Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

A vitória de Syriza, seus desdobramentos para a esquerda socialista e os desafios abertos no próximo período

Thiago Aguiar (o documento reflete as posições do Movimento Esquerda Socialista)*

A vitória de Syriza na eleição grega de 25 de janeiro abriu uma nova situação política na Europa com desdobramentos para a esquerda socialista em todo mundo. Por ser a primeira vitória de um partido à esquerda da social-democracia e dos partidos comunistas em décadas, pelo enfrentamento que representa à Troika e à política de ajuste na Europa e pelas primeiras medidas anunciadas pelo governo de Alexis Tsipras, Syriza tem sido objeto de grande atenção e esperança das massas europeias, do ativismo social e da vanguarda lutadora em todo o mundo. Por tudo isto, as decisões tomadas pelo novo governo grego daqui para frente terão enorme importância e é dever da esquerda socialista acompanhá-las e debatê-las.
Nossa corrente, o MES, tem mantido relações próximas com Syriza há muitos anos. A coalizão da esquerda radical grega representa um tipo de projeto de reagrupamento de tradições e organizações socialistas e revolucionárias com o qual temos identidade. Passada a eleição, acompanhada em Atenas por militantes de nossa corrente internacional, e o correto ânimo mundial trazido pela vitória de Syriza, é preciso começar uma série de discussões a respeito da política do partido, de suas tensões internas, dos desafios que se abrirão e dos limites que se revelarão no enfrentamento à Troika.

Cinco anos de austeridade representaram a recessão da economia grega em 25%, cifra maior do que a encontrada na Europa após os anos de II Guerra Mundial. O desemprego massivo, de 26% em média e de dramáticos 60% na juventude, e os cortes nos salários, aposentadorias e nos serviços públicos ocasionaram um dramático ataque ao nível de vida do povo grego para garantir os pagamentos ao sistema financeiro internacional. Os empréstimos da Troika, condicionados pelos planos de ajuste, foram canalizados diretamente para o pagamento dos banqueiros e aumentaram o endividamento do país, que alcança hoje 177% do PIB. Por tudo isso, a resistência dos trabalhadores, da juventude e do povo grego foi feroz: no período, realizaram-se 23 greves gerais, algumas de 48 horas; um movimento de juventude com inspiração nos “Indignados” emergiu com força em 2011; marchas rumo ao parlamento passaram a ser parte do cotidiano.

Nesse processo, Syriza aos poucos ganhou a confiança das massas. A princípio uma frente eleitoral, criada em 2004 e composta por 13 organizações de diferentes tradições (comunistas, maoístas, trotskistas, ecossocialistas e nacionalistas de esquerda), em 2013 tornou-se um partido impulsionado pelos fortes resultados da eleição de 2012, na qual Syriza obteve quase 27% dos votos e tornou-se, sob a liderança de Alexis Tsipras, a principal força de oposição ao governo de Samarás, comandado pelos conservadores da Nova Democracia em aliança com a social-democracia falida do PASOK.

Tendo partido de um patamar de 4% dos votos quando surgiu, o que explica seu vertiginoso crescimento eleitoral, especialmente a partir de 2009, foi a intensa participação no conjunto de greves e lutas contra o ajuste, o apoio ao movimento das praças, o chamado a um governo da esquerda antiausteridade e a atuação parlamentar contra os governos do ajuste (Papandreu, Papademos e Samarás). Na contramão desta política, o partido comunista KKE, que costumava encabeçar as votações da esquerda radical e com considerável presença no movimento sindical e estudantil, desenvolveu uma política sectária: em vez de participar das greves gerais e de suas marchas em frente única, sempre organizou colunas apartadas e muitas vezes a quilômetros de distância de onde se concentravam milhares de trabalhadores e jovens em luta; virou as costas ao movimento das praças, acusando-o de “pequeno-burguês” e despolitizado; ao chamado de Syriza a um governo da esquerda antiausteridade, sempre respondeu negativamente, buscando de modo oportunista conservar seu espaço eleitoral a despeito da retórica esquerdista.

