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A crise das bolsas chinesas e seu significado para os trabalhadores

Por Maycon Bezerra – Professor, militante do MES e colaborador da Secretaria de Relações Internacionais do PSOL

Qualquer avaliação mais detalhada da atual crise por que passa a economia chinesa se ressente da falta de mais e melhores informações sobre seu real estado. O caráter ultra-burocrático e ditatorial do regime chinês, com a conseqüente opacidade relativa do quadro sobre o qual opera seu modelo econômico, dificulta a tarefa de quem se lança à análise. No entanto, a partir dos dados e informações disponíveis é possível mapear as tendências mais gerais da economia chinesa no interior da qual a crise de suas bolsas de valores eclodiu, a partir de meados de junho passado.

Do início do ano de 2015 até junho, as ações negociadas nas bolsas de valores chinesas foram inflacionadas em mais de 60%, como resultado de uma política governamental de estimulo ao investimento bursátil da classe média e dos trabalhadores assalariados[1]. Desde então, as perdas no mercado acionário chinês, provocadas pela fuga de investimentos e, em consequência, pela desvalorização dos papéis, já chegaram à casa dos US$ 4 trilhões, cerca de 10 vezes mais do que a dívida pública grega que polariza o debate na Europa.

A atual crise chinesa deve ser entendida como parte da crise capitalista internacional desencadeada a partir de 2007-2008: a queda da demanda nos mercados consumidores dos EUA e da Europa, a partir de então, levou à inviabilidade do modelo econômico chinês responsável pelas altas taxas de crescimento das duas últimas décadas. Diante do esgotamento do modelo ultra-exportador consagrado, a liderança

chinesa buscou reorientar sua produção para o mercado interno, o que constitui uma manobra de elevadíssima complexidade que implica em reverter um dos elementos mais fundamentais do capitalismo chinês: o baixo custo da força de trabalho[2].

A crescente hibridização entre a burocracia e classe capitalista propriamente dita[3], tornam pouco realista a perspectiva de uma elevação substancial e adequada da massa salarial (direta e indireta) como política de Estado, ainda que a forte redução da força de trabalho de reserva (pelo avanço sistemático, nas últimas décadas, da migração da maior parte do campesinato pobre para as cidades, com sua incorporação – mais ou menos precarizada – ao aparato produtivo industrial) e as lutas e greves operárias pressionem nesse sentido.

A crise das bolsas chinesas eclode como parte de um contexto já marcado pela super-acumulação de capital expressa no imenso, inconsistente e insustentável investimento excessivo no seu mercado imobiliário, que tem um peso relativo na economia chinesa maior que aquele relativo às economias dos EUA e da Espanha no auge da bolha especulativa que explodiu em 2007. O derretimento dos preços dos imóveis no último ano não foi acompanhado pela queda no investimento em construção, ao contrário, esse veio crescendo impulsionado principalmente pelos governos locais[4].

Não apenas a superedificação crescente, impulsionada predominantemente por esses governos locais, não tem conseguido evitar a desaceleração da economia chinesa, cuja transição a uma “sociedade de consumo de massa” mostra-se extremamente complexa e truncada para os limites do capitalismo burocrático ali consolidado, como agrava o desequilíbrio entre oferta e demanda no setor e constitui um dos pilares básicos do super-endividamento crítico dos governos locais junto a bancos estatais, mercados de títulos e “bancos alternativos” (clandestinos e desregulados). Praticamente toda a imensa dívida dos governos locais está lastreada em terras de propriedade desses governos que se encontram ainda muito sobrevalorizadas, o que constitui um gigantesco fator de instabilidade financeira e econômica interna.

