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A construção de uma alternativa na Turquia: o Congresso do HDP

Por Fred Henriques, direto de Ancara na Turquia

Congresso do HDP

A queda nos preços do petróleo, a Primavera Árabe, assim como o desenrolar da guerra civil na Síria transformou o oriente médio e a mesopotâmia no centro geopolítico do mundo. No tabuleiro as potências imperialistas (Rússia, Europa e Estados Unidos) intervém de forma contundente na região. Este conflito não apenas é alarmado pela crise dos refugiados, mas pela população civil envolvida nestes territórios e os inúmeros povos que lutam por sua sobrevivência. Nesta região o PSOL tem sido protagonista, desde os primórdios da Primavera Árabe em 2011, aos levantes da Turquia em 2013, como na solidariedade ao povo Curdo em 2015 o partido esteve sempre presente. Neste momento mais uma vez o PSOL está acompanhando de perto dois territórios-chaves: a Turquia e o Curdistão.

No inverno rigoroso de Ancara fomos recebidos com muito entusiasmo pelo nossos companheiros do Partido Democrático dos Povos (HDP). Durante vários anos na Turquia a esquerda tentou formar partidos amplos, mas o programa amarrado e o sectarismo de diversos grupos impediram o surgimento deste modelo. Em 2011, a partir de reflexões de Obdullah Ocalan, principal referência e liderança da esquerda Curda que se encontra preso no Kenya, criou-se o Congresso Democrático dos Povos unificando não apenas os Curdos, mas movimentos sociais: ambientalistas, intelectuais, feministas e partidos socialistas. E foi através desta experiência de organização que surgiu já em 2012 o HDP.

A expectativa era grande no domingo. Devido a segurança não poderíamos chegar no local do evento de táxi ou qualquer veículo não autorizado pela organização. As ondas fascistas e a falta de segurança fizeram com que o partido organizasse cercos brigadas para proteger o espaço do congresso. A cada 15 minutos chegava uma van para levar os delegados internacionais e deixar no estacionamento do ginásio, e ainda passávamos por uma revista intensa antes de entrar no local. A esquerda turca, em especial o HDP e os Curdos, foram alvos de pelo menos 3 atentados nos últimos 6 meses, sendo o maior em Ancara no meio da passeata em defesa da “Paz, Trabalho e Democracia” que matou mais de 100 ativistas e feriu outros 400 – o movimento acredita que este foi realizado a partir das relações do governo turco com o Estado Islâmico.

Entramos por uma entrada secundária para os convidados internacionais e logo ganhamos os fones para a tradução simultânea. Palavras de ordem ecoavam por todo o ginásio chegando até as ruas do entorno. Ficamos impressionados ao nos deparar com um ginásio repleto de militantes, além de bandeiras de todas as cores e foto de mártires nas paredes para completar o cenário. Logo no início uma canção começa a ser entoada e todos se levantam e com o braço esquerdo erguido fazem um “V” com a mão. Este se mostrou sempre um símbolo muito importante para eles utilizado em vários momentos durante o congresso.

Após a abertura por uma mesa composta equitativamente por homens e mulheres, entra Selahattin Dermitas e Figen Yüksekdag, dirigentes que num sistema de co-presidência por paridade de gênero lideram o partido de forma igualitária. As falas tiveram como centro a busca pela paz negociada entre governo e os curdos, o avanço da democracia e a autonômica das comunidades. A ideia de uma radicalização da democracia direta, como acontece nas áreas liberadas do Curdistão na Síria (Rojava), se misturava a um federalismo radical. A denuncia do governo proto-facista de Erdogan, como a defesa dos direitos das mulheres e das minorias étnicas dava o resto do tom dos discursos. Também estavam presentes a crítica ao modelo econômico assim como a concentração de riqueza, mas sempre ligados a questão política mais geral da democracia.

Durante o almoço foram lida as resoluções das setoriais enquanto boa parte do ginásio transitava entre as banquinhas com livros de Ocalan, Lenin, Mao e Trotski. Por semanas todas as setoriais e regionais se reuniram e tiraram resoluções de atuação tática e programa que apenas foram homologadas no congresso. Por fim uma chapa única foi inscrita e o processo de votação foi aberto. Com o fortalecimento da repressão, não é de se estranhar que as disputas internas sejam minimizadas e o enfrentamento ao inimigo comum, o governo e todas as formas de facismo sejam intensificadas.

Em seguida fomos convidados pela presidenta, Figen Yüksekdag, para uma conversa com a nossa delegação. Para além de compartilhar das impressões do avanço dos elementos autoritários e violentos do governo, ela desenvolveu sobre a guerra psicológica organizada pelos meios de comunicação e acordo com Edorgan a fim de enfraquecer o movimento. Ela apontou que com a chegada da primavera, o governo poderá intensificar o combate e a solidariedade internacional será fundamental para deter a escalada da violência do Estado. Tendo em vista a situação crítica que vive a Turquia, em especial o sudeste conhecido como Curdistão do Norte, nos comprometemos a iniciar uma campanha de denúncia ao governo turco e de solidariedade aos Curdos. Em contraposição Yüksekdag, se prontificou a enviar  uma delegação de HDP para o Brasil a fim de divulgar a situação da Turquia e do Curdistão já em meados de abril.

No inicio da noite participamos junto com toda a delegação internacional e a executiva do HDP de um jantar, na qual todos fizeram suas saudações. Como a única delegação das Américas, quebramos o protocolo fizemos nosso discurso destacando a necessidade da campanha contra o governo turco e presenteamos o Partido Democrático dos Povos uma bandeira do PSOL.

A necessidade de estreitar os laços e divulgar o que acontece na Turquia fizeram com que logo na segunda cedo eu fosse organizar a entrevista com Alp Altinörs, membro da executiva do HDP, realizada já no início da tarde do dia 25 de Janeiro. No final deste dia tive um produtivo encontro com as jovens companheiras do Partido da Solidariedade e Liberdade (ODP), que o companheiro Thiago Aguiar já vem mantendo relações desde o levante em Gezi em 2013. Foram logas e produtivas as conversas que pretendo divulgar como material o quanto antes.

Por fim nesta terça-feira, dia 26 de Janeiro, estarei descendo para a capital do Curdistão do Norte, Diyarbakir, me reunir com diversos movimentos e entidades a partir de uma agenda organizada pelos companheiros do HDP, assim como observar in loco a investida do Estado turco na região. A mesopotâmia que já foi um dos berços da humanidade hoje é o centro da geopolítica mundial e o PSOL estará presente em defesa do povo Curdo e denunciando o governo proto-facista de Edorgan, assim como as intervenções imperialistas nessa região.

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Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

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