A vitória eleitoral e os primeiros dias de governo

Quando foram convocadas eleições para janeiro de 2015, o apoio a Syriza apareceu desde as primeiras pesquisas. O partido havia conseguido simbolizar a antítese ao velho bipartidarismo que ruiu quando seus protagonistas uniram-se na defesa da austeridade. Desde o ápice das lutas de rua contra a Troika, em 2012, o cansaço da vanguarda, do movimento sindical (que sofreu com os ataques às leis trabalhistas e com o alto desemprego) e da juventude (com altas taxas de emigração por conta do desemprego) revelou-se num refluxo dos movimentos sociais e numa canalização da indignação para a via eleitoral, através do voto em Syriza.

Este, aliás, é um dos primeiros desafios abertos ao novo governo e ao movimento social organizado. O primeiro necessita da pressão popular para enfrentar a sabotagem interna (a resistência patronal ao aumento do salário mínimo e ao retorno à legislação trabalhista pré-austeridade é enorme) e demonstrar força à burguesia europeia. O movimento social e a classe trabalhadora, por sua vez, terão de mobilizar-se para garantir que o programa antiausteridade seja executado e combater as vacilações e hesitações no núcleo do governo. Syriza não é majoritário no movimento sindical, apesar de avanços recentes e de ter recebido amplamente o voto da classe trabalhadora. As duas principais centrais sindicais, ADEDY (do setor público) e GSEE (dos trabalhadores da iniciativa privada) têm em seus sindicatos grande presença do PASOK e do KKE, que têm feito esforços para adiar eleições sindicais e impedir burocraticamente mudanças no comando das entidades.

A campanha de Syriza enfatizou a busca pela maioria eleitoral absoluta. Sabendo que o chamado a um governo da esquerda antiausteridade não se realizaria (as pesquisas mostravam que Antarsya e Dimar estariam fora do parlamento e KKE negava-se terminantemente), Tsipras em seus discursos apontava a necessidade de que o povo permitisse a Syriza ter a maioria absoluta das cadeiras para poder revogar as medidas de austeridade e renegociar a dívida. A apuração foi tensa. Ao final, com cerca de 36,4% dos votos, Syriza obteve 149 cadeiras, duas a menos do que as 151 necessárias para a maioria absoluta.

Pelas regras do parlamentarismo no país, se Syriza não pudesse formar o governo, haveria um chamado ao segundo colocado (Nova Democracia) e então ao terceiro (os neonazistas do Aurora Dourada!) para formar governo, o que, se não ocorresse, seria seguido da convocação de novas eleições. Não querendo assumir tais riscos, Syriza, no dia seguinte à eleição, reuniu-se com o partido de direita nacionalista antiausteridade Gregos Independentes (em grego, ANEL) e este anunciou sua disposição de compor o governo, imediatamente empossado. Muitos observadores, mesmo dentro de Syriza, manifestaram a opinião de que seria melhor abrir mão de compor governo e aguardar que o segundo e o terceiro colocado não conseguissem fazê-lo para então pedir um voto de confiança ao parlamento e organizar um governo de minoria. Tal posição, no entanto, parece mais wishful thinking do que uma possibilidade real apresentada. A escolha traria semanas de paralisia política e revelaria fragilidade do Syriza justamente no momento em que é preciso iniciar o governo demonstrando força perante a Troika. Além disso, daria a oportunidade de que Nova Democracia tentasse reorganizar-se ou, o que é pior, levaria Aurora Dourada à posição impensável de protagonista dos rumos políticos do país ao conceder-lhe mandato para formar o governo. A questão, portanto, é bastante complexa e o essencial é que outro caminho (tentativa de governo de minoria ou novas eleições) poderia virtualmente conduzir Syriza à derrota.

