Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

A vitória acachapante de Bernie Sanders sobre Hilary Clinton em New Hampshire foi a grande notícia da semana. Sanders obteve mais de 60% dos votos democratas contra cerca de 38% de sua rival.  Uma vitória que indica a tendência que já se verificava na semana anterior em Iowa, onde o favoritismo de Clinton terminou num surpreendente empate técnico. Se tomarmos um corte etário, a ampla maioria da juventude nos dois estados apoiou a Sanders.

Aqui no Brasil, por mais que coincidência, um dos favoritos ao Oscar, o filme “A grande aposta” faz sucesso ao desvelar com primor as trapaças do mundo das finanças.

Não por acaso, o impulso do crescimento de Sanders acontece em paralelo com a cada vez mais clara denúncia do peso do capital financeiro nas decisões mundiais. O escritor Luis Fernando Veríssimo, sempre sensível aos grandes acontecimentos, em coluna recente relacionou a opinião da Goldman Sachs, preocupada com os “radicais” na disputa à corrida presidencial dos Estados Unidos, da seguinte forma:

“[a Goldman Sachs] ajudou a quebrar a Grécia, e aparece com destaque no filme “A grande aposta”, sobre a fraude bancária que abalou o mundo, não faz muito. E está com medo do Bernie…”

O movimento que está se levando a cabo na figura de Bernie Sanders é incrível. Aqui Pedro Fuentes apresenta as características e a natureza desse fenômeno:  http://esquerdasocialista.com.br/eua-em-movimento-o-fenomeno-sanders/

Também do lado dos Republicanos, a vitória de Trump é uma resposta que aposta na polarização. Seu discurso cada vez mais ganha contornos proto-fascistas, como na sua recente declaração que de que os métodos de afogamento são ainda sutis para ter efeito, defendendo uma política de “tortura ostensiva” sobre suspeitos de terrorismo.

Ainda faltam muitos estados do Sul, mais conservadores em média, o que torna improvável a vitória nas internas democratas do projeto transformador de Sanders, e por suposto Wall Street e suas máquinas midiáticas vão jogar muito pesado para que Clinton esteja na fase final da corrida presidencial, contando com a última cartada dos “superdelegados’.

Porém, a vitória de Sanders no seu estado vizinho- sua trajetória militante remonta ao estado de Vermont- acalenta a marcha de milhões que se identificam com um programa, apresentado de forma inédita na principal disputa política do planeta. A força da vitória em NH, ancorada numa base social decidida, a juventude, pode iniciar uma nova fase.

A primavera Sanders começa em New Hampshire

Sanders foi sempre um “outsider” na política. Judeu, nascido na classe média baixa do Brooklin, atuou nos movimentos políticos e culturais desde o seu ingresso na universidade,  se instalando no estado de Vermont no bojo dos movimentos de 1968. Fixando residência e ação política, foi parte de pequenos partidos de esquerda, concorrendo como independente para a prefeitura de Burlington, maior cidade de Vermont. Cabe notar que Vermont, estado que o consagraria anos mais tarde como Senador-também independente- é o segundo menos populoso dos estados norte-americanos, limítrofe com Quebec. Apesar de ser um estado basicamente rural, Vermont carrega uma importante história de lutas republicanas nos séculos passados, gerando uma tradição de atmosfera democrática na vida política local.

A vitória de Sanders foi um duro golpe contra o clã Clinton.  A própria Hilary, desesperada com os resultados entre a juventude, tentou uma campanha midiática para angariar apoio entre as jovens mulheres, apelando para declarações de feministas do Establishment como Albritgh. O resultado foi desastroso.

O peso fundamental da juventude reflete no debate sobre a gratuidade no ensino superior. Sanders escreveu recentemente em artigo no Washington Post: a universidade é um novo ensino médio. Sanders coloca a discussão sobre a responsabilidade pública e estatal sobre o ensino num outro patamar.

