Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

A revolução curda e seu significado para a luta democrática, antiimperialista e anticapitalista internacional

Por Maycon Bezerra – Professor e militante do MES/PSOL

Desde 2014, as imagens e as histórias envolvendo os batalhões de mulheres curdas que combatem e impõem duras derrotas ao Daesh (“Estado Islâmico”) povoam o imaginário da esquerda democrática e anticapitalista no mundo todo. A guerra popular e o processo revolucionário que, desde então, avançam em Rojava (Curdistão sírio, localizado ao norte desse país junto à fronteira com a Turquia), só fizeram aumentar o interesse internacional, certamente, por causa de uma das mais importantes experiências revolucionárias desse início de século XXI e que se desenrola em uma região do planeta que, depois da desarticulação da “Primavera Árabe”, sofre pela ação do obscurantismo, da violência e guerra permanente no interesse da contrarrevolução, em todas as suas diferentes facetas (Al-Assad, Arábia Saudita, Turquia, Daesh, EUA, Rússia e etc).

No final de 2014, pudemos apresentar um quadro analítico mais esquemático da história do movimento revolucionário curdo nos marcos de uma análise sobre a luta pela cidade de Kobani, travada entre as forças revolucionárias do YPG e YPJ (Unidades de Proteção Popular e Unidades de Proteção Feminina), de um lado, e o Daesh, de outro, com seus possíveis desdobramentos. Apesar de toda a fragilidade de uma análise escrita a muita distância, acreditamos que muitos de seus elementos seguem válidos e, assim, não os retomaremos de modo exaustivo aqui. A proposta desse artigo é tentar identificar e destacar o significado da revolução curda para a luta democrática, anticapitalista e antiimperialista a nível internacional. Sendo assim, apresentaremos um quadro geral das condições em que se desenrola e das formas que assume esse movimento nas diferentes regiões do Curdistão (especialmente na Síria, Turquia e Iraque), do modo como se integra, dos inimigos que combate, dos aliados que reúne e das perspectivas para as quais aponta.

A conjuntura política do Oriente Médio, que sempre foi marcada pela complexidade, atinge nesse momento o ponto alto no que se refere à escalada dessa mesma complexidade, isso em função da inquietação popular (que segue assumindo contornos revolucionários, ainda que com diferente intensidade e abrangência, especialmente, na Tunísia, no Iêmen e no próprio Curdistão); da violência contrarrevolucionária; do acirramento da hostilidade sectária de natureza religiosa, étnica e nacional; do aumento da disputa entre as potências regionais e da relação de tudo isso com os interesses dos imperialismos rivais na região: EUA e Europa, de um lado, Rússia e China, de outro.

É nesse quadro complexo que compete compreender a natureza e o significado do processo revolucionário curdo, através das fronteiras da Síria, Turquia e Iraque (no Irã, o movimento nacional curdo enfrenta um quadro distinto, por ora), impulsionado por uma ampla e firme articulação de organismos de poder popular locais, movimentos sociais, partidos e organizações políticas (e político-militares) orientadas pela perspectiva estratégica do “confederalismo democrático”, cujo pólo de irradiação é o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) e seu dirigente maior, Abdullah Ocalan: preso na Turquia. Daqui em diante, nos referiremos a essa articulação, enquanto tal, pela definição genérica de movimento nacional revolucionário curdo.

No norte da Síria, na região de Rojava, o processo se expressa pela afirmação de uma democracia popular revolucionária em três diferentes províncias (cantões) que já formam uma entidade política autônoma de fato, sob a direção do PYD (Partido da União Democrática): a expressão político-partidária do movimento nacional revolucionário curdo nessa região. Essa afirmação revolucionária, que põe as cidades da região sob o governo de organismos de base, eleitos pelas massas a partir de sua diversidade étnica e religiosa própria (além da maioria curda, são árabes, turcomenos, armênios e cristãos), com plena autonomia em relação ao governo de Damasco ou qualquer outro, se dá simultaneamente com a guerra popular travada contra as diferentes forças contrarrevolucionárias jihadistas, que lutam pelo controle da região: (Daesh, Frente Al-Nusra, Ahrar Al-Sham, entre outras), patrocinadas direta e/ou indiretamente pela Arábia Saudita, as demais monarquias do Golfo Pérsico e a Turquia.