É evidente, contudo, que a presença de ANEL é uma grande contradição para o governo, já que pode atuar como elemento de desestabilização permanente no gabinete, por exemplo, por sua agenda contrária à ampliação de direitos para imigrantes. O anúncio por parte do novo governo da garantia de nacionalidade grega para os filhos de imigrantes, uma velha reivindicação, mostra, porém, que há disposição do Syriza de levar adiante o programa pelo qual foi eleito. A própria composição do governo traz alento: se Panos Kamenos, líder de ANEL, é o novo ministro da Defesa, ao mesmo tempo Tsipras indicou Costas Issychos – antigo militante comunista argentino-grego e dirigente da Corrente de Esquerda – como ministro-adjunto, uma espécie de contrapeso da direita nacionalista no ministério.
Após uma posse marcada pelo fim do juramento religioso e pela homenagem de Tsipras aos mártires comunistas da resistência ao nazismo, a primeira semana de governo trouxe o anúncio de medidas importantes do ponto de vista simbólico e concreto: o ministro da Economia, Yanis Varoufakis, na presença do representante do Eurogrupo, deslegitimou a Troika e anunciou que esta não seria mais uma interlocutora do governo grego; o salário mínimo retornará ao patamar anterior ao ajuste; a tevê estatal fechada por Samarás será reaberta; serão recontratadas as trabalhadoras da limpeza do parlamento acampadas desde que foram demitidas; por fim, as privatizações da companhia elétrica e do porto de Pireus foram revertidas e 300 mil famílias sem condições de pagar pela energia necessária à calefação terão gratuidade nas contas. As últimas duas medidas foram anunciadas por Panagiotis Lafazanis, a quem coube o superministério responsável pela Produção, Infraestrutura, Indústria, Desenvolvimento e Energia. Lafazanis é o principal dirigente da Plataforma de Esquerda interna ao Syriza, sobre a qual se falará mais abaixo.

As duras pressões sobre Syriza e a política de Tsipras pós-eleição: como lidar com a questão da dívida?

A campanha de Syriza na eleição de 2015 tinha como eixos a reversão da crise humanitária e o fim dos planos de ajuste. Buscando uma posição crível de governo, Tsipras colocou acento, em seus pronunciamentos e no “Programa de Tessalônica”, na necessidade de resolver as questões mais sentidas pelo povo: o alto desemprego, a emigração da juventude, a tragédia dos suicídios e do sofrimento com a falta da calefação, o rebaixamento salarial e o ataque às aposentadorias. Certamente, propor saídas a respeito destes temas é um dever de quem se propõe a governar para o povo, recuperar a soberania e a capacidade de investimento do Estado, sequestrado pelo capital financeiro e pela Troika. Tsipras apontou logo após o anúncio da vitória que o resultado das urnas indicava o fim da austeridade pela decisão do povo grego.

É preciso ser dito que Tsipras tem qualidades extraordinárias como líder, para além do evidente carisma. Formado no calor das lutas da juventude, militante desde a adolescência, quando foi parte dos quadros do KKE, ele esteve envolvido desde o início no projeto do Syriza. Sua experiência e cultura militante podem permitir-lhe traduzir uma combinação de forças que leve o processo mais longe do que um governo que se mantenha nos marcos do capitalismo.
No entanto, a questão fundamental por trás da austeridade é a dívida que sufoca o país. A respeito dela, há um grande campo de incertezas no discurso do primeiro-ministro e da maioria partidária. Dias antes da eleição, Tsipras publicou em Financial Times, o diário da City londrina, um artigo em que manifestava sua intenção de respeitar os tratados europeus e buscar uma saída negociada para a dívida grega, nos marcos de que esta seria a única forma de respeitar a democracia na Grécia e na Europa. A posição do governo, agora, está centrada na exigência de que se realize uma conferência sobre a dívida grega e europeia semelhante à realizada em 1953, quando as dívidas alemãs foram canceladas. Para defender sua proposta, Tsipras levanta vários argumentos justos, como o cancelamento em 1953 da dívida que a Alemanha tinha com a própria Grécia, fruto do saque ao Banco Central grego durante a invasão nazista.

Nem Tsipras nem os militantes da maioria de Syriza oferecem uma posição clara sobre a pergunta mais importante: e se a Troika, com Merkel na vanguarda, não aceita uma conferência sobre a dívida e sua renegociação? A intransigência alemã tem sido manifestada permanentemente por ministros e pela própria Merkel, que anunciou recusar uma reunião bilateral com Tsipras, antes mesmo de que esta tenha sido solicitada pelo novo governo grego.
Ao mesmo tempo, parece haver contradições no interior da burguesia e dos governos europeus – como mostram as divergências sobre o plano de compra de títulos conduzido por Draghi no BCE, artigos do próprio Financial Times nos últimos dias posicionando-se a favor de uma renegociação das dívidas em troca de “reformas estruturais” e a posição expressada por economistas como Paul Krugman sobre a impossibilidade da manutenção da política de austeridade – sobre qual é a melhor alternativa para superar a crise econômica na Europa e resolver o impasse causado pela austeridade. Tsipras parece querer jogar no interior destas contradições e forçar uma renegociação que permita à Grécia ampliar investimentos e reaquecer a economia.

