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Che Guevara, herói e mártir da revolução permanente (*)

No aniversário de sua morte

(*) Este foi o título do artigo que Nahuel Moreno escreveu conhecida a morte do Che na Bolívia

Detido na selva e encarcerado em uma escola no povoado “Las Higueras”, El Che foi executado pelo exército de Barientos, quase com certeza por ordens dos EUA que colaboraram com sua localização. Depois de seu assassinato, a foto de Che postrado numa cama de pedra percorreu o mundo como uma prova do fracasso dos revolucionários Latino Americanos nos anos setenta e de sua luta armada. Mas, sabemos que não foi assim. Porque a partir de então El Che converteu-se em herói, suas fotos aparecem em todas as grandes mobilizações que desde então percorrem o mundo.

Um ano depois de ser morto acontecia o maio francês e uma situação revolucionária ou pré revolucionária ganhava força em muitos países do mundo. Agora no século XXI vivemos a primavera árabe e uma série de revoltas; tem atualidade lembrar ao Che como herói e mártir da revolução permanente. Na luta cada vez mais internacional até que os trabalhadores e o povo assaltem as grandes fortalezas (cada vez mais débeis) do imperialismo.

O Che é um herói da revolução permanente porque acreditava que se tinha que estender a revolução cubana em nosso continente e no mundo, em particular acreditava ele, na conjuntura que vivia, nos países subdesenvolvidos. Uma de suas frases que voltou-se histórica foi seu discurso na reunião da Tricontinental. Dizia:

           “Façamos dois, três, muitos Vietnam”. “En definitiva, hay que tener en cuenta que el imperialismo es un sistema mundial, última etapa del capitalismo, y que hay que batirlo en una gran confrontación mundial. La finalidad estratégica de esa lucha debe ser la destrucción del imperialismo. La participación que nos toca a nosotros, los explotados y atrasados del mundo, es la de eliminar las bases de sustentación del imperialismo: nuestros pueblos oprimidos, de donde extraen capitales, materias primas, técnicos y obreros baratos y a donde exportan nuevos capitales -instrumentos de dominación-, armas y toda clase de artículos, sumiéndonos en una dependencia absoluta”.

O Che deu o exemplo! Deixou o Ministério da Economia Cubana para ir  lutar primeiro ao Congo na  África, e depois à Bolívia.

Acreditar que a revolução é permanente e internacional, é o essencial do pensamento revolucionário. Sua formulação mais conhecida é a que dz Leon Trotsky combatendo a Stalin. Enquanto este defendia o “socialismo em um só país” Trotsky acreditava na extensão da revolução russa, seu aprofundamento ao interior da mesma Rússia, e sua extensão no terreno internacional. Nas épocas duras de auge do estalinismo, os reformistas e os seguidores de Stalin em todo o mundo utilizavam este conceito para desprestigiar ao trotskysmo, dizendo que queremos a revolução em todos lados. Sim, a queremos!, e seguimos acreditando nisso. Acreditamos que as palavras do Che foram sábias. Quando o imperialismo vive sua fase de mundialização neoliberal, de maior concentração do capital, de financeirização e decadência, como dizia o Che a revolução será mundial ou não será, será permanente ou não será. A revolução cubana e o Che tem o grande mérito de recolocar este tema na década setentista, quando reinava o pensamento estalinista do “socialismo em um só pais” e a coexistência pacífica.

Na verdade é um conceito universal do marxismo que o Che retomou. Quem primeiro formulou esta ideia foi Marx escrevendo sobre a revolução permanente em sua famosa carta ao Comitê Central da Liga dos Comunistas da Alemanha em 1850 no qual referia-se a revolução de 1948 a nova e possível revolução. Vale a pena lembrar o que dizia:

“Ao passo que os pequeno-burgueses democratas querem pôr fim à revolução o mais depressa possível, realizando, quando muito, as exigências atrás referidas, o nosso interesse e a nossa tarefa são tornar a revolução permanente até que todas as classes mais ou menos Possi dentes estejam afastadas da dominação, até que o poder de Estado tenha sido conquistado pelo proletariado, que a associação dos proletários, não só num país, mas em todos os países dominantes do mundo inteiro” (Sublinhado nosso)

As “teses de Abril” de Lenin são a essência desta política, quando coloca como tarefa superar o governo provisório, pô-lo contra as cordas, desenvolver o poder dos soviets para a tomada do poder na Rússia. Mas foi conseqüência desde antes, aliás desde seu trabalho sobre o imperialismo e sua tese sobre a situação revolucionária europeia em 1915 depois do começo da primeira guerra mundial. Lenin acreditou na revolução socialista como um processo mundial, ou melhor dito, em toda Europa, nessa época coração do mundo. Assim concebeu a tomada do poder na Rússia como o primeiro passo da revolução permanente, ou seja a revolução na Alemanha e na Europa. Nisto não tinha nenhuma diferença com Trotsky embora Trotsky tenha ficado com a tarefa de desenvolver o conceito de forma mais acabada perante a teoria do estalinismo.

