Especial Internacional

Turquia: o massacre e a luta democrática de classe dos de baixo

Turquia
Maycon Bezerra
Escrito por Maycon Bezerra

O dia 10 de outubro de 2015 ficará tristemente marcado na memória pelo massacre cometido contra a esquerda turca e curda na cidade de Ancara. Não será esquecida a selvageria dos atentados a bomba que, em uma manifestação pacífica para reivindicar a paz, mataram mais de 120 manifestantes e deixaram cerca de 500 feridos. Trata-se de uma tragédia, um crime imperdoável que absurdamente não surpreende. É o terceiro atentado a bomba, apenas nos últimos meses, contra o movimento de massa animado pela esquerda democrática e anticapitalista no país governado por Recep Tayyip Erdogan.

O presidente da Turquia, líder do partido da direita islamista, também é apontado como responsável pelo atentado a bomba no comício do esquerdista HDP (Partido Democrático dos Povos) na cidade de Amed, no dia 5 de junho desse ano, que matou 5 pessoas ferindo 200, e por outro atentado em um evento unitário da esquerda socialista em solidariedade à população de Kobani em Suruc, sul do país, que matou 34 camaradas no último dia 20 de julho.

As bombas deste sábado foram detonadas em um grande ato público da esquerda em Ancara, capital da Turquia. Entidades sindicais haviam convocado às ruas contra a política belicista de Erdogan, que bombardeia posições das brigadas do PKK nas montanhas, até depois das fronteiras com o Iraque, além de submeter ao terror a população das cidades e aldeias curdas do sudeste do país. O ato exigia a retomada do processo de paz entre as partes e o fim das hostilidades e operações militares.

O atentado aos manifestantes se insere no contexto de uma escalada repressiva violenta da classe dominante contra a articulação da esquerda democrática e socialista turca com o movimento revolucionário curdo, e contra a população civil curda, indistintamente. O AKP, partido de Erdogan, e o conjunto da direita e extrema-direita nacionalistas, capazes também de mobilizar setores de massa, além do terrorismo de estado, têm lançado a turba reacionária à prática do linchamento e da depredação de estabelecimentos ligados ao HDP, o partido turco-curdo mais importante da esquerda socialista no país.

As forças militares desse aliado histórico dos EUA e membro da OTAN desatam a barbárie nas cidades do Curdistão, massacrando população civil e desfilando os corpos pelas ruas. Estamos diante de um processo de terrorismo, não de um “simples” ato terrorista.

Toda a selvageria burguesa e reacionária, no entanto, tem sido incapaz de paralisar o avanço da luta popular na Turquia. As jornadas de luta de 2013, iniciadas pela juventude contra a decisão do governo de demolir o Parque Gesi, em Instambul, tornaram-se gigantescos protestos por mais direitos e efetiva democracia. Desde então, há mais mobilização social e luta política no país, apesar da repressão.

Afirmando essa trajetória, as ruas de várias cidades turcas voltaram a ser tomadas pelo povo nesse domingo, para homenagear as vítimas dos atentados do dia anterior e denunciar a responsabilidade de Erdogan, exigindo justiça! Os mais destacados dirigentes do HDP estiveram mais uma vez presentes, fortalecendo o protagonismo nas lutas com o movimento de massa e afirmando-se como referência política para amplos setores da população. A repressão que novamente sofreram, junto aos demais manifestantes, vai se tornando, cada vez mais rapidamente, a única nota do repertório de Erdogan e do regime burguês que dirige. Um claro elemento da crise de legitimidade que atravessa.

Longe de recuarem diante das novas agressões da repressão durante o domingo, as forças do movimento popular e sindical, ao contrário, convocaram uma greve geral para os dias 12 e 13. Uma clara prova de vigor e disposição de luta. Parece um elemento considerável dessa força do movimento de massa na Turquia, o fato de a “Primavera Turca” de 2013 haver encontrado uma expressão política no HDP em um período relativamente curto de tempo. Esse amplo partido de esquerda socialista, impulsionado pelo movimento nacional curdo, que agrupou em torno de si amplos setores da esquerda turca, alcançou quase 15% dos votos com uma plataforma democrática e anticapitalista, fortemente associada às jornadas de luta de 2013 e à revolução social curda no norte da Síria. Indo bem além das fronteiras políticas da questão nacional, o HDP tornou-se também porta-voz da causa feminista e pelos direitos da comunidade LGBT.