As próximas votações ocorrem em Nevada e na Carolina do Sul, onde o peso do voto latino e negro é decisivo. Como já afirmamos, a vitória de Sanders é improvável numa luta desigual e mesmo seu programa é mediado diante das necessidades históricas. Apesar disso, o impulso de NH pode garantir que sua campanha mude  a política nos Estados Unidos.

Um fenômeno de alcance mundial

A mobilização em torno de Sanders ainda estão começando. Certamente, conectada pelas redes, devemos ter a cobertura mais difundida de uma eleição presidencial na história moderna. E o fato de um socialista ser um dos protagonistas gera impacto no realinhamento de toda a esquerda no mundo. Algo que há muito não acontecia.
Se relacionando diretamente com a crise mundial, retratada muito bem no filme comentado, “A grande aposta”, ainda não podemos mensurar o efeito Sanders no mundo.

Como consequência das mobilizações das praças de 2011, há um deslocamento por parte de um setor de massas por fora do que Tariq Ali chamou de “Centro Extremo”, os partidos conservadores, liberais e social-democratas que são sócios nos governos dos países centrais na última quadra histórica.

Esse deslocamento ganha formas e contornos próprios em cada situação particular. O que é inegável é sua relação. Em Portugal, o Bloco de Esquerda, com uma direção renovada e feminina foi a grande sensação das duas últimas eleições, sendo a maior força emergente daquele país. Podemos teve um desempenho sensacional nas úlitmas eleições gerais, rompendo o pacto bipartidista; o fenômeno Corbyn sacudiu o trabalhismo inglês, sendo o novo líder partidário com posições da esquerda radical; a vitória das “prefeituras pela mudança” nas principais cidades espanholas; a articulação de intelectuais e ativistas por um “Plano B” na Europa;  a unidade entre a causa curda e os novos movimentos sociais na Turquia; e pelo planeta começam a surgir com velocidade inesperada novas formas para dar vazão à indignação contra os “mesmos de sempre”.

As primárias democratas são um novo capítulo nessa busca. Mesmo num partido dominado pelos clãs, por Wall Street, a força da busca por mudanças se impôs, não deixando se posicionar numa postura coadjuvante.

A combinação desse alcance mundial ocorre num momento chave para outra luta democrática de caráter universal: a ONU emitiu uma declaração a favor da libertação de Julien Assange, preso na Embaixada do Equador em Londres, coordenador do site Wikileaks.

A luta de Assange, como também é a de Edward Snowden, é a chave para dar consquencia ao novo salto que o movimento democrático e por direitos necessita e pode dar nos Estados Unidos.

A ruptura de amplos setores de massas, com epicentro entre os mais jovens, só pode ser explicada como derivação direta dos grandes acontecimentos de 2011.

Ecos de 2011

Alguns setores céticos da esquerda trataram os acontecimentos de 2011 como um evento menor. Afirmavam que o projeto de negação do velho, erguido por milhões nas praças dos continentes, não apontava para nenhum projeto superador. A manifestação mundial do dia 15 de outubro, quando depois de muito tempo, o planeta somou-se numa corrente de indignação seria o último suspiro daquela que seria apresentada por alguns como “revolta efêmera”.

Da nossa parte, todo o contrário. Não podemos entender em nada o mundo como estamos assistindo sem prender-se com atenção e objetividade para o que ocorreu naquele ano.

Seu eco mais recente é o fenômeno Sanders.

Partindo das revoluções democráticas no mundo árabe- um processo que por agora está estagnado na falta de uma alternativa regional, mas que segue com sua latência- chegando ao movimento dos indignados na Espanha tivemos nos últimos dois anos importantes correspondências políticas que amadureceram os fenômenos iniciais de contestação.

E talvez na América tenhamos uma das suas formas melhores desenhadas.

