Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

Começa o governo Marchezan Jr: o que esperar da “nova direita”?

 Julio Camara e Israel Dutra[1]
A posse dos novos prefeitos em todo país despertou menos expectativas e mais preocupações. O discurso quase uníssono foi do “equilíbrio das contas” e de que cortes serão feitos.  Aqui em Porto Alegre não foi diferente.
Nelson Marchezan Junior assumiu seu posto à frente do Paço Municipal para comandar a Prefeitura entre 2017 e 2020.  A vitória dos tucanos na capital gaúcha faz parte da coleção de prefeituras acumuladas pelo PSDB nas eleições mais recentes. Considerado o maior vencedor eleitoral de 2016, o PSDB agora governa sete capitais – São Paulo, Porto Alegre (RS), Maceió (AL), Manaus (AM), Belém (PA), Teresina (PI) e Porto Velho (RO).
Vencendo o 2º turno com mais de 60% dos votos válidos, Marchezan Jr não apresentou seu programa de caráter conservador. Apoiou-se num perfil e numa ideia de novidade, renovação que foi possível desvinculá-lo do que conhecemos do PSDB gaúcho – em especial da ex-governadora Yeda Crusius e a pecha corrupta. A falta de entusiasmo no segundo turno com Melo- marcado por denúncias baixas e ações policialescas denotou já fragilidade para o futuro governo tucano. O fato de que 30% no primeiro turno votaram buscando uma alternativa de esquerda aponta um vetor de resistência ao programa de Marchezan Júnior. O descontentamento com a falta de opção no segundo turno levou a um resultado onde o tucano não conseguiu somar mais votos que o bloco de nulos/brancos e abstenções.
A coligação de Marchezan Jr elegeu cinco vereadores. Desses, quatro são do PP e apenas um do PSDB. A oposição se configura com sete vereadores, 4 do PT e 3 do PSOL – Fernanda Melchionna como a mais votada da cidade iniciando seu terceiro mandato, Prof Alex Fraga reeleito e o primeiro mandato de Roberto Robaina.
A dificuldade de compor maioria na Câmara é real. Um reflexo disso foi a tentativa de votar a “reforma administrativa” no dia 22 de dezembro, antes da posse e de acertar a distribuição de secretarias e cargos no governo. Por manobra do PTB – que apoiou Marchezan no 2º turno e ampliou o enraizamento do tucano na cidade – a votação ficou para o dia 2 de janeiro.
A instabilidade da Câmara se aprofunda com a reeleição de Cássio Trogildo (PTB), vereador cassado por compra de votos que teve a posse permitida graças a uma liminar judicial. Por outro lado, também foi a justiça que segurou a patrola do PSDB e PTB e garantiu a presença da oposição na mesa diretora – empossando Professor Alex (PSOL) como 3º secretário da mesa diretora. A imprensa local especula sobre a tendência de vereadores que ou estavam no governo anterior ou não estão comprometidos com Marchezan formar um bloco independente que some maioria absoluta fazendo com que cada projeto exija mais da articulação do governo.
A falta de transparência nas contas da prefeitura permitiu que Marchezan antes mesmo da posse abusasse da política de especulação para desde já justificar sua política de ajuste. Foi público e acabou resolvido na justiça o desentendimento com o ex-prefeito José Fortunati (PDT) sobre a antecipação do IPTU com desconto para garantir o pagamento da folha de servidores sem atrasos. Inicialmente contrário ao desconto, o PSDB e seu único vereador entraram na justiça para impedi-lo. Tentativa infrutífera pois no final das contas, o desconto está valendo. As turbulências na transição das gestões e as diferentes versões sobre a situação das contas da Prefeitura alimenta o discurso “economizador” de Marchezan.