Assim como a afirmação da democracia revolucionária, a guerra popular em Rojava se constrói a partir de uma perspectiva radicalmente anti-sectária, através da qual as forças de combate curdas do YPG e seus batalhões femininos do YPJ avançam na construção de uma frente única político-militar com os destacamentos de combate construídos pelos demais grupos étnicos e religiosos estabelecidos na região, que também lutam contra o jihadismo. No final do ano passado, essa política deu origem às Forças Democráticas da Síria e seu braço político, a Assembléia Democrática Síria. Essas duas frentes, compostas por organizações político-militares árabes, turcomenas, armênias e cristãs, impulsionadas pelo YPG e YPJ e agrupadas em torno de um programa democrático, secular, não-sectário e federalista para a Síria, não apenas segue demonstrando êxitos militares e conquistando territórios no norte, nordeste e leste da Síria (contra o jihadismo e com apoio aéreo russo e estadunidense, sem abandonar a oposição política a Al-Assad), como também parece apresentar o embrião de uma alternativa de modelo político para o país. Apesar disso, o PYD foi excluído das mesas de negociação em Genebra para a solução da crise síria, pelo veto imposto por Turquia e Arábia Saudita, prontamente acatado pelos EUA e seus sócios-menores europeus.

Na região do Curdistão iraquiano, ao norte desse país, o quadro assume características bem distintas. Desde 2003, quando da invasão militar dos EUA e deposição de Saddam Hussein, a região goza de uma efetiva autonomia em relação a Bagdá, expressa no KRG, o governo regional curdo, sob o comando político do clã dos Barzani, que, no momento governam sem mandato popular. Os Barzani e o KRG são a expressão maior de uma direita oligárquica curda, associada ao imperialismo dos EUA, à Turquia e a Israel, fortemente hostil ao movimento nacional revolucionário curdo, contra o qual já se valeu, no passado, do uso das armas e da tática da guerra civil. O governo de Barzani é severamente criticado, no interior e no exterior, pela corrupção, autoritarismo e pela incompetência no que diz respeito a garantir condições de vida minimamente adequadas à maioria da população curda no Iraque. A guerra civil na vizinha Síria e, sobretudo, o avanço do jihadismo do Daesh nos dois lados da fronteira, além da instabilidade geral do Oriente Médio, vêm sacudindo a situação política também no Curdistão iraquiano.

Tanto em Rojava quanto no Curdistão iraquiano, a ofensiva do Daesh levou, pela força das circunstâncias, a uma frente única militar entre os destacamentos do YPG e YPJ, as forças guerrilheiras do PKK e os Peshmerga (as forças regulares de defesa do KRG). Essa unidade permitiu, no solo, forçar o recuo do Daesh e a liberação das províncias que constituem Rojava como uma entidade autônoma de fato, além de ter expulsado os jihadistas da maior parte do Curdistão iraquiano, assegurando Kirkuk, a mais importante cidade curda na região, estratégica em função do petróleo. Nesse momento, seguem os enfrentamentos contra o Daesh em outras partes da região, como em torno da cidade de Mosul, e a frente única militar entre os destacamentos Peshmerga e o braço guerrilheiro do PKK tem sido tão produtiva quanto politicamente inquietante para Barzani e o governo turco de Erdogan, certamente o maior inimigo do movimento nacional e do povo curdo.

Ao longo do ano passado, Erdogan bombardeou seguidamente posições de retaguarda do PKK nas montanhas do norte do Curdistão iraquiano, levando à supensão do cessar-fogo que já durava dois anos entre o PKK e o Estado turco, nos marcos de um processo de paz proposto e instado pelos revolucionários curdos, como parte de sua nova estratégia política. Ainda assim, depois disso, em novembro passado, essa frente única militar conseguiu liberar a região do Sinjar das garras do Daesh, barrando o massacre promovido contra o povo yázidi da região (uma fração específica do povo curdo). Como resposta ao aumento da presença e da influência da esquerda curda no Curdistão iraquiano, Erdogan (com o apoio de Barzani) deslocou para a região grande número de tropas e blindados, provocando protestos do governo iraquiano em Bagdá: e mesmo de Obama.