Seus compromissos de mover-se no interior dos tratados europeus e das possibilidades de negociação, no entanto, como mostra Stathis Kouvelakis (professor marxista do King’s College, membro do comitê central de Syriza e da Plataforma de Esquerda) em entrevista para a Jacobin Magazine, retiram muitas das possibilidades em jogo para enfrentar a austeridade, ao mesmo tempo em que contrariam várias resoluções do próprio partido sobre a necessidade de armar o Syriza, o governo e o povo com todas as possibilidades que estejam presentes frente ao cerco e às pressões do capital financeiro e da Troika, que já começaram.

Parece evidente, por outro lado, que enquanto Merkel e seu governo dão declarações intransigentes sobre a manutenção estrita dos planos de ajuste tal como foram assinados pelos governos gregos em anos recentes, um setor da burguesia europeia parece estender pontes na tentativa de buscar uma via conciliatória para Syriza. Estas tentativas encontram eco em setores da maioria do partido e do governo.

O fato é que o cenário ainda é nebuloso e aberto. A vitória de Syriza desestabiliza a União Europeia e a Troika, o que torna arriscada uma saída negociada com algum nível de concessão por parte do capital financeiro, já que isto poderia inaugurar um efeito dominó com grandes consequências para o sul da Europa, a Irlanda e talvez até para a França. Daí a posição de força da Alemanha. Como destacou corretamente o historiador Henrique Carneiro, caso a Troika não ceda, “não adianta sequer haver no Syriza a intenção de capitular, porque dificilmente haverá concessão que permita isso. Não querem nenhum exemplo de fraqueza diante da negociação da dívida dos demais países”.
De todo modo, o que pretendemos indicar aqui é que as posições dúbias de Tsipras e da direção do Syriza sobre o tema da dívida mostram que há alguma disposição para um acordo com a Troika que, mantendo a dívida, permita ao Estado grego melhores condições de investimento e a retomada do crescimento. Este caminho não resolveria os dilemas abertos pela austeridade e poderia mesmo colocar em risco a esperança depositada por milhões na esquerda radical grega, abrindo espaço para que alternativas como Aurora Dourada levantem a cabeça.

O cenário de indefinição, por sua vez, pode trazer um impasse e uma pressão tão forte que leve o governo grego a atuar num contragolpe, mesmo que ganhando algum tempo com as negociações. Esta possibilidade, talvez a única que permita liquidar o ajuste, só pode vencer com grande mobilização popular na Grécia, solidariedade da esquerda socialista e novas alternativas antiausteridade ganhando força na Europa. Este caminho, uma espécie de frente única soberanista e antiausteridade, seria um duro golpe na Troika e nas instituições europeias a serviço do capital financeiro. Ao mesmo tempo, aprofundaria a crise econômica, já que a resistência à austeridade e o ataque à política da dívida choca-se diretamente com as exigências do capitalismo neste período.

A relação entre partido e governo

Dentro do Syriza não há consenso sobre o modo de enfrentar a dívida e os planos de austeridade. O partido possui muitas tendências internas e deve ser aberto a partir de agora um período de grandes disputas sobre os rumos do governo. Em julho de 2013, a unificação da antiga frente eleitoral em partido Syriza ocorreu em meio a grandes divergências e disputas internas, que giraram ao redor do debate programático, da política das alianças e do funcionamento interno do partido: Tsipras e o grupo que se tornou majoritário no congresso (que envolve a maioria do antigo partido Synaspismos – oriundo de eurocomunistas e dissidentes do KKE –, a organização ex-maoísta KOE, grupos ecologistas, nacionalistas de esquerda e figuras que romperam com PASOK) pretendiam impedir a existência de tendências internas no Syriza, o que iria contra as próprias origens do partido, uma confluência de distintas organizações e tradições.