No 17 de setembro de 2011, uma multidão, em sua maioria jovens, insipirado no fenômeno internacional de ocupação das praças, decidiu ocupar o Parque Zucotti, no coração financeiro de Manhatnam. Foi um catalisador de diversos movimentos que estavam acontecendo, com a presença de nomes como Naomi Klein, Slavoj zizek, o cineasta Michael Moore- que alias, está produzindo um novo documentário sobre a contaminação da água em sua cidade natal, Flint.

Em seguida tivemos expressões importantes com a eleição da socialista Kshama Sawant, em Seattle. A articulação vitoriosa da campanha 15 U$ NOW, organizado pelo novo sindicalismo e por trabalhadores imigrantes e precarizados.

Esse caldo de mobilização social ganhou um salto de qualidade com as novas manifestações do movimento negro contra a violência policial. Manifestações que ganharam peso e marcaram por vários meses a conjuntura de todo o país. O movimento resultou na organização de “Black Lives Matter/Vidas Negras Importam”.

Os clãs, castas e corporações: guardiões do centro extremo

 

NH também representou a primeira derrota da nova estratégia Clinton: desmoralizar e atacar sem piedade Sanders. Derrotada no debate televisivo, pouco restou à Hilary, apenas antecipar sua campanha de que um voto a Sanders reforça, indiretamente, Cruz ou Trump.

Existe um ponto de unidade entre os vários articulistas dos principais editoriais na imprensa, das grandes corporações e nas castas políticas que dirigem os parlamentos: defender a estabilidade contra qualquer “anomalia” que possa desvirtuar os rumos de sua condução.

Uma vez mais, a santa aliança para defender o “centro extremo”.

A vitória de Obama, contra a favorita Hilary, foi um sintoma, menor e mais comedido, de quando as crises geram brechas, onde o descontentamento popular oferece à política a condição de deslocar as coordenadas originais, sempre produzidas no mundo das finanças e disseminadas pelo “Quarto poder” da grande mídia.

A contradição dos 99% contra 1%, sai do plano econômico para o vermelho vivo da disputa política nos Estados Unidos.

Os tempos estão mudando

Como disse o poeta, os tempos estão em plena mudança.

Todos os “poréns” estão sobre a mesa. O Partido Democrata é um partido a serviço das elites. A “máquina Clinton” jogará com todas as forças para impedir o crescimento de Sanders. Não existe um nível de radicalização para alterar a correlação de forças.

Entretanto, o que determina a “grande aposta” é de que o movimento Sanders, juvenil e de massas, possa se fundir com a vanguarda que organiza os movimentos mais dinâmicos: 15U$ now!, Black Lives Matter.

Sua vitalidade está no debate programático: defender uma revolução política contra a casta; a taxação das grandes fortunas; a defesa do salário mínimo como os trabalhadores vem lutando desde Seattle; a luta contra o financiamento privado; a defesa da universalização dos direitos como saúde e educação; a radicalização do processo que polarizou o país no tema da saúde, durante os anos Obama, conhecido como Medicare.

Ao resgatar esse debate, Bernie Sanders está ingressando para a história. Depois de décadas de perseguição aos ativistas de esquerda, anos de de uma potente máquina ideológica afirmando que o socialismo é o inimigo da liberdade, funcionando sobre os milhões de americanos diariamente, resgatar o debate sobre o socialismo é o outro feito enorme dos tempos que mudam. Mesmo sendo uma visão genérica de socialismo- aos moldes do socialismo “nórdico”, só o fato de defender uma alternativa no coração do Império, representa uma nova etapa para a luta política.

A esperança, levantada por Trotsky de que o futuro possa ser socialista nos Estados Unidos, começa a ser recuperada. Com uma pitada de humor que lembraria as tiradas de  Sanders, o “Velho” previu algo fundamental: depois do terceiro ano de governo socialista, já ”não se mascarão chicletes”.[1]

Quando os tempos mudam, o impossível fica relegado a uma peça estranha de museu.

[1] http://esquerdasocialista.com.br/se-a-america-do-norte-fosse-comunista/

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

Abaporu

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

Leon Trotsky Joseph Stalin