É justíssima a política de frente única do PKK junto aos peshmerga, no enfrentamento ao Daesh no Curdistão iraquiano, a partir da qual amplia sua presença política junto ao povo da região e promove o fortalecimento da perspectiva de unidade geral do povo curdo, uma unidade a ser construída contra os jihadistas e o terrorismo de Estado turco, principalmente. Essa perspectiva, que se fortalece nas bases, cria sérios problemas para Barzani e sua imoral intimidade com Erdogan, que lhe estende o tapete vermelho em Ancara ao mesmo tempo em que promove um banho de sangue contra os curdos do sudeste da Turquia. Nesse contexto, sob o apoio entusiasmado de Israel, a condescendência resignada de Erdogan e as críticas de Bagdá, Barzani fala cada vez mais alto em separatismo e em uma proclamação unilateral de independência do Curdistão iraquiano.

Ainda parece cedo para tirar conclusões definitivas, no entanto, um Curdistão independente ao norte do Iraque, aliado a Israel, sob o comando político de Barzani e da burguesia oligárquica curda, parece ser mais que um simples “fato quase consumado” no cálculo das forças contrarrevolucionárias na região, antipáticas ao avanço do movimento revolucionário curdo e seus desdobramentos possíveis. Além do mais, isso converge com o ponto de vista do imperialismo dos EUA, que planeja redesenhar o mapa do Iraque e da Síria em linhas sectárias estanques, dividindo árabes sunitas, árabes xiitas e curdos. É certo e inquestionável o direito do povo curdo à sua auto-determinação e também que a ausência de um Estado curdo independente, negado pelas potências imperialistas ao fim da I Guerra Mundial, está na origem de todas as violências e crimes selvagens sofridos por esse povo ao longo do último século.

No entanto, é importante seguir acompanhando de perto esses desenvolvimentos, porque o PKK e o conjunto do movimento revolucionário curdo, sob a perspectiva do “confederalismo democrático”, parece menos inclinado à promoção do separatismo isolado de parcelas do Curdistão e mais em seguir aprofundando a unidade geral do povo curdo em busca de uma construção nacional-internacionalista de novo tipo, a se desdobrar revolucionariamente entre as maiorias nacionais, principalmente, da Turquia e Síria, nesse momento. Nunca é demais lembrar, porém, que não se faz as circunstâncias.

Na Turquia, onde está a maior parte dos curdos e eles são cerca de 15 milhões de pessoas (formando uma minoria nacional de quase 20% da população total), o avanço da esquerda revolucionária curda só não é mais impressionante que a reação bestial de Erdogan. Em 2015, o êxito eleitoral do HDP (Partido Democrático dos Povos) – uma agrupação da esquerda democrática, anticapitalista e feminista turca em torno do movimento revolucionário da minoria curda – partindo de uma plataforma que expressa politicamente as bandeiras da “Primavera Turca” de 2013, da luta revolucionária em Rojava, dos direitos dos trabalhadores, das mulheres, da comunidade LGBT e das demais minorias, despertou o temor e a fúria de Erdogan. O resultado histórico de 15% dos votos deixou clara a capacidade do HDP de ir além das fronteiras do nacionalismo curdo e se converter no eixo de construção de uma alternativa democrática e popular de governo e poder na Turquia. Ao mesmo tempo, impediu o partido islâmico e conservador de Erdogan (AKP) de atingir a maioria absoluta dos votos, do que precisava para mudar a constituição em um sentido presidencialista e reforçar as próprias prerrogativas.

É nesse contexto que Erdogan suprime o processo de paz com o PKK e rompe o cessar-fogo atacando as posições curdas nas montanhas do extremo-norte iraquiano. Pôr fim ao processo de paz e deslanchar uma campanha de terrorismo de Estado contra a esquerda e a minoria curda (seja através dos “atentados por procuração” do jihadismo, seja através da brutal repressão policial-militar), foi o meio encontrado pelo regime turco para tentar superar, em seu favor, a crise política interna, criada pelos seus desequilíbrios estruturais, pelo fortalecimento do movimento nacional curdo, pelo avanço das forças democráticas e populares turcas e pela incapacidade do AKP em formar um governo com o resultado com o qual saiu das urnas. As novas eleições convocadas para novembro do ano passado teriam de se realizar sob um clima de brutal repressão contra a esquerda turco-curda, de chauvinismo nacional turco e de terror. Foi justamente o que houve. O objetivo era impedir que o HDP repetisse o resultado anterior e fosse empurrado para baixo da pesadíssima cláusula de barreira da Turquia (10% dos votos). Mesmo sob a perseguição política, sob os “pogroms” fascistas, sob os atentados dos homens-bomba, sob os massacres e o fogo de artilharia impostos pelo Exército nas províncias do sudeste, de maioria curda, do país, o HDP obteve cerca de 10% dos votos, ultrapassou a barreira do sistema e manteve sua presença nos marcos legais da política do país. Erdogan não teve uma derrota, mas não triunfou.