A tentativa de dissolver os grupos internos foi derrotada após uma dura luta política. Ao final, o congresso de fundação também assistiu ao nascimento de duas grandes plataformas que referenciam os cerca de 40 mil filiados do partido: de um lado, o bloco da maioria, ao redor de Tsipras; de outro, a Plataforma de Esquerda, composta majoritariamente pela Corrente de Esquerda (uma corrente do antigo partido Synaspismos, formada principalmente por militantes comunistas que romperam com KKE em 1991) e por dois grupos trotskistas que recentemente se fundiram – DEA, relacionado à ISO dos Estados Unidos, e Kokkino, uma organização observadora do Secretariado Unificado da Quarta Internacional.

A Plataforma de Esquerda, plural em sua composição, reuniu 30% do partido no congresso de 2013 e elegeu cerca de 25 deputados na eleição de 2015. O mencionado ministro Lafazanis é o principal dirigente e figura pública da Plataforma de Esquerda, como também Costas Issychos, o mencionado ministro-adjunto da Defesa. Ambos são oriundos da Corrente de Esquerda.

Com efeito, há diferenças de opinião quanto aos rumos do governo para além destas duas grandes plataformas. Stathis Kouvelakis, na já citada entrevista, descreve divisões internas no bloco da maioria, ao redor do funcionamento partidário. Como pano de fundo, está a discussão sobre a centralização das decisões do partido por Tsipras, o que provavelmente aumentará agora, quando grupos da Plataforma de Esquerda já apontam uma tentativa de substituir as discussões partidárias pelas decisões no interior do governo ou mesmo no círculo organizado ao redor de Tsipras, de onde vieram muitos ministros. Kouvelakis aponta que a Plataforma de Esquerda e o que ele chama de “esquerda da maioria” teriam hoje somadas o controle do partido.

“A esquerda da maioria se uniu em torno à ‘Plataforma dos Cinquenta e Três’, assinada por cinquenta e três membros do comitê central e alguns parlamentares em junho de 2014, imediatamente depois das eleições europeias. Criticaram fortemente as tentativas de Tsipras de atrair políticos do establishment, seu desenvolvimento de uma campanha que não dava lugar suficientemente grande às mobilizações e movimentos sociais, um estilo de campanha muito centrado nele como pessoa e estruturado em torno às técnicas e truques das relações públicas e também sua suavização de algumas questões cruciais do programa – mais especificamente em questões como a dívida, a nacionalização dos bancos, etc. (…) Em que pese a questão do euro todavia trabalhar para impedir uma atitude mais coesionada no que agora podemos chamar de “esquerda ampla” do partido, o espaço de manobra da direção tornou-se muito mais limitado”. (KOUVELAKIS, em entrevista a Jacobin Magazine)

Fica claro, portanto, que uma mirada pela topografia interna de Syriza mostra um partido cujos rumos estão em debate e disputa permanente. Se por um lado há uma tentativa da maioria de restringir as discussões, por outro há uma considerável e diversa esquerda partidária disposta a disputar os rumos e a política do governo.

Uma mudança profunda na Europa, o surgimento de um novo polo subjetivo e o ânimo trazido pela vitória na Grécia: o exemplo da praça Puerta del Sol

Menos de uma semana após a vitória de Syriza na eleição grega, a “Marcha por el Cambio”, convocada por Podemos, reuniu por volta de 200 mil pessoas na Praça Puerta del Sol em Madri, o berço do movimento dos Indignados de 2011. Em seu discurso, Pablo Iglesias deixou claro o exemplo trazido pela vitória de Syriza e mostrou como centenas de milhares de pessoas ali mobilizadas tomavam o exemplo grego e chegavam à conclusão de que é possível enfrentar a Troika e vencer os partidos e regimes políticos falidos a serviço da austeridade.

Durante a campanha eleitoral, Syriza e Podemos desenvolveram intensa colaboração. A ida de Iglesias ao comício de Omonia, em Atenas, sob os gritos de “Venceremos! Syriza e Podemos!”, mostrou que um dos elementos mais débeis sob o signo do giro histórico na situação mundial a partir de 2007-08 – a falta de horizonte e alternativas políticas socialistas robustas dos trabalhadores e do povo – começa a modificar-se. Era possível ver sinais disto já durante a eleição europeia de 2014, quando, apesar da contradição dos resultados e da presença de setores de direita eurocéticos, ficou evidente a crise dos regimes bipartidários, responsáveis pela introdução de medidas neoliberais de ajuste, que sustentam o projeto europeu. Da negação vista na eleição europeia e nas ruas e praças ao longo dos últimos anos, inicia-se agora um caminho de construção e fortalecimento de novas alternativas.

