Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL) MES MES: Movimento Esquerda Socialista

As mobilizações mostram que é possível uma irrupção em paralelo de dois setores diferentes mas que partilham interesses: o precariado produto do empobrecimento das classes médias, que se expressa no movimento Nuit Debout, e a classe operária tradicional.
Por Miguel Urbán, eurodeputado do Podemos.
Se há um país associado à “tradição dos oprimidos” de que falava Walter Benjamin, esse país é a França. Desde a Revolução Francesa até ao Maio de 68, passando pela Comuna de Paris ou pela Resistência Antifascista, a França tem sido o palco da disputa política por excelência. Não é de estranhar que quando Marx nomeava as três fontes originárias do seu pensamento falasse da filosofia alemã, da economia inglesa e da “Política” francesa. A história de França é uma história de irrupções plebeias e operárias inesperadas, de conflitos que parecem aquecer sozinhos, que aparecem a partir do nada. Embora não pudéssemos prever a Nuit Debout nem o impulso grevista encabeçado pela CGT, podemos analisar as razões da explosão e tentar recuperar a discussão chave estratégica internacionalista a partir da situação francesa.

Varoufakis comentou recentemente que a França era o único país da Europa em que as contrarreformas neoliberais não se tinham imposto. Há que desenvolver esta afirmação em vários sentidos. Por um lado, é verdade que a resistência às contrarreformas laborais foi muito mais eficaz em França do que noutros países europeus. O primeiro grande embate travou-se em 1995, com greves gigantescas no setor público contra a reforma da segurança social impulsionada pelo direitista Alain Juppé. Daquelas greves fica a lembrança do sociólogo Pierre Bordieu, retomando o papel de Jean Paul Sartre, do intelectual comprometido com a causa dos trabalhadores, mas também que foi a primeira vez (juntamente com a greve geral espanhola de 88) em que se conseguiu uma vitória que, embora não conseguisse reverter a viragem neoliberal que Thatcher impôs quando derrotou os mineiros ingleses em 1984, abria um campo para pensar alternativas. O movimento antiglobalização que surgiu alguns anos depois deve muito às greves de 1995 e também foram o ponto de partida para a rejeição da Constituição Europeia dez anos depois. A luta contra o neoliberalismo não se limitou ao plano sindical, mas também se deu no político. Aquela vitória foi um autêntico paradoxo: foi a esquerda que a organizou por baixo, com centenas de comités unitários, mas, ao ser incapaz de traduzi-la num movimento organizado com perspetiva política, o descontentamento com a Europa das elites acabou por ser rentabilizado a médio prazo pela Frente Nacional.

No entanto, este legado, que teve continuidade em lutas como as de 2010, não foi capaz de reverter a hegemonia neoliberal que, como bem explicam Laval e Dardot1, não é simplesmente um conjunto de leis reguladoras, mas também uma dinâmica sistêmica e biopolítica que se impõe como modelo de relações sociais. A exclusão sistémica e estrutural de milhões de pessoas negras ou árabes da sociedade “oficial” é uma consequência direta de que, apesar de um setor qualificado e bem organizado da classe trabalhadora ter podido manter as suas condições de vida (fundamentalmente do setor público, que em França ocupa amplos setores da economia que noutros países estão privatizados), o neoliberalismo tem avançado no mercado e na sociedade civil, atomizando as trincheiras que a classe operária tinha construído para se contrapor ao capital. Há duas consequências que servem para ilustrar este contraste entre a explosão de resistência da sociedade francesa e o avanço subjacente ao modelo neoliberal. Por um lado, que esta CGT que está a sustentar a greve é uma central sindical muito radicalizada, como personifica o seu principal dirigente convertido no principal opositor a Hollande. Um sindicalista chamado Phillipe Martínez que parece saído de um filme de Robert Guédiguian. Mas ao mesmo tempo, a CGT é uma central sindical muito debilitada: passou de três milhões de filiados para pouco mais de 600.000. Por outro lado, quem tem capitalizado o descontentamento perante a desindustrialização e a destruição das comunidades vivas, em que se desenvolvia a experiência coletiva de milhões de trabalhadores, foi a Frente Nacional. Uma Frente Nacional que, apesar de ter alguma base operária, tem pedido mão de ferro contra as greves, demonstrando o seu carácter reacionário mas também os limites de uma esquerda política que perdeu a sua ligação com a classe trabalhadora. Apesar de não haver uma relação unívoca e monocausal entre “posição de classe” e “ideologia”, o caso francês demonstra que os temas condicionados pelas relações de classe são fundamentais para canalizar o descontentamento numa ou noutra direção.