Desde então, sua marcha ditatorial e belicista avançou de modo desenfreado. Surpreendido pela capacidade política (e militar) do movimento revolucionário curdo, extremamente habilidoso em suas movimentações no cenário conflagrado e caótico do Oriente Médio (apesar de toda sua fragilidade material), Erdogan perdeu a calma e começou a se atrapalhar, principalmente no que se refere à política externa. Aliou-se firmemente com a Arábia Saudita no apoio ao jihadismo na Síria, contra Al-Assad e os curdos de Rojava, mas tem a desconfiança de Riad por sua proximidade com a Irmandade Muçulmana de Morsi (proibida na Arábia Saudita). Por essa mesma afinidade com a Irmandade Muçulmana, envenenou suas relações com Al-Sissi do Egito que, dessa forma, opõe seu veto (como aliado preferencial), bloqueando uma maior aproximação turca com Israel (dificultada também pelo contato de Erdogan com o Hamas, na Faixa de Gaza). Ao deslocar tropas através da fronteira iraquiana atraiu a hostilidade do governo de Bagdá. Com o Irã azedou de vez as relações desde a intervenção na Síria, e age provocativamente contra a Grécia. Derrubar o avião russo no norte da Síria foi um ato de guerra provocativo de uma potência regional acuada. Um ato que, certamente, não ficará isento de conseqüências mais sérias.

O fato de integrar a OTAN, com o segundo maior exército da aliança, e de poder chantagear a União Européia com a contenção dos refugiados que migram do Oriente Médio para o continente (a partir do que já conseguiu 3 bilhões de Euros dos governos da UE), faz com que a Turquia possa escorar-se sobre o imperialismo ianque-europeu ao mesmo tempo em que submete seu povo a um regime cuja superficialidade democrática segue derretendo e que se vincula diretamente ao terrorismo jihadista do Daesh, Frente Al-Nusra e demais formações semelhantes. Diante disso, o movimento nacional e revolucionário curdo resiste e se fortalece: lançando mão das forças próprias que possui; da política de frente única democrática, popular e anti-sectária que a caracteriza, adequando-a aos contextos variáveis da Turquia, Síria e Iraque; do cessar-fogo informal com o exército de Al-Assad na Síria (em função da hostilidade comum ao jihadismo) e da aproximação tática com a Rússia que, mesmo em uma condição de defensiva estratégica global (e suscetível à pressão iraniana, país que conta com um importante contingente populacional curdo de quem teme a subversão), serve – por ora – como contrapeso à sanha assassina de Erdogan.

Apesar de toda repressão e brutalidade do regime turco, o PKK mantém operacionais nas montanhas os seus contingentes guerrilheiros, e nas cidades e aldeias do sudeste da Turquia, suas brigadas populares de autodefesa e sua base social auto-organizada revolucionariamente. Os massacres e a destruição generalizada promovidos pelo exército turco no Curdistão visam desmantelar justamente essa base social, obrigando-a ao deslocamento em massa. Além disso, o HDP se mantém cada vez mais ativo na cena política turca, assumindo um protagonismo claro na luta contra o enrijecimento do regime político, contra as violações dos direitos humanos no país e por uma democracia radical, popular e participativa. Através de sua própria firmeza e combatividade, o movimento revolucionário curdo e o HDP rompem o isolamento imposto por Erdogan e apoiado pela Europa e EUA (que consideram o PKK uma organização “terrorista” enquanto financiam e armam os jihadistas de Ancara e Riad na Síria). O recente congresso do HDP na Turquia contou com a presença solidária de muitas delegações da esquerda anticapitalista européia e também do PSOL, um acerto político enorme de nosso partido, o que demonstra que o cerco de Erdogan à esquerda socialista turco-curda é cada vez menos eficiente, apesar de sua brutalidade.

