas, o que fizemos, todos que disseram o grande “NÃO” no parlamento, foi nada mais nada menos que a defesa dos princípios e dos valores da esquerda.
Não era nada mais nem menos que a defesa de nosso programa
Não era nada mais nem menos que a resposta ao veredito popular de 25 de janeiro e o “NÃO” do referendo de 5 de julho.
Camaradas,
O principal argumento que escutamos para justificar a conclusão de um acordo para o terceiro memorando é que não existia alternativa ao memorando.
Que em 12 de julho o terceiro memorando foi um caminho inevitável.
Isto não lhes lembra algo?
G. Papandreu e G. Papakonstantinou não disseram exatamente isto quando firmaram o primeiro memorando?
Não disseram que foi o único caminho?
Porque, então, reagimos?
Não alega o mesmo o anti-memorando Samaras, quando de repente descobriu o encanto do memorando?
Para o segundo memorando não disseram que este era o único caminho?
Assim que, porque então os condenamos?
E quando denunciamos, como SYRIZA, o primeiro e o segundo memorando, não tivemos outra alternativa?
Quando, durante tantos anos, inclusive no governo, denunciamos a austeridade.
Quando prometemos a abolição do memorando e a rejeição da conclusão de novos memorandos, tivemos ou não tivemos uma solução alternativa?
Ou pior ainda, teríamos a ilusão de que as súplicas e maldições, ou ambos juntos e um sem número de juramentos de lealdade ao euro poderiam convencer ao estabelecimento Europeu a abandonar a austeridade através de duras negociações?
E se por acaso não abandonam a austeridade, como se fez, o que foi nossa própria reação?

A retirada desordenada no memorando pelo argumento de evitar um “não-pagamento desordenado”?
Para todas estas perguntas precisamos explicações da perspectiva do governo e um debate profundo no partido e na sociedade sem acusações fáceis contra a Plataforma de Esquerda.
Porque, quando alguém segue, em nome do euro, um caminho, como uma “ovelha ao matadouro”, não pode lamentar o fato de que seu matador é brutal.
A Plataforma de Esquerda assinalou muito rapidamente ao partido e ao governo que o impasse da negociação prolongada e cheia de ilusões só conseguiu gastar as reservas do país até o ultimo euro.
A Plataforma de Esquerda também criticou com força o governo porque não teve a vontade política de perseguir e planejar, quando encontrou uma parede na UE, um caminho de saída da eurozona.
Criticamos o governo porque denunciou até o fim cada perspectiva de uma moeda nacional alternativa, como se fosse um pesadelo para nosso país.
Sem dúvida, durante os meses que não levou a sério em seu desenho político a possível saída da zona do euro, o governo se converteu em uma vítima dos credores, apesar de seus esforços espasmódicos para reagir.
Tudo isto foi repetido muitas vezes no partido e muitas vezes nós não votamos a favor das propostas do partido. O resultado foi que muitos disseram que os incomodávamos.
Aqui está, sem dúvida, as consequências!

Camaradas,
O governo e o país sempre teve e tem agora uma solução alternativa contra o memorando e a austeridade.
Pré-requisito desta solução alternativa é questionar o estabelecimento da eurozona.
Mas um outro pré-requisito é a ruptura, da perspectiva de um programa de transição progressiva, com o estado de subordinação nacional, com o neoliberalismo e os grandes interesses econômicos nacionais.
Não é hora de apresentar todo o programa desta solução alternativa, do qual grande parte se encontra no programa do SYRIZA, apesar do fato de que o governo decidiu ignorá-lo.

Permitam-me, sem dúvida, destacar apenas alguns pontos mais importantes deste programa.
O primeiro e mais importante para uma nova direção do país é a nacionalização – socialização dos bancos, uma vez que com a propriedade pública e o controle social, os bancos poderiam ter uma nova função social e ajudar o desenvolvimento do país.
Enquanto os bancos continuam sob controle e gestão privada, os governos, qualquer governo, só podem ser gerentes do capital financeiro.
É um escândalo que os bancos do país sigam sob o controle do capital privado e façam o papel “depredador”, enquanto se recapitalizam continuamente com o dinheiro público e o setor público controla seu capital.
E já que estamos falando dos bancos:
Quando finalmente examinaremos os grandes escândalos de dezenas de milhares de liquidação da ABG e TTPireo e Eurobank?