O Che um herói, mas também um mártir

Porque o Che Guevara foi não só heroi e sim também mártir da revolução permanente? Porque morreu por ela. Foi lutar na  Bolívia para extender a revolução cubana. Mas é também um mártir dela por outros dois motivos.  Um primeiro e bastante conhecido é o problema que teve, lendo o mesmo diário do Che, da traição que sofreu do partido Comunista da Bolívia que restou todo apoio a sua guerrilha. A história do Che na Bolívia está cheia de contradições, mas uma delas, e a mais sinistra, é a sabotagem que sofreu por parte da direção do Partido Comunista Boliviano, que retirou todo apoio quando ele desembarcou com seu grupo de guerrilheiros na serra do Beni.

Mas também nosso Che terminou sendo mártir porque morreu defendendo e praticando uma guerrilha que mostrava a concepção unilateral que tinha da revolução permanente e a luta armada. A revolução cubana tem feito um grande aporte à luta revolucionária latinoamericana incorporando como método revolucionário a luta armada antes da tomada do poder, saindo desta maneira do modelo russo. Mas trasformou este método na única estratégia para fazer e extender a revolução. Isto significou também não fazer a distinção entre luta revolucionária armada de massas, dos exércitos de libertação nacional com apoio de massas como aconteceu na China, mesmo em Cuba e depois no Vietnam ou mesmo antes na Yugoslavia.

Vietnam e seu método de luta de libertação nacional contra o exército dos EEUU foi um avanço colossal da revolução no mundo, que fez tremer ao imperialismo. Mas quando dizemos que para o Che a luta armada era repetir mecanicamente a forma como ele e Fidel tinham feito em Cuba: o foco guerrilheiro, o seja que bastava um grupo de revolucionários decididos para iniciar a luta armada e de essa maneira se iam criando as condições para estendê-la, criar um exército e tomar o poder. Em Cuba esse grupo empalmou com o campesinato pobre sem terra e permitiu construir um movimento de massas. Mas não foi assim na Argentina, Paraguai, Perú, Venezuela e outros países latinoamericanos.

Como comentávamos no texto de “Cinquenta anos de lutas e revoluções na América Latina”, “a pesar de que em Cuba já tinha começado o processo de assimilação dos revolucionários ao aparelho estalinista da Rússia, o Che fiel aos seus princípios, com um pequeno grupo de militantes revolucionários cubanos, foi fazer a guerrilha na Bolívia. Che, como um bom revolucionário internacionalista, elege o país mais apropriado, de mais tradição revolucionária que, como vimos, havia, pela primeira vez desde 1952 através do golpe de Estado de Barrientos, entrado nas minas, mas não esmagado os mineiros.

Essa atitude corajosa e revolucionária de Che não pode ocultar o fato de que aplicou e ficou prisioneiro de seu método de guerra de guerrilhas, isolado do contexto político e social de cada país. Por isso em Bolivia elegeu a zona mais despovoada, com pouquíssimos camponeses e nenhuma tradição revolucionária (a zona amazônica de Beni), longe dos focos da revolução camponesa do planalto (Cochabamba) e das regiões mineiras de Oruro e Huanuni. Isto se soma a tragédia de ter sido traído pelo Partido Comunista Boliviano”.

Um revolucionário que enfrentou a burocracia e que é um exemplo de moral

Mas ficaríamos curtos na homenagem ao Che sem reivindicar sua luta contra a burocracia. Bastou ao Che ir a Rússia para perceber o que era a burocracia, sua casta, seus privilégios, suas chantagens a revolução cubana que estão explicitados em seus escritos. Essa burocracia em seus métodos e forma de vida não tinha em essência muita diferença com o curso que em um processo de vários anos, sofreu o PT. Olhando agora para José Dirceu, ou mesmo Lula como tantos outros petistas transformados em gerentes com ligações orgânicas com as grandes empresas poderemos compreender melhor o alto valor do Che, Ministro de Indústrias no melhor momento da planificação da Economia cubana e meses depois lutando no Congo e na Bolívia. Que diferença! Que mérito histórico que nos deixou o Che!.

Embora tenhamos diferenças com suas políticas, estas se fazem pequenas ante seus grandes legados, de uma vida entregue à revolução que acreditava.

Que exemplo para nossa juventude! Não se trata de sair a pegar armas e lutar contra este regime corrupto instalado no Brasil e seus partidos políticos. Trata -se de ter a mesma determinação política moral que o Che tinha para agora enfrentar os aparelhos, os burocratas, este capitalismo de umas poucas famílias que dominam bancos, empreiteiras e corporações, este capitalismo corrompido desde suas raízes. Seguramente se o Che vivesse, estaria de nosso lado, do lado dos indignados, dos revolucionários, longe dos Dirceus, Lula e Cia.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

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