De fato, é preciso explicar os êxitos e o significado da revolução curda – ainda que num contexto de muita instabilidade – a partir de sua formulação estratégica expressa no programa do “confederalismo democrático” e da orientação tática de construção de frentes únicas políticas e político-militares para a simultânea tarefa de combater as forças da contrarrevolução e construir uma alternativa democrática, popular, pluralista e revolucionária de poder e de governo. No que se refere ao novo programa do “confederalismo democrático”, podemos dizer que Ocalan e o PKK se lançaram a uma reformulação crítica de sua perspectiva anterior, própria aos movimentos de libertação nacional de horizonte stalinista ou semi-stalinista, cujo esquema passa pela luta guerrilheira separatista dando origem a um Estado nacional curdo independente, dirigido pelo “partido-revolucionário-único”, no sentido de uma construção socialista burocratizada, em um marco limitadamente nacional. Da reformulação crítica surge um programa democrático-revolucionário e nacional-internacionalista de novo tipo.

Longe de renegar sua histórica perspectiva anticapitalista, a esquerda revolucionária curda passa a assentá-la sobre a exigência de uma democracia popular, radicalmente participativa e pluralista, fortalecida de baixo para cima, na qual as massas mobilizadas tutelam o poder político, impondo progressiva e permanentemente suas demandas e necessidades como “Razão de Estado”. Aqui, a contradição cada vez mais intensa entre democracia e capitalismo, parece haver sido claramente compreendida. Em sua plenitude atual, o capitalismo ultra-financeirizado e ultra-oligopolizado (crescentemente descolado, em seu processo de acumulação, da reprodução material da vida humana) anuncia, a quem quiser prestar atenção, que seu momento de mais indisputada dominação é também o de mais crises e, portanto, o que mais afasta-o da possibilidade de responder positivamente às demandas nacionais, democráticas e igualitárias dos trabalhadores e do conjunto das massas populares, incluindo as classes médias: especialmente na periferia global, mas nem de longe exclusivamente aqui, como o demonstra o quadro econômico-social europeu e estadunidense.

Nessas circunstâncias, as demandas democráticas das massas tendem a assumir um caráter cada vez mais transicional, uma vez que o “capitalismo real” de nossos dias exige a soberania absoluta de suas exigências de acumulação sobre o Estado e a vida política como um todo. É a rendição a essa soberania absoluta que explica a crise das velhas esquerdas “social-democratas” no mundo todo, arrastadas para o fundo pela crise capitalista. Incapazes de seguir expressando, em qualquer medida, as demandas democráticas e populares contra a ditadura financista e oligopolista do capitalismo atual, as velhas esquerdas não apenas afundam a si mesmas numa crise profunda como também arrastam para essa crise os próprios regimes políticos “democrático-burgueses” que ajudaram a consolidar.

A impermeabilidade crescente dos regimes políticos burgueses às pressões democráticas, mais ou menos reformistas, das massas populares, por estarem plenamente absorvidos pelas exigências do capitalismo neoliberal em crise, coloca a necessidade de uma superação revolucionária desses regimes como condição para qualquer democracia digna desse nome. Aqui, nesse ponto do processo histórico da luta de classes, é onde novamente a democracia e o anticapitalismo voltam a se vincular e se entrelaçar fortemente.

Diferentemente do que imaginam muitos anarquistas, que vêem no programa da democracia revolucionária curda a realização de seu “ideal”, o quadro geral desse processo é mais complexo. Ao mesmo tempo em que constroem, de baixo para cima (principalmente no Curdistão sírio e turco, mas também no iraquiano), os organismos democráticos do poder popular, através dos quais as massas exercem seu autogoverno – nos limites da autonomia conferida por sua maior ou menor capacidade político-militar – também constroem, de cima para baixo, articulações políticas de frente única democrático-revolucionária, com vocação de poder e de governo: é o caso do HDP, na Turquia, e da Assembléia Democrática Síria. Ao invés do dogmatismo anti-político dos anarquistas, a esquerda anticapitalista curda parece bem mais próxima da perspectiva de democracia revolucionária desenvolvida por Lênin em 1905: ela triunfaria como resultado combinado dos movimentos e pressões exercidas de baixo para cima e de cima para baixo, simultaneamente.

