Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

Dialogando com Sthatis Kouvelakis – Cresce a audiência para as ideias de esquerda na Grécia e no mundo

Israel Dutra – Direção Nacional do MES e do PSOL

A vitória de Syriza abriu uma nova etapa política na Europa. O debate sobre a dívida e a austeridade ganhou o centro da cena. Entre os trabalhadores do continente, duramente castigados, pelo ajuste econômico, Syriza desperta tanto entusiasmo quanto dúvidas. Depois de uma semana de intensa negociação, o Eurogrupo e o governo de Alexis Tsipras, na figura de seu Ministro de Finanças, Yanis Varoufakis chegaram a um acordo para postergar em quatro meses os prazos finais do “resgate”, gerando uma discussão~não apenas entre a esquerda, mas no conjunto da sociedade. Os meios de comunicação reproduzem a troca de farpas entre Tsipras e Rajoy, colunistas apontam limites, cedências e conflitos entre o que foi acordado e o que poderia ter se conquistado.
Estamos diante de uma rica e apaixonante discussão sobre os rumos da Grécia e da Europa. Como sair da austeridade? Qual o limite dos acordos? Syriza adota o rumo correto? Estas perguntas estão colocadas para milhões que seguem com esperança a queda de braço entre o povo grego e os ditames da Troika. Estamos diante de um tempo onde o “regresso da estratégia”, nas palavras de Daniel Bensaid, se consolida aos olhos do movimento de massas. A audiência para ideias de esquerda está crescendo. Várias são as vozes que estão intervindo nesse debate.
Estivemos tomando contato, em Londres,  com Sthatis Kouvelakis, renomado intelectual marxista grego, membro do CC de Syriza e dirigente da Plataforma de Esquerda deste Partido.
Participamos de um meeting organizado pelo SWP inglês  para discutir a estratégia de Syriza e os rumos do processo grego, tendo como debatedores Kouvelakis e Alex Callinicos. O debate foi bastante concorrido, salão de um clube lotado[cerca de 250 pessoas], com uma grande expectativa na discussão. Logo retornaremos ao debate propriamente dito e as polêmicas entre as posições ali representadas- Plataforma de Esquerda e IST/SEK, dentro de Syriza e Antarsya, respectivamente.
 Callinicos abriu com uma postura bastante defensiva, visto o enorme entusiasmo que a pauta de Syriza vem despertando na vanguarda socialista europeia. Colocou o centro de sua fala no capacidade potencial da classe trabalhadora grega, diminuindo o peso subjetivo de Syriza como parte da estratégia para alcançar uma maioria social. E depois afirmou que o debate fundamental era o da estratégia utilizada pelos socialistas para transformar o Estado, reafirmando a necessidade de retomar as elaborações de Gramsci e Poulantzas. O debate com Syriza era de como intervir para disputar o poder num Estado Capitalista de tipo “ocidental”.  Utilizou de dois exemplos para justificar a política de estar fora de Syriza e preparando a “luta social” desde aí- se nota que nao reinvindicou a caracterização de Oposição de esquerda: a participação de um partido “burguês”no governo Syriza e a assinatura do acordo que, segundo Callinicos, dá prosseguimento ao memorando da Troika em outros termos.  Relacionou a direção de Syriza com Allende no Chile de ’73.  Kouvelakis, ao contrario de seu oponente, foi ofensivo. Começou polemizando com aqueles que não passaram no teste do ascenso grego e que a única discussão concreta era sobre Syriza, porque Syriza tem passado nos testes da luta de classes diante da crise grega. E que Callinicos falou muito de Varofavis e temas laterais e não tocou no essencial: porque Syriza polariza a realidade e qual o rumo para seguir avançando. Ele tocou em quatro aspectos essenciais: Partido unitário, pluralista, com capacidade de colocar a política no centro e se oferecer como alternativa com base na estratégia do reagrupamento[1], uma sintonia fina com a dinâmica do movimento de massas da Grécia pós 2008, com  a nova etapa aberta com a rebelião da juventude, apesar do controle do PC e do PASOK das direções sindicais majoritárias[2], o tema de uma estratégia política e uma orientação capaz de polarizar o país desde 2012 com a palavra de ordem “Governo da Esquerda” ultrapassando o PC e Dimar como referentes, tornando se uma alternativa majoritária  para o eleitorado de esquerda desencantado com o Pasok[3] e um programa simples, compreensível para amplas massas adotado na conferência de Salônica, abrindo uma etapa real de luta pelo poder[4].
As perguntas no meeting diziam respeito ao acordo fechado com o Eurogrupo e as necessidades de se colocar em pé uma campanha real de solidariedade ao povo grego. Falamos desde o PSOL e tivemos boa acolhida.
