Internacional Opiniao

Uma vez mais, o Junho que nos espera

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Israel Dutra
Escrito por Israel Dutra

A Europa está atravessando seus dias decisivos. A cada semana a crise humanitária que atinge os imigrantes ganha mais e mais contornos dramáticos.

Na Áustria disputaram de forma renhida dois projetos antagônicos na última eleição: um democrático-ambientalista e outro abertamente de extrema-direita; por pouco a direita dura não venceu, sendo que ganharia  pela primeira vez a chefia de um Estado importante.

Pesquisas indicam a polarização no Reino Unido. Um Brexit ameaça os planos das classes dominantes que seguem apostando na combalida UE, associada a Troika.

Contudo, são dois os países que jogam um papel chave nas próximas semanas.

No âmbito político, a eleição geral espanhola pode oferecer uma chance à mudança. A aliança entre Podemos e IU conseguiu galvanizar a energia aberta pela irrupção dos indignados, cinco anos atrás, levando uma mensagem de esperança. No dia 26 de Junho se pode começar a escrever uma nova história na Espanha, suplantando o cadáver da social-democracia do PSOE e enfrentando os conservadores de Rajoy e do PP. Será uma disputa eletrizante que ganhou mais força no evento que acontece agora em Madrid- onde Luciana Genro é uma das convidadas centrais- que congrega as “Cidades pela mudança”, onde prefeitos das nove cidades que a esquerda governa no Estado Espanhol se unem para celebrar um ano de gestão, discutir e unir políticas, expandir experiências pelo mundo e fazer um impulso para a vitória de Unidos Podemos em junho.

No terreno social, uma vez mais a França está na dianteira. Depois de seis anos de letargia e pesadas derrotas da classe trabalhadora, o país que conhece a maior tradição democrática e operária do continente volta a ser vanguarda. Uma luta que começou há dois meses entra na sua fase decisiva.  Contra a nova reforma trabalhista que retirar direitos estruturais, se levantou a classe operária, junto a juventude e setores médios. Depois da instalação do clima do medo por parte do governo Hollande, que por conta dos atentados terrorista instaurou mais leis repressivas contra o povo, entra em cena a luta social, desobedecendo o roteiro planejado pelo governo “Socialista”, pela direita e pela MEDEF(os patrões).

O governo, temendo perder a votação no parlamento, usou de um dispositivo autoritário para aprovar a lei sem passar por votação legislativa- o chamado 49.3. A resposta da classe foi organizar inúmeras greves, sendo várias delas greves intermitentes (reconduzidas, no jargão sindical francês). Encontra também lugar de muito apoio no movimento que a juventude protagonizou de tomada de praças, inspirados nos indignados espanhóis e que foi batizado de “Nuit Deboit”- “Noites em pé ou noites em claro.  A greve chegou nos bastiões pesados da produção, como as refinarias e as usinas de energia. O governo afirma que não vai ceder. O impasse começa a se expressar.

A classe trabalhadora e a juventude francesa lutaram muito nos últimos 20 anos: uma grande greve derrotou o governo da direita em 1995; depois nos anos 2000 as lutas da juventude terminaram com a proposta de precarização do primeiro emprego- CPE; em 2010, o movimento contra a lei de pensões chegou a tomar forma de luta mais direta nas fábricas, mas foi derrotado.

A tradição francesa- terra das grandes revoluções- é um ponto a favor da unidade entre a juventude e os trabalhadores. Em junho, a realização da Eurocopa na França está ameaçada caso a resposta operária se radicalize e amplifique seu apoio nas ruas e praças.

Qualquer semelhança com o que se passou com a copa das confederações no Brasil em 2013 não é mera coincidência.

Eis o Junho que nos espera.

Sobre o autor

Israel Dutra

Israel Dutra

Israel Dutra é membro da direção nacional do MES e do PSOL.

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