O “confederalismo democrático” apresenta, enquanto programa revolucionário, além dessa dimensão democrático-popular, ajustada à atual dinâmica concreta da luta de classe das massas contra os grandes capitalistas e seus regimes políticos degenerados, também uma dimensão nacional-internacionalista de novo tipo, imprescindível para o desenvolvimento das táticas que conduzem aos seus avanços revolucionários recentes que observamos. Independentemente de responder mais a imperativos ideológicos ou às circunstâncias concretas nas quais precisa se desenrolar a revolução curda, o fato é que na Turquia e na Síria, esse movimento nacional revolucionário materializa a superação de seu antigo horizonte político, exclusivamente separatista, combinando a construção do autogoverno curdo com a construção de alternativas democráticas e revolucionárias de poder, juntamente com os setores mais avançados das nacionalidades dominantes nesses países. No que se refere ao Curdistão iraquiano, o quadro não é o mesmo. A resoluta oposição do governo de Bagdá, do Irã e das milícias xiitas dirigidas por Teerã ao avanço territorial das tropas curdas sobre o norte do Iraque, decorrente do abandono do exército iraquiano e do recuo forçado do Daesh, e, mais ainda, à hipótese da independência do Curdistão, torna mais difícil a articulação política com setores majoritários da população árabe, sobretudo da maioria xiita representada pelo governo de Bagdá.

No Iraque, a marcha em direção à independência do Curdistão, apoiada regionalmente por Israel e Turquia, parece o passo seguinte de um autogoverno curdo já bastante consolidado – obviamente, nas condições em que isso é possível na situação de guerra contra o Daesh. A presença e influência da esquerda revolucionária curda na região, que segue avançando, ao mesmo tempo em que persistem as escaramuças armadas entre milícias xiitas iraquianas controladas pelo Irã e forças peshmerga, nos territórios recentemente conquistados ao Daesh pelas últimas, tornam o quadro muito dinâmico e não permitem uma conclusão a respeito do rumo dos acontecimentos na região dominada por Barzani. Apenas torna-se claro que, nas condições em que persista a frente única entre o PKK e as forças peshmerga na defesa dos curdos iraquianos, e aumente aí a influência política da esquerda curda, será bastante difícil para o KRG isolar os revolucionários, pactuar profundamente com a Turquia e vender-se a Israel. Os novos desdobramentos precisam seguir sendo acompanhados. Quanto à independência em si, o movimento revolucionário curdo não parece preso a nenhuma construção dogmática, ainda que sob a perspectiva do “confederalismo democrático”, o separatismo dê espaço a uma orientação na qual os curdos se tornam a ponta de lança de um processo revolucionário mais amplo, a engolfar os setores mais avançados das nacionalidades dominantes, a conjuntura difícil do Iraque (e até mesmo da Síria) pode encontrar, mais cedo ou mais tarde, na proclamação de independência a única forma de garantir o autogoverno curdo, o que é inegociável.

Podemos dizer que o significado da revolução curda no Oriente Médio deve ser considerado então a partir da capacidade que os revolucionários e revolucionárias têm demonstrado de se apresentar como uma alternativa democrático-popular ao corrupto clã dos Barzani, hoje, e em um possível futuro Curdistão independente; a partir da capacidade de construir um embrião de alternativa democrática e não-sectária de poder na Síria, partindo de sua iniciativa político-militar, do autogoverno de fato estabelecido em Rojava, e da política de frente única que segue aprofundando; e a partir da agrupação da esquerda democrática e anticapitalista na Turquia, constituindo as bases de uma alternativa radicalmente democrática, popular e feminista de governo ao regime burguês cada vez mais autoritário e criminoso de Erdogan, combinando a luta eleitoral com a auto-organização de base e a manutenção da estrutura de auto-defesa de massas contra o terrorismo de Estado, principalmente nas províncias de maioria curda no sudeste desse país.

Além do mais, é o movimento revolucionário curdo que representa a mais conseqüente força de combate ao obscurantismo jihadista na região, por sua forma de engajamento militar e pela construção política que desenvolve. Tanto no Iraque quanto na Síria, a frente única militar curda e a frente única com os demais grupos étnicos e religiosos opostos ao jihadismo e a Al-Assad (Forças Democráticas da Síria) são aquelas que, no solo, vêm impondo os maiores reveses ao Daesh e grupos similares, ainda que sem poder contar com o armamento pesado que o imperialismo ianque-europeu, a Turquia e a Arábia Saudita confiam a esses mesmos jihadistas para a luta “contra o terrorismo”. Qualquer tentativa séria de combater o terrorismo jihadista na região passa necessariamente por fortalecer a capacidade de combate dos revolucionários curdos e seus aliados, o que nem os EUA e a Europa (comprometidos com os sauditas e com Erdogan) e nem a Rússia (comprometida com o Irã, inimigo declarado da auto-determinação do povo curdo) parecem dispostos a realizar efetivamente. A força com a qual as mulheres revolucionárias do Curdistão combatem a contrarrevolução bestial do Daesh e, mais profundamente ainda, transformam a vida social em um sentido democrático e igualitário, contra a secular dominação patriarcal, ressalta ainda mais o significado e a relevância da revolução curda para essa região, como um farol aceso para os outros povos e nações aí estabelecidos. Consideramos que segue válida a hipótese de que uma “Primavera Curda” em ascensão possa ajudar a reaquecer a “Primavera Árabe”, alterando o panorama da região.