O mercado de ações havia sido inflacionado pelo governo, através de uma enxurrada de crédito destinado, em sua esmagadora maioria, a investidores individuais e não institucionais (como fundos mútuos ou de pensão) que chegam à casa dos 120 milhões de pessoas. A iniciativa não apenas veio buscando capitalizar por essa via as empresas e dar um destino aos investimentos distinto do mercado imobiliário, como parecia apontar no sentido da construção de um “capitalismo popular”, no qual a propriedade de ações estivesse disseminada na população, bem como o sentimento de responsabilidade pela “saúde” das empresas e do capitalismo “nacional”.

O desmoronamento dos preços das ações ao longo desse último mês é apresentado, em geral, pelos economistas burgueses como mera reação circunstancial “de rebanho” por parte dos investidores individuais, contornável não apenas pela própria ação do mercado como pela maior concentração do fluxo de renda pelo canal dos “investidores institucionais”, que seriam dotados de mais eficiente “racionalidade”: aqui se esconde sua integral responsabilidade pela crise financeira dos EUA em 2007- 2008. Outros analistas, mais sofisticados, como Paul Krugman, destacam a responsabilidade da condução governamental no aprofundamento da crise e sua vinculação com a insuficiência do ritmo da reorganização do modelo econômico chinês[5]. Por outro lado, de uma perspectiva marxista, o estouro da bolha bursátil chinesa deve ser vista nos marcos totalidade da economia chinesa e mundial: cuja tônica é a desaceleração e a dinâmica de crise, sem perspectiva de solução à vista.

O volume das perdas financeiras nesse processo, cerca de US$ 3 trilhões, seu alto impacto na população, bem como o imenso (e temerário) esforço do governo chinês para manter o nível do preço das ações em um patamar muito sobrevalorizado, inclusive através de medidas coercitivo-policiais, tendem a apontar para uma crise de implicações profundas e estruturais, não apenas para a economia chinesa como, através dela – que veio sendo o “amortecedor” da crise mundial desencadeada em 2007-2008 – para a economia mundial, em especial, latino-americana. Um aprofundamento da desaceleração econômica chinesa, mesmo que não chegue ao nível da recessão cogitada em alguns meios governamentais do país asiático, terá um impacto muito forte na demanda por matérias-primas e bens primários em geral, nos marcos de em uma economia mundial estagnada.

A forte reprimarização da economia da América Latina e do Brasil, amplamente induzida pela demanda chinesa na última década e meia, revelará, afirmando-se esse contexto, seus limites críticos e sua inerente tendência ao aprofundamento radical e anti- social de nossa dependência. Principalmente quando combinada com o choque recessivo imposto pelo financismo transnacional que conduz o imperialismo dos EUA, e as burguesias locais a ele associadas, em nossa região. Para os trabalhadores e as maiorias populares, as conseqüências serão o aumento do desemprego e da miséria, o que precisa levar a uma intensificação da luta de classe unitária dos de baixo, como já aparece na realidade atual das greves e mobilizações que se acirram.

Para os trabalhadores chineses, a perspectiva também é especialmente dura. As greves e rebeliões localizadas, que se já se manifestam de modo sensível, tendem a se incrementar e disso depende sua sorte. Não há saída para esses trabalhadores sob o poder burocrático-capitalista do regime estabelecido. A crise atual parece ser a demonstração não de um colapso repentino e absoluto, mas de um compassado esgotamento de modelo cuja recomposição não parece possível nos marcos do capitalismo burocrático vigentes.


 

Notas:

1 http://www.eleconomista.es/economia/noticias/6913610/08/15/La-mayor-corredora-estatal-china-niega-malas-practicas-durante-la-caida-bursatil.html

2 Já foi possível desenvolver mais longamente esse tema em outro momento.

(http://esquerdasocialista.com.br/china-e-america-latina-alianca-estrategica-soberana-ou-aprofundamento-da-dependencia-2/)

3 Idem.

4 http://www.cronista.com/financialtimes/La-otra-cara-de-China-exceso-de-deuda-y-crisis-inmobiliaria-20150202-0029.html

5 http://www.jb.com.br/economia/noticias/2015/08/02/el-pais-os-imperadores-nus-da-china-por-paul- krugman/

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