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Dez anos depois de Dorothy, o latifúndio segue impondo terror no campo

*Max Costa

Há dez anos, a Irmã Dorothy Stang tombava como mais uma vítima do latifúndio no Brasil. Aos 73 anos, a religiosa, que já vinha sendo ameaçada de morte por conta de sua luta em defesa da Reforma Agrária, foi assassinada com seis tiros, nas primeiras horas da manhã do dia 12 de fevereiro de 2005, quando se dirigia a pé por uma estrada de terra a um assentamento na zona rural do município de Anapu, no sudoeste do Pará.

Foi mais uma morte anunciada, entre tantas outras que moveram e comoveram entidades nacionais e internacionais dos Direitos Humanos, mas que até hoje não moveram e tampouco comoveram as autoridades dos governos brasileiros. Pelo contrário. Dez anos depois do assassinato de Dorothy, os trabalhadores do campo ainda aguardam a Reforma Agrária, enquanto os latifundiários ampliaram sua influência no governo federal, sendo premiados pela presidenta Dilma com a nomeação de Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura.

A força do latifúndio se confirma com o crescimento de terras improdutivas no Brasil. No governo Lula (2003-2010), a quantidade de latifúndios aumentou quase 20%, passando de 58 mil para 69,2 mil propriedades improdutivas. O tamanho destas terras também aumentou, em um crescimento assustador de mais de 70%, saltando de 133 milhões para 228 milhões de hectares improdutivos. Os dados são do próprio governo, por meio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), e podem ser ainda maiores, se forem consideradas as subnotificações, haja vista que a estatística do órgão se baseia em autodeclaração dos proprietários.
Enquanto o latifúndio cresce, os números de desapropriações e de famílias assentadas diminuem no Brasil. O primeiro mandato de Dilma representou um retrocesso na luta por Reforma Agrária. Foram assentadas pouco mais de 75 mil famílias, números bem menores em comparação aos governos de Lula e até de FHC.

A intimidade do governo federal com o latifúndio e com a concentração de terras pode ser demonstrada, também, com o percentual de áreas ocupadas pelo agronegócio no Brasil. Enquanto a agricultura familiar, que é responsável por 70% dos alimentos que estão na mesa dos brasileiros, ocupa 24,3% do território, o agronegócio fica com 75,7% das áreas ocupadas, não chega a gerar nem 25% de empregos no campo e nem produz elementos básicos para o consumo alimentar do povo, contribuindo para a carestia de produtos alimentares, como a farinha de mandioca, tão comum e tão eficaz no combate à desnutrição, mas que em um período de crise econômica, tem ficado distante da mesa do brasileiro e do paraense.

As políticas agrária e ambiental do governo Dilma têm contribuído para que os latifundiários, a pistolagem e a grilagem continuem impondo o terror no campo e ceifando a vida de lideranças rurais. Somente em 2014, foram registrados 34 assassinatos no campo em todo o país, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Destes, 8 ocorreram no Pará, que continua sendo o Estado campeão de mortes no campo.

Assim como no caso de Dorothy, são mortes anunciadas, como a de Félix Leite, vice-presidente da Associação de Acampados Divino Pai Eterno, em São Félix do Xingu, que foi assassinado em julho de 2014, mesmo depois de ter registrado Boletins de Ocorrência sobre ameaças que vinha sofrendo, o que mostra também a conivência com a violência no campo por parte do governo estadual de Simão Jatene, na medida em que este coaduna com as políticas agrária e ambiental do governo Dilma e não garante sequer a proteção necessária aos ameaçados.

A história e os dados irrisórios apresentados pelo próprio governo indicam que a Reforma Agrária que o campo precisa, para por fim ao terror imposto pelo latifúndio, não virá dos palácios dos governos de Dilma e Jatene, e tampouco do Congresso Nacional dominado por ruralistas. Virá das ruas, das ocupações de terras, dos piquetes, bloqueios de vias e pressão popular. Em tempos de crise econômica e ambiental, não nos iludamos: o governo Dilma já escolheu seu lado, com Kátia Abreu, os latifundiários, o ajuste fiscal e o mercado. Então, reafirmemos o nosso, que é ao lado de Dorothy Stang, dos trabalhadores do campo e dos movimentos que lutam por Reforma Agrária.
Dorothy Stang, presente! A luta por Reforma Agrária segue!

* Max Costa é jornalista, mestre em Ciência Política, e é dirigente do MÊS e do PSOL/Pará.

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Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

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