A natureza política do governo Marchezan Júnior

A cidade tem pela primeira vez desde a redemocratização um prefeito identificado nitidamente com ideias conservadoras. Ou seja, Marchezan Júnior é o primeiro prefeito de direita eleito por voto.
Durante a campanha, entretanto, seu programa não foi marcado por polêmicas de caráter mais reacionário, não expondo seu lado “duro”. Aproveitou a campanha para lidar com duas ideias centrais: a ideia do “novo” e da necessidade de “gestão” para resolver os problemas da cidade.
Seu perfil como candidato com uma “nova atitude” para um “novo tempo” desequilibrou a desvantagem da sua chapa não marcar forte presença nos cantos da cidade. A carência de base social popular, fracas relações com as comunidades e vilas da cidade foram uma marca da campanha e certamente será uma marca da sua gestão.
Não podemos criar expectativas desta gestão sobre as demandas dos setores populares da nossa cidade. O discurso de Marchezan hoje se faz mais honesto: cortar das áreas sociais e avançar nas medidas impopulares para governar Porto Alegre com mãos firmes apoiado em um programa neoliberal em tempos de crise aguda a exemplo dos governos Temer e Sartori.
O descaso com as demandas populares já se expressa na polêmica sobre o carnaval. Poucos meses antes do desfile, o prefeito anunciou que dinheiro público não será destinado a esta grande festa que tem sua cadeia produtiva e garante a renda de muitas famílias. Tal descaso vem disfarçado com a prioridade de investimentos na saúde e na educação, mas trata-se de uma economia pequena que não resolve os problemas das áreas sociais para evitar cortar nos privilégios do governo.
Por outro lado, a falta de quadros e um secretariado frágil – no sentido das articulações políticas somados a uma Câmara instável e confusa – não dão tranquilidade para que este programa seja implementado pelo prefeito que tem orgulho de ser “pavio curto”. De outra parte, o prefeito dialoga com setores ao nomear secretários com histórico progressivo diante da sociedade civil, como o caso de Alabarse na Cultura e mesmo o secretário de saúde.
Sem uma estratégia para aumentar a arrecadação e democratizar a distribuição, um governo sustentado por cortes será “vitorioso” se garantir a manutenção dos serviços atuais. Será impossível promover as mudanças que Porto Alegre precisa e que Jr prometeu.
Deste choque deve sair a resultante dos primeiros momentos do governo tucano em Porto Alegre.

Um governo com a marca elitista?

Desde 2015, o Parcão ganhou destaque por ser escolhido pela direita (PSDB/PP) para as manifestações em defesa do impeachment da presidente Dilma. Localizado no Moinhos de Vento, o bairro com o metro quadrado mais caro da cidade, o Parcão virou palco de políticos de direita como o próprio Marchezan e por ali se alimentou a ideia de um governo para poucos se contrapondo à políticas sociais como o Bolsa Família.
A questão que fica é que até que ponto Marchezan Júnior conseguirá alargar sua base social, para além o Parcão? Esse será seu teste para viabilizar o apoio a seus projetos. Por outro lado, bases sociais que vem se forjando nas lutas da cidade podem encaminhar-se à radicalização no contraponto às políticas elitistas de Marchezan.
Conseguirá Marchezan Júnior articular um campo consistente para construir uma hegemonia sobre toda a cidade, num período de crise fiscal?  A experiência de Macri- de “revolução de gestão”, da nova direita argentina começa a fazer água e já está sendo contestada.
Qual o impacto de sua relação com um governo odiado pelo funcionalismo público como Sartori? A posição dos tucanos na questão do pacote na Assembleia Legislativa foi categórica a favor do arrocho e do desmonte do serviço público.
É chave para o PSDB, num bloco onde tem o PTB como linha auxiliar, fortalecer um campo com as prefeituras de Porto Alegre, Pelotas, Santa Maria, Viamão, Canoas e Novo Hamburgo para construir uma alternativa da ‘nova direita’ no âmbito estadual. Se cogita como parte desse novo grupo de jovens líderes o ex-prefeito de Pelotas, Eduardo Leite, encabeçando uma via de direita para a sucessão do Piratini. Para tanto, o êxito em Porto Alegre é uma condição importante, como modelo do ajuste.

Organizar resistências

O funcionalismo público já derrotou o novo prefeito defendendo o desconto do IPTU para garantir os próximos pagamentos. Marchezan já disse que atrasar os salários é questão de tempo. Aí talvez esteja posta a primeira queda de braço na Porto Alegre pós 2016. A luta por moradia vem se fortalecendo e as ocupações urbanas não demonstram vontade de recuar diante do novo governo. O problema urbano, as características que fazem de Porto Alegre a capital mais segregada do Brasil, as demandas por serviços públicos de qualidade e valorização os moradores da cidade vão se impor com força contra Marchezan e seu modelo neoliberal de cidade.
A miríade de movimentos sociais que se articula na cidade precisa seguir defendendo os direitos conquistados e lutando contra o ajuste. A recente articulação dos setores do carnaval para defender a existência dessa festa popular e de rua serve como um bom exemplo.
Se ventila um aumento da tarifa do transporte público para o mês de fevereiro. A experiência de 2016 com a luta popular e a ação judicial do PSOL que congelou por quase um mês o preço da passagem ainda está na memória de amplas parcelas da população.
A bancada do PSOL na câmara- Fernanda, Roberto e Alex- vai alimentar e estimular a marca dos tribunos populares para colocarem seus mandatos como caixa de ressonâncias das demandas da classe trabalhadora e da juventude.
É tempo de organizar resistência para derrotar a nova direita na cidade.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

Leon Trotsky Joseph Stalin