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China: APÓS CHOQUES DO MERCADO DE AÇÕES, UM SISTEMA QUE SE ROMPE

Por CHARLES-ANDRÉ UDRY

Segundo as autoridades chinesas, o 13º plano quinquenal – discutido “publicamente” em outubro de 2015 na ocasião do 18º Comitê Central do Partido Comunista Chinês (PCC)- devia assegurar um crescimento de, ao menos, 6,5% para o período 2016-2020. Oficialmente – se as cifras publicadas não tiverem sido elaboradas a olho-, o crescimento se situa abaixo de 7% (6,9% segundo o People’s Bank of China) em 2015, a taxa mais baixa há mais de 25 anos. Os especialistas não chineses estimam que 4% é o máximo para 2015. Assim pois o PCC registrava e certificava o retrocesso do crescimento em seu 13º Plano quinquenal.

As estatísticas “autorizadas” pela direção do PCC indicam um crescimento dos serviços no PIB. Mas sobre este tema há uma interrogação: o setor de serviços é arrastado, entre outros, pelo setor imobiliário. Pois bem, neste setor se manifesta uma gigantesca crise de superprodução, que logicamente vem acompanhado de um endividamento local, estadual e central intimamente conectado à “indústria” da corrupção. Os dados sobre a importância crescente dos serviços são também o produto de uma atividade
do mercado de ações e financeiro desenfreada que recebeu uma primeira desaceleração no terceiro trimestre de 2015 ao estourar a bolha do mercado de ações.

Vão ser mantidos os investimentos em transporte, educação, saúde – o chamado reequilíbrio entre industria e “serviços” – na medida em que esta categoria tenha um sentido? Já o veremos, pois se trata de investimento, em grande parte, em capital fixo.

Na indústria as supercapacidades de produção também são massivas e andam de mãos dadas com a baixa dos preços da produção manufaturada, apesar da pressão salarial para cima (relativa) em certas regiões. Sem dúvida, são os setores industriais nos quais o Estado está muito presente (aço, cimento, máquinas, etc) os mais afetados pela recessão. Um número crescente destas unidades está, de fato, quebrando – um déficit reconhecido de anos – e são mantidas pelo pulso pelo sistema bancário administrado. Sobre empresas como as de reciclagem ou automotivas, o efeito da desaceleração da economia mundial, registrado em 6 de janeiro pelo FMI, vai ter um efeito recessivo. A superprodução estrutural no ramo automobilístico não deixa de manifestar a escala internacional, e o assunto está classificado, desde este ponto de vista, em termos descendentes. A desaceleração das exportações chinesas, diferentes segundo os setores, aparece tanto nos dados da CNUCED como da OMC, tanto em valor como em volume, no primeiro semestre de 2015, em relação à dinâmica do comércio mundial. O mesmo ocorre com as importações. Baixaram mais de 15%, o que os países exportadores de matérias-primas, como o Brasil ou Argentina, experimentam como um choque.

No futuro certamente aparece a falta de dados confiáveis para os investidores centrados nas finanças comerciais. A isto se acrescenta a final- previsto para esta semana, mas que pode ser revisado- as normas de intervenção no mercado de ações. Daí a precipitação para se livrar de ativos ou de jogar para baixo para os especialistas da “antecipação de quem dispõe de informação privilegiada”.

Mas no plano político – pois se trata de economia política – está aparecendo uma crise de direção em potencial. Xi-Jinping – como figura da direção centralizada do PCC, o que não quer dizer que controle todo o gigantesco aparato, inclusive com a ajuda decisiva da cúpula do exército – deve, por sua vez, realizar “ajustes” que vão provocar feridas sociais intensas em uma base social que não passeia pelos Campos Elíseos ou em Genebra mas que é suscetível de numerosas revoltas. E para ela, o nacionalismo conquistador e gritão não alimenta suas necessidades sociais cotidianas. E os pequenos investidores da bolsa não são tão numerosos, e se transformaram em pequenos grandes perdedores.

Para evitar estes enfrentamentos sociais, a manutenção do “controle administrativo” – dito de outra forma, camuflar a crise de superprodução de múltiplas facetas com injeções de créditos com o objetivo de manter mais empregos setoriais e regionais – deve permanecer. Mas a pressão para impor um ajuste estrutural, afim de modificar mais fundamentalmente as relações entre a acumulação “liberada” do capital e o poder, se faz sentir nas ligações de transmissão entre o capital privado, ou que pode chegar a ser – desde os escalões ocupados pela burocracia celeste – e o aparato dirigente do partido.

Uma resposta autoritária é algo que não se pode excluir. Foi realizado em Hong Kong, onde a empresa “privada” Alibaba colocou a mão sobre a South China Morning Post e onde “desapareceram”, sem deixar pegadas, os editores de livros críticos contra o regime de Pekin. Concluindo, não se trata portanto de uma questão de operação de valores, mas de um processo muito mais fundamental, no qual está em jogo também o lugar do renminbi (yuan) em posições concorrentes (conflitos interimperialistas) em um sistema monetário internacional no qual a economia dos Estados Unidos se volta para a Asia-Pacífico, onde se encontra com o capitalismo chines. A desvalorização do Yuan (renminbi) em 5% em uma semana faz parte desta gigantesca batalha.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

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