Por isso, devemos clarificar que leitura fazemos do que se está a passar em França. É curioso como a esquerda e a direita coincidem em fazer uma análise do que se passa neste país na perspetiva “conservadora”. A direita e também o social-liberalismo encarnado por Manuel Valls fazem questão de etiquetar o movimento como “oposto às mudanças”, como um movimento nostálgico contrário à necessária modernização da sociedade francesa que, naturalmente, passa por liberalizar o trabalho e aniquilar as conquistas históricas do 68 francês. Assim, a ideia de progresso toma a forma de ajuste de contas com a história para, continuando a obra de Furet, recuperar a história de França para as elites. Valls e Macron aparecem neste relato nauseante como yuppies contra-culturais que tentam destruir esse sujeito corporativo e reacionário, cheio de privilégios, que é o mundo do trabalho. A crise da social-democracia assume uma forma especialmente perversa em França, com um PS dividido entre os que estão conscientes de que estas medidas os afastam da sua base social e os que como o primeiro-ministro estão convencidos de que a sua missão histórica é destruir os restos do Estado Social. Por outro lado, as declarações do Secretário Geral do Partido Comunista de França, Pierre Laurent, em que disse à juventude da Nuit Debout: “Convido-os a unirem-se ao Partido Comunista”, revelam a mesma incompreensão conservadora, incapaz de ler as lutas como um momento de abertura para algo novo.

No entanto, podemos apostar noutra leitura, e ver o que está a ocorrer em França como um “salto” mais em todo esse fio subversivo que percorre a história francesa. Um salto cheio de possibilidades a explorar. Em primeiro lugar, porque põe em cima da mesa, ao contrário das teorias fetichistas que temos escutado nos últimos anos, que a classe trabalhadora organizada conserva um certo poder estratégico capaz de paralisar o país, atacando a cadeia de valor nos transportes e na energia. A greve não é uma questão meramente setorial, mas põe em questão quem manda no país: se os que criam riqueza com o seu trabalho ou os que vivem do trabalho alheio. Não é uma questão menor pôr em cima da mesa diferentes ferramentas e formas de luta que correspondem a diferentes realidades materiais e correlações de forças. Na combinação de técnicas e repertórios (greve, manifestação, assembleia numa praça) expressam-se não só necessidades, mas também potências. Por outro lado, demonstrou-se que é possível uma irrupção em paralelo de dois setores diferentes mas que partilham interesses, como é o precariado produto do empobrecimento das classes médias que se expressa no movimento Nuit Debout e setores da classe operária tradicional, ainda que também deveríamos pôr em cima da mesa a falta de ligação com os bairros periféricos cheios de jovens de origem árabe ou africana. Que o descontentamento social se expresse em forma de luta ativa, de experiência real, é o passo necessário para o aparecimento de um substrato social impugnador que impeça a Frente Nacional de ser a alternativa ao establishment.

Tudo o que está a passar em França pode ter repercussões fundamentais na Europa. Naturalmente, não pretendo dar lições aos companheiros de França, mas sim acabar com uma reflexão que tem alguma validade universal e que acho que é uma lição das experiências noutros países. Há que discutir sobre como ancorar o descontentamento, dando-lhe uma expressão política que vá para além da reivindicação defensiva para, a partir destas lutas e reivindicações, construir um bloco social que articule um novo projeto de sociedade. A esquerda francesa, lamentavelmente muito atomizada e encerrada em si própria, está perante uma oportunidade histórica de recuperar o papel central que lhe atribuiu Marx. Para isso, como temos comprovado noutros países, é fundamental construir organização social e ao mesmo tempo ser capaz de se dotar de uma ferramenta político-eleitoral que apareça como nova, participativa e aberta. Por que não fazê-lo no calor da luta? Por que não discutir em paralelo como ganhar esta greve, como estabilizar as estruturas de luta convertendo-as em espaços de organização, para que toda esta formidável energia seja a base de uma ferramenta para disputar o poder? Sem dúvida que precisamos disso. Precisamos de avançar em França para poder avançar no resto da Europa. A melhor tradição internacionalista sempre esteve consciente de que o que se passa noutro país tem repercussões em todos. Para mudar as coisas, precisaremos ter amigos em mais países. Por isso, criar laços com a França e com as lutas do povo trabalhador remete-nos para o significado mais acertado da solidariedade: o facto de que não só eles precisam dela, como também nós.

Artigo de Miguel Urbán, eurodeputado do Podemos, publicado em ctxt.es.

Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

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