A sorte do processo grego e do governo de Syriza, sob este ponto de vista, reside então na possibilidade de sucesso da resistência de outros povos europeus, que terá um importante capítulo em novembro na eleição espanhola, quando Podemos pode vencer e levantar mais um governo antiausteridade. Notícias recentes dão conta do fortalecimento de Sinn Féin na Irlanda, enquanto partidos e frentes como Bloco de Esquerda em Portugal, Front de Gauche na França e Die Linke na Alemanha buscaram associar-se ativamente a Syriza e a suas propostas, levando importantes delegações para acompanhar a eleição do 25 de janeiro em Atenas. O entusiasmo e o exemplo trazido pelo novo governo grego podem ser notados na recente declaração de Francisco Louçã, dirigente do Bloco de Esquerda, em polêmica com a direita pró-Troika de seu país: “O governo do Syriza é o único que defende Portugal”.

Os efeitos da vitória de Syriza sentem-se, obviamente, de modo diferente na América Latina e no Brasil, mas está claro, pelo interesse da vanguarda pela campanha eleitoral grega e pela ação da própria imprensa (como na reportagem de El País-Brasil), que associou o PSOL ao Syriza, que a nova situação aberta na Europa traz bons ventos ao mostrar que é possível resistir às medidas de ajuste neoliberais e que a esquerda anticapitalista pode almejar o poder e vencer. Num contexto em que Dilma e o PT organizam com Levy na Fazenda ataques aos direitos dos trabalhadores e cortes no orçamento para aumentar o superávit e remunerar religiosamente o capital financeiro, fica evidente a distância entre este partido e o que propõe a esquerda radical grega.

Ao mesmo tempo, assistiremos às tentativas, já em andamento por parte de governos europeus e ao redor do mundo, de isolar o governo do Syriza e mostrar a inviabilidade de sua política. Por isso, devemos exigir que o governo brasileiro receba imediatamente Tsipras em nosso país e estabeleça uma agenda de cooperação, que passe pelo rechaço às políticas de austeridade impostas pela Troika e o apoio brasileiro à proposta de uma conferência da dívida.
A onda de entusiasmo e o fortalecimento de novas alternativas anticapitalistas na Europa trazidos pelo Syriza aumentam ainda mais a responsabilidade política de Tsipras, de seu governo e da maioria do partido, já que vacilações podem colocar em risco a possibilidade de levantar uma poderosa frente de resistência à Troika em todo o continente. Tanto Podemos como Syriza são alternativas reais que refletem as reivindicações e necessidades atuais levantadas pelo movimento de massas, como também sua composição social, seus limites e seu nível de consciência. Trata-se de processos novos, resultado de lutas travadas em ambos os países com suas distintas características. Na Espanha, o salto ocorreu a partir dos “Indignados”; na Grécia, há um acúmulo político de mais tempo e com maior tradição, mas que deu um salto graças às lutas que originaram Syriza como partido político.

Por isso, a política sectária de chamar voto contra o Syriza (caso de grupos ultraesquerdistas como PO e PTS na Argentina) ou de agitar “traições” que ainda não se deram, como que na expectativa de que se realizem (caso do PSTU), são igualmente estéreis e incapazes de oferecer uma alternativa de enfrentamento ao capitalismo e de fortalecimento de processos nos quais a classe trabalhadora, massas populares e a juventude sob ataque estão inseridas. Nossa obrigação é estar nesses processos e apoiá-los, relacionando-nos com eles sem perder nossa concepção leninista – o que significa independência de atuação, de análise, compreensão dos limites e crítica, mas também estar, na Grécia, com a classe trabalhadora e os setores dinâmicos da Plataforma de Esquerda na disputa dos rumos do governo do Syriza. Esta é a posição que nossa corrente têm defendido ao longo das últimas duas décadas e para a qual a realidade da luta de classes parece estar apontando.

*Sociólogo, militante do PSOL e membro da Coordenação Nacional do Movimento Esquerda Socialista (mês), esteve em Atenas durante as eleições gregas de 2015.

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