No fechamento se evidenciaram ainda mais as diferenças. Callinicos foi doutrinário e genérico afirmando que se a esquerda tivesse adotado uma estratégia de greve geral por tempo indeterminado, o tipo de governo produzido teria outra natureza e colocando o problema do armamento popular, retornando o exemplo da FP no Chile, onde Allende teria hesitado em seguir os conselhos de Castro. Uma fala pobre e abstrata que refletiu a crise geral do SWP e de seu grupo na Grécia, SEK/Antarsya.
Kouvelavis agradeceu o apoio de todos presentes. E afirmou que o povo grego tem quatro meses para dobrar a troika e desfazer as amarras que seu governo teima em manter. Disse que Varoufakis é um tipo frágil, sem estratégia, espetacularizado, que reduz o problema a luta retórica. E fechou afirmando que o acordo foi bastante ruim, mas que abriu a grande discussão no seio da sociedade sobre os problemas da dívida e que a Alemanha foi questionada pela primeira vez por um Estado desde o começo do programa da austeridade.  O problema nào teria sido, porém o acordo, mas o fato de Tsipras não ter tido a verdade sobre seu caráter ruim e frágil, tentando vender uma vitória quando não o foi. A esquerda pode e deve fazer acordos. Porém no caso de Tsipras, Kouvelakis afirma que a direção de Syriza apaga as linhas que dividem o êxito do fracasso. Esclarecendo como um precedente histórico bem conhecido entre a esquerda, se o tratado de Brest-Litvosk – no qual se tiveram grandes perdas territoriais russas em troca da paz com Alemanha- fosse tomado como uma vitória pela direção dos Bolcheviques, é quase certo que o processo de Outubro teria sido derrotado.
Disse que a grande chance de Syriza é contar com uma cumplicidade do movimento de massas grego baseada na “única arma realmente revolucionária nesse momento, a verdade”. Foi aplaudido.
No dia seguinte, tomamos um café com Kouvelakis, discutindo, entre outros temas: a atual situação do governo e da esquerda grega; sua trajetória intelectual, militante e acadêmica; perspectivas de um trabalho comum e desdobramentos da conjuntura.
A situação grega, nas suas palavras, é muito complicada, muito difícil. O acordo foi ruim, não  pelos termos em si, mas pelo fato da inexistência do que ele chama de “Plano B”. Tsipras está com muitas dificuldades dentro de Syriza, ainda que conserve um alto nível de apoio popular. As mobilizações antitroika foram espontâneas levando centenas de milhares às ruas em duas ocasiões. Há um começo de recomposição do movimento operário, bastante golpeado após a sequencia de 12/13 e a canalização para a via eleitoral. Tsipras não pode reunir o comitê central porque pode ficar em minoria circunstancial. A antiga maioria, “Esquerda Unida” teve dissidências recentes e está fragilizada. Glezos, que não faz parte da esquerda, expressa a pressão para um plano B e por uma saída à esquerda de Varofakis. A plataforma “53”tem ganho deputados, aliados a Pf de Esquerda. A reunião da noite anterior do grupo parlamentar, onde reúnem também ministros, durou doze horas e a votação para aceitação do acordo teve mais de 40 votos contrario e algumas abstenções. Assim Tsipras não submeteu ao voto no parlamento o acordo, de forma direta.  Perdeu  votações importantes nesse espaço: o nome do líder conservador de ND para presidência- substituindo por uma figura de ND de viés mais democrático que se manifestou contrariedade em reprimir as manifestações de 2008. E a questão de submeter ao parlamento o voto do acordo. Há todo um debate sobre o item de privatização dos portos e relação com a China.
Essa linha tênue, com a qual Tsipras de move, pode abrir uma hipótese que Kouvelakis tem trabalhado: a possibilidade de Tsipras ser obrigado a rumar pra um plano B quando da renovação do acordo. E que na reunião do grupo parlamentar, Tsipras teria ficado para ouvir a exposição de Costas Lapavitsas, o principal economista marxista grego e deputado da Corrente de Esquerda, principal animador da tese de saída do Euro. Essa pode ser uma chance, segundo Kouvelakis. O ministro mais importante do governo, Lafazanis, já se manifestou contrário a qualquer política privatista ou concessão no terreno da energia, fazendo dessa “sua trincheira” desde o ministério. Tampouco, Gregos Independentes tem qualquer posição de recuo diante dos memorandos, sendo um partido de centro que também vai pressionar para sair do Euro,  provavelmente.  E Dristsas, ministro dos portos e da Marinha mercante vem se radicalizando na linha Lafazanis. Ou seja, a porta está aberta, apesar das enormes pressões e do peso que Tsipras vai adquirindo no movimento de massas, carente de qualquer solução mínima nos últimos cinco anos.