Ao mesmo tempo em que permitiu um grande avanço na expressão política da esquerda socialista e democrática na Turquia, o HDP e a boa votação que atingiu impediu o partido de Erdogan de alcançar a maioria absoluta nas últimas eleições e formar um governo “puro-sangue”, capaz de mudar a constituição para formalizar – com uma transição presidencialista – o enrijecimento do regime político, com uma ainda maior concentração de poderes.
Nesse contexto, contra a consolidação política do movimento nacional curdo, que sai fortalecido pelos avanços conquistados no norte da Síria e pelo êxito da estratégia de construção do HDP, e em favor do fortalecimento de seu próprio partido, Erdogan se lança a uma política belicista de combate ao “terrorismo”, de alcance interno e externo. Sob o pretexto de combater o Daesh (“Estado Islâmico”), com o qual, na verdade, é acusado de manter ligações clandestinas, Erdogan bombardeia posições do PKK no sudeste turco e norte do Iraque.

Além de patrocinar abertamente o jihadismo wahabista de organizações como a Frente Al-Nusra ou Ahrar Al-Sham, ligando-se profundamente com ele, Erdogan e sua política “anti-terrorista”, atingem, inaceitavelmente, a mais efetiva força de combate ao Daesh e ao terrorismo islamista na região: o movimento nacional e democrático curdo.
No plano interno, a escalada de violência que promove – oficial e oficiosamente, direta e indiretamente – serve para tentar aterrorizar a esquerda, evocar a insegurança da população em geral, bem como para acirrar o chauvinismo nacional turco. Tenta quebrar a confiança do HDP entre os turcos, associando-o ao terrorismo, enquanto faz do país uma rota de passagem de terroristas wahabistas para a Síria. Em meio à violência, Erdogan se apresenta, para o pleito nacional, como a alternativa de estabilidade e segurança, se obtiver mais poder.

As eleições de novembro próximo são o seu objetivo central. A escalada de violência precisa dar resultados no curto prazo, é uma “jogada política” de alto risco, como descobriu, anos atrás, o direitista Jose Maria Aznar na Espanha, quando tentou associar fraudulentamente, com fins eleitorais, os atentados terroristas no país ao ETA basco. Foi derrotado implacavelmente nas urnas. Na estratégia de Erdogan, o AKP precisa agora alcançar maioria absoluta e o HDP precisa ser empurrado para baixo da dura cláusula de barreira do país. Sem isso, a crise do regime não apenas tende a se aprofundar mais rápido como pode fugir do controle.

No contexto da crise internacional, com a economia turca desacelerando rapidamente, as turbulências políticas e a luta de classes tendem a se entrelaçar de maneiras imprevisíveis. A forte resposta do movimento de massa diante dos últimos atentados mostra que o estado de ânimo das forças democráticas e populares segue elevado. O HDP avalia cancelar, por segurança, os próximos comícios eleitorais. O PKK suspende toda ação militar até as eleições próximas. Da perspectiva da esquerda socialista e do movimento revolucionário curdo, essas eleições também cumprem um papel significativo: consolidar a existência política legal do HDP enquanto se faz avançar o movimento de massa, ao mesmo tempo se barra o caminho do AKP à maioria absoluta e à concentração de poderes nas mãos de Erdogan.

É preciso, nesse momento, cercar de solidariedade internacional a militância da esquerda turca e do movimento nacional curdo. É preciso deter Erdogan e o massacre que vem perpetrando contra opositores e contra a minoria curda, especialmente. É preciso que se faça justiça com os responsáveis pelos atentados terroristas. O regime de Erdogan, que segue apelando cada vez mais para a violência e o massacre, ao mesmo tempo em que aprofunda sua articulação com o jihadismo wahabista internacional, deve ser derrotado. Mais que um déspota reacionário, Erdogan tornou-se parte do arranjo que alimenta o terrorismo sectário sunita no Oriente Médio.

A continuidade da luta democrática de classe dos de baixo, expressa pelo movimento de massa, coroada por um êxito eleitoral do HDP, pode fazer pender a correlação de forças ainda mais contra Erdogan. Abrindo o caminho para uma nova etapa na conjuntura turca. É certo que é brutal a violência do regime e da direita, mas é bastante forte também o grito de “Turquia democrática!” que vem das ruas tomadas de gente.

Referências:

http://www.esquerda.net/artigo/turquia-sindicatos-marcam-greve-geral-de-dois-dias/39097
http://revistaopera.com/index.php/2015/10/11/turquia-apos-atentado-milhares-protestam-contra-governo-erdogan/
http://kurdishquestion.com/index.php/kurdistan/north-kurdistan/kurdish-movement-akp-responsible-for-ankara-massacre.html
http://www.telesurtv.net/news/Sube-a-97-cifra-de-muertos-en-Turquia-tras-atentado-en-Ankara-20151010-0012.html
https://hdpenglish.wordpress.com/2015/10/12/call-to-the-international-community/

Sobre o autor

Maycon Bezerra

Maycon Bezerra

Professor, militante do MES e colaborador da Secretaria de Relações Internacionais do PSOL

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