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A China e a sua primeira crise capitalista

Artigo de Alejandro Nadal, publicado no jornal mexicano “La Jornada” em 29 de julho de 2015. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

As taxas de crescimento da economia na China têm sido alvo de admiração em todo mundo. Parecia que o capitalismo tinha chegado à China para mostrar todas as suas virtudes e quando se assinalavam os defeitos, a maioria das pessoas preferia ignorá-los. Hoje a economia chinesa trilha o caminho da crise, a sua primeira crise capitalista de natureza macroeconómica.

Os dados oficiais da China revelam que a taxa média de crescimento para o período 1991-2014 foi de 10 por cento. Embora se saiba que as estatísticas do governo chinês estão sujeitas a manipulações significativas, mesmo assim os números corrigidos mostram o que parece ser um desempenho espetacular. Mas desde 2010 a economia chinesa sofreu uma desaceleração de 35 por cento e, em 2014, registou a mais baixa taxa de crescimento desde 1991.

Quando uma economia cresce a taxas de dois dígitos não é estranho observar o surgimento de graves distorções. Não me refiro aqui às distorções que os economistas neoclássicos querem ver no sistema de preços devido à intervenção do governo na vida económica. Esses economistas têm querido uma maior liberalização do mercado porque argumentam que a economia socialista na China acarreta uma séria deformação de preços e incentivos. Desta maneira os problemas da economia chinesa são cobrados à intervenção do governo e não à instabilidade intrínseca das economias capitalistas. Esquecem que o Partido comunista chinês é hoje o administrador de uma das economias capitalistas mais selvagens da história.

Referimos-nos às distorções estruturais que hoje marcam a economia chinesa. Em especial, destacam-se as distorções nos setores imobiliário e financeiro.

O setor imobiliário tem sido chave no processo de acumulação capitalista e nas transformações estruturais na China. Uma destas mudanças foi a transição urbana: desde 1949 quando se consolidou a vitória do Partido comunista chinês surgiram mais de 600 novas cidades.

Em 2004, foi introduzida uma reforma constitucional sobre a propriedade privada residencial e acelerou-se o investimento em imóveis. As expectativas sobre a evolução do mercado impulsionaram a procura e o aumento de preços das casas e dos apartamentos, até ao ano passado. Mas entre janeiro e dezembro de 2014 o mercado contraiu e os preços das casas afundaram.

Alguns dados indicam que a bolha nos preços dos imóveis se está a esvaziar em vez de rebentar. Mas nada garante que o pior tenha passado e outros indicadores são menos otimistas. O excesso de espaço residencial e de escritórios por vender é enorme (há mais de 60 milhões de apartamentos que não se conseguiram vender) e com a desaceleração não será fácil identificar compradores.

O travão na expansão do setor imobiliário é um forte peso sobre a economia chinesa: tendo em conta os elos a montante com as indústrias do aço, cimento, vidro, móveis e aparelhos elétricos o setor imobiliário representa 30 por cento do PIB. Sem a recuperação do setor imobiliário a economia chinesa continuará a ter menores taxas de crescimento e agravar-se-á a difícil situação que essas indústrias atravessam, acusando já altíssimos níveis de sobreinvestimento.

Sem novas injeções de crédito o setor imobiliário não poderá crescer. Mas uma boa parte da avultada carteira de créditos vencidos dos bancos chineses está ligada ao setor imobiliário. A única maneira de endireitar o setor da construção é através de uma maior correção nos preços das casas e apartamentos para atrair um número crescente de compradores. Mas esse ajustamento de preços afetará a posição dos agentes imobiliários que se têm sobreendividado e não poderão pagar as dívidas.

O governo chinês tem feito tudo o que é possível para manter o seu sistema financeiro a flutuar. Mas uma das características do mercado das ações e das operações financeiras na China é a sua excessiva alavancagem. Como se sabe, isso não ajuda nada quando o pânico se apodera do rebanho de investidores e especuladores.

O colapso no mercado de ações na China tem sido espetacular: de 15 de junho até agora o valor de mercado sofreu uma queda de 30 por cento, com mais de 4 biliões (milhões de milhões) de dólares de perdas na capitalização.

Para apoiar o mercado o governo tem tentado tudo: desde iniciar um programa de compra de títulos e reduzir as taxas de juro, até suspender as transações de 54 por cento das ações cotadas na China.

E quando por fim nada parecia deter o colapso o governo teve que interromper as transações. Mas a alavancagem é enorme e a queda mal começou.

Se alguém alguma vez pensou que o capitalismo na China não mostraria a sua verdadeira face, deve pensar duas vezes e rever os números e indicadores sobre o setor financeiro e a economia real. É possível que a crise na China esteja apenas começando.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

A edição n.6 da Revista Movimento celebra o centenário da Revolução de Outubro com artigo de Kevin Murphy sobre as origens do stalinismo. Luciana Genro discute a continuidade da Operação Lava Jato. Alvaro Bianchi introduz a nossos leitores conceitos de Antonio Gramsci. A revista também apresenta tradução de palestra de Angela Davis. Na seção internacional, publicamos artigo de Perry Anderson sobre a resiliência do centro neoliberal europeu. Edgardo Lander trata da situação venezuelana, Pedro Fuentes e Charles Rosa abordam a questão catalã. Um instigante artigo de Maycon Bezerra sobre Florestan Fernandes, a tese do MES para o Congresso do PSOL e nossa plataforma sindical completam a edição.

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