Quanto à política internacional, Tsipras e o Syriza também estão divididos. A secretaria de RI sofreu um corte, com o envolvimento cada vez menor de Costas Ishcos, por suas tarefas no Ministério da Defesa. Ele articulava com América Latina e com os BRICS. Porém a ala direita de Syriza domina as relações com a Europa, tensionando para uma saída de tipo social-democrata, menos “bolivariana”ou não alinhados. A saída de Costas desta tarefa e as dificuldades do governo Maduro deixam a esquerda de Syriza com pouca capacidade de articulação para ser consequente com o “Plano B’. A embaixada da Venezuela  que estava pronta para tomar vários temas de solidariedade concreta,  no ano de 2012, diretamente articulados com Costas, hoje pode oferecer pouco ou quase nada aos gregos. A relação com a Russia pode ser uma saída, fruto de contradições combinadas, porém, por ser um polo instável, não se pode amarrar o Plano B ao financiamento russo. Kouvelakis vê no Podemos e no Sinn Fein as duas esperanças de romper  o isolamento grego. Apesar do Syriza ver com alguma desconfiança a estrutura de Podemos, por vezes demasiado vertical e personalizada, bastante diferente da cultura grega de centenas de quadro de dirigentes que discutem a fio as mais importantes decisões. Também por isso, Tsipras e Syriza tem uma dupla aposta na Espanha: Iglesias e IU.
Contando da sua trajetória, Kouvelakis disse que saiu da Grécia no final dos ’80 para aproveitar a oportunidade de estudar filosofia na França, onde conheceu esposa e teve filhos. Estudou muito Sartre, Poulantzas, Althusser e a vertente filosófica da obra de Lenin. Pós-gradou-se  e foi convidado para dar aula na Kings College London, renomada universidade, dando classes de filosofia e teoria política.
Começou sua militância na juventude do Partido Comunista do Interior[eurocomunista], em seguida atuando em AKOA[Esquerda Comunista Ecológica]. É fundador de Syriza. Na França, fez parceira com Daniel Bensaid, que lhe trouxe elementos “valorosos” da tradição trotskysta, ficando como um eurocomunista num partido trotskysta e aderindo a seção de imigrantes da Liga Comunista Revolucionária.  Hoje é membro do Comite Central, simpatizante da IV e atua para fazer a ligação entre DEA- que tem peso no movimento sindical, é  a principal corrente trostskysta da Grécia, atua em Syriza e tem duas deputadas e o restante da Corrente de Esquerda- seus antigos camaradas da ala esquerda de Synapismos.
Escreveu diversas obras, quando falei que levamos Zizek pela FLC ao Brasil, informou que tem uma amizade com ele, apesar das inconstâncias políticas, e que escreveram  juntos um dos seus livros mais conhecidos sobre a atualidade de Lenin- em inglês, “Lenin Reloaded”.
Convidamos ele para falar no Brasil. Apesar da sua apertada agenda, confirmou sua vinda para Junho. Foi um gesto de modéstia. Como perspectivas imediatas, acha que se deve concentrar todas as forças na luta pelo Plano B, que ele vai dar uma batalha política junto a esquerda e outros setores de dentro e de fora de Syriza para “Um Novo Curso”, discutindo seriamente o que significa sair do Euro. E ver como as mudanças e o apoio no mundo e na Grécia abrem portas para essa nova situação. Uma queda de braço constante, ora mais velada, ora mais aberta com a troika, Alemanha e alguns país mais duros como Espanha e Portugal. E prestar atenção para que pode fazer a ala mais à direita dos países da UE como Finlândia e Áustria.  Ficou feliz em nos conhecer e da identidade entre nossas posições.  Houve um sentido comum, de solidariedade entre revolucionários e afeição politica.
A tarefa dos revolucionários é seguir apoiando desde dentro o processo, se vinculando com a esquerda radical grega, evitando o sectarismo das seitas e do estalinismo do KKE e as pressões oportunistas da burguesia e da social-democracia europeia.
Kouvelakis teve de voltar correndo para a reunião extraordinária do Comite Central de Syriza. E felizmente, nos respondeu com ótimas notícias. Em seu comunicado do dia 2.03, nomeado “Brilhante atuação da Esquerda no CC de Syriza”, informa que a proposta de resolução alternativa obteve 41% e a esquerda elegeu cinco cadeiras[num total de onze no novo secretariado executivo do Partido. A declaração da esquerda[resolução alternativa] é ponto de partida para armar o combate do próximo período
“A conclusão principal dos últimos desenvolvimentos é a necessidade, a qual é de importância decisiva para o curso que seguiremos, de que as decisões devam ser tomadas após uma discussão nas instâncias diretivas do partido, as quais têm, em conjunto com o partido e os organismos do Partido, que atualizar sua função e jogar uma papel de liderança no NOVO CURSO progressivo do nosso país”.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

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