Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

Por Roberto Robaina, Direção Nacional do PSOL e Secretariado Nacional do MES/PSOL

Em uma das manchetes da Folha de SP de hoje, 26 de junho, lemos que “a esquerda do PT volta atacar o governo”. Apesar de já não termos visto quase nada relevante feito pela chamada esquerda do PT nos últimos anos, somos obrigados a prestar atenção para ver se algo seriamente de esquerda pode surgir daí.

Até as pedras sabem que o governo Dilma é um dos mais impopulares da história recente do país. O PT não tem escapado da queda porque é o partido responsável pelo governo. Mas se Dilma não tem outra alternativa que não seja sustentar as medidas que seu governo adota– já que nada consta que tenha intenção de renunciar – os dirigentes e parlamentares do PT, partido que oficialmente, em seus Congressos e no parlamento aprova e respalda o que o governo faz – continuidade do ajuste fiscal e a manutenção das alianças incluindo, por óbvio – tratam de se separar de Dilma sempre que têm a possibilidade da imprensa registrar tal suposta insatisfação. É a surrada história de abandono do barco afundando.

Até Lula, ou seria melhor dizer, principalmente Lula, tem usado este expediente: apoio real, oficial, respaldo ao ajuste e às alianças, e crítico “construtivo”, mas crítico, apontando sempre a estratégia de uma frente de esquerda ampla e a renovação do PT demasiado preso a cargos e afastado da juventude, segundo as suas próprias declarações. É claro que suas críticas e propostas são a mais pura enganação. Lula é o chefe do PT, o principal articulador da aliança com o PMDB, e durante anos o principal gerente dos interesses políticos dos banqueiros e, como se sabe, das empreiteiras. Não é à toa que a prisão do dono da Odebrecht tenha preocupado tanto o líder máximo do PT. Suas relações são orgânicas. A demagogia não tem mesmo limites. Neste quadro Lula não pode abandonar o barco que ele mesmo construiu e do qual depende sua sobrevivência política. Por isso, mesmo que queira, não consegue abandonar Dilma pelo caminho. O criador seria arrastado pela criatura para o poço até o final.

Mas sejamos justos. Embora os deputados da esquerda do PT tenham votado as medidas do ajuste no parlamento, no Congresso do PT demandaram uma mudança de política, incluindo o fim da aliança com o PMDB. Mas a leitura da matéria não deixa lugar à dúvida, a esquerda petista mantem a mesma estratégia de sempre: apoiar a Lula. Tanto é assim que Carlos Henrique Árabe, representante da DS na Executiva Nacional do PT diz que Lula tem ido mais longe do que eles: “ Nós defendemos uma renovação do PT. Lula é ainda mais ousado: quer revolução” disse (Folha SP 26.06) . Se Lula vai mais longe do que a esquerda petista se deduz que Lula segue para eles indicando o caminho a seguir. Não por acaso a DS se anima a “sair da toca” depois de inúmeras matérias vazadas para a mídia – obviamente pela própria equipe de Lula, com seu aval – acerca das “mudanças” que devem ser feitas no partido. Lula estaria à esquerda da esquerda. Parece mesmo que a tragédia e a comédia se misturam.

Na mesma linha da DS, o ex-governador Tarso se movimenta após perder a eleição do governo gaúcho. Entre almoços, jantares e manifestos, Tarso defende a necessidade de uma frente de esquerda. Como se sabe, Lula também tem defendido uma frente de esquerda ampla. E Ruy Falcão, o presidente do PT, assume a mesma linha. Se poderia dizer que é já a linha oficial do PT. Mas Tarso não se movimenta apenas internamente. Publicamente tem se expressado contra o ajuste defendido por Levy, afirmando que é um desastre que o PT assuma esta posição. Neste caso, pontos para Tarso. É importante que rejeite o ajuste. De fato defender qualquer ideia de frente de esquerda e ao mesmo tempo defender o ajuste neoliberal não tem consistência lógica e no máximo se resume a pura demagogia. A questão é que Tarso também mantem Lula como sua liderança máxima. Por isso, em entrevista ao jornal Correio Brasiliense de 21 de junho, perguntado se o candidato do PT em 2018 será Lula ou se há outros nomes no PT que tenham condições de pleitear à vaga, respondeu claramente que “ Lula é sempre uma possibilidade e para nós, possibilidade preferencial…”. Sua defesa da frente de esquerda se confunde com a defesa de Lula presidente. Não poderia ser pior: um discurso de suposta renovação para uma estratégia que não é capaz de superar nem mesmo o lulismo com sua história de pelo menos uma década de traições aos interesses do povo, dos trabalhadores, da esquerda e do socialismo.

Com esta linha política Tarso tem se reunido com políticos de outros partidos com a situação similar à sua – dissidentes que não se animam a terminar de romper com seus partidos – como Roberto Amaral, dissidente do PSB, Randolfe Rodrigues, dissidente do PSOL, que até com sua ex-corrente interna no PSOL rompeu, a APS, o próprio Lindbergh Farias e dissidentes da Rede de Marina.

Assim, se Lula não pode abandonar Dilma, porque ao fim, ao cabo tem sua sorte ligada a este governo, embora deva ter muitas vezes este desejo para garantir os objetivos eleitorais do PT, e sobretudo seus próprios interesses eleitorais, a esquerda do PT e seus dissidentes internos não abandonam Lula. Não nos interessa aqui responder por que.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

Solzinho