O segundo ponto que queria destacar é a necessidade de permanecer ou passar por baixo da propriedade e gestão pública e de reorganizar todas as empresas estratégicas no país, todas as redes estratégicas, todas as infra estruturas de valor especial.
Desta perspectiva negamos as privatizações promovidas pelo novo memorando e muito mais à criação da monstruosidade de 50.000.000.000 que destruirá todo conceito de soberania nacional e que traz o título enganoso: Fundo de Desenvolvimento de Propriedade Nacional.
Nos opomos radicalmente à privatização dos portos, especialmente o porto de El Pireo y Salónica.
Nos opomos radicalmente à venda dos aeroportos regionais de nosso país em mãos alemãs.
Nos opomos à venda de Elliniko que é um espaço verde junto ao mar, de valor inestimável para atividades públicas e sociais.
Nos opomos à venda da rede de energia estratégica ADMIE.
À medida que nos opomos às medidas supostamente equivalentes para evitar supostamente, a venda, que em caso de serem aplicadas, destruirão a base energética pública do país.
A Grécia não está à venda. 

A terceira coisa que quero destacar é a necessidade de uma importante redistribuição de riquezas às custas dos que tem grandes propriedades, grandes benefícios e muito dinheiro negro. Todos estes tem seu dinheiro em paraísos fiscais e em bancos estrangeiros ou saíram do país sem ser incomodados.
Para esta tarefa, um novo sistema fiscal e um mecanismo de controle reformado, eficaz e incorruptível serão muito importantes. 

O quarto, é uma das questões mais centrais que asfixiam o país: é o restabelecimento da legalidade e a transparência nos meios de comunicação mediante o controle de sua propriedade, e golpear a participação dos meios na corrupção.

O quinto e decisivo é o recorte muito profundo da dívida, sem o qual o país não pode ter um futuro.
Sem dúvida, uma precondição para tudo isto é aliviar o país do memorando junto com a ruptura com o neoliberalismo, e dirigir um modelo alternativo económico e social de saída da crise e da reconstrução produtiva do país.

Camaradas,
Amigas e Amigos,
Quase todos pensam recentemente em uma pergunta.
Podemos implementar no país um programa alternativo ao neoliberalismo, como o que temos falado, um programa sem memorando, sem austeridade dentro da zona euro, com a presença da Grécia no euro?
Creio que os últimos acontecimentos na zona euro, i.e., a atitude de chantagem dos círculos governantes da UE e a aplicação em nosso país do novo e repulsivo memorando, deveriam ter dado a resposta a todos, inclusive àqueles que atuam de má fé.
A zona euro e a UE se converteram em estruturas duras, que tem dado as costas à democracia e à soberania popular. Em estruturas duras, que sob a liderança da Alemanha, impõe a ditadura do capital e dos mercados de finanças e do asfixiante selvagem caminho neoliberal.
Uma solução alternativa progressista em nosso país, acompanhado de uma política econômica e exterior independente, multidimensional, é óbvio que vai entrar em conflito com as forças que dominam a zona euro e não pode existir sem uma forte vontade política e um plano político para sair da zona euro.
Mais e mais pessoas agora entendem esta posição da Plataforma de Esquerda.
Não podemos desafiar a austeridade, muito mais neoliberal, se não desafiamos, ao mesmo tempo, a zona do euro e a participação de nosso país na mesma.

Camaradas,
Amigas e Amigos,
As elites, enquanto bendizem o memorando e toleram a destruição, falam da saída do país da zona euro como se fosse uma entrada no inferno.
Esta propagando não tem nada que ver com a realidade e só serve para manter um regime quase neocolonial, com escravidão econômica de nosso país.
A saída da Grécia do euro, com a criação de uma nova moeda nacional, o que sugere uma série de economistas de renome internacional como Paul Krugman, Joseph Stiglitz, Frederick Lordon, amigo de Costas Lapavitsas, Heiner Flasmpek e muitos outros, não será um desastre.
Certo, esta saída trará consigo algumas dificuldades na primeira fase de transição do euro à nova moeda nacional.
Mas agora, carretas cheias de flores não existem.
A saída da zona euro, diferentemente da propaganda macabra, sempre que for acompanhada das políticas progressistas adequadas que propomos, certamente pode reiniciar rapidamente a vida econômica e social do país.
A moeda nacional, a restauração da soberania monetária, pode servir como uma nova estratégia progressiva para converter-se em uma forte motivação para fortalecer as exportações e para substituir as importações.
Pode converter-se em uma forte motivação para a reativação da produção primária e do turismo.
Também pode contribuir para melhorar muito significativamente a liquidez na economia grega para a reforma da produção e o rápido crescimento do emprego.
Recomendamos, deste lugar, que este debate “proibido” abra imediatamente no SYRIZA e na sociedade grega.
E recomendamos que este debate dentro do partido seja livre, sóbrio e sem prejuízos, sem demonizar e sem terrorismo.

Camaradas,
Deste lugar, propomos a todas as forças da Esquerda, a todas as forças democráticas contra a austeridade, a criação de uma grande frente de “NÃO” que lutará para uma Grécia independente, justa, com reforma de produção e socialista.
Por fim, queria destacar que temos que construir e reorganizar uma juventude radical que construirá o futuro do país.

Panagiotis Lafazanis, Grécia, 27/7/2015.

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