A intensificação das relações políticas e de solidariedade entre a esquerda revolucionária curda e o HDP, por um lado, e a esquerda democrática e anticapitalista européia e internacional, por outro, não apenas já é uma realidade, como deve se aprofundar, possibilitando que a dinâmica intensa das lutas de massa na Europa, Turquia e Oriente Médio possam alimentar-se reciprocamente. Importantes setores da esquerda européia já reconhecem e defendem que seus governos façam o envio de armamento pesado para os revolucionários curdos na Síria, de modo a combater eficazmente o terrorismo jihadista e abrir uma possibilidade de estancar o caos no Oriente Médio, que já impacta fortemente sobre o continente europeu. Da mesma forma, o avanço de uma alternativa democrática, popular e anticapitalista de poder na Europa, pode não apenas fornecer suporte político à esquerda curda, como combater política e ideologicamente o jihadismo, tanto o do exterior quanto o que se desenvolve nas comunidades islâmicas européias, fornecendo combatentes para a guerra na Síria e Iraque. Além do mais, a campanha de repúdio ao terrorismo de Erdogan e de solidariedade aos curdos na Turquia (e ao HDP) estão aprofundando os laços de solidariedade entre essas forças democráticas e anticapitalistas que devem estar à altura da tarefa de construir uma alternativa ao “choque de barbáries” (Gilbert Achcar): entre o decadentismo dos imperialismos e o jihadismo.

Que não pode haver mais que um arremedo de democracia sob a ditadura do capital-dinheiro em si, é algo que está ficando cada vez mais claro para o povo trabalhador e a classe média na Europa, nos EUA, na América Latina e além. A luta popular por direitos fundamentais e democracia real, por uma verdadeira vigência da soberania popular, encontra um obstáculo cada vez mais rígido nos interesses da classe dominante dos superbilionários e nos regimes políticos através dos quais dominam. Da mesma forma, as reivindicações nacionais, essencialmente democráticas, de povos europeus esmagados pelo rentismo financeiro, como o escocês e o catalão, e também dos países dependentes da periferia européia, latino-americana e global, não encontram qualquer espaço sob a dominação capitalista atual, ao contrário, o processo muito acelerado de concentração dos capitais nas mãos de uma restrita oligarquia financeira, instalada predominantemente nos EUA e nos principais centros do poder europeu (Inglaterra, Alemanha e França), vem reduzindo drasticamente as margens de autonomia da maioria dos governos e povos do mundo.

Nesse sentido, as tarefas assumidas pelo movimento nacional revolucionário curdo concentram, em grande medida e em sua máxima intensidade, as tarefas que estão colocadas para a esquerda democrática e anticapitalista em todo o mundo, de acordo com suas particularidades e ênfases específicas: construir, de baixo para cima e de cima para baixo, frentes únicas ampliadas para a luta social e política por direitos fundamentais, democracia real e verdadeiro autogoverno nacional-popular contra a ditadura imperialista do grande capital, contra todo chauvinismo reacionário e contrarrevolucionário, contra todo obscurantismo religioso e racista a serviço da dominação dos de cima e da fragmentação dos de baixo. É preciso cercar de solidariedade e apoiar a luta da esquerda revolucionária curda, afirmando em alto e bom som que sua revolução é nossa revolução, seus avanços são os nossos e seu triunfo também.

Referências:

http://www.al-monitor.com
https://hdpenglish.wordpress.com
http://kurdishdailynews.org/
http://rudaw.net/english/middleeast/syria/281220152

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento. Como forma de contribuir para os debates que ocorrerão na VI Conferência Nacional de nossa corrente, o Movimento Esquerda Socialista, este volume reúne dois números da revista (7 e 8). Dessa forma, pretendemos oferecer à militância e a nossos aliados e leitores documentos que constam do temário oficial do evento, bem como materiais que possam subsidiar as discussões que se realizarão. Na expectativa de uma VI Conferência de debates proveitosos para nossa corrente, desejamos a todas e todos uma boa leitura deste volume!

Solzinho