Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

A rebelião de Baltimore: o lado negro da crise

Por Bernardo Corrêa, sociólogo e militante do MES/PSOL.

 

black panthersMuito se pode dizer sobre a história de lutas dos negros dos Estados Unidos da América. Da escravidão que perdurou séculos. Da força dos movimentos pelos direitos civis. Do ascenso de 1968 ou da construção dos Black Panthers. Da música de lamento, de improviso e de protesto nascida nos EUA ao longo destas lutas. Do significado da eleição de Obama… Mas o acúmulo de contradições no presente é tal, que o país que tem um presidente negro, abalado pela situação de crise iniciada em 2008, hoje registra os piores índices sociais – como emprego, saúde e educação – entre os afrodescendentes norte-americanos, em 25 anos!

Há mais negros na prisão atualmente do que escravos nos EUA em 1850, de acordo com a socióloga da Universidade de Ohio, Michelle Alexander. A privatização dos presídios e sua “demanda” correspondente, faz com que centenas sejam detidos por motivos banais diariamente. O sistema abastece o lucro das penitenciárias e coloca negros massivamente na prisão. O maior complexo penitenciário da CCA na Geórgia, por exemplo, recebe 200 dólares por cada preso todos os dias, rendendo um lucro anual de 50 milhões de dólares. Esta situação começou a transbordar. Novamente motivada pela violência racista, nesse caso como em tantos outros, vinda da polícia.

Os levantes que tem ocorrido, como Ferguson e Baltimore, tem ligações diretas com o processo de “gentrificação” das cidades, quer dizer, a expulsão da população mais pobre para as zonas periféricas, a fim de satisfazer os interesses da especulação imobiliária e do grande capital que se instala. Como muito bem descreveu Shawn Gude  em artigo na Revista Jacobin[1]: “Baltimore, então, é como tantas outras cidades com seus próprios Freddie Grays: um lugar no qual o capital privado levou partes enormes da cidade a perecer. Um abismo separa as chances de vida dos moradores negros e brancos – e onde os policiais patrulham brutalmente a população “descartável” .

Foto: AFP

Foto: AFP

Na América Latina, especialmente no Brasil, conhecemos há um bom tempo as mazelas do processo de expulsão das comunidades pobres e afrodescendentes para fora do centro das cidades, assim como o tratamento policial dado aos moradores da periferia. Entretanto, quando este tipo de fenômeno ocorre em um país com o poder político e econômico dos EUA, as contradições se tornam ainda mais profundas e, obviamente, os conflitos se tornam mais violentos. O enfrentamento com a polícia tem um significado muito mais rico do que o “vandalismo” que a mídia corporativa vende. O desrespeito sistemático torna o conflito latente. Lutar contra a polícia é  lutar contra o próprio cotidiano racista.

O assassinato de jovens negros pela polícia norte-americana está sendo o combustível de uma revolta de grandes proporções. Assim como o episódio de Rosa Parks – com o conhecido boicote aos ônibus de Montgomery – foi a faísca de uma etapa distinta da luta dos afrodesendentes americanos; os assassinatos em Ferguson, Madson, North Charleston e Baltimore trouxeram à tona as graves consequências da crise sobre a vida daqueles que sempre tiveram negadas as chances do american way of life. A rebelião seguirá, porque este caminho produziu um abismo entre os mais ricos e os mais pobres, frequentemente negros. A luta antirracista nos EUA é parte importante do combate dos 99% contra 1% .

O sonho de Lüther King, segue por realizar-se, mas em uma fase superior.

 


 

[1] Shawn Gude é editor associado da Revista Jacobin. Ele mora em Baltimore.

 

 

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

A décima terceira edição da Revista Movimento dedica-se ao debate sobre os desafios da esquerda socialista no Brasil diante da crise nacional que se desenrola há anos e do governo Bolsonaro. Para tanto, foram convidados dirigentes do PSOL, do MES e de outras organizações revolucionárias que atuam no partido. O dossiê sobre a estratégia da esquerda e o PSOL reflete os desafios da organização de um polo socialista no interior do partido. Há também, na seção nacional, reflexões sobre a crise econômica brasileira, as revelações de The Intercept e as lutas da juventude e da negritude. As efemérides do centenário da escola Bauhaus e do cinquentenário do levante de Stonewall também aparecem no volume, além da tese das mulheres do MES para o Encontro de Mulheres do PSOL.

Solzinho